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Thursday, June 26, 2008

Camarada Choco 61 - Festa & Fogo


                        Camarada Choco
                                          Aventura 61
 
- Quem é que te deu estes livros? – Perguntava a Madrinha à Cabeçuda, uma cliente residente, tirando-lhe os dois “Camaradas” das mãos sem lhe pedir licença, apesar da desaparafusada ser tão adulta como ela, e justificar ao fim do mês um chorudo subsídio.
- Foi o padrinho do Choco, Doutora Sem Canudo…..
- O quê?!
- Madrinha, eu queria dizer Madrinha.
- Tu ainda és muito monga….nova, para leres estes livros. São muito violentos, falam duma bruxa má que aterroriza o seu reino e tem vários sacos cheinhos de bolotas fechados à chave num cofre. E troca computadores.
- É a história da Branca de Neve?
- Pior! Está decidido, não vais ler estes livros e pronto. Eu levo-os para casa…para o teu armário e quando achar que chegaste à idade adulta dou-te outra vez.
No rés-do-chão o Stor Pobre tentava convencer a mãe do Choco a deixá-lo emburcar uma cervejinha, a pô-lo de bigode e a autorizá-lo a ver os filmes do “Noddy para Adultos” com o papá.
- O senhor é maluco, - respondeu, olhando de lado para a Menina Tatrícia que tinha a sala atulhada de malas de viagem.
Mais uma vez os Desaparafusados preparavam-se para rumar a uma colónia de fazer inveja aos Aparafusados. A Dona Pilca, agora no papel de chefe dos escuteiros da Venteira, ainda teve tempo de ouvir o último aviso da mamã do nosso herói:
- Se ele tiver algum ataque de eléctrico ponham-lhe um pano de água fria na testa, que é como eu costumo fazer em casa.
- Esteja descansada Dona Natas, que eu resolvo logo o assunto pondo-lhe a cabeça no frigorífico, - atirou a Chefe Máxima da Colónia pisando-lhe os calos.
Uns dias depois o problema da Dona Natas era outro.
- A minha “Toy-Shorti” do Remo? – Perguntou uns dias depois puxando o Stor Pobre, que ia a passar.
- T- Shirt do Remo?
- A Sobrinha-Fotocópia disse-me que o Stor Pobre tinha guardado uma para mim.
O caldo parecia estar a ficar entornado. E agora? Se a “Toy-Shorti” não aparecesse algo de grave aconteceria na Quinta da Madrinha. Mas o problema maior era outro. Tinham ido buscar de urgência o Choco à colónia porque não aguentava as saudades de casa, e por isso estava à vários dias em estado de Santolão e a borrar-se como um herói. O milagre aconteceu quando a Afilhada desceu à terra com uma resma de conguitos atrás, que iam trabalhar para a loja chinesa clandestina da Madrinha. No estabelecimento comercial só havia uma camisola preta do Capitão Iglo para bebés e foi essa peça de roupa que foi entregue toda dobradinha à Dona Natas. No dia seguinte a reclamação já foi mais violenta. No dia anterior, ao entardecer, a progenitora do Camarada Choco enfiara de uma vez o “Capitão Iglo” e ele encravara no tórax. Nem ia para baixo nem para cima. E quando o sangue deixou de irrigar o cérebro este começou a funcionar melhor e as oitavas de Camões saíram em catadupa. Mas foi por pouco tempo. Cinco minutos depois o fantasmagórico Choco tinha por companhia a dona Natas. Coincidiu tudo com a chegada do Fininho de mais um dia cansativo a tapar varandas. Deu de caras com o Capitão Iglo e nem tirou as botas, correndo tresloucado para o sofá e carregando no play do leitor de DVDs que de imediato começou a debitar o “Noddy para adultos”. Nessa noite a mão direita alcançou a redline e ao amanhecer a sala parecia ter sido invadida por nevoeiro. Quando o top saiu a Dona Natas recuperou a normalidade e ainda teve tempo para dar um chá de limão com meio-gordo ao Choco para lhe acalmar a diarreia. Mas o nosso herói nem conseguiu contar três ovelhas, porque ainda a primeira não tinha saltado a cerca e ele já fazia uma aguada digna de um leão.
