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315 estórias

Tuesday, April 13, 2021

Mixórdia Colegial

 




O Comandante Guélas


Série Colégio Militar

 

Nesta estória o princípio, o meio e o fim são dedicados a um fâmulo famoso dos anos setenta, abarca vários assuntos, os pioneses do comportamento, a filha do caseiro da Feitoria e outros cavanços. Era mais seguro o Moreira andar com a caixa de bolos no Largo da Luz do que dentro do Colégio Militar. E houve um dia que nem teve tempo para os guardar no seu cacifo, pois foi logo emboscado num corredor, vinte “senhores alunos” empurraram-no contra uma parede, enquanto outros gamavam-lhe a bolama, ao mesmo tempo que distribuía abrunhos raivosos aos que estavam ao seu alcance e gritava:

- Bós sois piores que os ciganos!

Mais tarde teve direito a um assessor, o Cylon que, tal como o professor Loureiro, os olhos apontavam para lados diferentes.

Com a revolução veio outro conceito de avaliação comportamental, a justiça sumária das chapadas e dos murros em sentido foram substituídos por um quadro em que cada aluno era senhor de um pionés, que subia e descia consoante o seu comportamento. Abaixo da linha de água era suspenso, acima das nuvens recebia um louvor. E como estávamos na balda, perdão, democracia, apelava-se à responsabilidade revolucionária, o placard estava a descoberto. Resultado, o 69, o Fernandinho, o nome mais vergonhoso do Colégio Militar, que tinha o blaiser cheio de lacinhos coloridos, que marchava sempre com os braços esticados à altura dos ombros, que tinha a parte posterior das botas mais gastas e mantinha o desempenho mesmo com os colegas a darem-lhe pontapés na peida, dum dia para o outro estava na linha de água. Em contrapartida o 125, 191 e o 601, cabulões encartados, estavam à beira do Quadro de Honra, por isso o tenente Mota nem queria acreditar:

- Estão a gozar com a democracia!

O Processo Revolucionário em Curso teve de recuar neste espaço educativo exclusivo, o contador de comportamentos foi preso numa vitrine com chave.

Diziam que a Rosa tinha uma rival, a filha do caseiro da Feitoria, à qual aparecia sempre o 151 nos seus sonhos molhados. Era a musa do espaço, dona da única cabine telefónica, instalada na casa do pai. 

Quando o aluno aterrou do lado de fora do Colégio Militar, após ter saltado o portão, para usufruir de um pouco de liberdade, deu de caras com um par de sapatos.

- 634, onde vais?

Levantou os olhos e viu o Diretor, para azar dele o Casanova morava em frente ao colégio. Mas um Menino da Luz tem sempre uma carta na manga:

- Ia ver o Benfica, - respondeu sabendo que o oficial era um adepto ferrenho do clube.

- Então não ias, vais, - e deixou o rapaz ir à sua vida.

Após o Glorioso vencer, comeu um clássico bitoque no Ricochete e entrou lá para os lados do campo de aeromodelismo. Mas houve um dia em que o diretor bateu um recorde, caíram-lhe oito fugitivos aos pés. O primeiro saltou e apercebeu-se de um carro que parou ainda ele ia no ar e antes de ser apanhado avisou os camaradas:

- Está aqui o Dito!

- Epá, não brinques com esta merda, - e avançaram!

Havia quem se ausentasse para ir beber um copo no “Mae Preta”, nome inadmissível nos tempos de hoje onde as histéricas, de todos os géneros, reinam como "senhoras",  cujo nome caracterizava o tipo de restaurante. Outro após o salto ouviu o barulho de um carro a chiar e alguém a gritar:

- Que merda é esta a saltar o portão, já lá para dentro!

Era um ex-aluno a gozar, que lhe deu boleia. Havia 3 técnicas para que os vigilantes não dessem pela falta dos alunos: um boneco feito com almofadas cujo cabelo era a escova dos sapatos, pedir a um colega mais afastado que ocupasse a sua cama após o vigia passar por ele ou desmontar a cama e esconde-la!

Nesta manhã os cúmplices do 549 distraíram o Moreira, e ele escondeu-se dentro de um saco no cubículo onde ele guardava a mercadoria. Bastou ir à sua vida para que a porta se abrisse e a bolama desaparecesse num abrir e fechar de olhos.

