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315 estórias

Tuesday, September 15, 2015

A Maternidade da Luz




Comandante Guélas

Série Colégio Militar
Fomos radicalmente influenciados pelo colégio, todos sabemos de que palavras e imagens se compõem o pensamento de um Menino da Luz, a nossa formação moral foi criada por pessoas que existem no nosso passado e que cabem no nosso presente. Não sabemos o que agora vai acontecer, mas sabemos o que nos preocupa. Nas décadas de 60 e 70 dormíamos uma noite por semana em casa e seis no colégio, por isso as novas gerações nunca compreenderão porque é que a Rosa foi a nossa ninfa, e em casos agudos a Júlia, a mulher do Patronilha, ou a inesquecível Listete e a sua fabulosa cabeça que faria a vez de uma qualquer almofada, a Cassilda, ou a sensual coxa da biblioteca. Nos tempos que correm os ratas só sabem adormecer com o barulho do silêncio, e não ao ritmo de uma desgarrada, não de flatos, que isso é para meninos, mas sim de exuberantes peidos, dados por jovens desaçaimados, com as barrigas cheias de Amarelo nº 2, em que a maioria da camarata, um espaço a transbordar de vida, participava. Hoje em dia até nas pinturas os pais estão presentes, muitos dos putos já vêm pintados de casa com as cores recomendadas pelos dermatologistas, coisa inadmissível nas décadas em que o Moca era rei, em que tínhamos o direito de sentir a tinta plástica a impregnar-se na pele, o ardor da Colgate nos tomates, o frio dos guaches naquelas escuras noites de invernos rigorosos, e os mais sortudos sentir um pincel nº1 carregadinho de tinta plástica branca pelo cagueiro acima, tradição que nos protegeu para sempre das alergias e outras maleitas da geração que agora se tatua indiscriminadamente perante o olhar das mamas, que nessas alturas estão estranhamente ausentes. Nos anos setenta elas só podiam entrar no colégio nas comemorações do 1º de Dezembro, mas não saiam do primeiro andar dos claustros, causando mesmo assim calores libidinosos aos jovens do rés-do-chão, e muito menos interferir, como é habitual nestes estranhos tempos, em que já foram vistas artistas a ir buscar os filhos às formaturas para os tirar dos “malefícios” do sol. E também estão autorizadas a participar nos piqueniques colegiais, em que só o Bolicao, já descascado, é permitido, em vez da lata de atum, do cigarrinho e de umas cervejinhas adquiridas nas visitas de cortesia ao bar de oficiais nos claustros ou à Soca. Seis dias ajudavam a criar cumplicidades, amizades e camaradagem. Quem não se lembra dos concursos de gosmas, que deram origem a fabulosas estalactites, capazes de competir mano a mano com as colunas de Palmira, e que ficaram suspensas durante anos letivos seguidos, cujo recorde saiu da boca do 224? Ou das esgalhações coletivas de frangos durante as aulas do Pequito? Ou dos despiques de mergulhos para as camas, de cima dos armários? E já nem na Instrução Militar os oficiais ousam gritar como o tenente Silveira, “em sentido nem mexe, nem que passe um car…pela boca”, um gordo de óculos, sempre com botas de montar, que nunca se soube se para montar ou para ser montado, que costumava pagar jantares à rapaziada, colocando-a em permanente estado de alerta, porque com toda a certeza que estará uma mãe por perto que irá a correr para o “Livro Amarelo da Aberta e do Alguidar”. E até com a ideia romântica de um “Túnel” a ligar às Meninas de Odivelas conseguiram acabar, trazendo-as para um novo edifício junto à rapaziada, já baptizado como a “Maternidade”. As saídas furtivas do 89, do 165 e do 376, de táxi (se a tradição se mantivesse os seus sucessores iriam de Uber), em direção ao “El Tesón” não passam agora de lendas guardadas para memória futura nestas pequenas estórias em que todos participámos, porque vivemos num tempo em que as causas são discutidas e os efeitos parecem imprevisíveis, que nos dá a sensação de saber tão pouco. Só com a evocação do passado se pode assumir plenamente o futuro, por isso a parte do 4º E que não teve aula do Semita neste dia 16 de Outubro de 1974 desembestou em direcção à piscina, não sem antes ir arrumar os livros, um empecilho à brincadeira, à sala ocupada pela outra metade com inglês, que estavam entretidos a expectorar, alternadamente, para cima do 300. O 191 tocou com humildade à porta e mal ela se abriu, entrou uma turbe desenfreada que em segundos fez o que tinha a fazer, e saiu tal como entrou. Todos? Todos não, o 151 atrasou-se e teve de tocar novamente. Mas quem correu foi o professor Mota, e para a porta, cujo corredor esvaziou de imediato, não sem antes todos gritarem, “Didi, coça aqui”! A chuva dos últimos dias tinha enchido parte do espaço dedicado à natação em junho, por isso o 305 (Vinasse) foi de imediato atirado lá para dentro, ficando com a água pelos joelhos. O 120 teve pior sorte, mesmo reclamando estar com uma bronquite, a água chegou-lhe à cintura, por isso à noite estava fardado de pano porque encontrara a rouparia fechada. O Colégio Militar era totalmente imprevisível, um andaime com rodas que servia para pintar o exterior da sala de música durante o dia, serviu como sequeite durante parte da noite do dia 22, para o 125, o 136, o 151, o 157 e o 191. A brincadeira acabou abruptamente quando chegou a vez do 151 e o arremessaram, com velocidade excessiva, em direcção ao edifício em que o Carioca se esforçava por transformar canas rachadas em rouxinóis, onde o aparelho se desintegrou, não sem antes rachar um vidro e despedaçar outro, obrigando a rapaziada a uma fuga em direção ao geral, antes que a ocorrência fosse relatada por um vigilante ao oficial de dia, o capitão Peidinhas, senhor de um traseiro em forma de almofada.
No Colégio Militar sempre houve portas que se fecharam para sempre e outras que se abriram em lugares inesperados, por isso as queixas futuras irão ser contra as utentes da Maternidade, quando elas lhes invadirem as camaratas a meio da noite, e em vez de lhes darem almofadadas, chocalham-lhes as pirocas!  

