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Thursday, March 15, 2012

Camarada Choco 86 - Merdolândia

Camarada Choco
Aventura 85


- Acudam, acudam, - gritava a Pirosa junto à porta dos “Pastéis da Venteira”, o local de maior concentração de croquetes por metro quadrado da charmosa cidade da Amadora, onde também se lavavam os dentes após o almoço.
A Dona Pilca encolheu-se na  secretária e puxou a Lolita para a sua frente.
- Credo mulher, parece que viste o Diabo, - exclamou a Desaparafusada mais famosa da Venteira, a seguir ao charmoso Choco.
- Cala-te, ou torço-te o pipo, - resmungou a artista das fraldas e babétes, dando uma alfinetada no Gonorreias, um boneco de trapo oferecido pela Kalálá e benzido pelo bruxo da aldeia onde nascera, que tinha uma influência demoníaca sobre o Cabo Pilas. – Bem podes gritar por socorro que, de mim, nem um bombom já te dou, ingrata.
- Acudam, acudam, - tornou a gritar a Pirosa, - tenho um Desaparafusado quase tapado de merda.
- Até te podes afogar nela, - tornou a resmungar a Dona Pilca, puxando ainda mais a Lolita para cima de si. – Andas armada em Doutora Sem Canudo desde que mudaste de sala, pois agora limpas os cus dos teus Desaparafusados sozinha, - e deu com desprezo um ponto-cruz no Gonorreias.
Mas o Cabo Pilas já se tinha prevenido com a outra Kalálá, e protegera o seu espaço com cascas de amendoins e bananas. O feitiço agora iria para local indeterminado! A primeira vítima foi a Dona Espatinha, futura Dra. Espatinha, que ficou incrédula quando, em vez de tirar uma bica, saiu um chá de croquete, com aroma do Trancão. Mas também a Fininha dos Serviços Administrativos estava atónita com o líquido negro que saia da fotocopiadora:
- A Folha de Pagamentos está a desbotar. Salvem-se quem puder, vem aí a Troika! – E saiu a correr com um cigarro entre os dentes, desaparecendo no meio das ervas do campo dos gatos.
 E do último quadro chinês do Pintor escorria um cinzento com cheiro a metano, que parecia vir directamente do decote da Gioconda de Monsanto, levando-o a expulsar todos os discentes, com medo de que lhe contaminassem as obras destinadas à Feira da Brandoa.
- Eu bem ando a avisá-los que o Cara de Cavalo já morreu há uns dias, e teima em vir para a Escola, - disse o Stor Pobre. – Agora entrou em decomposição ativa e ninguém o pára.
Esta era a única explicação, até agora lógica, para o cheiro nauseabundo que se abatera sobre a Escola para Desaparafusados e Afins da Venteira, que fazia com que a aragem quotidiana do cagatório dos mais velhos se assemelhasse à de um campo de mimosas em plena época alta.
- Eu confirmo o óbito do Cara de Cavalo, - retorquiu o Chefe Porres, abrindo a tampa de esgoto descoberta debaixo da secretária do segurança. – E eu a pensar que o empreiteiro não me tinha conseguido enganar.
O morto ameaçava fazer queixa ao pai, mas era aconselhado a estar calado, pois se houvesse alguma consequência seria só para ele, uma vez que era o único com o estatuto de Desaparafusado.
- Acudam, acudam, - desesperava a Pirosa, entrando de rompante na sala da ingénua Menina Tatrícia. – O Peixe Espada já está com merda na careca.
Na outra ponta das instalações do edifício de reeducação e reabilitação, a Terapeuta Julieta recebia a notícia de mais uma gentileza da GNR, uma soberba fotografia do seu bebé, desta vez a 180 numa localidade da Região Centro, tendo como pano de fundo uma procissão em debandada e uma santa empoleirada no capô, tipo estrela da Mercedes.
O Castanheira estava desesperado a abrir todas as tampas que encontrava, mas cada vez eram mais, apesar do projecto só mencionar quatro. Até que:
- Bingo, descobri a origem!
Aos seus pés estava uma fossa recheada com croquetes por camadas de todos os tamanhos e feitios, uns vestidos a rigor dentro de luvas azuis e outros embrulhados em charmosas fraldas descartáveis, ostentando várias datas desde a inauguração. Rapidamente começaram os boatos!   



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