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304 estórias

Wednesday, July 23, 2014

O Comandante Guélas - Série ISEFL - A Ata


O Comandante Guélas
 ISEF 2

 No dia dezanove de julho do Ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de dois mil e quatorze decorreu mais um encontro cultural/gastronómico da turma dois que albergou nos anos oitenta do século passado, durante cinco longos anos (excepção ao Dr. Jacques que continua na zona), junto à inebriante ribeira do Jamor, os rebentos da elite do Instituto Superior de Educação Física de Lisboa. O programa das festas foi elaborado pelo primeiro, e único, que já conseguiu a reforma, graças aos anos que passou no Comité Central, que contaram a dobrar, e a uma queda aparatosa de uma falésia, onde ganhou cinco cromossomas extras, que lhe deram dez anos de avanço sobre os colegas, que o pôs a fraldas e a falar chinês durante vários meses, tentando sempre obrigar as enfermeiras a pagar-lhe a gasolina, tal qual ameaçara fazer uns anos antes o Professor Doutor Parrilha quando se confrontara com o único chumbo a “Dança Clássica”, após uma noite inteira a treinar com a Glorinha do bar. As falhas mentais do reformado ficaram patentes no documento enviado à seleção, onde passou da “Atividade 1” (“Caminhada”) para a “Atividade 3” (“Almoço”), ficando assim em evidência que o número 2 já não consta nas suas memórias. Mas como “Deus escreve sempre direito por linhas tortas”, dizia-lhe sempre o Barreirinhas, houve “Atividade 2”. O encontro deu-se no Pavilhão Desportivo de Portalegre, mas sem a presença do anfitrião, e perto da “Entrada Sul”, e não da “Norte”, como constava no documento.
- Onde está o Dr. Jacques? – Perguntou o Professor Vereador Anselmo, o mais próximo da reforma, com vários anos de vereação e outros vícios políticos, que contam sempre a dobrar.
De Jacques nem vê-lo, mas quem entrou em pião no seu táxi foi o famoso Parrilha, que ameaçara uns anos antes limpar o torneio de Judo da Turma 2, mas acabara no último lugar, atrás duma colega que acabara de vir de uma noitada na pesca, e que  o deixara a tresandar a peixe. Por pouco não atropelou todos os presentes, arriscando a tornar o evento cultural no primeiro almoço individual da História da Turma 2 do ISEF. Os colegas puderam então verificar que este atleta se sujeitara recentemente a uma colonoscopia, exame aconselhável a todo este pessoal da meia-idade, mas que fora vítima da negligencia do médico especialista, Dr. Vale e Azevedo que, em vez de lhe encher a tripa com ar, colocara o tubo numa orelha, à semelhança dos colegas muitos anos antes numa aula de fisiologia prática, em que lhe colocaram o elétrodo do cardiograma nas partes baixas. Saiu do exame com a cabeça inflacionada, como se pode observar na foto que acompanha este documento.
- Onde está o Dr. Jacques? – Perguntou o vizinho do Reformado, Dr. Corista, o primeiro a chegar pela fresca da manhã, com o fato de treino do Benfica, e que acabara de acordar.
A espera foi longa, e quando se aperceberam que o anfitrião não iria chegar, talvez devido a estar a realizar o último exame no Jamor, que finalmente lhe iria dar o certificado do primeiro ano, apareceu um chaparro a guiar um carro que, ao se aperceber da ausência do organizador, disse:
- Bem me parecia que ele estava na “Entrada Norte” amarrado a uma árvore, rodeado de leitões.
Na actividade 1 (“Caminhada”) os presentes constataram que o célebre “Jardim Tarro” afinal se chamava “Jardim Sarro”, pois consistia num lago onde a população costumava lavar-se, o Palácio Amarelo tinha sido pintado na véspera pelo Jacques para impressionar os colegas da qualidade de vida de Portalegre, e a Rua Direita era completamente torta, sinal de que se confirmava in loco o rating negativo das notas do 12º ano dos alunos de matemática de Portalegre.
A “Atividade 2” (“Onde está o Jacques”?), decorreu no local indicado pelo alentejano, que consistiu numa "vaquinha" para o comprar,  pois todas as tentativas para a sua libertação (o reformado chegou a elaborar um poster onde se podia ler "Libertem o careca do povo") se revelaram infrutíferas, uma vez que não conseguiram convencer o dono da quinta de que ele não era a mãe dos bichos, mas sim um Dr. Do ISEF. Uma vez livre o anfitrião, deu-se início à “Atividade 3” (“Almoço”), mas já com o Jacques traumatizado, porque apresentou receios fundamentados, uma vez que o nome do restaurante, “Leitão”, trazia-lhe más recordações, arriscando-se a ser confundido com uma refeição mal entrasse no espaço de degustação. Valeu a pronta intervenção do judoca com hidrocefalia, que ameaçou:
- Só se passarem por cima da minha cabeça é que fazem mal ao Jackes!
Estiveram também presentes uma senhora, que veio acompanhada pelo responsável da foto, o Diniz, e o mais acrobata ginasta do ISEF, senhor das mais famosas cambalhotas, tão direitas como a rua da cidade anfitriã.

