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Friday, October 26, 2007

O Camarada Choco 49 - O Construtor de Sonho

                          Camarada Choco
                                           Aventura 49

Há um velho ditado no Oeste da Brandoa que diz: “ Se te dizem que esta obra foi feita por um Monga, desconfia. Eles geralmente pouco fazem!”
E é a pura verdade! Todos sabem disto, mas negam-no se lhes perguntarem, apesar de andarem sempre a dizer aos miúdos e graúdos que é feio mentir. Assim, se olharmos para um quadro numa exposição camarária de “pessoal diferente”, noventa por cento da obra foi feita pelo técnico responsável, tendo-se limitado o autor oficial a uma simples pincelada, que estragou tudo o que já estava feito, obrigando o Aparafusado a fazer umas horas extraordinárias, de borla, para repor a legalidade da obra. Se recebermos um postal de Natal assinado por um desaparafusado desconfie-se, porque noventa e cinco por cento do presépio foi feito pela auxiliar, pois geralmente a responsável pela sala estar sempre algures a fazer as eternas, e já famosas, avaliações, que lhe modificam sempre o formato do penteado. O desaparafusado, como diz a tradição, é sempre o responsável pelo único olho com que o Menino geralmente aparece na inspecção final, obrigando a Comissão da Perfeição a colocar-lhe o berlinde em falta, pois naquele espaço são proibidos objectos imperfeitos, porque ninguém compra. Passa-se o mesmo com os Pirilampos: as velhas analisam primeiro o bicho antes de largarem a moedinha! Muitas das vezes regressam no dia seguinte para o trocarem por outro mais “perfeitinho”. E tudo isto em nome dos Desaparafusados, que tanto amam. E sabonetes “made in monga” com imagens de santinhos? Eles nem entram na sala de produção, não vá deixarem escapar pedaços de baba, que transformariam o cheiro a “Rosinha Manhosa” em “Sebo de Mongólia”. Mas não é de “acessórios” que esta história irá tratar, mas sim de “tijolos”. E como sempre em tudo o que está relacionado com este Clube das Mil e Uma Noites, tem o dedo da Madrinha. Decidiu um dia que os técnicos tinham direito à sua própria vocação atirando, mal entrou na propriedade, com o Nélinho para o sótão, de encontro ao “cimento e ao chumbo”.
- Quero vinte mil carcaças de betão para amanhã, – ordenou.
- E ajudantes?
- Podes ir ao rés-do-chão requisitar colegas e traz também uns desaparafusados para fazerem número. Aliás, o projecto foi a pensar neles, como todos os que me sustentam.
O Nélinho fez uma entrada de Açor nos gabinetes das colegas, trazendo de arrasto a Terapeuta Zézé e a Fisio Raposinha, pondo-as no ninho e obrigando-as a meter as mãos na massa.
- Só vos devolvo os “Cartões de Ponto” quando fizerem o servicinho, – gritou, tirando a camisa.
- Mas eu tenho Clientes à minha espera, – disse timidamente, levantando um dedo, a Raposinha.
- Caluda, quem manda neste sótão sou eu, o Doutor Nélinho, Sobrinho-Neto da Doutora Sem Canudo. Vou até ao bar tomar o pequeno-almoço e aproveito para ficar para o almoço. Quando regressar lá para o fim da tarde, quero cinco paletes empacotadas. Lembrem-se que quem vos paga os ordenados e os subsídios da outra, – e apontou para cima, mudando rapidamente o indicador para baixo, quando se apercebeu que estava no sótão, – são estes tijolos de betão com prazo de acabamento. Dos Mongas não esperem receber nada, pois eles só são úteis para a isenção do IA e do IVA, e nem conduzir podem.
- Estou com falta de ar, - queixou-se a Terapeuta Zézé, tentando meter baixa médica.
- Eu já lhe curo a emoção. Eu só tirei a camisa para vestir a bata. Estava a pensar em paródia? Comigo “conhaque é conhaque, trabalho é trabalho”, mesmo que aqui só beba conhaque, ouviu? Vá, siga já para os tijolos!
A “Dança das Cadeiras” é uma constante neste estabelecimento de reeducação, e quem hoje está sentado amanhã poderá não ter assento. Enfim, modernísses!

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