O “Caso Ramalho”
Quando o Peidão entrou na praia de Carcavelos na sua Yamaha 50 Mini-Enduro, tirou o penico de aviador que levava na cabeça e foi de imediato chamado por um dos agentes da GNR que estava junto ao restaurante “O Narciso”, na marginal. Como cidadão exemplar resolveu não fugir, atitude que lhe custou um belo dia de praia. Mas esperava que os agentes da autoridade tivessem bom-senso. Enganou-se! Foi de imediato acusado de ter vindo de casa com a cabecinha ao léu e por isso, contra a corrente que grassava no país, iriam aplicar a lei. Mas não contavam com a reacção do cidadão de nome Peidão, que nesta altura já tinha muitas preocupações ambientais. Trazia na carteira uma bomba atómica.
- Se este senhor pode andar à boleia da GNR sem capacete, eu também tenho esse direito, estamos em democracia.
O recorte da revista foi aberto e ficou à vista da polícia e do povo que entretanto se tinha juntado. O documento exclusivo do Peidão mostrava o Presidente da República, o Ramalho, a transgredir a lei, ainda por cima com a cumplicidade da GNR. O guarda ficou estático e sentiu o bafo do povo atrás de si, que se aproximara para ver a fotografia. Ouve risos e comentários de reprovação, afinal tinham votado num fora-da-lei.
- Montagem, isso é uma montagem, - acusou o mais graduado. – Vou passar-lhe uma multa por difamação.
- “Difama” quê? – Perguntou o outro.
- Este cidadão está a insultar o nosso presidente, - confirmou, olhando de cima para baixo.
A assistência já se ria, a cena já se assemelhava à de um circo. E agravou-se quando tentou agarrar na prova do crime, possivelmente para a fazer desaparecer, mas o cidadão passou-a de imediato a um amigo que a fez desaparecer.
- E eu não conheço esse agente que está na fotografia, não é da GNR, é falso. – Interveio o outro agente, parecido com o guarda Ricardo.
- Quantos são vocês na GNR? – Perguntou o caluniador do Ramalho, de nome Peidão.
- Para aí uns quinze mil, – respondeu o motociclista fardado.
A risada tornou-se geral, a autoridade tinha de tomar medidas. E foi o que fez. Definiu um perímetro de segurança. No livro de instrução para multas rodoviárias a “difamação” não constava. Era necessário contactar a central. Foi o que fez o chefe da patrulha.
- Alô, alô, aqui 24 chama a central, escuto.
Respondeu-lhe um ruído que um ressonar. Insistiu.
- Alô, alô, aqui 24 chama central, escuto.
Desta vez parecia um ruído de um balão a esvaziar. A risota era geral, o povo estava a ficar incontrolável.
- Temos de nos deslocar para uma zona mais aberta, - informou o chefe. – O senhor vai ter de nos acompanhar.
Uma BMW 750 à frente, uma Yamaha 50 Mini-Enduro no meio e outra BMW a fechar. Todos a 20 Km/hora, assim os obrigou o cidadão Peidão, alegando que a mota não dava mais. Os heróicos agentes da GNR foram obrigados a ir com as botas a arrastar pelo alcatrão, porque àquela velocidade tinham de ir em primeira e aos solavancos. Quanto ao povo, aplaudia o seu herói que ia nas garras da autoridade. Parecia uma cena da volta a Portugal em bicicleta. A caravana parou na zona do Motel, junto a uma cabine de telefone. Mas surgiu um problema. Ninguém tinha trocos. Até que um individuo numa Casa Boss 50 se aproximou do trio e identificou-se como agente da PSP de Oeiras. Foi posto ao corrente do crime e aproveitou para mostrar que era muito mau.
- Se quiserem tenho lá uma cela para ele, - atirando uma baforada de fumo contra aquele que ousara por em causa a honestidade do homem que enfrentara as bombinhas de Carnaval da oposição em cima de um carro e em posição de forcado.
Este reforço acabou por ser útil nos trocos. Quando a central foi posta ao corrente da situação, o cabo levou de imediato um cartão vermelho por andar armado em intelectual, e não se ter reduzido à sua condição de GNR com a 4ª classe. A infracção era por falta de penico e a multa era essa. O resto era estar a faltar às suas obrigações, que eram patrulhar a Costa do Estoril. Escusado será dizer que o papel unicamente serviu para o habitual, já que a partir de Junho só os otários pagavam as multas, como era tradição.
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