Saturday, June 28, 2014

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 66 - Genesis


Comandante Guélas
Série Colégio Militar

Foi no ano letivo de 1974/75 que o Colégio Militar atingiu o número máximo de alunos: 694! E foi também em 1975 que os Genesis deram um memorável duplo espetáculo no Pavilhão dos Desportos em Cascais, no dia 3 e 4 de março cujos bilhetes custaram oitenta escudos. A banda ainda pensou filmar o concerto, mas felizmente a ideia não foi por diante, porque caso tivesse acontecido o aluno nº 78 do 7º turma A teria agora de explicar aos netos porque aparecia no Youtube a vender bilhetes falsos, junto a um dos blindados do COPCON, o responsável pela segurança do local, e por visitas assíduas ao colégio, onde estudava o filho do chefe, vítima de ataques continuados às orelhas de abano, que andavam tão quentes como o país. Mas o negócio esteve tremido porque alguém tinha sido uns dias antes apanhado pelo oficial de dia, após o regresso de um cavanço, e a segurança apertara. A entrada do aluno pela janela da quarta companhia coincidira com a do oficial de dia pela porta, tendo-se escondido de imediato atrás das cortinas, ao mesmo tempo que o militar se sentava num dos sofás. E assim ficou durante quarenta e cinco minutos, até que se levantou e foi ter com o prevaricador, agarrando-o pelos colarinhos:
- A primeira regra da camuflagem são os ténis, devem ser da cor da alcatifa!
Mas um ex-aluno será sempre um Menino da Luz, e por isso tudo ficou por ali. Regressemos ao evento!
Na secção tipográfica do Colégio Militar havia horas extraordinárias clandestinas pela calada da noite, a máquina já deitava fumo. Todos olhavam gulosos para o produto que iria sair, o vigilante ainda estava longe, o oficial de dia já dormia profundamente, e nas companhias o silêncio era absoluto, excepto na Sala de Leitura da Quarta Companhia, transformada numa casa de jogo clandestina, com um lusco-fusco envolto num nevoeiro de fumo espesso, onde circulavam bejecas e produtos típicos da época revolucionária. Lá fora alguns brincavam com o blindado, que vinha pela quarta vez a toda a velocidade dos lados do ginásio, apinhado de meninos vestidos de cotim, que fazia abanar as janelas laterais com a deslocação do ar.  
 - As letras estão desbotadas, - disse o 315 olhando para os bilhetes amarelados que tinham acabado de sair da máquina de impressão.
- Calma que vamos arranjar uma solução, - exclamou o 78 do 7º A. – Juro que iremos ver os Genesis, comer um gelado no Santini e passear com uma queque.
Olhou para todos os lados e gritou:
- 496, tens canetas de filtro pretas?
- Na sala de aula!
Os claustros estavam mergulhados num silêncio profundo e numa negritude assustadora. Dois vultos embrenharam-se lá para os lados da sala da santa, que olhava no exterior para o Largo da Luz, e era quotidianamente apalpada pelos alunos, porque nestes tempos as apostas choviam a toda a hora, e era preciso ter os bolsos abonados para as jogatanas após a última cornetada da noite, o toque de silêncio. Quando estavam cercados pela escuridão foram surpreendidos por um feixe de luz no andar de baixo, ao mesmo tempo de um abrir brusco de uma porta.
- É a ronda, - avisou o 425.
Um brilho apagou tudo e um segundo depois a luz extinguiu-se, sinal de que  o vigilante rumara para outro recanto do Colégio Militar. A caneta foi entregue na tipografia e de imediato lançaram mãos à obra. No dia seis, apesar do pavilhão estar sobrelotado, alguém continuava a vender bilhetes junto à Chaimite estacionada na porta lateral paredes meias com o hipódromo, mesmo depois de terem anunciado lotação esgotada uns dias antes. Junto ao pavilhão havia soldados fardados, por isso o Maná passou despercebido. No dia sete a aglomeração de pessoas foi tal, que os soldados optaram por deixar entrar todos, com e sem bilhete, onde se incluiu o 78 que, ao aperceber-se da situação, e como Menino da Luz apto a desenrascar-se nas situações melindrosas, vendeu o seu, e o dos camaradas, meia hora antes, a uns queques de Cascais mascarados de hippies, que levavam as cabeleiras postiças das mães a cheirar a naftalina e os robes das sopeiras a Lavanda.
Nas memórias destes Meninos da Luz, o 75, o 78, o 315, o 425, o 472 e o 496, ficou a imagem do Peter Gabriel a iniciar o concerto com uma camisola branca e um blusão de cabedal preto, no meio de um cenário com luzes, efeitos visuais e pirotécnicos, imagens projectadas de slides, que chegaram aos mil, tudo isto mergulhados numa atmosfera que os deixou a cheirar a “Axe” durante os dias seguintes, e com os bolsos cheios de escudos, muitos deles derretidos horas depois na noite louca e revolucionária vila de Cascais!


