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Thursday, June 16, 2011

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 49 - A Guerra dos Pitrongas




                       Comandante Guélas


                                     Série Colégio Militar



A campainha tocou na casa do velho Peidão, e quando este ícone paçoarcoense abriu a porta, deu de caras com o Piitrongas, acompanhado pela tia, a ex-rainha das meias do Rossio, cuja fortuna tinha estado até agora garantida para os dois sobrinhos flamingos, o que estava ali, senhor de um só neurónio, e o outro que se intitulava catedrático anglo-saxónico, cátedra trocada pela ocupação selvagem da casa do Pinto, o último homem a servir-se da sua mulher, uma vez que ele fizera questão de vir cá baixo buscá-la, alguns meses depois de ter ido para o “Condominium St. Peter”.
- Se me ouvires gritar à noite é porque o meu Pitrongão está a tentar-me matar, - disse a velha ao incrédulo Peidão, recolhendo ao carro.
Os carretos da senhora já tinham tido melhores dias, mas ultimamente estavam a riscar-lhe o côco e a alterar-lhe a perceção do mundo. Escolhera como alvo o sobrinho mais velho, a quem uns anos antes tinha telefonado para os states a informá-lo da morte do vizinho, que não tinha herdeiros, mas fora o responsável pela fuga da sua mulher, a Rosinha, que tivera pena do velinho e se oferecera para ser a governanta dos seus inúmeros bens após a sua morte, que esperava que fosse breve. E foi, mas para ambos!
- Tens de vir tomar posse, - explicou a tia ao Pitrongão uns anos antes. – O Pinto e a tua ex-Rosinha deram o berro, e o rebento que tu pensas que é teu, mas não é, é o único herdeiro.
- Mas, tia…
- Nem mas, nem meio mas, tens de fazer o que eu te estou a mandar. De fortunas percebo eu.
E percebia! Caíra nas graças do velho das meias do Rossio quando era sua empregada, porque fora a única que se sentara a jeito no colo do patrão, hábito que ele desenvolvera no final de cada mês no dia do pagamento dos ordenados. Foi casório para toda a vida, e património destinado em testamento para os irmãos Pitrongas. Mas tudo se alterou quando a velha tia meteu na cabeça que o Pitrongão andava a roubar-lhe as jóias, que ela misteriosamente era vista a esconder numa caixa de bolachas na despensa. Nem estas testemunhas serviram de atenuante, e o nome do sobrinho mais velho saiu do papel e foi considerado persona non grata. A parte intacta do cérebro tomava sempre a dianteira nestas ocasiões solenes, mesmo na altura em que o deserdado obrigara a tia a comparecer perante um juiz, que a considerou apta para todo o serviço, incluindo permanecer encartada, gesto que há anos não fazia, mas que agora teimava em repetir, apesar da sua avançada idade.
- Deixa-a guiar, é da maneira que o problema fica logo resolvido na primeira esquina, - aconselhou-o um amigo. – Com um bocado de sorte na curva irá a passar na altura o meritíssimo.
O Pitrongão achou-se injustiçado e  resolveu recorrer da decisão.
- Até as testemunhas me traíram, - confidenciou ao velho Peidão, quando o apanhou uma noite a pé em direção à vila. – Nunca falei com elas, como é costume nos anglo-saxonicos, e eu menti e elas disseram a verdade.
O ato falhado apanhara o ex-herdeiro da parte das piugas da tia em falta,
- Para a próxima pergunta-lhes se querem ir a tribunal, - atirou o velho Peidão, o mais sensato cidadão de Paço de Arcos, em jeito de despedida.
Soube-se no dia seguinte que a velha aproveitara as contradições para avançar com um anexo do veredito, aceite de imediato pelo juiz, que declarava os pitrongas excluídos das mudanças diárias das fraldas da tia, atribuindo a nobre tarefa aos herdeiros da parte do falecido marido, que há anos fugiam deste imbróglio como o Diabo da Cruz. Acabou por ser o Pitrongas a fazer a muda, pois a empregada contratada fugira a sete pés e os responsáveis estavam incontactáveis. 

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