O 271 foi um dia com um camarada ao “Aranha” comer um pastel de nata, e no regresso foram apanhados por um graduado, o 527, que lhes ordenou que fossem comprar uns bolos para ele. Os pastéis de nata da excelência vieram carregados de sal, por isso o castigo foi um mês de apresentações à alvorada. O 634 estava imparável, cavou com uma trupe em direção ao cinema Condes, onde compraram os bilhetes mais baratos e assistiram entusiasmados um filme para adultos, que lhes deu uma fome danada, por isso após a sessão foram comer bifanas lá para os lados da estação do Rossio. No fim de semana o pai quis saber como corria a sua vida académica, e ele não se fez rogado, esgalhava como um Ronaldo nos treinos de remo no Alfeite, que decorreram no dia da ida ao Condes. Azar dele, um camarada do pai tinha ido ao cinema naquele dia e vira-o!

E como prometido a estória acaba com o Moreira desesperado à procura do 695, a quem tinha vendido dois bolos a crédito, porque o aluno alegara ter o dinheiro na farda de pano guardada no armário da companhia. Nestes tempos o número mais alto era o 694!

 

 


Sunday, March 14, 2021

Finalistas em Porto Santo

 



O Comandante Guélas

Série Colégio Militar

 

Quantos de nós já não se lembram do que fizeram no passado, fazem-no no presente e querem, ou não, repeti-lo no futuro? O 92 de 1934 disse que no Colégio Militar havia “uma espécie de democraticidade efetiva entre os alunos (…), todos tínhamos um número”, ou seja, nada de classes sociais. Mas no curso de 71/78 havia castas e na viagem a Porto Santo elas ficaram expostas. Na Madeira os fait divers sucediam-se, desde o roubo dos botões do Fernandinho, passando pelas berliets que deixavam os meninos todos molhadinhos de cada vez que entravam e saiam dum túnel, da procura incessante das Meninas do Maria Amália até ao ataque de caspa monumental de um Menino da Luz na piscina da Matur, que pôs em causa a segurança da ilha. Num dos dias do intenso programa de secas, os finalistas rumaram à ilha de Porto Santo mas, por serem muitos, foram divididos em dois grupos, uns iam de Aviocar e outros numa lancha da marinha, transporte que trocariam no regresso, uma espécie de alterne, não fosse o Colégio Militar “uma espécie de democraticidade”. E foi aqui que entrou em ação a casta dominante! Mas, continuemos. A viagem de avião até Porto Santo correu da melhor maneira, os finalistas chegaram alegres, por isso fizeram brilhar os olhos das nativas. No barco a estória foi outra, o mar alteroso não ajudou na viagem, quase todos os Meninos da Luz bolsaram, à grande e à francesa, e o seu cheiro azedo, e cor de defunto, sobrepôs-se ao do peixe, assustando as filhas das vendedoras que fugiram em debandada. O contraste era flagrante, uns estavam rijos que nem sardas, os outros tinham-nas flácidas e com cheiro a decomposição.

- Nem pensar, não vou de barco, - resmungou um, metendo a mão no bolso e tirando uma nota de vinte escudos.

- Mas isso é o preço de um rodeo na Dallas Cowboy, - reclamou outro.

- Paciência, mas não chego bolsado ao quartel!

A malta da massa, a casta superior desta estranha “democraticidade”, tinha razão, era mais cauteloso subornar os camaradas que deveriam regressar no avião, do que ficarem expostos aos humores do mar das ilhas descobertas por João Gonçalves Zarco e o Tristão Vaz Teixeira, bem representados naqueles dias pelo Primo Orelhas e o Maneli, o único que conseguia adormecer as galinhas do pai da Rosa. Para a casta inferior um Santo António dentro das calças de cotim era uma sorte, e ainda por cima nas noites mágicas da ilha da Madeira com as Meninas do Maria Amália em roda livre. Para a casta superior era somente uma mudança de óleo a menos na “Albertina das Mamas Grandes”. O Aviocar trouxe no regresso uma parte daqueles que levara, mas para azar deles o mar estava chão para os que vieram na lancha com os bolsos forrados de santo antónios!  


Sunday, March 07, 2021

A Maddie Colegial

 


O Comandante Guélas

Série Colégio Militar

Estava a reunião no zoom a decorrer, sob a coordenação do Querido Líder Gordini, quando os presentes foram confrontados com uma triste notícia: o Peida Gorda tinha desaparecido dos radares, dava a sensação que andava a fugir do seu passado colegial. Logo este cujo número encerrava o título das comemorações dos cinquenta anos de entrada do curso de 1971, “Do 8 ao 668”, apesar de ter havido mais um, o 675, o Serra. Criou-se logo ali um grupo de busca do Peida-Gorda, dirigido pelo insaciável Escalope.