 

Friday, May 16, 2014

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 65 - GOTE para o 33


Comandante Guélas

Série Colégio Militar

Através destas estórias ouve-se o respirar do colégio, assim como o vento e a luz, que são cúmplices da nossa passagem sobre o espaço. Na aula de Desenho o Pina Lopes dava um conselho ao Coiote:
- Jovem, a primeira coisa a aprender nesta disciplina é a afiar um lápis. Como futuro militar, se marcares o alvo num mapa com o lápis rombo, as bombas caiem ao lado. 
Além da teoria havia a prática na Tapada de Mafra, por isso a primeira tarefa da patrulha número quatro, 21, 176, 204, 230, 236, 239, 267, 303 e 502 consistiu em armar as tendas, seguindo os procedimentos militares. Até que uma cavilha resistiu ao embate do calhau e teimou em não entrar.
- Dá cá a espingarda, - pediu o 239.
Agarrou-a pelo cano e martelou a espia com a parte reforçada da coronha.
- Pareces uma menina, - gritou o 230, tirando a Mauser das mãos do 176.
Cobriu o ferro com uma parte da lona da tenda, ergueu a espingarda, e martelou impiedosamente a cavilha, mas desta vez com a face esquerda de madeira. A fúria apoderou-se do operário quando se apercebeu que nem assim conseguia enterrar a dita. Aumentou o ritmo, até que:

