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Tuesday, August 24, 2010

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 38 - A Viagem


                        Comandante Guélas

                                       Série Paço de Arcos



O Peidão, o adolescente mais bem comportado de Paço de Arcos, tinha por vizinhos um gang de dez irmãos, vizinhos por sua vez do Milhas, o mais infeliz rapaz da Costa do Estoril que, tal como o Calimero, nascera com um grave problema metafísico que o levava sempre a questionar-se: “porque é que eu vim para este mundo? Na rua de cima habitava Mac Macléu Ferreira, dono de uma soberba mota de competição, cujos acessórios eram feitos com tábuas das caixas de fruta que o Zé dos Porquinhos deitava para o lixo. E a máquina era tão potente que ele tinha de ajudar com os pés de cada vez que regressava a casa. Nem o escape de rendimento, feito com latas de salsichas “Isidoro”,o dispensaram alguma vez de usar as faluas. Só quando descia o monte é que este Fangio loirinho, de olhos azuis e dioptrias não contabilizadas, se sentia um profissional. Como o andamento do Gang dos Meninos Ricos e Caucasianos de Paço de Arcos era estonteante, às vezes precisavam de fazer estágios, e muitos deles foram feitos em São Quintino, a quinta do gang dos dez, lá para os lados de Torres Vedras. E foi numa dessas ocasiões em que o Chico Sá, que ia a guiar uma carrinha citroen GS atulhada de malta e bagagens, viu a vida a andar para trás, pois o Focas conseguira pôr uma aldeia a perseguir o carro, a tentar pendurá-los num poste, com o carro incluído. Recuemos um pouco!
O senhor Américo nem queria acreditar no que via. Do Citroen saia cada vez mais gente, arrumada no meio de uma quantidade infinita de malas. Como já era tradição, antes de qualquer viagem tinham de picar o ponto no “Pica”, o café mais in da vila, o berço da maior parte dos adolescentes nascidos nos anos sessenta, que largaram os biberões por altura da Revolução, e que as únicas pistolas que dispararam foram aquelas com que vieram ao mundo, uma tentação para um Capitão vindo directamente da Quinta Divisão para tentar ensinar aos petizes o manejo das ditas. Em São Quintino passava-se sempre o mesmo, pregar cagaços atrás de cagaços ao mais jovem elemento do gang dos dez irmãos, que tinha substituído a terrível figura do Papão, tão comum no resto do país, pela do Peru que o obrigava, nas noites em São Quintino, a dormir com a luz acesa. Nestas ocasiões os cortes de energia eram constantes, e a confusão permanente. Recuemos! O senhor Américo agradeceu aos céus quando viu o carro a partir, pois algumas ovelhas negras do rebanho acinzentado iriam estar ausentes da vila, e isso significava alguma paz e tranquilidade. Quando entraram na marginal, o Focas deu um flato tão grande que obrigou os amigos a permanecerem com a cabeça de fora até à praia de Caxias. A condução era feita a meias, não que o Chico Sá, o motorista, saísse do lugar, mas sim porque o Focas, o co-piloto, tomava conta do volante para que o amigo pudesse fumar calmamente um cigarrito. Quando já estavam mais perto de Torres Vedras do que de Paço de Arcos, para descanso desta e azar da outra, o Focas pediu para pararem junto a um café, onde estavam todos os habitantes de uma aldeia. Abriu o vidro e levantou o braço a pedir ajuda. O Chico Sá pôs o ponto-morto, puxou o travão de mão, acendeu um cigarrito e encostou-se à porta. Ninguém questionou a estranha necessidade do amigo em querer entrar em diálogo com os autóctones. Talvez precisasse de dados para alguma cábula futura.
- Por favor, - chamou o Focas com o sorriso mais doce, os olhos mais brilhantes e a voz mais meiga da Costa do Estoril, que só ele conseguia fazer.
Um rapaz de buço saltou da mesa e aproximou-se todo solícito do carro dos “estrangeiros”. Por momentos ficaram dois olhares embevecidos frente a frente, mergulhados num sonho. Até que:
- Qual de vocês quer levar no cú? – Perguntou a seco, sem preliminares, o mais fabuloso boxista de Paço de Arcos.
Por momentos num estado sem tempo, imóveis e mudos, sem vontade e sem pensamento. O Chico Sá, que já estava meio a dormir, acordou sobressaltado, o buço do aldeão levantou-se e atrás dele veio o lábio, ficando à mostra o único canino existente, no fundo dos seus olhos viam-se clarões raros, os amigos, primos, tios, pais, sobrinhos e vizinhos, absorveram a pergunta. O Focas manteve o sorriso angelical, porque o tempo ainda não passara por ele, o amigo motorista correu em pânico para o acelerador, depois de ter engolido a beata, as amígdalas do autóctone eram agora visíveis por todos, os vidros das portas subiram a todo o vapor, a populaça começou a reagir. De repente toda a aldeia ganhou uma velocidade de movimentos, unida às raízes da sua raiva, pela urgência de uma justiça rápida que pendurasse os forasteiros e o carro no poste mais próximo.
- Arranca, - gritou o Focas quando sentiu o bafo da aldeia.
A confusão era tão grande que o Chico Sá não conseguiu enfiar, durante breves, mas potencialmente fatais, segundos, alguma mudança. Fugiram in extremis com um exército circunspecto e severo no seu encalço, disposto a cometer um crime.

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