- E não é só o 668, - confidenciou o 601, deixando cair uma única lágrima.

- O quê, há mais? – Indignou-se o Zacarias.

- Infelizmente o Canibal também está desaparecido, - respondeu a seco, e sem preliminares o Gordini.

As comemorações arriscavam-se a ter de mudar de lema: “nunca tão poucos comemoraram por tantos”!

- Abri o Blog, enviei centenas de convites e só tenho meia dúzia, - queixou-se o Ginho, ao mesmo tempo que ouvia a entrada de mais um cliente. – Sete, o Peidão acabou de entrar.

- Só agora encontrei o botão, - justificou-se o 191, que não tinha tido o número mais vergonhoso do Colégio Militar, 69, do Fernandinho, mas que agora era olhado de lado por não ser uma alcunha ambientalmente aceitável.

Enfim, contingências de um colégio especial a quem ninguém podia escapar, nem mesmo que o Peida-Gorda fosse viver para a Antártida, com toda a certeza, o Monhé mais tarde ou mais cedo iria declamar um “Zacatraz” à porta do seu iglô.

- Eu vi o Canibal, - exclamou o 27, um pouco embaraçado.

- Onde? – Perguntou o Querido Líder, aproximando um olho da camara.

- A última vez que vi o Canibal foi no cinema Império, quando eu e o Cebola fomos ver a “Garganta Funda”, perdão, “A Música no Coração”, e ele quis vir connosco.

O Cebola dizia que ele espantaria as fêmeas amigas e por isso na altura de comprar bilhetes arranjou-lhe um na primeira fila, entregou-o ao pirilampo que o conduziu de imediato o Canibal ao seu lugar. O 27 viu-o desaparecer na noite fria do Cinema Império.

- Lembro-me do seu sorriso, ia todo contente por ir ficar mais perto da garganta da artista.

Tinham agora mais de quarenta anos de avanço, o Canibal estava desaparecido há mais tempo que a Maddie, mas para os Meninos da Luz nada era impossível.


Saturday, February 20, 2021

O Capitão Caetano


O Comandante Guélas

Série Colégio Militar


- Sua Excelência meu capitão, dá licença que penetre?

O bigode do Comandante da Terceira Companhia eriçou-se, sinal de que o pedido do Bomba H entrara a seco, sem preliminares, na sua alma militarista. A primeira missão a que se propôs foi acabar com uma tradição, o “descaminhamento dos alunos”, ou seja, roubar à grande e à francesa, começando pelos graduados ao domingo à noite junto à Enferma. Ao “descaminhamento” estavam diretamente ligadas outras atividades extra-curriculares como as firmezas, a banalidade do mal, às quais o capitão Caetano fechava muitas vezes os olhos e assobiava para o lado quando era Oficial de Dia, as apresentações à alvorada, missões impossíveis que invariavelmente levavam o aluno a chegar tarde à formatura e a ser sujeito a outra tradição, levar nos cornos em sentido, uma estalada ou um murro, consoante o grau de psicopatia do graduado.

- Estão proibidos os cadeados nos armários!

Como era de prever, o índice de “descaminhamento” teve um aumento exponencial, assim como outras atividades a ele ligadas. Foi a primeira fatwa do Capitão Caetano, especialista em carolos e em inspecionar cabelos durante as formaturas que antecediam as saídas ao fim-de-semana.

- O seu cabelo não está em condições, tem de ir cortá-lo – disse, bloqueando o aceso do 280 à vitrine onde estava o cartão que lhe permitia sair.

Mas o Comandante da Terceira Companhia tinha um assunto mais premente a resolver nesse mês de fevereiro do ano de 1975, ler ao encarregado de educação do aluno 191 o relatório dos incidentes ocorridos junto à bomba de gasolina colegial entre uma administrativa achinesada, que resolvera abastecer o carro, e a rapaziada duma turma do 4º ano instalada no 1º andar. Atrás da porta dois dos arguidos ouviam atentamente a leitura do documento:

- … e o aluno 125 gritou “abre as pernas que eu vou de cabeça”, ao que o colega 191 acrescentou “senhor soldado, não se engane no buraco, olhe que é o do carro”, sendo imitado pelo 601 “não queres segurar na minha mangueira” …