CRRRRRRR

Coronha para obras! Silêncio sepulcral, todos a olharem para a racha da arma. Optou-se por enrolar o “ferido” numa manta, até se decidir o que fazer com ele. Só após o toque de recolher é que se reuniu a patrulha, com uma lanterna, para encontrar uma solução para a Mauser.
- Tem de regressar intacta ao Colégio senão o capitão dá cabo de nós.
A lanterna contribuiu com um parafuso, que foi colocado, com o auxílio de duas chaves de fendas, na coronha.
- Não chega, precisamos de pregos.
- Sem cabeça!
O material estava nas botas de atanado. Três tornaram a coronha hirta como uma barra de ferro. Mas a ferida continuava visível. O terreno lamacento de Mafra providenciou o betume que tapou a racha. A Mauser foi colocada uma semana depois no armeiro, perante o olhar atento do oficial, que não colocou nenhuma objeção.
Havia também os dias especiais como o da condecoração do 33, que iria receber a medalha da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito, com o grau de Gande-Oficial. Como tinha sido impossível recebe-la no dia 10 de junho, por se encontrar ausente da Metrópole, e necessitava de estar perante dois batalhões, no mínimo, exigiu receber a insígnia no Colégio Militar. Teve como testemunhas o Batalhão Colegial, uma companhia de Cavalaria 7, uma Companhia de Lanceiros 2, e uma representação de Comandos Africanos da Guiné, os célebres “Flechas Negras”. Porque ia ter um papel muito importante no desfile do dia seguinte, o Maná aproveitou a noite quente de outubro de 1973 e ausentou-se com uns amigos do colégio. De regresso viram que o campo de futebol de 11 estava repleto de bandeiras nacionais hasteadas e só relaxaram na piscina quando as arrearam. Por estes lados já tinham andado outros artistas, que preferiram entrar no ginásio, juntar colchões posicionar uns quantos plintos e fazerem tarzans com as cordas. Para os Meninos da Luz esta festa revelou-se a maior seca de todos os tempos, pois tiveram de estar toda a manhã debaixo de um sol abrasador, a fazer “apresentação arma” de cada vez que chegava um convidado, e eles pareciam não ter fim. E ainda por cima o presidente Américo resolveu chegar atrasado, talvez devido a uma mudança de fralda imprevista. Nesta estória o responsável por marcar a cadência será o Maná, por ser o “primeiro da direita que comandava a escolta à bandeira” (palavras do próprio), apesar de já haver uns certos indícios de confusão, próprios da idade avançada, nos Meninos da Luz que participaram no fórum cujo tema foi precisamente este acontecimento do século passado.
Quando finalmente o Thomaz chegou, todos respiraram de alívio, ia dar-se início à festa em honra do 33. A cadência era cada vez mais lenta, dir-se-ia que o Maná estava a acusar o esforço feito na noite anterior, e ia lentamente adormecendo. Os pretos do 33 pareciam os artistas do posto fronteiriço de Wagah, que separa a Índia do Paquistão, e com o ritmo do 78 estiveram constantemente a travar, marcando passo.

Monday, April 21, 2014

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 64 - Meninas da Luz / Meninas de Odivelas


Comandante Guélas

Série Colégio Militar



“Não somos nós que decidimos a forma das coisas; mas as coisas em nós que decidem a sua própria forma” – Espinosa.