Noutro canto do reino o Tico dormia alegremente ao colo da dona, embalado pelo movimento ritmado da sua respiração, ao som de um ressonar impetuoso quando, de repente, o relógio de cuco comprado numa loja chinesa de referência baralhou-se e resolveu começar a zurrar furiosamente, em sintonia com o toque do telemóvel que debitava uma música rock dos Rolling Stones, a banda preferida da adolescência da Chefe Bélinha. Em vez de um estremecimento, um impulso, um ímpeto, perante tão grande conjunto de decibéis, a agora cinquentenária limitou-se a abrir metade de um olho, a localizar o aparelho e a estender o braço cuidadosamente para não acordar os outros dois companheiros de sofá.
- Tou?! – Perguntou, mais para lá do que para cá.
Não houve tempo para mais retóricas. O que do outro lado da linha foi dito fez com que o Tico voasse estremunhado para dentro da terrina da sopa que estava à entrada da cozinha.
- Fogo, há fogo na Escola dos Desaparafusados. Por este andar a ASAE ainda nos irá multar, pois o Fecais irá com toda a certeza dizer que declarámos uma Escola e afinal é uma churrasqueira, com frangos assados e tudo.
E a aflição era tanta que quando chegou ao carro reparou que estava com os chinelos do “Noddy”, vestimenta imprópria para um membro de uma direcção. Mas ainda teve tempo para coordenar a evacuação dos mongas residentes.
- Ponham-nos a arejar no terraço que eu prometo chegar aí primeiro que os bombeiros, que já chamei.
Dito e feito, saiu em peão, com os pneus a chiar, e com o acelerador a fundo. Todos os sinais vermelhos dos semáforos passaram a ser verde-escuros, as velhas nem se atreveram a reclamar o direito de passagem nas zebras, pois arriscavam-se a ficar estilo tapetes como acontecia a muitos gatos. Havia quem jurasse ter visto um carro verde com uma condutora de cabeça de fora a imitar uma sirene de emergência. A entrada no recinto escolar foi à leoa, o carro entrou de lado e por pouco não estacionou de marcha-atrás na sala da Dona Pilca. O veículo estacionou sozinho porque a condutora abandonou-o, estilo 007, mal passou junto à porta. O fumo já saia do elevador, que tinha sido sujeito a uma revisão profissional da Tótis feita por um romeno estrábico. Quando os bombeiros chegaram deram de caras com a Chefe Bélinha a soprar sofregamente pelas frinchas das portas.
- Se não te apagas com o vento, dou cabo de ti à dentada! – Ameaçou a nova heroína da Venteira.

2 comments:

ALMARIADA said...

Olá. Vim encontrei este blog porque escrevi "terapia aventura" no google e fui parar a um post a que achei muita piada, depois andei a ver outros e... achei que devia dizer qualquer coisa. Agora já disse. ;) Entrou uma borboleta castanha agora mesmo aqui na sala que me fez lembrar que o céu está azul e há mais mundos que a internet. ;)

BiblioFilmes Festival said...

Boa tarde,

Vinhamos por este meio endereçar o convite a participar na iniciativa Prémios Trailer de Vídeos.

Pode participar através de uma candidatura aos Prémios Trailer de Livros, categoria Escritor, enviando para este email o link do(s) respectivo(s) trailers e assumindo o compromisso de oferecer pelo menos 2 exemplares do livro a que o trailer diz respeito a uma Biblioteca(s) à sua escolha.

Mais informação no blogue e sítio do BiblioFilmes.

Melhores cumprimentos,

Equipa BiblioFilmes Festival

http://BiblioFilmes.blogspot.com

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