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315 estórias

Thursday, March 17, 2016

O Enforcado


Comandante Guélas
Série Paço de Arcos
 
A zona mais famosa de Paço de Arcos já deu pelo nome de Fontainhas podendo dizer-se que existe uma “Geração Fontainhas”, que representa o produto da transição entre os “bons costumes” do Antigo Regime e os “livres costumes” da pós-Revolução. Foi numa bonita noite de Verão que o Gang de Meninos Ricos e Caucasianos resolveu presentear todos os automobilistas que circulavam na Marginal com um enforcamento! O local escolhido foi a entrada de cima, pois havia aí uma árvore ideal para pendurar a corda, e uma sebe para esconder as pernas. O Bernardo pôs à disposição dos amigos o seu pescoço e trepou para cima de uma pedra que o Charlot entretanto tinha deslocado até ao local. A corda foi gamada de um dos barcos que estavam perto e começou a preparar-se a cena da execução. No palco apareceu metade do enforcado, com a cabeça à banda e a língua de fora. Um, dois, três….ACÇÃO!
Passou o primeiro, passou o segundo, mas não passou o terceiro carro, que fez uma travagem tão brusca, que ia provocando logo ali um acidente. O “defunto” nem se mexeu, tal era a convicção. O condutor saiu do carro pé ante pé, não fosse acordar o “morto”, mas não passou do passeio, talvez com medo de incomodar o eterno descanso daquela costeleta que não abanava, apesar de estar uma noite muito ventosa. A seguir parou outro, e outro, até se formar uma pequena multidão. O “zumzum” da assistência abafou um flato inconveniente do “morto”.
- É melhor chamarmos a polícia, – disse alguém.
Mas naquela altura chamar a polícia era um pouco arriscado, pois à noite os agentes não gostavam de ser acordados, e logo por causa de um mero presunto atado a uma árvore, que nunca iria fugir.
- Mas primeiro vamos tentar salvá-lo, – aconselhou alguém de dentro de um carro, e já com meia-hora de espectáculo.
Quando o Bernardo já estava a ficar com “cãibras” e à rasca para fumar, alguém avançou decidido para o enforcado, de apelido Sá. A alguns centímetros do artista e ao preparar-se para lhe tirar a pulsação, deu-se o milagre: o presunto puxou dum cigarro e pediu-lhe lume. O cagaço do herói foi tão grande que quase ficou ao colo do que estava atrás. Por momentos parecia que estavam todos num velório. Mas depressa o terror se transformou em ódio e gritaram:
- Cabrão!
Foi o sinal de alarme para o ex-enforcado, que largou o púlpito e deu corda aos sapatos, indo no seu encalço uma multidão de fãs enfurecidos, decididos a fazer-lhe o funeral.

