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Monday, January 19, 2009

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos - GNR versus Picadili


Comandante Guélas
Série Paço de Arcos
Aquela manhã de segunda-feira era de treino, o Circuito de Manutenção A do Estádio Nacional iria receber a visita de dois expoentes máximos do atletismo paço-arcoense. O Gang dos Meninos Ricos e Caucasianos de Paço de Arcos tinha de estar sempre em boa forma física, pois as “chinchadas” à fruta do senhor Manuel eram diárias, assim como o gamanço nocturno dos peixes dos vários lagos da Quinta do Leacoke. O meio de transporte utilizado pertencia ao Mac Macléu Ferreira, uma soberba Vespa 50, como jurava o livrete, mas com centímetros cúbicos clandestinos devido a estar “Kitada”. Um problema de última hora obrigou a uma mudança nos planos. Os atletas não levaram capacetes porque as instalações do Estádio Nacional encerravam sempre nesse dia da semana. Confiavam na Providência Divina que, com toda a certeza, iria proteger estes dois devotos praticantes das garras da autoridade. O seu currículo provava que eram portadores de um documento, passado pelo Arquivo de Identificação de Lisboa, após autorização da PJ, que atestava o “bom comportamento cívico e moral” destes “filhos de boas famílias”. E o São Pedro sabia disto!
- Não vai aparecer ninguém, eles acordam sempre tarde, - explicou o astuto motorista, limpando os óculos.
Quando o par de adolescentes ia calmamente a fazer o aquecimento em cima da mota, fumando alegremente dois GS Filtro, apareceu, não uma, mas duas BMW da GNR e um carro patrulha, com tudo o que era sirene a gritar. O estudante Mac Macléu Ferreira olhou para os agentes e informou-os de que iria imobilizar-se no carreiro que estava em baixo. A autorização foi concedida e o Peidão, como cidadão exemplar, fez pisca para a direita com o braço e só o desfez quando se apercebeu que o companheiro de treino não só não fazia questão de parar, como seguiu caminho pelo morro abaixo, fazendo zig-zagues por entre os pinheiros, que cada vez eram mais. Por momentos os agentes da autoridade não reagiram, ficando divertidos a apostar quando é que os jovens desportistas iriam marrar numa das árvores. Contra todas as probabilidades, as dioptrias do Mac não foram um empecilho, mas sim uma vantagem. Ele tinha aprendido a conduzir por instinto. Aperceberam-se que não iriam ganhar nada, a não ser uma repreensão do chefe ao final da tarde, e arrancaram em alta velocidade para a rua debaixo, onde ia desembocar o morro. Quando o adolescente desportista Mac Macléu Ferreira viu o comité de recepção, deu meia-volta e acelerou para o cume, mas desta vez com um cavalo extra, o Peidão, que passou a empurrar a Vespa, pois a menina ainda estava em rodagem e não convinha dar o berro naquele momento. De repente apareceu uma depressão e os três deitaram-se de imediato. Lá em baixo ouvia-se o barulho das autoridades desesperadas. Meia-hora depois o silêncio.
- Despistámos os chuis.
Levantaram-se e decidiram empurrar a máquina até ao alcatrão mais próximo, ou seja, na parte de cima das bancadas do campo principal. Quando se preparavam para deixar a terra batida eis que dão de caras com uma operação “stop” personalizada. Dois GNR saciem sorridentes detrás de uma árvore, empunhando pistolas. Novo treino, nova corrida. Mac Macléu Ferreira começa a correr e a empurrar a mota com a mão direita, ao mesmo tempo que levanta o braço esquerdo em sinal de “meia-obediência” à ordem de rendição dos agentes da autoridade, com o companheiro de equipa a fazer o mesmo, mas com os braços trocados.
- Não atire, não atire, - atiraram os paço-arcoenses, à medida que a rotação das pernas ia aumentando.
Mas a prova era desigual, a vantagem tendia para os representantes do Estado. Bastaram meia dúzia de metros para deitaram a mão aos adversários, que foram de imediato conduzidos para junto das BMW, que estavam escondidas junto a uns pilares do edifício central.
- Que azar senhor guarda, - interveio o Peidão, o que fumava menos. – Tivemos quase para descer o morro outra vez.
- Vocês são sempre os mesmos. Fogem pelo carreiro, escondem-se e depois julgam que despistaram a polícia, - explicou o agente, rindo-se. – Basta-nos vir para aqui esperar.
A autoridade demonstrava aqui que havia já um estudo estatístico das ocorrências no Estado Nacional, apesar de tudo se ter passado numa altura em que a 4ª classe bastava para se pertencer a um órgão de soberania. Dirão hoje os nossos pais que na altura deles é que o Ensino era a sério!
- Sem capacetes, sem documentos, uma fuga à autoridade, uma tentativa de fuga, isto vai ser uma pipa de massa, - prometeu um dos agentes abrindo o bloco e começando a escrever.
Quando entregou o papel, constava só uma multa, falta de capacete do condutor.
- É para não irem para o café de Paço de Arcos dizerem que enganaram os chuis.
Os atletas adolescentes agradeceram a compreensão e partiram estilo cordeiros a empurrar a Vespa-50 de Mac Macléu Ferreira, agora com a ajuda das duas mãos.
- Podem ir montados na mota. Era o que iriam fazer mal dobrassem a esquina.
O condutor deu ao “kiko” e a mota atirou para o ar os centímetros cúbicos clandestinos.
- Belo motor, - riu-se o polícia.
A equipa de atletismo da GNR tinha acabado de cilindrar o duo do café “Picadilly” (“Pica”)!



1 comment:

Anonymous said...

Pagava para ter visto..