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Monday, January 21, 2008

Camarada Choco 54 - Cosas Nostras





                         Camarada Choco
                                          Aventura 54


Quando o Choco entrou na Escola para Reabilitação de Desaparafusados ninguém queria acreditar no que estava a ver. O herói do cinema mudo barulhento trazia um “olho à Belenenses”, digno dos melhores filmes do John Wayne (João Vinho). Teria sido um atentado dos Aparafusados? Não! Fora o presente matinal do papá por ele ter urinado na cama e encharcado o “colchão de quedas” comprado a um vendedor de material desportivo, depois de ter explicado ao cabeça-de-casal que a oportunidade era única e dava ainda direito a levar, completamente grátis, uma toga pata teses de doutoramento.
-Podes mijar para onde quiseres, menos para o colchão de ginástica onde eu e a tua mãe damos cambalhotas.
Mas o dia do pai do Camarada Choco, candidato à sucessão do Cavaco, tinha começado torto. Quando se preparava para misturar no leite os “croquetes para perros”, comprados no Bazar Chinês, secção de desporto, ouviu um grito da patroa tão alto e estridente, que o obrigou a dar um novo abrunho no filho, que era para não deixar dúvidas quando ao seu papel de chefe daquela típica família da Brandoa.
- Ele não fez nada, - disse a mãe, entrando toda desgrenhada na cozinha e dando um encontrão no cágado, que entrou de cabeça dentro da panela do caldo-verde.
- Fica já dada para a próxima. Mas afinal o que é que tens, ó mulher?
- Ó, ó, gamado, - engasgou-se a dama, apontando para a janela.
Novo sopapo no Choco.
- Ele não fez nada.
- Para a próxima safa-se. Fala decentemente, pareces uma deficiente.
- A “caminheca” não está no sítio. “Abafaram-ta”.
- Não te percebo, é melhor ires limpar o “colchão de quedas”, enquanto eu tomo os flocos para ver se me passam os bicos-de-papagaio.
O choque foi tão violento que o pai do Choco ficou estático durante alguns momentos. Tinham-lhe gamado a “caminheca” carregadinha de ferramentas chinesas. Por sorte o Choco já se tinha ausentado para a Faculdade e estava agora no sótão, o último patamar para a Licenciatura em Tampinhas, nas mãos do Professor Doutor Nélinho que andava com uma crise de Sem-Canudo, dando ordens, umas atrás das outras, à sua Piulia, que estava fresca que nem uma alface, contrariando o estado normal de “mais para lá do que para cá”, e tudo isto devido ao Tino, que a tinha convidado para uma noite de arromba.
O edifício sofrera uma invasão de tampinhas de plástico, que ameaçavam pôr os Clientes na rua por falta de espaço. E para agravar ainda mais o reino da Madrinha, o Fecais, uma espécie de “canudado” mentecapto, assessorado pelo maior monga Aparafusado da Brandoa, o Vóscar, queriam a todo o custo tomar o poder, que uma vez já tinha sido deles, para assim puderem passar mais um cheque avultado a um amigo, como o tinham feito no passado, e todos juntos passarem novamente umas belas férias nas Ilhas do Seixal, e do dinheiro nem rasto, nem responsabilidade, só prescrição. Mas desta vez tinham pela frente o Camarada Choco, o maior, o melhor. Mas o mal não era só na Venteira. Por esse país fora ter um Desaparafusado tinha sido sinal de emprego garantido e propriedade vitalícia. Há muitos anos, muitos longos anos, lá para os lados da Portela, havia um “proprietário” que não largava o tacho, desde que montara a Quinta para Desaparafusados. As leis da República Democrática ficavam à porta do seu castelo, preparou-se muito bem para ficar até morrer, as eleições seguiam os cânones africanos, os mandatos eram ilimitados, e o mito dizia sempre aos