Sunday, August 30, 2015

24 horas colegiais

Comandante Guélas

Série Colégio Militar



O Colégio Militar era o dono do nosso tempo, por isso só quem lá viveu é que poderá compreender esta partilha de fragmentos de nós, que nos dão um caráter único que continua vivo nas nossas memórias. E porque há memórias que nos acompanham desde muito novos, criámos uma memória que se confunde com o real. Na mística abundam as palavras “bondade”, “senso”, “equilíbrio”, “determinação”, “coragem”, “brio”, “dignidade“, “honra”, e agora finalmente “beleza”, com a entrada de raparigas. Era um espaço que fervilhava de vida, vinte e quatro horas por dia, sete vezes por semana, com atividades programadas pela instituição e outras dependentes do livre arbítrio dos alunos, desde um Mini a cair na piscina vazia, passando por banhos clandestinos noturnos, como o que ocorreu no dia 24 de maio de 1975, que teve um fim alucinante quando apareceu o vigilante, com uma parte da rapaziada a fugir para dentro do ginásio, onde aproveitou para exercitar números arrojados de circo. O Miranda já tinha andado numa roda viva a tarde toda, com o 191, o 125, o 124, o 151, o 601 escondidos em locais estratégicos da rua de acesso ao picadeiro, atirando para o alcatrão, à medida que passava, latas da Compal, cujo barulho o obrigava a investigar quais os responsáveis pelo delito; passando por “tarzans” das janelas da primeira ou da segunda companhias para cima de molhadas de colchões junto das peças de artilharia, ou “tunnings” com o carro do capitão Caetano, cujos artistas acabaram por ficar detidos para averiguações durante parte das férias grandes; ou atividades de sobrevivência, como por exemplo conseguir chegar à primeira formatura do dia, após o toque da corneta, onde os atrasados optavam sempre por fechar-se nas latrinas e simularem o parto de um valente cagalhão, com os restos do Amarelo do jantar do dia anterior, mas de uma maneira geral não conseguiam enganar os graduados, que davam pela falta dos petizes no pelotão e faziam de imediato revista aos cagadouros, que nestas alturas pareciam estar sempre em hora de ponta, e tal como o algodão a água transparente não enganava, davam ordem aos petizes para irem para a fila do pequeno almoço antecipado, um abrunho entre os olhos para cada um.
As aulas decorriam dentro da normalidade, neste dia onze de janeiro de 1973 quando o Ferrari, professor de Português, apareceu mal disposto e por isso começou a fazer perguntas pela turma, e como não obteve qualquer tipo de respostas aceitáveis, descarregou a raiva no último, o Escalope, ao mesmo tempo que gritava:
- Mas porque é que me esqueci da caderneta?
- Piu, piu, piu, és burro, - exclamava o Falcão, professor de matemática, com a boca colada ao ouvido do Cão.
- O senhor é um xisto com pernas, - classificava, já desesperado, o professor Perdigão com os olhos na cara do Elefante.
- Ó moço, tás ta rir? – Perguntava o Semita no laboratório de Química ao Esperma, que estava divertido com os erros do ajudante, o Morais, também conhecido por Ruca. - Anda aqui à pedra…num sabes nada, bais pra casa com uma bengala.
Numa sala de aula em autogestão, cujo professor tardava em aparecer, e o oficial de dia ainda não tomara uma decisão, jogava-se ao jogo das palavras, mais propriamente uma guerra de dicionários de todos contra todos.
No ano de 1974 o estaleiro das obras que decorriam para os lados do pavilhão de Ciências, transformou-se num espaço de atividades gímnicas não curricularmente previstas, cujo grau de perigosidade estaria hoje a ser comentado pela procuradora Joana, senhora de uma cara que fazia a mulher do Patronilha parecer uma deusa, como um local com um ambiente que “favorece o crime”, mas que naquele tempo servia para tornar a rapaziada rija e apta para enfrentar com determinação o futuro. Por isso quando o 607, o 125, o 653 e o 191 resolveram saltar ao mesmo tempo para a rampa feita de restos de madeiras, cujos trabalhadores usavam para subir com os carrinhos de mão e despejar o entulho num monte, esperando com isso uma reação do material que os colocasse no telhado do pavilhão de Desenho, com queda direta sobre o Pina Lopes, não estavam à espera que as tábuas se partissem com estrondo, atirando os petizes de pantanas, uns para cima de pedras, e outros para junto de madeiras que pareciam pertencer a faquires, semeadas de enormes pregos com as pontas viradas para cima. Durante meses os intervalos eram tomados de assalto por jovens cheios de energia, que agora seriam classificados como “hiperativos”, e em vez de haver