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Thursday, December 03, 2009

Camarada Choco 66 - “Levanta-te e Anda”




Camarada Choco
Aventura 66

Esta é a estória que nunca vos contei porque a ligação entre a memória onde estava guardada e o exterior, esteve durante muitos anos bloqueada, como uma espinha na garganta, sinal de que a minha tola por vezes pensa direito, mas por sinapses tortas. E tudo isto devido à conjugação de dois acontecimentos raríssimos, tal como o meu síndrome: o regresso do meu Padrinho e o retrocesso, do também meu, conteúdo encefálico micro. Vamos por partes. A Lurdes, uma ministra raríssima, trouxe consigo uma ainda maior raridade, o Valter, que nem para colega nós queríamos, e passaram para lei uma verborreia avassaladora e demagógica, que prometia a nossa ida para a escola dita regular e um canudo de “engenheiro” alguns meses depois, tal como o outro. E devido a isto o meu Padrinho acabou enrolado, como os surfistas nas ondas, e teve de nos abandonar abruptamente, a frio. Ficámos órfãos, entregues à nossa sorte, ninguém do ministério nos quis continuar a treinar. Mas eu sabia que o meu herói não nos iria abandonar. Telefonou, escreveu, refilou, massacrou, ameaçou, até que as tias, antevendo irem ter um ano letivo pior que o da Lurdes, enviaram-no de regresso, sem remetente. A chegada do meu Padrinho coincidiu com mais um retrocesso da minha tola. E o milagre aconteceu! Antes que tudo se apague com uma “santinha”, resolvi partilhar mais esta aventura. O herói dá pelo nome de Tarzoon, apesar de ser macho, é um bronzeado compulsivo, e quando chegou à nossa querida casinha, vindo diretamente de um dos muitos condomínios fechados africanos da Amadora , trazia preso ao cagueiro uma cadeira de rodas do fim da monarquia. Ainda tinha passado pelo Centro das Tias junto a Alvalade, mas mal se aperceberam que o sagui de tenra idade iria transformar-se num gorilão com mau aspeto e cheiro a catinga permanente, capaz de denegrir a imagem impoluta daquela instituição para mongas caucasianos com futuro e responsáveis por muitos tachos, depressa arranjaram um motivo para o pôr a milhas dali. E o local para casos raros que davam muito trabalho, era sempre o mesmo, a nossa querida escolinha. Uma semana após a chegada do Tarzoon, entalado numa cadeira de rodas, estilo sardinhas em conserva, apareceu uma equipa de tias para impressionar o meu Padrinho e a Chefe Bélinha, e assim lavarem as mãos como Pilatos. Depois de muitas palmadas técnicas, abanões pedagógicos e medições futuristas veio o veredito estilo Professor Karamba:
- O Tarzoon nunca irá andar.

Dito isto arrumaram a tralha, depois de se aperceberem que já estava na hora do almoço, razão principal para a visita de cortesia, e fugiram dali como o Diabo da Cruz, não fossem ficar impregnadas com o cheiro de babas e borras, não sem antes prometerem ir enviando na volta do correio o material indispensável ao desenvolvimento harmonioso do Tarzoon. Como já era tradição tudo chegaria fora de horas, a forma já não era para aquela perna, só serviria para fazer tortas de laranja, e o meu Padrinho, que já sabia disso, não perdia tempo com ninharias, optando sempre por improvisar e adaptar, tudo em benefício do Tarzoon que lá ia crescendo e evoluindo a olhos vistos. Todos os Aparafusados participavam, o atleta parecia ser de alta competição: arrastava-se pelos corredores, mergulhava no tanque e na piscina, andava nos cavalos das tias de Cascais, acelerava numa bicicleta construída pelo Stor Pobre e pelo Castanheira, com peças encontradas num ferro velho, que encheram o corpinho do Tarzoon com milhares de quilómetros, percorridos nos corredores da nossa querida escola, preso ao bólide com fita de embrulho, muito mais segura do que as faixas, utilizando os curtos movimentos que fazia. O Tarzoon mais parecia que estava nas tropas especiais, como os Comandos seus vizinhos.
-Hás-de andar, a bem ou a mal, - prometia-lhe o meu Padrinho, que também era dele, ou melhor, de nós todos. – As p… das tias não hão-de ficar a rir-se. Ficam só com os mongas brancos de boas famílias que não lhes dão trabalho e ajudam na estatística do Centro, que à conta disso ganha os subsídios todos e mais alguns, permitindo assim manter a quota de tachos e mordomias.
Para o Stor Pobre e todos os outros era uma questão de orgulho, a sua escola que recebia sempre o lixo das tias, iria ser pioneira na reciclagem. E o milagre aconteceu, não se sabe se por obra do meu Padrinho ou pela breve passagem de um homem barbudo com uma túnica branca: o Tarzoon um dia levantou-se e nunca mais parou. Passa agora todos os dias por mim, sorridente e com um speed proporcional ao seu andar balanceado, já próximo da idade adulta. E como a lei da Lurdes se mantem, nunca mais os futuros Tarzoons tirarão o cu das cadeiras, porque na outra escola só interessa o Português e a Matemática. Continuarão a ser lixo!

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