A investigação deu uns dias depois origem a um primeiro Ofício Circular coletivo, “Encarrega-me Sua Exa. O Brigadeiro Director de transcrever a V. Exa. O nº 1 do artº 10º da Ordem de Serviço Militar, nº 47, que é do teor o seguinte: punições com 2 dias de suspensão, cada um dos alunos da 3ª Companhia e do 4º Ano nºs: 157, 601 e 653, por no dia 30 de Janeiro de 1975 terem dito “palavras insultuosas para com um funcionário deste colégio, que foram ouvidas por elementos militares e civis, que se encontravam no local de abastecimento de gasolina”; e a mais dois Ofícios Circulares personalizados com a data de 26 de fevereiro de 1975, um para o Horrível, com três dias de suspensão que, com toda a certeza, iria aproveitar as férias antecipadas para dar “8 de seguida sem ver a luz do sol”, não fosse ele, segundo opinião própria, o maior fodilhão colegial;  e outro para o Peidão, quatro dias, por ser reincidente, já tinha ficado detido uns dias durante umas férias da Páscoa, uma segunda pena para o mesmo crime, a primeira fora sumária, um enxerto monumental à noite aplicado pelos psicopatas de serviço em frente à companhia, como jovem chefe de turma despejara uns anos antes todo o óleo de fígado de bacalhau existente no espaço sobre a cabeça do Stratopel, uma justiça que o diretor achara ser exemplar, tendo reforçado a opinião mostrando aos encarregados de educação, que o questionaram porque é que a excelência não considerava a tortura o suficiente, uma moldura com um documento que o atestava como um ser justo, uma espécie de rei Salomão dois em um. Mas voltemos ao início da estória com o pedido do Bomba H:

- Meu capitão, dá licença que penetre?

O aluno sentiu de imediato o calor intenso que saia da alma do oficial, que se projetava em estilhaços por todas as direções, sentiu a fúria aterradora, tão poderosa que até a porta do gabinete tremeu. Como um astronauta na Lua em movimento rápido, correu para o corredor com saltos de gigante, não sem antes sentir a deslocação do ar da tentativa de abrunho do capitão Caetano, embrenhando-se pelo geral da Companhia com um superior raivoso no seu encalço.

Sunday, February 07, 2021

O Regresso do Conan

 


O Comandante Guélas

Série Paço de Arcos

O Choné, um dos últimos humanistas de Paço de Arcos, estava preocupado com o Conan Vargas, por isso enviou-lhe um pdf da Playboy, sem se aperceber dos riscos que a vila corria. Com o seu ato irrefletido arriscava-se a transformar o maior cobridor da vila, bem imaterial da Costa do Estoril, num onanista incontrolável, que trocaria o acelerador da sua TMax pelo pescoço do seu frango, e isso era uma heresia para o Tribunal do Santo Ofício da República Independente do Alto de Paço de Arcos (TSOR), dirigido pelo implacável Proveta, que andava desaparecido, depois do jantar de natal. O Querido Líder mandou, para o bem da nação, suspender a conta do careca coxo. O bicho ia fazendo o seu caminho, o Focas também já não conseguia sentir os seus flatos, por isso o condomínio ressentia-se, enquanto o Conan queixava-se de uma dor no peito que lhe dificultava a respiração, tudo isto porque insistia em ter a ovelha por cima a cavalgar-lhe o frango. Se tivesse seguido o conselho emitido pelo governo de New South Wales, na Austrália, de “masturbação mútua” bastava pôr a Franginhas de lado. Em fuga do Cociolo andava o misericordioso chinês com um passado alcoólico, perdão, acólito, a inteirar-se da saúde dos amigos e futuros clientes:

- Está a olhar pelo rebanho, - comentou o Orlando em confinamento numa bancada de padel.

- A mim tu não fritas, - disse-lhe o Neto. – Já estou a sentir-me melhor!

O primeiro sinal da boa-nova veio quando o Doutor Professor Ánhuca, do Centro de Estudos João da Quinta, estimou que, desde que o homem era sapiens, tinham já nascido 108 biliões de pessoas, conta esta validada pelo Professor Coelho, mas só uma chegara ao livro de Ciências Naturais da vila-Estado de Paço de Arcos: Conan Vargas! Por isso a notícia do seu iminente regresso estava a deixar as fêmeas nervosas, e ainda por cima geometricamente alimentadas pelo artigo científico que dizia que o pénis dos infetados ficava maior após a saída do bicho.

- Vamos fazer uma procissão de agradecimento, - propôs a Espirro de Punheta.

