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Friday, March 02, 2007

Camarada Choco 44 - As Lágrimas da Doutora



                          Camarada Choco
                                           Aventura 44

Habituados ao insólito, os “Cerciamos” (habitantes da Cooperativa de Reabilitação para Desaparafusados e Aparafusados) prepararam-se para o apocalipse, onde tudo daria lugar há insanidade e há loucura. Uns ainda se espantam (a minoria) porque não acreditam, outros porque estão cansados, outros porque receberam uma oferta melhor, talvez uma oferta que não pudessem recuar, ser afilhadas e, como consequência, mais prósperas e felizes. O abraço da ex-Doutora Sem Canudo à Dona Pilca e à Menina Tatrícia, fez transparecer um estado de alma, que criou uma vibração nas vozes de todos os presentes. Era o culminar de um amor caprichoso, tumultuoso, de encontros e desencontros, de desejo, sensualidade e ausências (o estado “santinha”, exclusivo desta Instituição). A um canto, discreta, estava a Dona Gilette, elemento cada vez mais raro nos colectivos dos desaparafusados. Atenta, paciente, formosa mas não segura, à espera da sua vez para vender o único produto possível da sua sala de quiabos: frasquinhos de compota de Baba e Borra de Monga, que lhe possibilitariam, segundo pensava a própria, comprar um talhão junto à Casa Forte da Madrinha.
As lágrimas da Doutora Madrinha eram ali ouvidas a tocar nos tacos, ao vivo e a cores, sem piano, em pequenas doses de crocodilo, repetidas tantas vezes quantas o montante entregue. A concentração, o esforço e a boa disposição imperavam na sala. Mas não em todos os cantos. O intrépido gaulês, o Senhor Pintor, denunciava a situação, propondo um novo olhar, que era sempre pessoal. Assim, estes jantares de Natal não serviam apenas para reconstruir novas alianças do passado, mas antes criar espaços para novas afilhadas. Foi o momento de um encontro privilegiado, onde se pressentiu o pulsar comum dum saco azul subterrâneo, por debaixo dumas saias, quase invisível, interior.
A geração de afilhadas é uma tendência que se tem vindo a desenvolver e a que todos devem estar atentos, por ser claramente favorável a quem desejar fazer umas colónias.
- No meu dia de anos nem um beijinho me deu, nem uma lágrima verteu. Só consegui os dez minutinhos finais da jorna – resmungou o Senhor Pintor, afastando, do fato comprado nos indianos da Praça de Espanha, um pêlo encaracolado. – Alguém haverá de ser responsabilizado por isto !
O ritmo alucinante do beija-mão era pontualmente interrompido por uma fotografia, enquanto que no corredor se tentavam adivinhar as prendas, não fosse alguém receber uma pega da Sala dos Têxteis. A Madrinha estava sempre presente, na forma como comíamos, nas palavras que usávamos, propositada ou inadvertidamente. Mas, com a Madrinha há sempre muitos “mas”…
- A “clave de Sol”, onde está a minha “clave de Sol”, que comprei nos chineses com o dinheiro dos vossos almoços….vossos não, meus almoços. Ninguém sai daqui se a “clave” não regressar há minha propriedade. Mas uma parte da plebe estava mais preocupada em guardar nas carteiras as velas, do que no discurso da “Madrinha de Algumas”. O jogo do arremesso dos porta-guardanapos foi bruscamente interrompido pela chegada, não programada, da companheira do Camarão.
- Estás proibido de jogar com a progenitora do Tremelga.
Era o segundo cartão amarelo da noite ! O jogo prometia aquecer, a Madrinha já não gritava só pela “clave de Sol”, mas também pelas “velas com a Santinha”. Nem os beijinhos das novas afilhadas conseguiam controlar a “baba de fúria”. E nestes momentos tudo vem à memória, até a garrafinha do vinho do Porto descoberta no armário da Psicóloga Loira. Mas o pior ainda estava para vir !
- A “Passarinha”, roubaram-me a “Passarinha”, - gritou a Dra. Madrinha Sem Canudo, deitando fumo pelas orelhas, sinal de que os segmentos estavam prestes a gritar.
- A “Passarinha” da madrinha ? – Perguntaram em coro as novas afilhadas, levantando-se com dificuldade da mesa de Natal. – Nós vamos investigar, já temos suspeitos. Acalme-se Madrinha que volta para casa coma sua “Passarinha”, a “Clave de Sol”, as “Velas com a Santinha” e todas as outras porcarias….
- Tatrícia – interrompeu a Dona Pilca, tentado abafar a última palavra da sua colega chinesa com um valente empurrão, que a atirou para cima do Cabo Pilas, que caiu desamparado no chão. – Queres dar cabo do posto que tanto nos custou a ganhar ?
E no meio disto tudo veio de novo à memória da Doutora Madrinha Sem Canudo a garrafa de vinho do Porto. Agora compreendia ela as razões de tanto “farróbadó” naquele gabinete. E escusava a Psicóloga Loira explicar que fora alguém que lhe pedira para guardar o produto e ela esquecera-se. As melhoras dos clientes não se deviam a palavras sábias, mas sim aos vapores do vinho do Porto. Era um tratamento fraude !
- Qualquer dia é o Nélinho a ser eleito Afilhado, - continuava a resmungar o Senhor Pintor. – Vou-me vingar em alguém ! – E levantou-se apressadamente da sala, desaparecendo nas entranhas do edifício.
Algum tempo depois ouviu-se um barulho metálico vindo do andar de baixo e para os lados do Bar. Todos se precipitaram escadas abaixo, pensando ser o Muro que apanhara de vez o Porres. Mas não, o arrastar de metal pelo chão era mais para lá. Pararam a escassos metros quando deram de caras com o Senhor Pintor a expulsar um armário do seu estabelecimento de pintura.
- Na Sala de Artes não se produzem sandes, sandoscas, croquetes, pastéis de bacalhau, mas sim telas com Nódis e outra bicharada – informou o Dr. Pintor, com o fato dos indianos já todo amachucado.
- O meu Sobrinho…o senhor Doutor Pintor Sem Canudo tem razão – confirmou a Dra. Madrinha Sem Canudo, tentado resolver a situação embaraçosa, recorrendo às palavras mágicas.
- Dá-me a impressão de tenho de acelerar a produção das minhas compotas, - atirou a Dona Gilette. – Ainda saio daqui hoje afilhada !
- Sobrinho ?!! Eu fui promovido a Sobrinho ?!! – gritou o Pintor, abraçando-se à Tia.
- E para provar a afeição que tenho por si, convido-o a acompanhar-me a um Curso de Formação de Power Point, que não me vai servir para nada, mas não dou o meu lugar a ninguém.

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