votantes que “após ele seria o dilúvio”. O crime era mais que perfeito. Mas havia mais! Como o filho partia tudo em casa, recambiou-o para o “seu” castelo, com direito a todas as mordomias, escondidinho lá no cantinho duma das vivendas, longe dos olhares indiscretos. Enquanto que os filhos dos camponeses só tinham direito a quinze dias de férias, assim diziam as regras, a permanência do seu monga era vitalícia. E ninguém ousava desafiar o rei, porque sua majestade tinha bons contactos no Poder da República, e a República incentivava estes tiranetes, porque eles ofereciam-lhe anualmente a “Festa das Vaidades”, com governantes, televisões e mongas amestrados. Mas voltemos ao desafio Fecais&Vóscar versus Camarada Choco.
- Eu quero um emprego para a minha esposa iletrada, mas ela só aceita ser Doutora Coordenadora Sem Canudo., - gritou o Fecais, que se intitulava “Gestor”, que só podia ser da “mula russa”, mas que um dia assinara um cheque de dez mil contos, para a entrada de uma cave miserável na Brandoa, que estava a ser vendida por um amigo de confiança, perseguído injustamente pela polícia.
- Apoiado e assinado, - concordou o Vóscar que, ao levantar-se para dar mais força ao cúmplice, desequilibrou-se com o peso do tintól, e caiu ao colo do monga Aparafusado que estava ao lado, que oficialmente era pai duma desaparafusada, e que estava mais para lá do que para cá devido ao excesso de carrascão que emborcara ao almoço, mas que mesmo naquele estado que nem a um monga se aceita, ele conservava o direito ao voto, que podia pôr novamente mo poder a dupla de “assinadores de cheques para mim e para os amigos”.
- E vou dizer mais, - insistiu o gestor da mula-russa. – Como homem-do-carcanhol que já deu provas de incompetência, quero partilhar com V. Exas., - e piscava o olho só aos “Mongas não Mongas”, que infelizmente pareciam ser a maioria, - tenho mais um esquema para tirar dinheiro aos ricos para dar aos meus amigos, os “pobres de espírito”.
E como não tinha argumentos que justificassem o golpe, atacou novamente no alvo mais fácil, as Afilhadas da Tarde.
- As duas senhoras tiveram um aumento de lei desmesurado. Proponho tirar-lhes metade do ordenado, pago pelo Ministério segundo as tabelas oficiais, e guardar a massa no cofre onde tenho o dinheiro que ganhei com a “entrada”. Com estas duas metades fica garantido o tacho para a minha mulher.
- Apoiado, - interveio de novo o Vóscar pondo-se de pé e tombando para o outro lado, onde dormia profundamente outro “Monga não Monga”, cuja mulher tinha como incumbência levantar-lhe o braço na altura de votar.
A reunião foi interrompida pelos gritos raivosos da mãe da Zulmira Destravada, uma cliente muito antiga, que se tinha sentido ultrajada quando a Doutora Sem Canudo lhe lembrara que tinha em atraso vários meses de estadia no lar “O Saco da Madrinha”.
- O ministério não específica no subsídio para qual de nós é que vai o carcanhol, - dizia indignada a queixosa. E eu compro o tabaco com que dinheiro? A senhora desenrasque-se, corte no ordenado das suas Afilhadas Da Tarde como diz, e muito bem, o Fecais. Eu vou votar nele porque se ganhar vai distribuir cheques pelo pessoal.
- Apoiado, - gritou o Vóscar, caindo para a frente e arremessando violentamente o papá da Violeta de encontro à fila seguinte, criando um efeito dominó sobre os bebedolas, que só pararam quando já não havia mais votantes naquele sentido.
- Ela em casa diz “mãe dá-me uma carcaça que eu estou cheia de traça”, - jurava a mãe à Dona Gilete.
- Aqui é muda, - contrariava a menina de meia-idade responsável pela tentativa de reabilitação da deficiente.