Mas a notícia porque todas esperavam veio pela boca do Orlando:

- O Vargas já tem alta! – E tossiu para cima do Chinoca, que fizera uma visita comercial de cortesia ao seu saudoso amigo muito estimado. E disse mais:

- Regressará numa noite de nevoeiro na Praia Velha com um blusão Hardley Davidson com 560 cm3, 215 Kg de músculo e 48 cavalos de sexo.

O “Grupo das Amantes do Conan” (Espirro de Punheta, Sapo, Baleia Azul, Aninhas Carro Elétrico, Anita Carapita Carapau Sardinha Frita, Olívia Palito, Sóni, Lucinda Careca, Odete Estica, Crespa, Branca de Neve, Espia Feia, Bezelina, Tita dos Pés Sujos) correu para a praia, todas queriam estar perto do repuxo, o local que mais lhes fazia lembrar o herói.


Wednesday, January 06, 2021

A Peste de Natal

 


O Comandante Guélas

Série Paço de Arcos

Portugal teve o terramoto de 1755, Paço de Arcos a orgia natalícia de 2020. Quando o Focas tossiu no jantar de natal para disfarçar o som de um flato, barulho  inadmissível no restaurante da Nova School of Business and Economics, não imaginava que acabara de abrir a Caixa de pandora, e soltara o bicho de Wuhan que havia em si.

 

Uns dias depois, algures no Alentejo profundo, o Conan abriu o olho esquerdo na Pensão Moreira em Beja e sentiu um frio, não na espinha, mas nos entrefolhos. Pensou na manhã alucinante do dia anterior em que fora estuprado a 200 metros de altitude, na altura em que atravessava uma nuvem, não pela Mulher Maravilha, mas sim pelo Carlão dos Ares, sem contar com o abalroamento que sofrera em Mértola, quando um camião carregadinho de cabras lhe entrou pela retaguarda, sem preliminares, tendo tido muita dificuldade em tirar o cobridor que se colara nas suas cuecas tipo carrapato. Tentou apertar a cobra, mas só encontrou uma lagartixa.

- Maldito Focas! – Gritou furioso este ar-tesão pertencente a um coletivo de fêmeas.

O Conan Vargas, o paçoarcoense que se gabava de dar “8 de seguida sem ver a luz do Sol”, acabara de perder o tesão do mijo. Deu um peido do feijão da noite anterior e não sentiu o cheiro.

- Maldito Focas!

Noutro ponto do país uma enfermeira enfiou um cotonete pelo nariz de um asiático, um paçoarcoense habituado a afiambrar num capitão e não a ser afiambrado, e apercebeu-se de imediato da gravidade da situação, a cabecinha que entrara branca saia agora verde e pestilenta. Ligou de imediato para o chefe da segurança da vila, o senhor Cociolo:

- O chinês está com as 7 pragas do Egipto!

Mas já havia dois paçoarcoenses com as malas à porta, o Orlando e o Neto, um desterrado para uma masmorra, o outro para as galés. Os restantes estavam caladinhos, tinham-se evaporado no éter. A crise sanitária na vila ia-se alastrando como nevoeiro pela costa, por isso o Comandante Guélas deu plenos poderes ao Cociolo nomeando-o o marquês de pombal de Paço de Arcos, que ordenou a prisão do Chinoca:

- Quem o vir amarre-o a uma árvore que eu vou lá busca-lo!

O inspetor Narciso Serapitola Figueiredo Baeta também já estava a cheirar o terreno, à procura de vestígios do bicho chinês, mas só encontrava o odor típico da zona:

- Mas que cheiro a kona!

Entretanto um empresário ligado á saúde, o Dr. Pierre Pomme-de-Terre, com vasto currículo de epidemiologista brasileiro, prometia teste imediatos ao bicho, um dia depois do espirro do Focas, e não seis como determinavam os “especialistas de aviário”, não tinha mãos a medir, todos os presentes no jantar de Natal faziam fila à porta do seu consultório, na antiga roulotte de bifanas do Mocho e do Bajoulo, agora transformada na Clínica PUF. E por mais 50% do preço, uma promoção especial para amigos, garantia a negatividade no resultado. Mas houve um dos velhos fez queixa no livro amarelo:

- Passados mais de 40 anos tenho que enfrentar de novo o trauma dos testes negativos! – Lamentou-se o Caveirinha.

