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Tuesday, September 15, 2015

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 75 - A Maternidade da Luz




Comandante Guélas

Série Colégio Militar
Fomos radicalmente influenciados pelo colégio, todos sabemos de que palavras e imagens se compõem o pensamento de um Menino da Luz, a nossa formação moral foi criada por pessoas que existem no nosso passado e que cabem no nosso presente. Não sabemos o que agora vai acontecer, mas sabemos o que nos preocupa. Nas décadas de 60 e 70 dormíamos uma noite por semana em casa e seis no colégio, por isso as novas gerações nunca compreenderão porque é que a Rosa foi a nossa ninfa, e em casos agudos a Júlia, a mulher do Patronilha, ou a inesquecível Listete e a sua fabulosa cabeça que faria a vez de uma qualquer almofada, a Cassilda, ou a sensual coxa da biblioteca. Nos tempos que correm os ratas só sabem adormecer com o barulho do silêncio, e não ao ritmo de uma desgarrada, não de flatos, que isso é para meninos, mas sim de exuberantes peidos, dados por jovens desaçaimados, com as barrigas cheias de Amarelo nº 2, em que a maioria da camarata, um espaço a transbordar de vida, participava. Hoje em dia até nas pinturas os pais estão presentes, muitos dos putos já vêm pintados de casa com as cores recomendadas pelos dermatologistas, coisa inadmissível nas décadas em que o Moca era rei, em que tínhamos o direito de sentir a tinta plástica a impregnar-se na pele, o ardor da Colgate nos tomates, o frio dos guaches naquelas escuras noites de invernos rigorosos, e os mais sortudos sentir um pincel nº1 carregadinho de tinta plástica branca pelo cagueiro acima, tradição que nos protegeu para sempre das alergias e outras maleitas da geração que agora se tatua indiscriminadamente perante o olhar das mamas, que nessas alturas estão estranhamente ausentes. Nos anos setenta elas só podiam entrar no colégio nas comemorações do 1º de Dezembro, mas não saiam do primeiro andar dos claustros, causando mesmo assim calores libidinosos aos jovens do rés-do-chão, e muito menos interferir, como é habitual nestes estranhos tempos, em que já foram vistas artistas a ir buscar os filhos às formaturas para os tirar dos “malefícios” do sol. E também estão autorizadas a participar nos piqueniques colegiais, em que só o Bolicao, já descascado, é permitido, em vez da lata de atum, do cigarrinho e de umas cervejinhas adquiridas nas visitas de cortesia ao bar de oficiais nos claustros ou à Soca. Seis dias ajudavam a criar cumplicidades, amizades e camaradagem. Quem não se lembra dos concursos de gosmas, que deram origem a fabulosas estalactites, capazes de competir mano a mano com as colunas de Palmira, e que ficaram suspensas durante anos letivos seguidos, cujo recorde saiu da boca do 224? Ou das esgalhações coletivas de frangos durante as aulas do Pequito? Ou dos despiques de mergulhos para as camas, de cima dos armários? E já nem na Instrução Militar os oficiais ousam gritar como o tenente Silveira, “em sentido nem mexe, nem que passe um car…pela boca”, um gordo de óculos, sempre com botas de montar, que nunca se soube se para montar ou para ser montado, que costumava pagar jantares à rapaziada, colocando-a em permanente estado de alerta, porque com toda a certeza que estará uma mãe por perto que irá a correr para o “Livro Amarelo da Aberta e do Alguidar”. E até com a ideia romântica de um “Túnel” a ligar às Meninas de Odivelas conseguiram acabar, trazendo-as para um novo edifício junto à rapaziada, já baptizado como a “Maternidade”. As saídas furtivas do 89, do 165 e do 376, de táxi (se a tradição se mantivesse os seus sucessores iriam de Uber), em direção ao “El Tesón” não passam agora de lendas guardadas para memória futura nestas pequenas estórias em que todos participámos, porque vivemos num tempo em que as causas são discutidas e os efeitos parecem imprevisíveis, que nos dá a sensação de saber tão pouco. Só com a evocação do passado se pode assumir plenamente o futuro, por isso a parte do 4º E que não teve aula do Semita neste dia 16 de Outubro de 1974 desembestou em direcção à piscina, não sem antes ir arrumar os livros, um empecilho à brincadeira, à sala ocupada pela outra metade com inglês, que estavam entretidos a expectorar, alternadamente, para cima do 300. O 191 tocou com humildade à porta e mal ela se abriu, entrou uma turbe desenfreada que em segundos fez o que tinha a fazer, e saiu tal como entrou. Todos? Todos não, o 151 atrasou-se e teve de tocar novamente. Mas quem correu foi o professor Mota, e para a porta, cujo corredor esvaziou de imediato, não sem antes todos gritarem, “Didi, coça aqui”! A chuva dos últimos dias tinha enchido parte do espaço dedicado à natação em junho, por isso o 305 (Vinasse) foi de imediato atirado lá para dentro, ficando com a água pelos joelhos. O 120 teve pior sorte, mesmo reclamando estar com uma bronquite, a água chegou-lhe à cintura, por isso à noite estava fardado de pano porque encontrara a rouparia fechada. O Colégio Militar era totalmente imprevisível, um andaime com rodas que servia para pintar o exterior da sala de música durante o dia, serviu como sequeite durante parte da noite do dia 22, para o 125, o 136, o 151, o 157 e o 191. A brincadeira acabou abruptamente quando chegou a vez do 151 e o arremessaram, com velocidade excessiva, em direcção ao edifício em que o Carioca se esforçava por transformar canas rachadas em rouxinóis, onde o aparelho se desintegrou, não sem antes rachar um vidro e despedaçar outro, obrigando a rapaziada a uma fuga em direção ao geral, antes que a ocorrência fosse relatada por um vigilante ao oficial de dia, o capitão Peidinhas, senhor de um traseiro em forma de almofada.
No Colégio Militar sempre houve portas que se fecharam para sempre e outras que se abriram em lugares inesperados, por isso as queixas futuras irão ser contra as utentes da Maternidade, quando elas lhes invadirem as camaratas a meio da noite, e em vez de lhes darem almofadadas, chocalham-lhes as pirocas!  

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