Eram os chamados “Milagres Caseiros” que faziam com que os Clientes fossem Desaparafusados na Escola e Aparafusados em casa. Estaríamos perante uma fuga ao fisco? Cidadãos que passavam por aquilo que não eram, para que os progenitores tivessem benefícios fiscais, principalmente na compra de automóveis, onde eles não punham os pés, para não sujarem? Ou então a Desaparafusada era a Dona Gilete que não sabia línguas e por isso a moça mantinha-se em greve oral vitalícia?
- Em casa a minha menina pede, em francês, para ir arriar o cagalhão, - informava com certeza absoluta, e intrometendo-se, como era seu hábito, o senhor Baldinho, um Pai Sem Canudo com a mania que estava inscrito na Ordem, revirando os olhos mais rapidamente que o rebento. – Portanto, exijo falar imediatamente com uma Coordenadora ou parto isto tudo…faço queixa à ASAE…telefono para os CTT…faço qualquer coisa ruim. A mim ninguém me diz que a minha destravada mija pelas pernas abaixo e precisa de fraldas, porque mesmo que eu nunca lhe tenha feito controle dos esfíncteres, porque dava muito trabalho e teria de abdicar das cervejolas, ela despeja para onde está virada. Ouviram? É uma ordem.
Num canto de Lisboa, bem longe daquela confusão da Venteira, o Rematador era avaliado na “performance vocal” por uma Doutora cujo canudo era desconhecido, de um Centro que todos diziam ser um “Modelo” e que para isso necessitava de pôr a andar dali para fora, e para bem longe, os mongas que “davam muito trabalho”, ficando somente os candidatos de “sucesso garantido”. Tinham a mesma política que os colégios privados, ou seja, “fora com os destravados xungosos, só queremos os intelectuais”.
- Vou aplicar-lhe um teste para medir a quantidade de palavras que tem na garganta, - explicava aos técnicos que tinham tido o azar de ir à consulta com o Rematador, e cuja especialidade não era a da voz.
Assim não haveria testemunhas do embuste. A aplicação do Protocolo foi tão rápida, que nem a avaliadora percebia as perguntas que fazia, apesar de ser obrigatório que o Desaparafusado desse a resposta correcta, para assim poder pontuar e subir na vida.
- Imagina que este porco cor-de-rosa é branco. Onde é que ele está? – Foi a apoteose final.
O Rematador olhava para o tecto, com o “imagina” dava sinais de convulsão iminente, acerca das cores a cara revelada ser analfabeto, e quanto à posição limitava-se a olhar para o tecto. Quanto à avaliadora, apresentava um cabelo mais sebento que o do avaliado, e nem se dignava a olhar para o monga, tal era o frete com que estava ali. A única satisfação é que este ficava já aviado e só voltaria daqui a um ano, caso não morresse. Quanto a ela escreveria na agenda “missão cumprida”. O teste acabou tão rápido como tinha começado e as conclusões revelaram-se delirantes:
- Um breve olhar pelos gatafunhos que eu fiz nesta folha revelam-me que o monga deverá ter um Q.I. de 4 e está a desenvolver uma gaguez!
Assunto encerrado, regresso à nossa querida casinha. A terapeuta Bélinha, a verdadeira técnica, foi informada do incidente com a sebosa e limitou-se a responder com desprezo:
- Gaguez?! Mais o miúdo ainda nem começou a falar!
Estávamos a anos luz daquele “Centro Modelo” que se antecipava aos acontecimentos. Em frente destas cabeças “iluminadas” qualquer pai que baixasse os calções e mostrasse os tomates arriscava-se a que lhe dissessem que iria ter um filho coxo.

1 comment:

Anonymous said...

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Tema: Haverá uma fronteira entre os Aparafusados e os Desaparafusados?" Outra maneira de falar sobre o Ensino Especial.

Filmes de Apresentação no “Youtube” em “Camarada Choco”