Friday, March 04, 2016

Camarada Choco 95 - A Única Mulher



Camarada Choco
Aventura 95

Há um período e um tempo para todos os Aparafusados banhados pelo sol da Venteira. O Primo do Choco nem queria acreditar quando, após a curva da saída da Escola para Desaparafusados da Venteira, deu de caras com a mãe da Mó no meio da estrada, disposta a uma pega de caras, e assim garantir uma estadia prolongada no bem bom do Francisco da Fonseca, ou quiçá, uma avença vitalícia do país, após um momento de glória na primeira página do Correio da Manhã, onde o seu cabelo sueco apareceria espalmado no alcatrão, tipo carpete, tendo ao seu lado um corpo semelhante a uma das fãs de encher do único motorista da zona que guiava de pé: o Picachu! Antes do embate ainda teria acesso, tipo flash, à última das memórias libidinosas mais fresca, o convite que o Florzinha, colega da sua filha, lhe fizera durante uma das entregas matinais quando, ao vê-la de robe, lhe pediu para o tirar e mostrar-lhe os marmelos, sinal de que os clientes, que se faziam passar por grogues desde a nascença, derretendo grande parte do Orçamento Geral do Estado, tornavam-se sabichões quando as cuecas apertavam. Desde que o brazuca do Dom Café entregara o troféu de “Miss Simpatia” à terapeuta Julieta, um descafeínado enfeitiçado, que esta fugia do local como o Diabo da Cruz.
- Este espaço é meu, só meu, tenho o poder absoluto sobre as pastilhas elásticas, por isso só autorizo que seja este Desaparafusado a atender o meu telefone, - gritou a Espatinha para o Stor Pobre, revirando os olhos como o Manelinho.
A tradição não se cumpriria, a Madrinha, que estava do outro lado da linha, não iria ouvir o tradicional “churrasqueira da Brandoa, bom dia”, uma ideia da Única Mulher, assunto que irá ser tratado mais à frente, mas sim os gritos alucinantes daquela que se julgava dona e senhora do espaço que servia as primeiras refeições do dia à maioria dos Aparafusados, servidas a custo por alguns Desaparafusados escolhidos a dedo por esta responsável que se autointitulava pedagógica, a Maria Maluca e o Chico Duplo.
- Esses destemperos emocionais indicam que está aí uma informadora com problemas no chip, - exclamou aquela que detinha o posto mais peripatético da Venteira, mas também o mais difícil do concelho, qualidade para quem era dotado de sentimentos intempestivos, que lhe condicionavam a alma, conseguindo ainda ouvir o barulho do rodar dos glóbulos oculares da agente, semelhante a uma roleta da sorte.
O ataque de caspa provocara a fuga, prontamente travada, do Chico Duplo, que jurava a pés juntos ao seu irmão virtual ter ouvido os gritos da temida Popinha dos têxteis, cujo amor pelo seu colega desaparafusado mais preto da Venteira não era correspondido. Mas o assunto do dia dizia respeito à falta de carcanhol nas contas de todos!
- Só há uma certeza de que um futuro melhor é apenas possível com mais e melhores Aparafusados, - disse alguém entregando uma lista reivindicativa.
Este ato inconsciente e ingénuo iria ter repercussões inimagináveis, que mostrava a fragilidade e a crueldade da vida na Venteira.
- Temos de lhe pôr as barbas de molho, - sugeriu uma outra já mais batida nestas andanças políticas, dando o já tradicional murro na mesa, ao mesmo tempo que confessava querer agora erguer um Califado na zona, caso o seu programa dirigido a pessoas complexas ganhasse as eleições.
