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Saturday, June 15, 2013

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 42 - Rali da Luz



Comandante Guélas

Série Colégio Militar



O Colégio Militar é feito de sonhos, tem várias dimensões, tem algo de misterioso, de mágico, de hipnótico, de fascinante, de sedutor e de sinistro, o seu nome tem todos os desvarios e todas as errâncias, todas as grandezas e todas as decadências. Mas não fingimos ser o que não fomos.

- Vamos dar uma volta no carro do Chulógrafo, - disse o 357, dando uma palmada na bola de espelhos, pronta para bombar no Chá Dançante do dia seguinte.

Estava lançado o desafio, o Ford MK1 azul cueca, do senhor Delgado, fotógrafo oficial do Colégio Militar, que dormia calmamente junto ao campo de futebol de 5, iria ter uma noite alucinante. A lima do corta unhas do 66 enterrou-se, sem preliminares, na ignição do Cortina, e este acordou sobressaltado. O aquecimento foi feito até ao campo de futebol de 11, com passagem obrigatória pelo Pavilhão de Ciências, mas quando sentiram a terra batida, onde muitos tinham apanhado grandes secas de desfiles, o piloto pôs o acelerador a fundo, mostrando aos sete magníficos que o acompanhavam, a maioria espalmada no banco de trás, as suas extraordinárias performances, ganhas ao volante da autometralhadora que decorava a parada junto às companhias, tantas vezes empurrada para a colina onde se erguia o ginásio, descendo depois, com a lotação esgotada e a blindagem forrada de indivíduos pendurados, vestidos de cotim, ao sabor da gravidade. O Ford Cortina MK1 azul cueca, propriedade do Chulógrafo, o fotógrafo oficial dos Meninos da Luz, dançava com estrondo no campo pelado, levado por um vento e por uma tempestade inesperada, brilhante, veloz e aterradora, como se fosse, não do domínio do ar, mas do interior obscuro do carro onde todos, o 357, o 308, o 557, o 248, o 79, o 522, o 335 e o 66, controlavam a ansiedade com um sorriso no rosto, ao mesmo tempo que balanceavam de encontro aos vidros, à medida que os ângulos de ataque mudavam, ao sabor dos humores do piloto. E toda esta cena estava iluminada por uma magnífica lua cheia, cuja luminosidade foi temporariamente ofuscada por uma nuvem de pó espessa, que criou um efeito especial, onde o carro parecia correr, parar, recuar, avançar, desaparecer e reaparecer. Saíram da arena, passaram pela piscina, com uma atividade clandestina frenética, onde os antigos contam que um dia foi lá parar um carro, e aceleraram em direcção ao campo de obstáculos da equitação. Uma sombra vaga apareceu-lhes no horizonte, o 66 controlou a ansiedade com um sorriso no rosto e uma calma no corpo, ao mesmo tempo que se aproximavam da autometralhadora que descia, mais uma vez, furiosamente a rampa de acesso aos refeitórios, forrada por uma massa de cotim cintilante. O piloto estava decidido a ultrapassá-los, por isso obrigou o bólide a pôr a língua de fora, e o Patronilha a correr, pois caso não o fizesse seria com toda a certeza confundido no dia seguinte com um gato em formato de tapete. Finda a primeira etapa, seguiram-se outras, cada uma com um motorista diferente. Quando entraram na última reta da derradeira volta o 357, agora o piloto oficial do Ford MK1 azul cueca, viu tudo desfocado, desproporcionado, uma aura de luz fantástica, com cores e brilhos toldou-lhe a razão, sentiu que os seus sentidos estavam a perder a unidade, gritou quando se apercebeu que estava a perder os contornos da estrada e ia passando a ferro o Meia-Lua, o carro parecia um barco no mar alto, por isso a proa embicou  para o campo de futebol de 5, onde a rede se abriu graciosamente com a ajuda do carro do Chulógrafo, o fotógrafo oficial dos Meninos da Luz, levando à sua frente, em pedaços, a baliza, que ainda cheirava a nova, tudo acompanhado de relâmpagos, fragmentos curtos e súbitos clarões. A noite espessa voltou, o 308 tentou encontrar algum interruptor que lhe acendesse uma luz, o 522 pediu ajuda para o ar, as emoções espontâneas fizeram-nos gritar frases soltas e curvas, “…da-se”, “cara…”, “o Cortina está todo fodi..”. O 66 olhou pela janela e viu uma lua branca, tocou ao de leve o vidro e com a ponta dos dedos os lábios. Desviou o olhar e ficou de frente para o retrovisor, onde viu o seu reflexo, e os olhos rasgados e os sorrisos de marfim dos colegas. Sentiu-lhes as respirações ofegantes, a geraldina do Cortina do Chulógrafo tinha acabado.
 

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