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Friday, October 21, 2011

Camarada Choco 83 - Espera aí que já cospes

Camarada Choco

Aventura 82

- Dona Pilca, temos um problema, - informou a senhora da fábrica de componentes elétricas.
- Um problema? Mas não lhe entregaram o produto do trabalho dos meus Desaparafusados? Não me digam que o Primo do Cabo Pilas se perdeu, como o Capuchinho Vermelho?
- Não Dona Pilca, a encomenda já chegou, os parafusos vêm com as anilhas e as porcas enfiadas....mas do avesso.
- Do avesso? - Gritou a Dona Pilca, riscando com os nervos um babete forrado de anjinhos, uma encomenda da funerária "Sempre a Abrir", da rua de baixo.
- O trabalho que dei aos seus Desaparafusados vem com defeito. Já não são só os trabalhadores, mas também o produto.
Do outro lado só se ouviu um ranger de dentes.
- Dona Pilca?....a senhora está aí?
- Ainda estou...mas não sei por quanto tempo, - respondeu a velha empresária da Venteira, ao mesmo tempo que simulava com a mão uma degolação geral. - Vou resolver o problema imediatamente e mais tarde entrarei em contacto consigo.
Quando a tecla vermelha do telemóvel foi premida, saiu um grito de raiva tão profundo, que o preto que estava a pintar o prédio deixou cair o pincél em cima do Primo do Cabo Pilas, que com o peso caiu do passeio e fez um entorse. Todos estavam receosos, a Dona Pilca não aceitava a falhas dos seus subordinados, e agora era vista a falar sózinha em todos os cantos da Escola para Desaparafusados da Venteira.
- Só pode ter sido ela, - gritou pela centésima vez para a imagem do espelho, que já não conhecia. ~A fazer-se de amiguinha e por detrás a trocar-me as roscas. Vou tratar~lhe da saúde, enquanto o Diabo esfreganha um olho, - e fez novamente o sinal de degolação.
A Instituição estava insegura. Pela frente entrara a Natali, uma gorila das montanhas prenhe, que tinha vindo pedir satisfações à Chefe Bélinha, por ter de acordar muito cedo todas as manhãs para entregar a irmã na carrinha que ia buscá-la à barraca, um luxo exclusivo dos melhores colégios privados, cujos pais pagavam caro estas mordomias, mas que para os Desaparafusados da Cova da Moura e afins era de borla, porque a conta ia sempre parar à caixa do correio dos portugueses caucasianos. Mas a ameaça também vinha do interior, e tinha a forma de uma distinta senhora de meia idade, que atingira o estatuto da Madrinha Sem caneco, e que já não aceitava "desaparafusices" dos seus Desaparafusados.
- Tenho uma mancha no meu curriculo, e a culpa é vossa, - gritou ao entrar na sala, não sem antes deixar o recado para a vizinha. - Gente como tu como eu ao pequeno-almoço.
- Coitada da Pilca, a mudança de idade está a afetar-lhe os carretos, - desabafou a ingénua Menina Tatrícia para a sua colega Pirosa. - Tenho de dar-lhe a minha solidariedade.
- Não sei se devas, - aconselhou a colega.
- Ai vou, não posso abandonar uma colega de peregrinação numa hora destas, - e encaminhou-se para a porta.
- Isso já foi há muito tempo, a Pilca já se esqueceu, - exclamou a Pirosa, sem tirar os olhos duma revista. - Não vás, é melhor!
Mas a humilde Menina Tatrícia estava decidida a ser solidária com a velha Pilca.Os segundos seguintes foram de silêncio, mas breves, muito breves, porque o grito que se ouviu foi tão alucinante, que até o Rui Monga, que já estava muito mais para lá do que para cá acordou:
- Silêncio, já não se pode dormir eternamente!
As janelas da Sala das Roscas abriram-se com estrondo, levadas por um vento e por uma tempestade inesperada, brilhante, veloz e aterradora, como se fosse, não do domínio do ar, mas do interior obscuro do espaço. O ferimento que a Menina Tatrícia trazia na mão era de guerra, e da atómica. A única testemunha juramentada do ataque foi a Desaparafusada Vaisnessa, que contou que a Dona Pilca se atirou com tanta raiva à vítima, que despejou toda a pistola de cola, ao mesmo tempo que gritava:
- era aí quele já ospes (tradução: "espera aí que já cospes")!  
 

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