E nestas alturas caía sempre um manto de silêncio, ao mesmo tempo que todos se afastavam. A culpa da falta do pilim devia-se à ausência da Única Mulher, a detentora dos códigos que permitiam, não o lançamento de mísseis atómicos, mas a libertação dos fundos mensais. E até o Troca Tintas, teoricamente o mais poderoso, andava ao papel! Para agravar a situação a Escola de Desaparafusados da Venteira estava a ser vítima de uma epidemia de santinhas, fenómeno até agora exclusivo do Camarada Choco e da sua irmã Bélinha. A maioria jurava tê-la visto junto à igreja central, por isso surgiu de imediato um novo papel a propor um carjacking ao veículo da dita Senhora, e com ele ir buscar a desejada e a respetiva folha com os números mágicos! O ambiente estava tão tenso, viviam-se tempos insensatos, que bastava um comentário inocente fora do sítio para começar um incêndio:
- Ó, uma nódoa, - disse, perdendo a medida das conveniências, com um ar sereno e natural, a terapeuta Julieta, tocando levemente na t-shirt branca do Cabo Pilas, que se lambuzava com uma bola de Berlim com creme.
A vida do ex militar era desprovida de riscos, sensaborosa, com uma disciplina férrea que lhe permitia aproveitar bem o tempo, evitando desperdiça-lo no ócio, que o dissesse a stora Raquete, que fora contemplada com uma resma de papéis com o “Horário das sessões de apoio psicopedagógico para o ano de 2016”, por ter ousado prolongar a aula do Castelinho cinco segundos para além do tempo, obrigando-o a chegar atrasado àquele apoio fundamental para o seu futuro de desaparafusado incondicional. Por isso estas ocasiões raras com subtis magnetismos da natureza eram sempre aproveitadas para dar uma escapadela ao oeste selvagem, que lhe davam um vigor inesperado. Encarnou de imediato num Romeu de consciência duvidosa:
- Queres lavá-la? – Perguntou com tom e som, fazendo uma aproximação sugestiva à terapeuta.
- Se ma deres, tiro-te a nódoa, - respondeu a rapariga com tanto mimo e talento que o entonteceu.
Dito e feito, o Cabo Pilas retirou a t-shirt com uma impetuosidade masoquista e colocou-a nas mãos da colega, hirto e duro, peito para fora e barriga para dentro, que foi confrontada com o mundo natural do pedopedagogo, envolto num cenário erotizado semeado de pequenas malícias, um organismo vital sujeito a leis não humanas, primitivo e abafado, com um cheiro impossível de esquecer, que se colava à alma, tradicional e agrícola, selvagem, sem sentimentalismos, enfim, um “emoticon” dos tempos modernos, com o corpo agitado em excesso, soltando inoportunos gemidos. A terapeuta foi rodeada de ecos míticos, recheados de relâmpagos com uma intensidade cada vez maior, que lhe causaram um tom intensamente febril, só amainado com convulsivos sinais da Cruz, para afastar o demo que parecia andar à solta pelos vastos corredores da Escola Para Desaparafusados da Venteira, parecendo querer-lhe afagar violentamente o cocuruto.
- Não te esqueças que o teu nome vem do grego, Pétros, pedra, é sobre ti que edificarei os serviços de informações da Venteira. Vai ao bar, uma das minhas informadoras tem o chip avariado! - Ordenou a Madrinha ao Engenheiro, o único a dar o exemplo naquele espaço que se pretendia pedagógico. 
Estava decidido, estes tempos insensatos assim o obrigavam, a Única Mulher regressaria à escola, a bem ou a mal, por isso o carro da santinha depressa desapareceu nesse fim de dia, envolto, não no nevoeiro que nunca trouxe o rei monga, mas no lusco fusco da Venteira, após a recolha da dita senhora ao ninho, ao colo do prior. Ninguém soube quem foi, mas todos temiam agora a Távora Redonda das Terapeutas, com reuniões contínuas ao longo do dia, que foi capaz de produzir uma folha A4 reivindicativa que mexeu profundamente com o IN da toda poderosa Madrinha, que via agora súbditos cercados por más influências. Todas as frases fora de contexto eram consideradas suspeitas, excitavam-na, por isso a primeira a ser confrontada por aquela obstinada que deveria obedecer ao Troca Tintas, mas que fazia o que não devia, foi a terapeuta Pamela, que teve um descuido desproporcionado com a porta aberta, considerado uma possível ameaça à chefia da Escola para Desaparafusados da Venteira:
- Na relação sou eu que visto as calças!

