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315 estórias

Monday, May 02, 2016

Os Botões do 69


O  Comandante Guélas

Série Colégio Militar



Os Meninos da Luz sempre estiveram prisioneiros de um mundo subjetivo, cada aluno, muito mais do que um indivíduo distinto, dizia-se ser uma parcela do grupo, sobre quem pesavam todos os prejuízos, todos os interesses e todos os sentimentos, o ato de um responsabilizava o coletivo. Mas nem sempre era assim! Os ex Meninos da Luz têm uma desenvolvida cultura da memória, são possuidores de um museu colegial, com várias secções, em que cada aventura aconteceu num lugar bem definido. O Colégio Militar tem uma bizarra noção do tempo, por isso representa todas as posições, das mais extremadas, até às mais moderadas, as suas estórias são sempre fantásticas porque foram possíveis. O Menino da Luz caracteriza-se pela mobilidade, é capaz de percorrer grandes espaços em tempo curto, é original, irracional, fantástico, quem está perto sente as vibrações da sua alma, tem fome de liberdade, é rebelde, possui um sentimento de unidade, tem uma boa capacidade de orientação, a consciência do espaço e a possibilidade de o representar de uma forma íntima, uma espécie de GPS existencial: nos anos setenta era o bar da Dallas Cowboy, o Olímpia e Odivelas, enfim, tudo coordenadas com interesses hormonais. Por isso, ao contrário do 136 que diz agora que a ética e a seriedade não são coisas que se ponham por escrito, as estórias do colégio têm de ser escritas para memória futura.
Na Páscoa de 1978 uma ilha do Atlântico nunca mais foi a mesma após a breve passagem destes extraordinários meninos com “tosões de oiro”. O panfleto que lhes deram à entrada do avião militar tinha como título “Visita de estudos dos alunos finalistas à ilha da Madeira”, com as informações básicas sobre a zona. O Primo Orelhas (649), que captava as fêmeas por instinto, ficou finalmente a saber, depois de sete anos de estudos, e de várias reprimendas do professor Lufinha, especialista em torcer orelhas em câmara lenta, que não aceitava que um descendente dum ilustre catedrático da faculdade de letras da universidade de Coimbra, tivesse comportamentos semelhantes aos de um asno, que tinha sido o João Gonçalves Zarco e o Tristão Vaz Teixeira, os descobridores da ilha de Porto Santo, no ano de 1418:
- Deviam ir com uma fomeca dos diabos, - exclamou, folheando uma “Gina”.
- E no ano seguinte foi a Madeira, que também era deserta. Já deviam ter calos nas mãos! – Retorquiu o Dani (661).
- E para se vingarem dos tempos de carestia encheram a ilha de minhotas e algarvias, e não de alentejanas peludas, - gritou o Cebola (360), dando um carolo ao 299.
- Tomara tu teres no teu colo a Albertina das Mamas Grandes, ou a Dallas Cowboy, - atirou o 649, fazendo referência às senhoras que mais tinham contribuído para a formação humanista de alguns destes rapazes durante o período dos “cinco estudos” de 1976, que os obrigaram a fugas permanentes em direção ao Bairro Alto, onde muitos mudaram o óleo pela primeira vez, ou tentaram mudar, mas a piroca não contribuiu, como aconteceu ao Broche.
Ainda o avião não aterrara e já o 649 estava de cabeça perdida, via-se com o primo 278 a correr pela ilha atrás das suecas da revista, tal como um pastor com as suas ovelhas, num estado de “rebarbamento”, o equivalente a uma overdose de luxúria. Por isso quando desceu as escadas e tocou a pista, em vez de beijar o solo como costumava fazer o papa João Paulo II, inspirou com sofreguidão o ar da ilha, e sentiu o “riberalves” das autótones. Em cada curso havia sempre um filósofo de serviço, e neste caso o pensador chamava-se Ginho, e os neurónios eram tantos que lhe permitiram corrigir vezes sem conta os erros de matemática do professor Fufu que, se não fosse o 61, seria o responsável pelo insucesso escolar de muitos. O Ginho dizia que em todos os cursos havia um gangue, o que provava o quão avançados estavam os Meninos da Luz para a época. O 240 (Rita), o 360 (Cebola) e o 661 (Dáni) encaixavam que nem luvas no perfil comportamental definido pelo camarada, que também atribuíra a alcunha ao 191, não por ele ser “metanocompetente”, mas por ameaçar, na sua posição de chefe de turma no início do curso, “pontapés na peida” a quem o comprometesse na missão impossível de manter trinta crianças fardadas de cotim devidamente formadas e bem comportadas, porque caso não o fizesse seria ele a sofrer as consequências do oficial de dia, cujas probabilidades de ser um psicopata eram grandes. Junto ao aeroporto aguardava-os umas Berliets com lonas, e foi neste tipo de transporte que os levaram para o Regimento de Infantaria do Funchal. Os alunos ficaram em camaratas e os cães e professores na messe de oficiais. E o extenso rol de visitas de estudo, em que eram obrigados a ir fardados, deu início ao conflito.
- Se aparecermos assim num hotel, as miúdas confundem-nos com os paquetes, e só nos convidam a ir até à porta dos quartos levar-lhes as malas, - protestou o 27, atirando o barrete ao chão.