somente nos cacifos das camaratas os frascos com o pó amarelo para acalmar as bexigas noturnas dos mijões, estariam cheias de xaropes de “Ritalina”, a droga legal da atualidade, que torna os putos toxicodependentes desde o berço. Nestes tempos idos dos anos setenta para resolver os problemas de comportamento existiam as apresentações à alvorada, as firmezas e outros miminhos reservados para a última formatura do dia. No Colégio Militar um acontecimento fortuito poderia marcar alguém para sempre, que o diga o Alves que em 1936 para lá entrou como soldado durante o serviço militar obrigatório, começando por ser o corneteiro de serviço, nunca tendo conseguido chegar aos calcanhares do magistral cabo Estrela que, segundo a lenda, soprava no instrumento como ninguém, a quem o 15 insistia em tapar a saída de ar de cada vez o maçarico se preparava para soprar na corneta para mandar levantar a rapaziada, ação esta feita com a carícia que caracterizava o espaço educacional, que ameaçava todas as vezes fazer-lhe saltar o corta palha, que já levara um coice de raspão quando tentara limpar a cama dum antepassado do Cabeça de Mula, que lhe tinha posto o nariz à banda. Em 17 de Novembro de 1943 casou-se definitivamente com os Meninos da Luz, e quinze anos depois ganhou a alcunha de “Mirna Loy” devido ao tratamento aos olhos que teve de fazer, cujos pingos davam a sensação de que o soldado passara a pintar os olhos, mania inconcebível para um estabelecimento de ensino que só admitia nas suas fileiras futuros candidatos a cobridores, e não rapaziada que gostasse de pegar de empurrão. Como o destino queria que o soldado ficasse para sempre lado a lado com o marechal, e Ele escreve sempre torto com linhas direitas, uma porta encravada na terceira companhia em 1958 só abriu quando o soldado Alves utilizou, como último recurso, a cabeça em forma de bigorna, ganhando com esse gesto de bravura a alcunha definitiva. E a fama era tanta que em 1994 no Porto, durante um desfile militar com a presença dos Meninos da Luz, o senhor Cândido foi reconhecido pelos antigos alunos, tendo sido obrigado a sair do anonimato onde o tentaram pôr, e acenar para a multidão de camaradas que o saudavam efusivamente:
No refeitório o Horrível acabara de ser intercetado pelo oficial de dia, o tenente Mota, que estava desesperado à procura daqueles que insistiam em imitar o barulho de um peidociclo de cada vez que se afastava, por ter sido visto a rir-se, e como tal ser, por convicção, uma prática diária hoje em dia nos tribunais quando se tenta arranjar um bode expiatório, culpado pelo “ruído de vizinhança”, acusando-o de ostentar um cabelo que se encontrava fora das condições prescritas pelo regulamento, sendo por isso intimidado a apresentar-se ao Ramalho:
- Mas o cabelo não está a tocar nas orelhas, - protestou o aluno pondo-se de pé em sentido, ao mesmo tempo que se apercebia dos risos maliciosos dos colegas.
Mas o estado psicológico do tenente não permitia argumentos desviantes, por isso agarrou, como contra prova, na trunfa que povoava o coco do Horrível, dando-lhe o aspeto de uma cabeça com o formato de um ananás, transitando a pena de imediato em julgado:
- Só sais com um pente zero!
Escovinha? Com o fim de semana à porta e as fêmeas a fazerem fila para serem degustadas pelo maior cobridor da capital? Mas, como um Menino da Luz prevenido valia sempre por dois, neste caso dois cartões de identidade, o que estava na vitrine, exposta nos dias de saída, e de acesso só autorizado pelo comandante da companhia oficial, ou alguém com os poderes delegados, após revista à farda, e o clandestino, que era usado nestas ocasiões, e que isentava da comparência na formatura, com saída imediata após as aulas de manhã de sábado, bastando para isso mostrar a segunda via na portaria, com saída imediata para a…cobrição, antevendo-se já para o Horrível um qualquer prémio colegial futuro pelos vários filhos, netos, clandestinos e afins! Mas nada se assemelhava ao mustache do 144/1888, o Pinto dos Bigodes que, quando foi abatido ao batalhão colegial, levou consigo um bigode tipo piaçaba, cujo uso, por ser moda na sociedade, era autorizado no Colégio Militar, e por isso nenhum Mota o poderia pôr em causa. Enfim, modernices impensáveis nos anos setenta, em que a moda piava mais baixinha, no primeiro ciclo o comprimento do cabelo não podia ser superior aos dois centímetros, limite que passava no segundo ciclo para os quatro centímetros e no ciclo complementar para os seis. Por isso, para sobreviver no sistema usava-se toda a criatividade! 