Wednesday, March 02, 2016

A Liga Anti Cavalo


O Comandante Guélas

Série Colégio Militar 

Liga Anti-Cavalo

“Não somos nós que decidimos a forma das coisas; mas as coisas em nós que decidem a sua própria forma” – Espinosa.

Ainda somos do tempo em que o colo das nossas mães era substituído, a frio e sem preliminares, por uma Mannlicher qualquer. Somos herdeiros de nós próprios, se o Menino da Luz tem uma essência, é ter memória de si mesmo. Estas estórias têm de ser contadas porque sentimos necessidade de contar as nossas próprias histórias através do tempo, projetando-as numa memória futura coletiva, onde muitos se apercebem de sentimentos que não sabiam que tinham. Têm de ser vividas algures num tempo que tanto tem de longínquo como de próximo, permitindo-nos viver o espaço dentro da nossa mente, mostrando a realidade do nosso imaginário, mais real do que tudo o que vemos e nos rodeia. Mas nenhuma leitura é definitiva, aquela que conhecemos é só uma entre muitas possíveis. Nos dias seguintes à revolução gritavam nas ruas que era o povo quem mais ordenava, havendo no Colégio Militar também um dia especial, em que quem mais ordenava era a bexiga! A aula de matemática acabava e a correria em direção ao picadeiro até podia ser ganha pelo Escalope, à Rosa ninguém ligava, pois o primeiro a chegar escolhia o equino menos mau, podendo ainda fazer um checklist dos quadrúpedes que se alinhavam atrás do edifício, tendo assim uma ideia de como iria decorrer a aula de equitação. Só havia uma verdade, os bichos eram muito diferentes do que os que apareciam nos livros de quadradinhos do Buffalo Bill. E com o Cabedo só se poderia esperar o inferno na terra! Mas quem sobrevivia às “firmezas” do Mula, atual sindicalista, que não aceitava reivindicações, estava apto para todo o serviço, incluindo uma aula de equitação de quarenta e cinco minutos com cavalos incompatíveis. Por isso, ordenar “desmontar” durante uma carga no picadeiro, que mais parecia um carrossel com freio nos dentes, só poderia originar um “ramalho” entre bípedes fardados de cotim e quadrúpedes desmiolados, com os primeiros a quererem sair ilesos de uma orgia de dentadas, coices e afins. Mas o Dores também não se ficava atrás, porque ordenar, a galope, tirar os pés dos estribos, largar as rédeas, pôr as mãos na cabeça, e presentear os putos com um cavalete no caminho, de certeza que hoje em dia seria acusado, e o bicho também, por um qualquer artista do ministério público, de infanticídio, acompanhado da capa do “Correio da Manhã”.
- Agora tapem os olhos, - ordenou o major.
O Maciço tirou o penico e tapou os olhos da Nônô.
- Rédeas ao pescoço!
O Vinasse conseguiu fazer o único mortal para trás da sua vida, com aterragem forçada de costas na serradura, e sentir na cara o vento aterrador causado pelos sapatos do Eusébio, que o faz acordar nos dias de hoje muitas vezes sobressaltado, um stress equino, rodeado pelos bafos da Salame, da Nono, do Tangerina e do Rata, que tornam o seu ressonar de leão e o vibrar da placa insignificâncias para a sua cara metade, quando comparados com a incontinência da idade, que deixa marcas no lençol, que não engana tal como o algodão.
- Senhor aluno, agarre o cavalo e monte! – Gritou o equitador.
E também havia o volteio, com silhão e pano, que começava com o menino a galopar ao lado do garanhão, e não da Rosa com quem tanto sonhava, seguido de uma ordem para montar, em que primeiro tinham de colocar as mãos nas pegas, seguido de um acertar do passo com o equino e, num abrir e fechar de olhos hop, que o colocava sentado no cavalo e pronto a receber mais ordens, como a volta ao mundo, e a saída para o outro lado, sem tirar as mãos, e voltar a montar após uma chamada a pés juntos na serradura. E havia quem saísse pela garupa, após uma cambalhota para trás, arriscando-se a uma ajuda extra do bicho através de um coice bem medido.
Foram estes momentos inesquecíveis que deram origem ao aparecimento de um mito, a Liga Anti-Cavalo, uma O.N.G. colegial que pretendia a extinção da equitação, mas que de certeza se houvesse um referendo o Cortesão seria o escolhido para o papel de Miguel de Vasconcelos no dia da mocada, juntamente com a matemática. E dizem as comadres que chegou a abrir sede às quartas feiras nas latrinas do piso superior dos Claustros, onde se podiam levantar os cartões que provavam a sua pertença à LAC. Os peritos atestam que a maior mija durou quarenta e cinco segundos, sinal do stress pré cavalar, um recorde que ficou para sempre no currículo do Cuecas de Buda, e será tomado em consideração se alguma vez aparecer algum descendente à procura de um estágio numa multinacional qualquer, em cujo conselho de administração de certeza que haverá um Menino da Luz com o cu calejado.










Monday, December 07, 2015

Adeus Colégio, Olá Colégio!



