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Saturday, June 28, 2014

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 66 - Genesis


Comandante Guélas
Série Colégio Militar

Foi no ano letivo de 1974/75 que o Colégio Militar atingiu o número máximo de alunos: 694! E foi também em 1975 que os Genesis deram um memorável duplo espetáculo no Pavilhão dos Desportos em Cascais, no dia 3 e 4 de março cujos bilhetes custaram oitenta escudos. A banda ainda pensou filmar o concerto, mas felizmente a ideia não foi por diante, porque caso tivesse acontecido o aluno nº 78 do 7º turma A teria agora de explicar aos netos porque aparecia no Youtube a vender bilhetes falsos, junto a um dos blindados do COPCON, o responsável pela segurança do local, e por visitas assíduas ao colégio, onde estudava o filho do chefe, vítima de ataques continuados às orelhas de abano, que andavam tão quentes como o país. Mas o negócio esteve tremido porque alguém tinha sido uns dias antes apanhado pelo oficial de dia, após o regresso de um cavanço, e a segurança apertara. A entrada do aluno pela janela da quarta companhia coincidira com a do oficial de dia pela porta, tendo-se escondido de imediato atrás das cortinas, ao mesmo tempo que o militar se sentava num dos sofás. E assim ficou durante quarenta e cinco minutos, até que se levantou e foi ter com o prevaricador, agarrando-o pelos colarinhos:
- A primeira regra da camuflagem são os ténis, devem ser da cor da alcatifa!
Mas um ex-aluno será sempre um Menino da Luz, e por isso tudo ficou por ali. Regressemos ao evento!
Na secção tipográfica do Colégio Militar havia horas extraordinárias clandestinas pela calada da noite, a máquina já deitava fumo. Todos olhavam gulosos para o produto que iria sair, o vigilante ainda estava longe, o oficial de dia já dormia profundamente, e nas companhias o silêncio era absoluto, excepto na Sala de Leitura da Quarta Companhia, transformada numa casa de jogo clandestina, com um lusco-fusco envolto num nevoeiro de fumo espesso, onde circulavam bejecas e produtos típicos da época revolucionária. Lá fora alguns brincavam com o blindado, que vinha pela quarta vez a toda a velocidade dos lados do ginásio, apinhado de meninos vestidos de cotim, que fazia abanar as janelas laterais com a deslocação do ar.  
 - As letras estão desbotadas, - disse o 315 olhando para os bilhetes amarelados que tinham acabado de sair da máquina de impressão.
- Calma que vamos arranjar uma solução, - exclamou o 78 do 7º A. – Juro que iremos ver os Genesis, comer um gelado no Santini e passear com uma queque.
Olhou para todos os lados e gritou:
- 496, tens canetas de filtro pretas?
- Na sala de aula!
Os claustros estavam mergulhados num silêncio profundo e numa negritude assustadora. Dois vultos embrenharam-se lá para os lados da sala da santa, que olhava no exterior para o Largo da Luz, e era quotidianamente apalpada pelos alunos, porque nestes tempos as apostas choviam a toda a hora, e era preciso ter os bolsos abonados para as jogatanas após a última cornetada da noite, o toque de silêncio. Quando estavam cercados pela escuridão foram surpreendidos por um feixe de luz no andar de baixo, ao mesmo tempo de um abrir brusco de uma porta.
- É a ronda, - avisou o 425.
Um brilho apagou tudo e um segundo depois a luz extinguiu-se, sinal de que  o vigilante rumara para outro recanto do Colégio Militar. A caneta foi entregue na tipografia e de imediato lançaram mãos à obra. No dia seis, apesar do pavilhão estar sobrelotado, alguém continuava a vender bilhetes junto à Chaimite estacionada na porta lateral paredes meias com o hipódromo, mesmo depois de terem anunciado lotação esgotada uns dias antes. Junto ao pavilhão havia soldados fardados, por isso o Maná passou despercebido. No dia sete a aglomeração de pessoas foi tal, que os soldados optaram por deixar entrar todos, com e sem bilhete, onde se incluiu o 78 que, ao aperceber-se da situação, e como Menino da Luz apto a desenrascar-se nas situações melindrosas, vendeu o seu, e o dos camaradas, meia hora antes, a uns queques de Cascais mascarados de hippies, que levavam as cabeleiras postiças das mães a cheirar a naftalina e os robes das sopeiras a Lavanda.
Nas memórias destes Meninos da Luz, o 75, o 78, o 315, o 425, o 472 e o 496, ficou a imagem do Peter Gabriel a iniciar o concerto com uma camisola branca e um blusão de cabedal preto, no meio de um cenário com luzes, efeitos visuais e pirotécnicos, imagens projectadas de slides, que chegaram aos mil, tudo isto mergulhados numa atmosfera que os deixou a cheirar a “Axe” durante os dias seguintes, e com os bolsos cheios de escudos, muitos deles derretidos horas depois na noite louca e revolucionária vila de Cascais!


 

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