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Saturday, January 29, 2011

Camarada Choco 72 - O Senhor das Imperiais


Camarada Choco
Aventura 72


O Kodac era o mais fiel empregado da Dona Espatinha, revendedora do famoso Bolo de Baba da Venteira, da autoria da Terapeuta Zézé, que já tinha entregue um projecto ambiental para o fabrico de Queijadas de Quiabos, aproveitando o molho das fraldas, estando à espera do veredicto da Doutora Com Caneco. Quando o monga barman entrou na casa de banho fechou a porta com gentileza, baixou as calças com elegância e sentou-se confortavelmente na retrete, que já estava com a boca aberta à espera do seu formoso cagalhão. O Kodac sentia-se esquisito desde que começara a chupar os comprimidos receitados pelo médico, a pedido da mãe que estava desesperada com os seus inúmeros vícios, e que neste caso dizia respeito ao tabaco. Mas agora o fiel empregado da Dona Espatinha chupava e fumava uns a seguir aos outros, e por isso a mãe retirara a queixa do álcool, não fosse ele chupar, fumar, chupar e beber. E como o filho se recusava a vir na carrinha escolar com os “malucos” (sic), pois isso impossibilitava-o de passar por todas as capelinhas do caminho, onde se aproveitava do estatuto de Desaparafusado para pedir, não “pão por Deus”, mas sim “bejecas e garrés por malucos”, chegava assim todos os dias carregadinhos de cevada e de nicotina à escola, e no hospital, onde trabalhava no café dos médicos, passara de “trabalhador monga exemplar” para “trabalhador normal”, devido a todos estes vícios que deveriam ser exclusivos dos Aparafusados. A Doutora Com Caneco não teve outro remédio senão tomar medidas drásticas para tentar salvar o posto de trabalho do seu aluno, obrigando-o a vir na carrinha com os “malucos” (sic). A intensidade emocional e a honestidade sem mácula eram a imagem de marca deste Desaparafusado, e era por isso que fazia questão de mostrar sempre ao Stor Pobre as novidades no telemóvel, os novos filmes pornos que os amigos Aparafusados insistiam em presenteá-lo, a cada fim-de-semana, onde o tema principal estava relacionado com o”fumo”, não de “garrés”, mas sim de charutos estilo “habanos”. Os conselhos do mestre para só usar aqueles conteúdos, muito comuns nas escolas dos Aparafusados, e que agora chegavam em força aos Desaparafusados, sinal de que a célebre “Inclusão” estava a fazer o seu efeito, em casa, de nada serviram. O telemóvel do Kodac parecia o cinema Olímpia nos seus anos de ouro, estava em permanentes sessões contínuas. Por isso foi com raiva e lágrimas nos olhos que fez força na tripa para expulsar o conteúdo endurecido pelo excesso de nicotina que lhe forrava o corpo anafado. E foi no meio desta percepção difusa, em que a realidade e a alucinação se embaraçam, que entrou, sem pedir licença, o sempre inconveniente Pitrongas, que foi confundido com a namorada, a Barrote. Sem floreados, nem rodriguinhos, o Kodac foi directo ao assunto, conseguindo mergulhar o Pitrongas numa espécie de Barrote, como se um pingo de amor lhes houvesse tocado a pele e transmutasse a realidade numa coisa a um palmo acima da do comum dos Desaparafusados, obrigando o colega a fazer um gesto ousado daquele que não se deve aconselhar, um faz de conta de um movimento de conjugação de diversas formas de um mesmo amor, que teve no sacrifício do Pitrongas o seu limite. Este foi assim obrigado a fazer movimentos insidiosos e persistentes com a mão, e segundo a lenda também usou a ponta da língua, que levaram o Kodac a sentir um desejo inconfessado, perdendo ambos a noção de que não podiam continuar onde estavam. Mas, quando o Kodac convidou o colega para o jogo, quis fazer uma ínfima variação no seu quotidiano de desamparo extremo, mitigar as dores, ir ao encontro de Freud. E foi mais longe!
Quando a Afilhada da Tarde Número Um tomou conhecimento dos factos teve uma semi-paralisia facial, que a obrigou a cuspir fininho…perdão, a debitar discurso com uma voz mais esganiçada do que a habitual, convocando de imediato todos os possíveis responsáveis pelo encontro imediato, tentando descobrir o número exacto de imperiais que o Pitrongas tinha tirado, tendo uma assessora como testemunha. E foi a partir desta projecção numa história alheia reduzida ao mínimo dos mínimos, que nasceu toda esta ficção, transformada num caso clínico de compulsões obscuras, que usurpou toda a realidade, salientando, mais uma vez, as neuroses sistémicas dos Aparafusados.

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