O Comandante Guélas
 Série Colégio Militar

Os tempos de hoje não são os tempos de ontem, por isso os tempos vividos raramente são os desejados. O Colégio Militar já não é o que em tempos foi e nunca mais será o que era. Depois de muitos anos em que se pensou que iria morrer, ele renasce, qual fénix que se ergue das cinzas, e mostra o seu poder através destas estórias. Assim, o Alguidar proclamou a noite de domingo, 13 de Setembro de 2015, com a arrogância do conhecimento, saturado de vertigem política, não sabendo que é a consciência da ignorância que faz avançar o mundo:
- Hoje é um momento histórico!
Dizia então o ministro que cem meninas iriam dormir, pela primeira vez, nas instalações do Colégio Militar, desde a sua fundação em 1803, tendo as mais velhas direito a quarto individual, e as mais novas a camaratas de dez camas. Santa ignorância, o 75 já tinha levado para uma cama, montada na sala do Carioca, a Margarida, que havia de ser jornalista, que Deus a tenha, sua convidada para o Chá Dançante; e também para os lados do campo de aeromodelismo já tinha havido um encontro amoroso entre Meninas de Odivelas e Meninos da Luz. O Alguidar, segundo um dos seus muitos assessores, era um homem de apetites complicados, que queria sempre isto e aquilo, nunca estava satisfeito, senhor de um traseiro melancólico que geralmente decorava, na praia, com uma tanga onde se desenhava um Rambo. Desde que o 281, o Tofa, e outros Meninos da Luz, quase lhe tinham dado um ramalho na Invicta, andava sempre alerta, ao contrário do Bivar que, umas décadas antes, em estado de cio, resolvera levar uma amiga para o gabinete e, com as luzes acesas, brincaram aos polícias e ladrões, ele de botas altas e ela de cuecas atrevidas, com o Chico porteiro a assistir desesperado, naquela noite fria, a tentar desviar as atenções dos cidadãos, ao mesmo tempo que telefonava desesperado para o Maná, agora no papel de oficial de dia, o tenente Ananás, a beber umas bejecas na Soca, pedindo-lhe para avisar o sub que o seu filme só para adultos estava a ter transmissão direta para os meninos rebarbados. Quando o ministro puxou a bandeira do colégio e mostrou ao mundo, um milhão e duzentos mil euros depois, a placa que oficializava a entrada das Meninas de Odivelas no espaço anteriormente reservado aos Meninos da Luz, acabava de convocar o passado. “Momento Histórico”? Momento histórico era se tivessem encontrado o túnel que os ligava a Odivelas, que as traria de manhã para as aulas, e as levava ao fim do dia de regresso ao ninho, com a rapaziada desaçaimada no seu encalço. Com este gesto encerrou o Colégio do Semita (“Psché moço, num monte de esterco fazes nódoa”); do Moreira (“Bós sois piores que os ciganos”), o barbeiro Sabino (com a sua fabulosa unha de 10 centímetros, que o pessoal via pelo canto do olho quando lhes cortava cuidadosamente o cabelo); a roupeira Cassilda, casada com o Labareda, irmão de outro vigilante, o Badalo; o Bivar com o cio a cavalgar no gabinete atrás de uma visita, com o Chico Porteiro desesperado a ver a festa; o Patronilha e a sua fabulosa Júlia, que nem com uma almofada na cara servia para excitar a imaginação dos imberbes; acabou a Rosa; foi-se a prateleira de sonho da Antonieta; o Bata (Bata-Man), adeus Falcão (“piu, piu, és burro”), Menau (“eu cá não sou bingativo, mas quem mas faz paga-mas”), o padre Valdomiro (“Baldomijo”), Dom Dom, Pato Marreco, o tenente Mota, o Camões, Lufas, o Marinho, o Ferreirinha, o Fufu, o Didi, o Pina Lopes (“se marcares o alvo num mapa com o lápis rombo, as bombas caiem ao lado”), o Pequito, o Galo (“ó ordenança o meu cavalo já está arreado?”), o Teatcher, o Mexicano, o tenente Aparício (“tou-me cagando, mete a requisição na caixa”),  o PV1 e o PV2 (“Eh pá, esse desenho está mais feio do que a ponta da teta de uma preta”), Dores, Porky, Carioca (“ó C. lambe-me a pichota”), o Jaiminho (“Quem é que te mandou desmontar”?), Perdigão (“xisto com pernas”), o Bisnau, o Teatcher, o tenente Frade, o padre Américo (“daassseeee”), o Dias Gago (“ó-ó-ó di-di-as-ga-ga-go”), o Pato Marreco, o Tabi (“ó T. chupa aqui”), o Pop, o Isménio Tadeu (“deixo o eléctrico arrancar para depois ir atrás dele e apanhá-lo”), o Animal, o Santola, o Feio, o Gunga (“alguém sabe desenhar um infinito de joelhos?”), o padre Peixoto, o Valentim (“ó senhor aluno tome lá dois supositórios de Buscopan que isso passa”), o Caspa, o padre Castelão,  o Coelho, o João Pequeno, o Nunes (pai da Rosa, que fazia a ronda da noite), o Dias