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Wednesday, February 09, 2011

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 48 - Restaurante "O Tino"


Comandante Guélas

Série Paço de Arcos

Quando o Tino transformou a taberna, situada num daqueles sítios onde iam aqueles que não podiam ir a outro sítio, e onde o frio de fora juntava-se ao frio de dentro, numa casa de pasto, tinha como missão destronar o seu vizinho galego, dono do restaurante “Os Arcos”. E não era o único, porque o Senhor Xantola já andava na estrada, com o mesmo objectivo. O ex-sargento dos Comandos entrou a matar, oferecendo soberbos peixes amarelados, gostosas carnes esverdeadas, mergulhadas em molhos brilhantes, uma precursão do actual Sushi, onde o freguês podia optar por batatas cozidas cruas ou batatas fritas encharcadas no óleo do próprio cozinheiro, pratos estes decorados com saladas mornas e gordurosas, enfim, um serviço de primeira cuja conta vinha sempre num prato de alumínio amolgado, onde muitas vezes abundavam pequenos pêlos encaracolados, para dar um toque chic. As sobremesas eram feitas numa cave clandestina, tradição que se mantém actualmente na restauração da vila, e constavam de uma panóplia de gostosos sabores: “Bolo de Bolacha” da Sesaltina, feito com os restos das bolachas que o Zé dos Porquinhos comprava para o Bóbi, na drogaria do Zé da Antónia, e que tinham sempre a decorar as penas da última galinha abatida; “Baba de Camelo”, produzida na Terrugem de Cima pela mãe do Ánhuca ao fim de semana, altura em que ele tomava banho e mudava de meias, peças estas com que a senhora aproveitava para fazer massa de pasteleiro, usando só farinha, porque o molho já lá estava; “Doce da Avó”, receita exclusiva da Maria das Bicicletas, cujo ingrediente principal era o óleo que o Cabrita lá ia mudar todas as quintas-feiras; “Delícia de Amêndoa”, feita com as crostas que o Pingalim gamava à tia. O Carlos Ponta cresceu com os amigos neste ambiente cultural e, segundo o senhor Mac Macléu Ferreira, “a restauração ficou para sempre hibernada no In deste jovem cabeçudo”, pronta a despertar ao menor sinal, o que aconteceu durante o fogo de artifício na viragem do século. Manteve os pratos, mas trocou-lhes os nomes, “Treco Lameco”, “Creme Brulée”, “Pistôn de Foie Grás”, “Cracker Cake”. Mas voltemos ao sargento: estava imparável, pois em frente a este formoso restaurante abriu também um “Salão de Jogos”, com a última novidade em máquinas da terceira geração, vindas directamente do fornecedor oficial, o senhor Zé de Porto Salvo, nome de todos os desvarios e de todas as errâncias, de todas as grandezas e de todas as decadências, uma espécie de Vale de Azevedo autóctone. Mas o “Manuel da Leitaria” também dava cartas a todos, juntamente com o snob “Papagaio”, cuja especialidade era meio-gordo à taça, que o Pontas mudou para “White Express”, enquanto que o “Bachil” arrasava com as célebres “Bifanas à Casa”, que gritavam mergulhadas num molho borbulhante castanho amarelado, que hoje dá pelo nome de “Steaks plongé dans punhétê”, para já não falar do tão afamado “Kitanda”, especialista em “Pombo Abafado” ( ), um produto do campo exclusivo da Avenida que os filhos do Manelinho do Estrume, um autodidacta amante deste tipo de aves, que engravidou a filha depois da mulher ter fugido após o décimo quinto parto, alimentavam diariamente com sementes desviadas da Gaiola do Ligóia. Mas o Tino sobrepôs-se, porque conseguiu juntar o princípio da realidade ao princípio do prazer, e por isso havia zangas, despiques, rixas, litígios, zaragatas, amizades que se reconstituíam no fim da noite, com as garrafas a voltarem a esvaziar-se. “Tradição que se perdeu com as modernísses do senhor Carlos Ponta”, confidenciou um dia o empresário Mac Macléu Ferreira, “onde os Pierre-Pomme-de-Terre de agora se apresentam de fato e gravata, e cujos dissídios são em voz baixa e não ultrapassam as fronteiras das mesas, apesar das cóleras serem as mesmas”. No Tino não havia pausas, enquanto que agora elas eram enormes, os clientes por vezes caiam, levantavam-se e regressavam. Antes bebiam e estavam contentes, agora bebem para afogar o medo, porque sabem que vão ter de pagar com o dinheiro que não têm, pois fazer carreira agora é encher de graxa o chefe libidinoso. E se por acaso não fosse no Tino, bastava um dos adolescentes do Gang dos Meninos Ricos, Caucasianos e de Boas Famílias de Paço de Arcos, pôr os peidociclos a trabalhar, para que os outros saíssem logo a correr, ficando a conta por conta da casa!

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