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Saturday, April 17, 2010

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 32 - Tiros para que te quero


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Comandante Guélas
Série Paço de Arcos

Quis o destino que uma soberba espingarda porção-de-ar Diana 38, com mira telescópica, fosse parar às mãos do adolescente mais responsável do alto de Paço de Arcos, que tinha uma alcunha não muito amiga do ambiente, Peidão, ganha a muito custo no Colégio Militar, onde durante alguns anos ostentara o número 191! O primeiro ensaio de tiro foi feito no mirante da casa onde morava o gang dos dez irmãos, tendo como alvo as cortinas do vizinho, que nesse dia esvoaçavam graciosamente ao sabor do vento. Ao aperceber-se que podiam fazer a vez dos pardais, o Milhas agarrou nos manos, a Ínclita Geração, e refugiou-se nos quartos. A resposta não se fez tardar, o amigo desceu à cave para ir buscar a sua carabina e responder à ameaça, não sem antes o Janeca partir o vidro da casa de banho quando tentou assistir ao contra-ataque do mano. Desde esse momento ficaram cientes de que quando o papá chegasse haveria chicotadas psicológicas e físicas para todos. O campeonato de tiro foi ganho pelo Graise, com distinção, depois de ter furado inúmeras vezes as cortinas, que deixaram de esvoaçar porque o ar já passava pelos buracos, e molestado duas vezes o traseiro do Quicas. O Milhas mostrou ser um adversário sem espírito desportivo, uma vez que disparou contra a pobre da Diana 38, numa altura em que o Peidão e o Chico Paulo, dois jovens com tendências missionárias, a abandonaram depois de terem sido emboscados quando tentavam arrebentar com o outro vidro da casa de banho, não fosse o Janeca parti-lo também e aleijar-se. À noite a festa foi outra, e consistiu num assalto à casa do Conan Vargas, o único paçoarcoense que dava “sete seguidas sem ver a luz do Sol (sic), e que estava sozinho em casa com as manas. Mas macho que era macho estava sempre em alerta, não fosse alguma fêmea ousar passar por perto, e desta vez também não foi diferente. Apercebeu-se da invasão e ainda foi a tempo de se trancar por dentro, excepto um dos quartos do rés-do-chão. Conseguiu sentir a respiração dos vinte amigos a arrastar os móveis para o jardim e passou ao contra ataque no momento em que eles se prepararam para trepar ao primeiro andar por uma das varandas. Montou uma emboscada com a sua carabina de ar comprimido e acertou em cheio na barriga do Peidão, que desceu em queda livre, agarrado ao Pilas, tendo ainda tempo o Pontas de evitar o esmagamento. Como o Mac Macléu via mal de noite, e alguns diziam que também de dia, a segunda chumbada apanhou-o de costas e o chumbo foi de encontro ao seu bumbum. Respondeu com um “ai” e com um calhau, que passou a rasar a cabeça do Conan e o vidro. Foi altura de içarem todos a bandeira da paz e irem para os copos. O dia seguinte iria ser de guerra: brincar aos polícias e ladrões na quinta ao lado…à chumbada! Logo de início foram definidas regras, estavam proibidos de atirar às cabeças uns dos outros. Era justo e mostrava que estes rapazes, que provinham das melhores famílias de Paço de Arcos, tinham muito bom senso … até quando brincavam. O Conan Vargas apresentou-se no campo de batalha disposto a vencer, trazendo um coldre com uma soberba pistola e o camuflado do jardineiro, o senhor José, que estava de relações cortadas com a mulher e como tal acampara, com um cadeirão de verga, no terreno ao lado da casa onde morava o Bugio. Para que a luta fosse justa, trouxe para o Graise a espingarda da noite anterior. O Peidão colocara a mira-telescópica na sua Diana 38 para amedrontar os adversários, não deixando assim os pergaminhos de descendente de militares em mãos alheias. Por unanimidade o Zé dos Porquinhos e o irmão foram escolhidos como lebres, para assim os amigos poderem afinar as miras. Ainda protestaram, mas foram sensatos quando se aperceberam que a decisão era irreversível. Correram para os lados das colmeias e o primeiro a disparar foi o guerreiro da pistola, que causou o riso geral quando apertou o gatilho: a bala demorou a sair, fez um percurso em arco, todos a acompanharam até cair no chão e os pardais nem se mexeram. Seguiu-se o Peidão e a sua elegante mira, que espreitava para um lado e acertava no outro, ou seja, tirou o talho ao João e acertou no cu do Zé, que foi aos berros para casa, não a dizer “ó mãe dá-me uma carcaça que eu estou cheio de traça”, porque essa frase era exclusiva do mano, mas sim, “os meus amigos estão a dar-me tiros”. Estranhas brincadeiras! Quanto ao bacamarte do Graise, disparou várias vezes, mas o chumbo recusou-se sempre a sair, optando por ficar a dormir a meio do cano. Só ao fim de algum tempo, e após várias insistências, lá caiu aos pés do inconsequente adolescente. A inocente brincadeira foi bruscamente interrompida com a aproximação da dona Rosa, mãe das lebres, que vinha pedir explicações com uma enxada nas mãos.

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