Monday, July 13, 2015

"Operação Infante"



O Comandante Guélas
Série ISEF

 No dia doze de julho do Ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de dois mil e quinze decorreu mais um encontro cultural/gastronómico da turma dois que albergou nos anos oitenta do século passado, durante cinco longos anos, junto à movimentada ribeira do Jamor, os rebentos da elite do Instituto Superior de Educação Física de Lisboa, colegas do ovelha negra o Mourinho do Chelsea. Assim, o Casa Blanca Beach abriu as portas para receber os betinhos da Cruz Quebrada, tendo o encontro revelado novidades, que seriam probabilidades improváveis na Estatística do século passado, ministrada pela desaparafusada Luísa Barreiros: o Jacks Cabeludo concluiu o curso e o Quim do Pénis…perdão, Ténis, reformou-se, indo fazer companhia ao veterano Pedreta, que quando questionado acerca do número de anos que trabalhara, já não se lembrava, tendo ambos agora atividades caraterísticas do estatuto, caminhadas matinais em Palmela, alimentação dos gatos vadios em Setúbal e distribuição de milho aos pombos da Arrábida. E os restantes que continuem a descontar para as suas pensões! Descobriu-se que por detrás da condição destes dois ex-(in)do(e)centes estava um facilitador, com ramificações à política, também morador na zona, de nome Anselmo, talvez com conta na Suíça como o 44, que confessou em voz alta, com a arrogância típica dos poderosos:
- “A vida inteira tive asma, e quando mudei de leite passei a respirar como um tubarão”.
Era a prova final de que naquela mesa encontrava-se sentado um elemento do gangue televisivo 'Shark Tank', e a diferença estava no prato, todos com Tainhas de Esgoto, ele com um Robalo das Ilhas do Seixal! Daí a colega Fátima, uma stora remediada, tal como a sua colega Amélia, que só têm dinheiro para passar férias na ilha de Santorini, ter necessitado de óculos para conseguir distinguir o lombo da Mugil cephalu, e não engolir uma espinha mais atrevida, que a poderia colocar no gangue do Pedreta, o “Primeiro”! À medida que a conversa desenvolvia, foram detetados dois contrabandistas, um de Beja, traficante de “Lúcio Perca”, com sandálias de reformado, sinal inequívoco da iminente mudança de estatuto, e outro das Caldas, com a exclusividade na “Amêijoa Vietnamita”, com indícios de ter um testa de ferro, o já mencionado “Facilitador”, que deixou escapar ter por hábito nadar diariamente 1,5 Km em crawl, sabendo todos que sempre tivera alergia ao cloro e o estilo dominante ser o “prego”, como se provara quando mergulhou no oceano da praia do Infante. Tinha sim uma piscina, mas para guardar o produto do Parrilha, que confessou continuar com uma “memória de elefante”, onde guardava a sete chaves a cor das cuecas da Glórinha do refeitório do ISEF dos anos oitenta, e da D. Blondina. Mas o polvo, não o da refeição, que não havia, continuou a revelar-se, quando o arrogante “Facilitador” confessou que estivera perto de acumular mais um tacho, desta vez na Federação de Triatlo, uma cortesia do seu colega Manuel. Todos se aperceberam então que as probabilidades do próximo almoço ser em Évora tinham aumentado exponencialmente! A Beta e o Beto despediram-se dos presentes, viviam agora longe da civilização, no Portugal profundo, e do Jacks, o mais cabeludo do curso, não permitiu, no final do convívio, que os colegas fizessem um “despedimento” à maneira, tendo preferido ir fazer a digestão para as águas frias da praia do Infante. Apareceu também a professora doutora Cucharra, acompanhada da tribo, recebida com carinho pela Helena, a única que parecia ainda ter os carretos no lugar. O Parrilha ainda conseguiu impressionar as fêmeas, mostrando uma fotografia do seu trator, um bicho com muitos cavalos, “capaz de lavrar todo o tipo de terrenos”, que fizera as delícias da Guida da dança, quando ele a ameaçou levar no seu Mercedes para Monsanto, após o chumbo que ousara dar-lhe na Dança, local onde iria pagar toda a gasolina. Presentes também, o Chico, novamente de mota, sinal de que perdera as memórias das quedas anteriores, o Manecas, o Bezerra, ambos com um discurso já um pouco duvidoso.

Assinado, Miguel, treinador dos “Tubarões do Seixo”, a mítica equipa da Venteira cujo “i” cai à entrada do clube!

