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Saturday, October 25, 2014

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 68 - O Agapito


Comandante Guélas

Série Colégio Militar

O Colégio Militar sempre foi uma comunidade maior do que o território onde se inseria. Por isso há portas que se fecham para sempre e outras que se abrem em lugares inesperados. O que se conta aqui é uma estória curta e antiga que só agora se liberta dos seus sótãos sombrios, uma viagem no tempo capaz de nos descarnar emoções e de nos fazer ouvir sussurros a sair das linhas. As aventuras colegiais são intemporais. Por isso o desabafo do Semita para alguém da arraia miúda, “Psché moço, num monte de esterco, fazes nódoa”, contrastava com a deferência do Menau para este aluno especial, que entrara excepcionalmente para o 5º ano do Liceu:
- Vossa Alteza, dá licença que mande sentar?
O 97 de 1960 ficou para a história do Colégio Militar como aquele que conseguiu a classificação mais alta na disciplina de Português ministrada por este docente com sotaque do Porto, calças apertadas a meio da barriga e um contínuo mascar de tabaco, alternado com soberbas cuspidelas para dentro da gaveta da secretária. Com o Agapito entrou também um irmão, para o 3º ano, que recebeu o número 80. De início a família quis inscreve-lo no 6º ano do Liceu, mas a direcção colegial foi de opinião faze-lo recuar um ano para se adaptar ao sistema. O primeiro embate deste aluno espacial deu-se quando viu a pedagogia da instituição a funcionar em pleno. O Semita punha ordem numa turma barulhenta, distribuindo pauladas com o ponteiro, à medida que gritava:
- É gado, é gado!
O 97 depressa mostrou que nunca iria ser contemplado com qualquer tipo de posto comando, a não ser o do país caso o regime mudasse. Nunca se atreveu a comer o reforço da manhã, a refeição que punha à prova o “ardor guerreiro” dos estudantes, que consistia numa corrida caótica em direcção a um cesto geralmente cheio de pão com marmelada, onde mergulhava toda a turbe alucinada que saia em debandada da sala de aula após o toque da corneta, pondo em fuga os funcionários que a tinham trazido. Destas molhadas saíram os oficiais mais condecorados do Exército Português, excepto o Agapito que só teve direito a umas poucas caricas por causa da cor do seu sangue. No 6º ano o 97 não cumpriu os requisitos mínimos académicos, nem em fazer cábulas era competente, e por isso teve de repetir o ano e esforçar-se para não ter novo percalço. No 7º ano ganhou uma estrela, ter um herdeiro abaixo desta graduação era mau demais para o aspirante à Coroa, e deram-lhe o cargo de “Relações Exteriores”, que nunca ninguém soube para que servia. Por não ter deixado muito rasto na Luz, a estória acaba aqui. Foi abatido ao Batalhão Colegial no dia 31 de março de 1964 a pedido da família, porque se descobrira que o Agapito só tinha sangue para reinar no país, e não para estudar no Colégio Militar, onde a prestação académica era pouco abonatória e pouco substantiva. Um segundo chumbo significava uma expulsão, mais uma nódoa que a Dinastia não iria suportar.

 



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