Estas estórias tornam o colégio ao mesmo tempo enigmático, límpido, silencioso e imenso. As nossas memórias são muito mais feitas de emoções do que realidades objetivas. Por isso o professor de Educação Física Isménio Tadeu contava sempre aos seus alunos que deixava o eléctrico arrancar para depois ir a correr apanhá-lo.
O calendário indicava vinte e cinco de abril do Ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de dois mil e quinze quando o ministro Alguidar e a Dona Berta entraram numa Chaimite no Colégio Militar, para a inauguração do edifício que iria albergar meninas, a já batizada “Torre do Pecado”, que tinha custado o dobro do inicialmente previsto, e o tamanho era menor do que o planeado, sinal de que parte do dinheiro tinha ido parar ao bolso de alguém. Iam tensos, amedrontados, pois tinham ousado mexer no que de mais sagrado havia para os Meninos da Luz: as Meninas de Odivelas! Que tipo de meninas seriam estas? Continuavam a ser as musas de antigamente, mas mais perto, ou passariam a ser as Meninas da Luz? Pelo caminho deram de caras com um cartaz que dizia “ Aberta vais levar um Ramalho”, assinado pelo temido “Grupo Zacatraz”, agora na posse de um suporte informático capaz de convocar todos os Meninos da Luz (alunos, professores e funcionários) desde a fundação do Colégio Militar. O Alguidar sabia que iria deixar de ter proteção especial, o governo estava de saída, vinham aí as eleições, e com elas a vinda do Inseguro, que nem uma palavra dissera sobre estes dois lendários colégios de Lisboa. À sua espera no porto estava o 281, o Tofa, pronto para lhe dar mais um apertão. Quanto à Dona Berta, regressaria aos esquemas antigos nas ilhas do Atlântico, escondendo-se uns tempos na Graciosa para deixar assentar a poeira. Mal ela sabia que na ilha estava o 502! Quando iam a passar junto ao campo de futebol uma nova faixa dava-lhes as boas-vindas: “Meninas só existem umas, as de Odivelas e mais nenhumas”. E era verdade, os elos que ligavam estes seres ultrapassavam todas as ideologias, e já eram património da Humanidade. Em 1964 o Comandante de Batalhão, o 8, tinha ido ajoelhar-se, em traje de gala, em frente à diretora do Instituto de Odivelas, pedindo desculpas pela invasão do ano anterior, vésperas da comunhão, quando um dos inúmeros grupos expedicionários de Meninos da Luz, a coberto das trevas, e aparecendo não se sabe de onde, talvez do túnel, um tesouro imaterial do Colégio Militar, tinha atirado pedras às janelas das meninas, a convidá-las para o pecado, dando origem a um acontecimento semelhante ao da independência do Brasil: “O grito da Fernanda”! O susto da Dona Deolinda foi tal, que chamou de imediato a GNR:
- E tragam cães com coleiras cheias de alhos, tenho a quinta infestada de demónios, e quero que as meninas continuem puras para a cerimónia de amanhã!
Mas não foi preciso a presença das autoridades, os cavaleiros tinham feito questão de deixar os números escritos nas paredes do dormitório. Um telefonema para o oficial de dia bastou para que o Colégio Militar preparasse a cela aos fugitivos, pois o “bom filho à casa torna”. No dia seguinte a Comunhão das Meninas de Odivelas foi marcada pela ausência dos Meninos da Luz na guarda de honra junto ao altar, tendo sido substituídos pelos Pupilos do Exército.
- Sentimos a falta do Penacho empinado dos nossos cavaleiros, - confessou mais tarde uma das alunas, desabafando - "tivessem os meninos vindo à nossa camarata que nós não gritávamos!".
- O dos pilões é só pêlo! – Retorquiu outra.
O presente do Alguidar era uma pálida amostra do negrume do futuro que se aproximava. Por isso vacilou:
- Berta, achas que estamos seguros aqui?
- Fizemos um erro, mas agora temos de seguir em frente, - respondeu-lhe a açoriana, espreitando pela vigia.
A “Torre do Pecado” era vista como uma cápsula do futuro, enquanto o decreto que extinguia o Instituto de Odivelas não fosse revogado. Até lá os Meninos da Luz guardariam com todo o amor e carinho as suas musas, até ao dia D, em que elas regressariam à origem, com a Escolta a Cavalo e os Penachos verdes empinados.