Sunday, June 14, 2015

O Crime do Padre Viana


Comandante Guélas

Série Colégio Militar


Estas estórias pretendem ser uma marca da eternidade do passado, uma emoção privada e intransmissível. Era dever dos Meninos da Luz viver a vida intensamente, e por isso estarem mais expostos ao complexo sistema da Teoria do Caos. Mal sabia o 147 que uma simples aventura de adolescente rebarbado iria fazê-lo seguir o trilho da cultura e ser contemplado, umas décadas depois, com o “Prémio Barretina”, por ter vencido na vida a soprar com eloquência na sua gaita. Foi num mês de maio da década de sessenta que resolveu alinhar com uns colegas numa visita de cortesia às Meninas de Odivelas, deixando para trás o colégio de prevenção, com o oficial de dia à sua espera, e a Deolinda, a diretora que proibira os espargos às refeições porque dizia que despertavam a líbido das alunas, a rasgar o protocolo de colaboração com os Meninos da Luz, degelo só conseguido quando o Comandante de Batalhão, o nº 8, foi obrigado a ir pedir desculpa pelo comportamento indecoroso dos seus camaradas:
- Prometo que nunca mais a intimidade deste local, tão sagrado para nós, será violado pelos meus subordinados.
Foram oito anos de tréguas até que na véspera dum “Dia da Raça” o 89, o 165 e o 376 entraram triunfalmente na alcofa das meninas, assinaram as presenças nas paredes da piscina, no espaço onde os antepassados também tinham deixado as suas marcas, apagadas com o acordo,  e espalharam papéis com reivindicações íntimas. Ninguém conseguia apagar o “ardor guerreiro” destes adolescentes com os espargos incandescentes, até nos estudos havia um professor que se gabava dos seus males de Vénus, depois de muito pressionado pelos discentes curiosos:
- Um esquenta e dos antigos, tive de levar umas belas marteladas!
As estórias do Colégio Militar são para ser mantidas debaixo de olho, o que elas são e o que elas têm para contar, mas estão todas ancoradas em realidades provadas. Havia camaradas normalíssimos que se transformavam em pessoas intoleráveis a partir do momento em que lhes davam funções de comando, passando a ficar assombrados pela emanação de desejos recalcados. E foi numa destas situações de possessão que o comandante do primeiro pelotão, da primeira companhia, deu ordem de sentido a meio da noite, porque descobrira, vá-se lá saber como, que o 45 se deitara com cuecas, um crime de lesa-pátria. E aproveitou a insónia para invocar o princípio sagrado do “um por todos, todos por um”, estreando assim a camarata cheia de ratas no enfardamento coletivo, atividade que iria tornar-se rotina durante todo o percurso escolar. A única explicação possível, tirando o sadismo, seria levar os noviços a descobrirem outra modalidade, o linchamento subsequente do Cuecas de Buda! O Colégio Militar tinha um ambiente complicado, com as suas restrições e uma autoridade que era exercida de uma forma muito rígida. Por isso o Morena antecipava-se sempre aos colegas na aula de equitação, corria como um doido para o picadeiro, para assim conseguir escolher o equino que lhe daria mais chances de sobrevivência:
