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Sunday, July 07, 2013

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 44 - Marcação de Território


Comandante Guélas

Série Colégio Militar

Os homens passam, com os seus vícios e defeitos, com as suas qualidades e virtudes, mas as instituições sólidas permanecem, a bem da identidade nacional, nas memórias de muitos. E é de duas dessas memórias que surge esta estória. O colégio estava em obras lá para os lados do pavilhão de Desenho e Trabalhos Manuais, estendia-se para trás do pavilhão de Ciências e seguia pelo pátio das osgas.

- Façam pela vida, - aconselhou o professor Oliveira, mais conhecido como Baco, ao mesmo tempo que inspecionava o andamento dos cinzeiros, sem se aperceber da atividade paralela que decorria nas suas costas, o arremesso de barro contra a parede branca, que mais parecia um cenário de guerra polvilhado de estilhaços de granadas.

A solarenga sala parecia um museu, havia trabalhos expostos desde a fundação, e decorriam duas atividades em simultâneo. No canto oposto faziam-se caixas de madeira, sob a orientação do professor Loureiro, o Clarence, pois sofria do mesmo mal do Cross-Eyed Lion da série do momento, Daktari. Saindo pela porta da frente da sala de ia-se dar a um corredor, com acesso às duas salas de Desenho, uma à esquerda e outra à direita. Nesta última trabalhava-se com o compasso e tinta da China, estando a caixa de alumínio em cima da mesa, pois o Pina Lopes, decidira fazer uma revista ao material.

- Com este ainda vais poder fazer muitos desenhos, durante longos anos, - disse ao Peidão, mostrando-lhe o coto de lápis nº 1 que estava em cima da régua em “T” de madeira, com o número 191 escrito.

Atrás dele o Horrível a arregaçava as calças, simulando bruços com os braços, dando um toque inadvertido no braço do Elefante, que estava todo compenetrado a fazer um circulo em tinta da china com o compasso. Quando a corneta ecoou, o material foi arrumado à pressa nas caixas, que foram guardadas nos armários de madeira com portas de correr verticais. A maioria dirigiu-se para as companhias, o próximo tempo letivo correspondia ao intervalo da tarde. O Loira, o Peidão, o Horrível e o Cabedo seguiram outro rumo, embrenhando-se no “estaleiro” das obras, um amontoado de entulho, madeiras, tintas, pregos, e todo o tipo de material que não deveria estar ao alcance destes Meninos da Luz. Uma lata de cinco litros vazia convidou um deles a esvaziar a bexiga, logo seguido dos colegas, um comportamento genético exclusivo do povo lusitano. Finda a mija coletiva, um desafio:
- Quem é que consegue passar para aquele lado?
“Passar para aquele lado” significava andar uns metros por um parapeito muito estreito, que dava acesso a um largo varandim sem saída, cujo mínimo desequilíbrio faria o protagonista cair para a azinhaga da Fonte. O Peidão passou e quando o Cabedo ia a meio, proeza testemunhada por um civil com um fatinho azul cueca que se dirigia para o Largo da Luz, ouviu-se um barulho ensurdecedor de um tromba de água a bater com fúria no asfalto, seguido de um grito de raiva alucinante. Na estrada o transeunte escorria mijo, e do rijo, da cabeça aos pés. Debandada geral, o regresso dos heróis foi feito em passo de corrida e o Peidão ainda acelerou a meio do parapeito quando se apercebeu que a vítima procurava um calhau. Só pararam nas companhias, tendo ainda tempo para verem um civil à beira de um ataque de nervos junto ao Chico da portaria.
A segunda memória, guardada num neurónio em decadência, trazida à luz do dia num encontro casual num centro comercial, tem como protagonista o tenente Aparício, um meia-leca com uma tabuleta no ombro esquerdo a dizer “Comandos”, e o Dani, tendo como cenário a sala de leitura da 4ª companhia, onde acontecia um pouco de tudo menos ler livros. O minorca era o Oficial de Dia e jurara a si próprio que ninguém iria cavar, por isso escondeu-se debaixo duma das janelas. O primeiro que saísse para ir para a borga seria recambiado para o seu gabinete, onde enfardaria conforme a tradição. Dentro do espaço que se pretendia cultural, a festa era de arromba, o barulho das garrafas de cerveja a baterem umas contra as outras durante as saudações, mexiam fortemente no seu íntimo, mas ele sabia que a sua missão era caçar fugitivos, por isso não se podia distrair com cenas acessórias. O concurso tinha como tema os gases corporais, por isso aqueles Meninos da Luz quase finalistas alternavam entre barulhos de rãs e tiros de pólvora seca.
- Chiça, mas hoje ninguém foge? – Queixou-se o tenente Aparício, sentando-se nos calcanhares. – Só saltam quando não estou aqui?
Mas os céus fizeram-lhe a vontade. Uma das janelas da sala de leitura da 4ª companhia abriu-se com estrondo, e o comando agachou-se tal qual um felino, gritando baixinho “mama sume”.
- Vais ter cá uma surpresa rapazinho.
O Dáni subiu para o parapeito, o predador preparou-se para o salto, camuflando-se ainda mais. Sobre o tenente Aparício, oficial de dia, caiu uma tromba de água, que o obrigou a fechar os olhos, e a selar os lábios, não sem antes deixar entrar uma gota, que desceu rapidamente para a glote.
- Estava com a bexiga cheia, - disse o 661.
O resto todos podem imaginar, depois de se ter abanado como “cão” que era, correu para a companhia, e escancarou a porta com um chuto, ao mesmo tempo que procurava o autor da brincadeira. Mas esbarrou com o "Um por Todos, Todos por Um" !
 

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