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Sunday, December 05, 2010

Camarada Choco 70 - O Comendador Rendas


Camarada Choco

Aventura 70

A Sobrinha-da-Tarde-Número-Dois nem queria acreditar no que via quando entrou na sua sala: tinha pendurado na parede o retrato de um velho que parecia estar a convida-la para a luxúria. E a causa da morte da fotografia estava no canto superior esquerdo sob a forma de uma marca de pneus.
- Quem é que ousou pôr aqui este velho com ar duvidoso? – Perguntou a Sobrinha-da-Tarde- Número-Dois, sentindo um vento a puxa-la, e tendo uma visão imperfeita que lhe revelou um segredo de algo que poderia acontecer. – Velho tarado.
Resolveu investigar.
- “Comendador Rendas” - Leu em voz alta a legenda escrita à mão – e continuou. - Letra feminina…hummm.
- Letra feminina??? – Entrou de rompante o Nélinho com um arrebatamento eléctrico, revirando os olhos e engolindo as smarties que a irmã do Choco se preparava para comer. – Tropecei neste senhor hoje de manhã e resolvi trazer esta obra de arte para a sala mais indicada. É assim que a menina me paga os distúrbios que causo com frequência no seu espaço?
E para fazer jus à fama da sala que já era tão famosa como o Entroncamento, devido aos fenómenos para-normais, o novo inquilino também revirou os olhos.
- Já sei porque é que o Nélinho não pendurou o retrato na sua sala, - exclamou a Sobrinha-da-Tarde-Número-Dois.
- Então diga lá, – gritou o açoriano, ao mesmo tempo que apertava o gasganete à colega Minhota, tornando a revirar os olhos e a uivar, ao mesmo tempo que arrastou a bacia pelo chão, deixando rasto como o caracol.
- Porque passavam a ser dois a revirar os olhos!
O mistério estava lançado, seria o Nélinho a encarnação do Comendador Rendas? O acaso nunca poderia ter reunido na mesma rua dois artistas destes, era demais. Com tantos Aparafusados e Desaparafusados a cruzarem a rua do Gameiro, porque é que o velho tarado teria ido logo ter com um autóctone de uma ilha açoriana, perdida algures no meio do Atlântico? Não, só poderia ter sido por uma questão de afinidades, o Nélinho e o Comendador Rendas tinham sido atirados um ao encontro do outro, e quando o primeiro viu um rasto de pneus na testa do antepassado, apercebeu-se de que era um aviso de que se não o levasse para dentro poderia acontecer-lhe o mesmo, ou seja, os céus darem ordem ao Cabo Pilas para levar o carro para a Escola, e como ele só conseguia ver a estrada se guiasse em pé, era sempre um risco acrescido para os peões daquela zona, que o dissesse a Dona Pilca, a primeira vítima de um atropelamento do micro-machine da Venteira. Quando o Nélinho olhou para o retrato do Comendador Rendas ficou com a cabeça intermitente, cheia de intervalos e metamorfoses, que o colocaram num estado de expectativa, suspenso e inconclusivo. Teve uma visão do futuro e viu-se reduzido a algo espalmado na estrada, com um charuto fumegante a sair de um buraco indefinido. Acordou do transe, agarrou na foto e correu para a Escola de Desaparafusados da Venteira. Mas ficarem os dois na mesma sala não era aconselhável para a saúde mental da Brazuca. Haveria com toda a certeza uma corrida diária às smarties dos Desaparafusados, e isso não seria bom para as finanças da escola.
- Tarado, – gritou a Minhota ao aperceber-se que o Comendador Rendas também lhe estava a fazer gestos obscenos.
- Já não tenho idade para isto, – queixou-se a Sobrinha-da-Tarde-Número-Dois, ao mesmo tempo que era encostada à parede pela Cataró, agora em plena travadinha com os punhos cerrados em direcção à Obelix e a bexiga a largar a gasosa toda para cima das almofadinhas-para-coquilhas, a nova colecção de Natal da célebre Sala das Prendas e dos Fetiches.
O retrato a sepsia, devido às incontáveis mijas dos gatos da região, de um velho desconhecido, pendurado pelo Nélinho na sala da Sobrinha-da-Tarde-Número-Dois estava a causar alucinações visuais aos elementos femininos da “Escola para Desaparafusados & Afins da Venteira” e a provocar rotações oculares incontroláveis no rapaz açoriano. Preparava-se uma manifestação à porta da sala, a Dona Gilette erguia um cartaz a apelar ao regresso dos “Bons Costumes” e ameaçava apresentar queixa, por escrito, à Sobrinha-da-Tarde-Número-Um. Mas quando se aproximou do retrato sentiu também ela um vento a puxa-la, teve uma visão imperfeita que lhe revelou um segredo de algo que aconteceria, suspenso na geografia intemporal das convulsões. Piscou o olho ao Rendas!
- Saiam daqui, – gritou desesperada a Sobrinha-da-Tarde-Número-Dois. – Eu não faço mal a ninguém, estou aqui sossegadinha mais a Transmontana e só me aparecem é malucos.
O mal foi cortado pela raiz, o Comendador Rendas foi directo para o contentor, e o Nélinho suspenso três dias para casa.

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