- Senhor soldado, qual é o cavalo mais manso?
- É este, - respondeu, depois de ter dado um valente murro no focinho do animal, que se manteve impávido e sereno.
A excursão a Elvas tinha sido alucinante, cada Menino da Luz recebera uma nota de 20 escudos para decidir onde almoçaria, mas a certeza de chegar vivo ao destino fora sempre uma incógnita, pois os alunos teimavam em jogar um jogo perigoso, correrem ao mesmo tempo para um lado da camioneta, e fazerem o mesmo para o outro lado, o que obrigou o motorista a comportar-se como um autêntico homem do leme no meio de uma tempestade no Cabo Bojador. Só a fadiga conseguiu acalmar a rapaziada, pois os gritos dos adultos eram música para os petizes, que já tinham mudado para outra atividade  mais pedagógica, encher os sacos das sandes com os conteúdos das bexigas, e tentar acertar nos motoqueiros que iam sendo ultrapassados, ganhando com isto parte do dinheiro que o colégio lhes dera para o almoço. Uns iriam comer pastéis de bacalhau rançosos, enquanto os com mais pontaria encheriam as barrigas com bitoques no Ricochete lá do sítio.
Um dia antes o 61 fizera queixa do Semita ao Comandante do Corpo de alunos, por ele lhe ter partido na cabeça o ponteiro, que deveria servir para apontar para a ardósia, mas cujo engenheiro Grijó, e muitos outros, teimavam em usá-lo para disciplinar as ovelhas. Por isso o docente fora chamado ao gabinete do major que o aconselhou a usar “a parte mais grossa, que não se parte”! Quando se fala da formação ministrada no Colégio Militar ouvem-se as conversas mais elitistas. Na aula debitava-se Francês, mas a atividade principal era a esgalhação, com a maioria da turma de poulet na mão, a tentar chegar em primeiro lugar à meta, ao mesmo tempo que o urubu do Pequito desesperava com o “Avoir” do Elefante, o único com as duas mãos em cima da mesa. Mas como a estória já vai longa, um último apontamento. Duas horas depois de ter terminado uma sessão de cinema de uma quinta-feira, destinada aos alunos mais velhos, “A Quadrilha Selvagem”, uma escolha do padre Viana, que morreria mais tarde de ataque cardíaco dentro do seu carro, um Citroen Dyane, mas que o 191 da 1ª companhia tinha conseguido ver graças a um graduado amigo da 4ª companhia, o 592, candidato a namorado da sua irmã mais velha, a 152 do Instituto de Odivelas, que o levara escondido, o rata continuava a revolver-se na cama, sem conseguir dormir. A imagem da mulher em topless dentro de uma pipa de vinho colara-se às cuecas, as mamas a girarem silenciosamente e sem fim queimavam-lhe a cabecinha e expandiam-lhe o pescoço, que parecia ir rebentar a qualquer momento. A transição das “Ginas” estáticas para uma bronzeada sem freio nos dentes chegara abruptamente, sem aviso prévio. Sentou-se na cama, com o rosto vermelho e suado, olhou em redor, ele sabia que enquanto aquelas donzelas não o largassem, a insónia permaneceria. Quando finalmente cerrou os olhos, e julgava-se longe do pecado, deu de caras com a Rosa e sentiu a sua mão maliciosa.