Gago, o Santos, o Fixó, o Meia-Lua, o Abílio, o Miranda (“bom dia menino”), o escultor Brito (o Judas) o Zé Pereira, o Augusto Violante, o Leonel, o Carlitos, o Rosário, o Dentinho. E como no Colégio Militar todos fazem parte do Batalhão, até equinos, que lá deixaram os ossos, são parte das memórias de muitos: Salame, Nono, Tangerina, Rata, Quadrado, Alfange, Eusébio, Patacho, Vapor, Quirina, Cabeça de Mula, 48, o Flipper, assim como as aventuras a eles associados, como a ida ao Campo Grande pela Segunda Circular, com os cavalos à carga pelas bermas de areia, assustados com os carros que lhe passavam razias, tendo um deles chocado uma rede, e outros feito ski nos paralelepípedos mais à frente, e tudo isto com meninos fardados de cotim em cima do lombo; ou descer em fila as bancadas do campo de futebol; ou ir atacar os colegas da esgrima que treinavam no exterior, com uma carga de fazer inveja ao John Wayne. Enfim, coboiadas impensáveis nos dias de hoje onde a rapaziada está ligada por GPS às mães, que no Colégio Militar antigo não passavam da Porta de Armas, perante o olhar autoritário do Chico e o olhar baboso do Bivar, enquanto os filhos estavam no outro extremo da capital, numa qualquer sessão contínua no Olímpia, chegando uns a trazer alguns cartazes que foram afixados na vitrine que ostentava os pontos do “comportamento”; ou a vender bilhetes forjados na tipografia para o “Genesis”, à porta do Pavilhão Dramático de Cascais. Nunca terão o prazer de ver um professor de equitação, de óculos escuros, a entrar de De Tomaso Pantera amarelo e a acelerar até ao picadeiro como se estivesse no autódromo do Estoril, como fazia o Cabedo. Tivessem os Meninos da Luz de hoje posto a mesma cabra que puseram na sala do mestre escola, o Mosca, no gabinete do Alguidar, e ela também teria comido tudo o que havia no gabinete, incluindo os papéis das decisões…e as cuequinhas do ministro, e agora o Comandante do Corpo de Alunos, tal como fazia o Estorninho, continuaria a poder puxar as orelhas de uma turma inteira e a ameaça-los de que iriam ficar detidos no fim de semana, porque pôr um rádio com o volume ao máximo debaixo do estrado onde o professor de Geografia, o Raposo, ia dar aula, era inadmissível naquele colégio com tantos pergaminhos, onde se incluíam as requisições amarelas (“1 camisa de vénus verde”), que obrigava o Manuel, baixinho e com dois dedos curtos numa das mãos, a saltar com destreza, tal como os “Gafanhotos” (“o Dario é o Einstein da Ginástica, consegue transformar merda em matéria” – Reis Pinto), o balcão da cantina, e correr furioso atrás do requisitante. Fica a imagem do Zé Pereira (41 anos de serviço) a deslocar-se a todo o vapor, com um bloco de notas na mão, em direcção ao prevaricador que ousara atirar um copo ao chão, provocando o tradicional grito “PJ”, confrontando-se sempre com um pagamento solidário (“1/50 avos de um copo”). Juntam-se a estas memórias o Datsun 120Y azul-escuro, cheio de mossas, do Perdigão, o Toyota bege do tenente Mota, o Vauxhall Viva, guiado por uma bóina, o Fiat Mirafiori do Dores, o Volvo azul do engenheiro Grijó, o Ford MK1 azul cueca do Chulógrafo, o Citroen Dyane do padre Viana, e muitos outros bólides colegiais. Estamos num tempo em que para se ganhar uma barretina basta saber tocar à gaita, e fazer disso profissão; ou ter o feitio de um coelho, e depois inscrever as crias no colégio. Mas não se encerra uma época sem contar que o tio Zé Júlio, cujo posto era tenente-Coronel, entrou um dia na Soca à beira de um ataque de nervos, com os pés da mesma cor dos do Sissé (o primeiro mano do batalhão), as calças civis a arrastarem pelo chão e todo ele a tresandar ao perfume da Dallas Cowboy, a dama do Bairro Alto que fez as delícias de alguns meninos que se encontravam nos “5 Estudos” para os exames do 5º ano do Liceu, no longínquo ano de 1976, e arreou de imediato no aspirante Costa que se descontrolara a rir, ao mesmo tempo que o encharcava com remédio para a “Tinha”, estragando-lhe a camisa de marca. E esta estória encerra com o Ananás, que um dia foi ao baile de gala fardado de capelão e andou de mesa em mesa a distribuir bênçãos.
O Colégio Militar continuará a definir hierarquias e domínios, mas mais do que isso, continuará a criar espaços de amizade, solidariedade, aprendizagem, iniciativa e coragem, mesmo que nos tempos modernos o 83 seja agora o 283, depois de ter estado ausente um ano noutro colégio por ter medo dos descendentes da Salame. A Luz foi mais forte do que tudo!