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Wednesday, April 06, 2016

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 65 - O Todo Boneco

Comandante Guélas

Série Paço de Arcos

O cartaz prometia, o filme era de máximo terror, a Idade Média era o cenário e os vampiros bronzeados tinham nos pulsos as marcas dos relógios. O gang ocupava duas fileiras de cadeiras na parte mais fina da plateia, a segunda, cujas cadeiras continuavam a ser de pau, mas um pouco mais luxuosas pois tinham espuma, comprada no António da Lúcia, que atenuavam a “dor-de-cu”, reservada para os utentes das duas primeiras filas, o Ánhuca, o Ratinho Blanco, o Pedro da Avozinha, o João da Quinta, o único preto, o Fernindó e o resto dos habitantes de Paço de Arcos profundo. A festa começou logo na primeira dentada, quando o Zézé Camarinha local deu o ósculo fatal no pescoço duma donzela distraída, que resolvera ir fumar um cigarrito às cinco da manhã para a Cova da Moura lá do sítio. Tocou um despertador. O Pirilampo veio a correr e acendeu a lanterna, não para arrumar um espectador, mas para tentar localizar o prevaricador. Só havia santinhos. A luz desapareceu e ele ficou em alerta máximo no local. Nova dentada seguida agora de um barulho de pato, apetrecho para a caça e propriedade do Conan Vargas. Desta vez o barulho vinha da parte de trás e da ponta oposta. A lanterna tornou a acender-se e varreu a zona. O público adolescente estava todo atento ao desenrolar do filme e não era para menos. Uma das vampiras tinha aparecido agora em todo o écrãn com as mamas de fora e isso num filme no Cine-Teatro de Paço de Arcos correspondia a encontrar uma agulha num palheiro. E a seguir a esta cena veio outra, o caçador de vampiros resolveu dar um beijo apaixonado numa camponesa a cheirar a alho, que o mauzão do castelo queria trinchar. Aconteceu o habitual, o Todo-Boneco, um conquistador de bairro genuíno, que picava em todas as sopeiras da vila e arredores, fez, pela milésima vez, o seu único comentário que estava sempre reservado para estas cenas íntimas:
- Espera aí que já cospes!
Risota geral, cartão amarelo do Pirilampo. De novo o despertador, seguido do pato, de um apito de árbitro, de castanholas, que puseram o atento Pirilampo à beira de um ataque de nervos, sem conseguir dar o vermelho a ninguém, porque mal deu à luz caiu um silêncio sepulcral, a condizer com o momento. Chegou o intervalo que permitiu restabelecer a circulação sanguínea dos cus da plateia e normalizar os níveis de nicotina nas veias. Foi nessa altura que todos reparam que o bombeiro voluntário de serviço era o Álhi. Mal as luzes se apagaram o pato, o despertador, o apito, as castanholas, foram substituídos por ininterruptos “Álhis”, que não deram descanso ao Pirilampo e ao Bombeiro. Também se gritava “Tó Pi Tói”, outra maneira de irritar o Álhi que, segundo os colegas de carteira da primária do dito soldado da paz, queria dizer “senhor professor”. Ainda hoje, já reformado, reage a estes dois chamamentos quando algum pai ou avô o avista. Os comandos têm o “Mamma Summe”, os paço-arcoenses o “Álhi” e o “Tó Pi Tói”.

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