Saturday, March 14, 2015

Fogo Posto


Comandante Guélas

Série Colégio Militar


As aventuras no Colégio Militar devem ser mantidas debaixo de olho, o que elas são e o que elas têm para contar, mas estão todas ancoradas em realidades comprovadas, são estórias de rapazes que se cumpliciaram para lá dos silêncios. Para muitos deles a vida colegial não tinha nada de maravilhoso, porque não fora por suas vontades que estavam ali. É por isso que o Colégio Militar sempre teve um lado sedutor, porque temos um orgulho da pertença, e um lado sinistro, porque conseguiu muitas vezes transformar alunos normalíssimos em pessoas intoleráveis a partir do momento em que lhes deram funções de comando, passando a ficar assombrados pela emanação de desejos recalcados. Apesar de as novas “Meninas da Luz” estarem tão orgulhosas da farda que vestem, cujo desejo em dias de festa é tirar uma fotografia com um antecessor, muitas têm ainda de superar obstáculos, mas como o “ardor guerreiro” ainda faz parte do hino, levantam com orgulho a bandeira de todos nós. Uma viu um dia o sonho tornar-se realidade, o camarada pôs-lhe a mão por cima do ombro, e o telemóvel registou para a eternidade aqueles sorrisos sinceros e aquele orgulho na casa renovada. Mas a amiga não teve a mesma sorte:
- Não tiro a fotografia, o Colégio Militar deve ser só para rapazes, - respondeu a seco o ex-aluno quando viu que o seu sucessor era uma menina.
Por momentos todos ficaram em silêncio, incrédulos, trocando olhares indignados, ao mesmo tempo que olhavam para os olhos brilhantes da camarada. Mas valeu a prontidão de outro ex-aluno, que se aproximou dela, e disse em voz alta:
- Tiras comigo, o número é o que menos interessa!
A Menina da Luz aprendera que ali também havia gente desta, “koninhas”, para quem o Colégio Militar deveria ser imutável, esquecendo-se que era na sua imperfeição que cabiam todas as grandezas e todas as decadências. Recuemos para um sábado de manhã dos anos oitenta, e entremos numa turma à beira de um ataque de nervos, com a saída de fim de semana no pensamento, desesperada com o tempo que parecia ter estagnado na aula de física do Semita, agora um velho professor em fim de carreira. Tinha sido recebido como habitualmente por um contentor do lixo a barrar-lhe o Volvo azul, a seguir à curva da quarta companhia, por isso não se apercebeu que os alunos acabavam de encher a calha que estava debaixo da mesa do 61 cheia de papel e alguém  ateara fogo. Depressa o fumo envolveu o camarada, transformando-o no Desejado mas, antes que virasse frango assado do Ricochete, envolveram-no com muito papel e, quando já estava em formato de múmia, pegaram nele e saíram da aula com as sirenes ligadas:
- Ti,nó,ni…ti,nó,ni…
O engenheiro Grijó nem queria acreditar, os alunos dos anos oitenta eram uns selvagens, quando comparados com os das décadas anteriores, porque em vez de fugirem ainda no exterior quando ele se esquecia das horas a jogar xadrez na sala de professores, esta rapaziada de agora abandonava o barco já em movimento, mesmo com ameaças de bengalas, bicicletas e afins:
- É gado, é gado, - gritava o Semita tentando controlar a turbe com o ponteiro, que saia em debandada do curral,…perdão, da sala de aula.
Para os “koninhas” cenas destas nunca aconteceram, mas mesmo que sejam uma realidade deveriam ficar para sempre enterradas no buraco mais fundo das nossas almas e connosco ao pó voltar. Mas porque no Colégio Militar o tempo nunca foi desperdiçado, continuemos, dizendo que a alcunha do Galo, professor de Geografia fora ganha na Escola do Exército por ter um bivaque que parecia uma crista, informação que serve de interlúdio à próxima cena, agora nos anos setenta.
- Hoje vamos fazer uma Chamada Escrita, - informou a frio o professor de História e Geografia, de apelido Azevedo e alcunha “Feio”, que viera substituir o padre Peixoto, pousando a pasta em cima da mesa.
- Mas isto é à traição, - ripostou o Horrível, deixando cair o tampo da carteira.
- Os alunos estudiosos estão sempre prontos, - disse o Feio, começando a distribuir as folhas.
Quando retornou ao estrado verificou que os alunos tinham apenas preenchido os cabeçalhos. Por momentos trocaram-se olhares, de gozo os dos alunos, de raiva o do Feio.
- Olhem que eu dou um zero a todos! – Gritou, limpando com um lenço o suor da testa.
Nada, os discentes estavam irredutíveis. Aproximou-se do chefe de turma e perguntou-lhe:
- Então, não sabes nada?
Logo este, o 191, repetente. Não obteve resposta! A tensão estava no ar, o professor Azevedo ajeitava os tendões do pescoço que pareciam cordas repuxadas. Por fim cedeu:
- Então, quando é que querem a chamada escrita?
À noite o barulho na camarata era ensurdecedor, assim como o cheiro, apesar da corneta já ter dado o toque para as sombras e para os silêncios. Foram infrutíferas as várias tentativas para acalmar as hostes, por isso o graduado não teve outra solução senão abrir as luzes e dar ordem de sentido. Ia haver festa brava, nada que se assemelhasse aos métodos do 202/1901, de alcunha o Selvagem que, segundo relato no livro do 291/1934,   costumava resolver os problemas disciplinares pendurando os ratas de cabeça para baixo num galho duma árvore. “Impensável”, dirão os Koninhas, “não no meu colégio”. Prossigamos!
- 278, vamos fazer a ronda – chamou o oficial de dia.
- Sim meu capitão.
E como era habitual no colégio, o graduado acompanhou-o aos quatro cantos do espaço, que se dizia “educativo”, incluindo às cavalariças lá para os lados da formação. Todos faziam parte da família da Luz. De regresso às companhias, o oficial convidou o aluno a acompanhá-lo ao bar, a Soca, e por aí ficaram no meio de cafés e bebidas espirituosas até altas horas da madrugada. Após o derradeiro whisky ainda houve tempo para um último comentário:
- Sabes 278, muitos dizem que o capitão Caetano é isto e aquilo, eu sou duro quando tenho de ser, mas também sei ser vosso amigo!
Com estas breves estórias não fingimos ser o que não fomos, recuperamos sim as memórias sagradas e preciosas que nos abrem as portas do Colégio Militar, relembrando-nos que somos exilados do nosso passado.