O Chinês fugitivo não largava a porta da sua churrasqueira em Barcarena, o negócio ia de vento em popa, até já comprara um lancha chamas a um árabe para acelerar as cremações, com a condição de este não se fazer explodir junto ao seu estabelecimento. Mas a notícia do dia foi na área da Educação,  a positiva do Conan, que alertou o Marreco para a necessidade de ir gastar uns euros à Clínica PUF.

- O meu irmão bem me disse que as amizades paçoarcoenses iam-me custar caro!

Finalmente a fita do tempo foi entregue ao Cociolo:

 “O Focas teve necessidade de soltar um gás, por isso disfarçou com uma tosse para a esquerda, que apanhou o Neto distraído, e com outra para a direita, que conspurcou o Chinoca, ricocheteou e caiu no bife do Orlando. Este no final do jantar fez uma visita de cortesia à mesa do Conan e deixou-lhe uma recordação de Wuhan, um perdigoto à entrada do nariz. Bastou um arroto para dividir o bicho com o Marreco e o Páni”.    


Sunday, November 29, 2020

ATL Colegial

 

O Comandante Guélas

Série Colégio Militar

Por vezes a rotina colegial fugia à regra, caso o Diretor tivesse familiares, netos ou filhos no Batalhão Colegial. Nos anos setenta houve uma récita extra, realizada, não pelos alunos finalistas, mas pelos alunos do primeiro ano, o Diretor tinha netos, que pediram ao avozinho para quebrar as regras e deixá-los fazer o espetáculo. O 593 foi expulso do colégio porque no dia das pinturas resolveu enfiar o pincel pelo cu de um aluno e, para azar dele, familiar do Diretor. Caso o rata fosse um filho de algo, teria andado a evacuar azul durante alguns dias, sem consequências. Mas a estória é outra! O Palhaço foi o maior artista colegial em atividades circenses do universo latrinal, com a especialidade em cagandus altus trapézius e casino, por isso os mais íntimos, o 200, o Cebola e o Ginho são de opinião de que ele merece o Prémio Barretina na modalidade de “Notoriedade”. Mas não se ficou por aqui! Foi também o maior jogador de “Lerpa” do colégio, tinha o número 417 e apostava cigarros “Ritz”, que fumava uns atrás dos outros, acompanhados de soberbas escarretas. O topo das latrinas, onde se assavam chouriços com lamparinas de álcool desviadas do laboratório de química, ato culinário também muito em voga no edifício da pista de aeromodelismo, onde os onanistas apreciavam as Ginas e os intelectuais as Playboys, era a sua arena, ao mesmo tempo que camaradas arreavam soberbos cagalhões no rés-do-chão. O 200 foi quem mais ficou traumatizado, o Palhaço limpou-lhe resmas de maços de tabaco, produto que só era autorizado a ser consumido para lá do quinto ano, mas que desde tenra idade se fumava! Os jogos não se reduziam à lerpa, as latrinas foram as precursoras das consolas de jogos. Também se jogava às “Estalactites”, tentar colar beatas ao teto, devidamente embrulhadas em cuspo, arremessadas como escarretas. O tiro ao alvo, “Cagar de Alto”, exigia muita arte, mimesis diria Sócrates, porque lá de cima a água da retrete não passava de um pequeno alvo, e tudo podia acontecer se o jogador fizesse mal os cálculos matemáticos. E um dia o jogo descambou, como era de prever neste colégio original, o Horrível desafiou os colegas a tentarem acertar num fâmulo com um objeto ao critério de cada um. Estavam na primeira latrina da Terceira Companhia, onde havia um cubículo com armários dos fâmulos, com ligação aérea à área lúdica. O 120 atirou uma pastilha, que passou a rasar a cabeça do funcionário. Foi avisado para não repetir a brincadeira. O Peidão atirou um pedaço de papel higiénico molhado, que ficou colado à parede e respingou para o alvo. Da boca da vítima saiu um chorrilho de palavras zangadas, mas incompreensíveis. O inventor atirou-lhe com uma escova de engraxar sapatos, que bateu na cabeça e fez eco. O olhar de raiva do Moca foi tão intenso, que o transformou em Hullk, agarrou no pau com que abria as janelas altas das companhias ao toque de alvorada, ao mesmo tempo que acordava os graduados á paulada, e desembestou em direção aos cagatórios. Todos saltaram para os cubículos. Todos? Todos, não, os cagadores nem compreenderam porque é que um Moca enraivecido lhes entrou pelas latrinas adentro, arreando em tudo o que mexia, causando uma debandada geral, uns devidamente fardados, outros com as calças a arrastarem pelo chão, e alguns com os cagalhões pendurados.