Tuesday, April 15, 2014

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 63 - Os Demónios da Luz


Comandante Guélas

Série Colégio Militar



- As nossas relações estão cortadas, - gritou a Dona Deolinda, – já não iremos mais às vossas festas, nem os convidaremos para as nossas.
Os Meninos da Luz tinham atingido o patamar da praga nas noites frias de Odivelas, estavam ao nível do Rhynchophorus ferrugineus que se saciam atualmente com as palmeiras do país, por isso era preciso desativar os demónios. Já não bastava o estranho “milagre” que tinha colocado em cima da secretária da diretora um frade das caldas em sentido, era agora o grito alucinante da pequena aluna Fernanda que atormentava os sonhos que a chefe máxima das Meninas de Odivelas dizia serem puros. Seria possível que os meninos desaçaimados do Colégio Militar tivessem finalmente encontrado o mítico túnel, que ambos procuravam com “engenho e arte”, eles escavando com as mãos o terreno junto à pista de obstáculos, e elas tentando deslocar uma laje junto à caixa onde repousava o rei, usando como ferramentas as suas pulseiras com o grupo sanguíneo, que no passado colocara os frades nas alcovas das noviças? Recuemos!
A revolução estava na fase da bandalheira, havia Durões Barrosos em todas as esquinas a gritar que a Albânia era o farol do socialismo, nacionalizava-se tudo o que mexia, só faltava as Meninas de Odivelas passarem a ser propriedade dos “operários, camponeses, soldados e marinheiros”. Por isso a segurança fora reforçada, havia patrulhas na quinta contígua ao mosteiro com ordens para dispararem contra os intrusos. Mas nada disto demovia os possessos Meninos da Luz cujo “ardor guerreiro” os impelia a tentar alcançar os ninhos das suas dulcineias, e ainda por cima com o Colégio Militar em formato de balda geral, onde a autoridade tinha atingido o nível mínimo, facilitando as fugas maciças da escola pública cujo Estado se tinha comprometido perante as famílias a guardar os seus filhos durante a semana. Conheciam todos os recantos, Odivelas e a Luz eram uma só entidade, como atualmente. E numa noite a presença destes jovens adolescentes chegou ao conhecimento das meninas do D. Diniz, provocando uma debandada geral da camarata, que deu nas vistas, porque mais parecia a manifestação do 1º de maio a seguir à revolução. Com isto a tia Deolinda ultrapassou a beira do ataque de nervos e tomou medidas excepcionais, mas nem essas conseguiram conter as visitas de cortesia dos cavaleiros da Luz. Estavam indomáveis! Teria aquela visita oficial, em que a Escolta a Cavalo viera da Luz até Odivelas, onde foi recebida em apoteose por meninas a acenar com lenços brancos da varanda que dava para o largo, acendido o rastilho? Teriam os Meninos da Luz confundido os lenços com cuecas, e estavam agora a querer receber os troféus? Quando o 147 espreitou através da janela da camarata feminina, deu de caras com o rosto angelical da Fernanda, e sentiu a flauta a arrebitar. Para a menina ele era o herói que a despertara do sonho de amor aos soluços, que lhe trazia agora relâmpagos, fragmentos curtos, súbitos clarões. Um brilho apagou tudo e um segundo depois a luz extinguiu-se. Primeiro deu um grito silencioso e deitou-se como se fosse feita de milhares de pedacinhos coloridos, agitada. Sentiu a sombra do pecado a movimentar-se no soalho e a aproximar-se de si. Na janela centenária viu um rapaz atlético, alto e espadaúdo, de olhos vivos, capazes de engolir o que viam, com um sorriso de marfim. Sentiu a respiração ofegante, um súbito calor subiu dos pés à cabeça. Mas a figura omnipresente da Senhora Dona Deolinda trouxe-a de novo à realidade, pois o grito que deu foi tão alto e assustador, que até a barbicha ruiva que sobrava dos restos do monarca se arrebitou com o barulho, assustando aquelas que calmamente fumavam um cigarro junto ao túmulo. O corte de relações entre o Instituto de Odivelas e o Colégio Militar foi imediato, a Dona Deolinda comunicou à direcção dos Meninos da Luz que a partir daquele momento deixaria de enviar delegações às festas deles, e eles estavam proibidos de assistir à grande seca da Abertura do Ano Letivo delas. Mas como os arrufos de namorados são sol de pouca dura, bastou uma delegação de alunos com caras de anjos deslocar-se ao Instituto de Odivelas e pedir formalmente desculpas à Diretora, para tudo ficar na mesma. Tinham sido feitos uns para os outros!