- Se me tivessem dito que isto iria ser uma continuação das aulas, e não uma semana de cama com as suecas, tinha ficado em casa a gozar as férias da Páscoa na metrópole, - insistiu o 207.
Mas havia algo que intrigava um dos cães da região.
- Ó Bolacha, mas os putos que se sentam nas pontas regressam sempre com as calças molhadas à frente, - protestou o camarada do capitão Santola, quando viu a Berliet  regressar ao quartel apinhada de adolescentes vestidos de pinhão, vindos diretamente da Quinta das Cruzes, a morada do Zarco, o Descobridor, que o Primo Orelhas , o Cobridor, para impressionar as meninas do Maria Amália que também estavam a visitar a ilha, acompanhadas por outro primo, insistia em dizer ser seu familiar.
- O que é que queres, a rapaziada entra ao domingo à noite e só sai ao sábado à tarde, e só têm a Rosa, a mulher do Patronilha não conta, e ainda por cima vocês têm a Madeira cheia de miúdas iguais às das revistas mais estudadas do Colégio Militar, as “Ginas”, que batem aos pontos o “American Language Course” do Tabi! As meninas do Maria Amália Vaz de Carvalho também estavam famintas de luxúria, os rapazes estavam proibidos de pisar o passeio em frente do liceu. As meninas também estavam habituadas a enfardar à grande e à francesa, sendo a firmeza máxima a ida à "reitora". Também liam "Ginas", andavam à pancada, papavam-se umas às outras, e aos bétinhos do Liceu Camões, agora autonomeados "ilustres" políticos e advogados. Iriam na Madeira provar outro tipo de chourios, os da Luz!
Mal sabia o cão do Funchal que tudo se devia ao facto de se deslocarem em Berliet de caixa aberta, tapadas com lonas da guerra colonial, cujos buracos nas extremidades eram a prova da existência de minas em África, que era por onde entrava a água que caia em torrente sobre os veículos à entrada e à saída dos túneis. Por isso já se sentia no ar um clima de “golpe de estado”, porque farda significava veículo militar, e calças molhadinhas, e à civil dava direito a transporte civilizado, com direito a perfume sedutor. Que o digam o 649, o Gordini, o Dáni, o Maneli, e o Teta que numa noite arrancaram para os lados do aeroporto ao encontro das finalistas do Maria Amália. O 601 tinha motorista privado na ilha, um amigo do pai, e tudo porque fizera a instrução primária na região, que o ia buscar diariamente ao quartel, enchendo o carro com rapaziada que era largada nas noites quentes do Funchal. Quando o Primo Orelhas deu de caras com a menina do Maria Amália, sentiu o seu “tosão de oiro” mordiscar-lhe as pernas, desejoso de passar da mão do dono para um lugar mais ao seu gosto, o pote do tesouro, assim lhe pedia o seu pescoço tratado ultimamente com uma violência extrema pelo amo, que o esganava como a um ganso. O estado de exaltação tornou-o imprudente, arrogante, crédulo, cintilante, as orelhas mexiam como as asas de um beija-flor, apalpando a rapariga com o olhar, tirando-lhe o rosto e transformando-a num par de mamas, uma espécie de Albertina, mas com cheiro a Lavanda, e não a Pó de Talco e coiratos. Mas um dia a pacata viagem de finalistas do ano letivo de 1977/78 atingiu o seu zénite em mais uma viagem oficial com farda obrigatória. Ao regressarem do Funchal, e uma vez na camarata, as fardas foram despidas com raiva e atiradas com desprezo para trás de um armário, ao mesmo tempo que alguns atacavam um dólmen com raiva. E o dia seguinte foi o “D”! O aluno que tinha o “número mais vergonhoso do Colégio Militar”, palavras sábias do saudoso 125, o Horrível, o maior engatatão de todos os tempos que dava “oito de seguida sem ver a luz do sol” (sic), atrasou-se para o encontro na parada, comportamento inabitual neste detentor de todos os lacinhos disponíveis no mercado, que esporadicamente mudavam de farda nas ações de caridade da Conferência de São Vicente de Paulo, que incluíam gamanços de bolama no mini mercado junto às cavalariças. Onde estaria o 69? Perdido com alguma sueca mais atrevida que pernoitara no Regimento do Funchal? Com uma ressaca de Sumol de laranja?
- Já estamos atrasados, onde raio é que se meteu o comandante de batalhão? – Protestou o cão Estorninho, o Comandante do Corpo de Alunos que, após a revolução, teve como missão libertar o Colégio Militar do espírito de externato que se instalara, e faze-lo regressar aos tempos áureos da Inquisição.
O ten-Coronel, conhecido pelas “secas pedagógicas”, que numa mocada teve como homenagem a presença do esqueleto de Biologia com uma tabuleta a dizer “uma hora com o secas”, secas estas muito mais violentas do que a clássica estalada em sentido, pressentia de novo um clima de pré-revolução e isso não o agradava, ainda por cima fora das paredes da instituição que tradicionalmente resolvia tudo dentro de portas. O que é que iriam pensar os camaradas da Madeira?
- As visitas de estudo estão a dar cabo deles, - disse baixinho o professor de português, o Nasca, para o colega de Físico Químicas.
O 69 apareceu em camisa, os botões dourados do dólmen tinham desaparecido! O Regimento de Infantaria do Funchal deu ordem de prisão aos “turistas”, até que os responsáveis pela blasfémia se acusassem. E foi aqui que a rapaziada se apercebeu que o mítico “Um por Todos, Todos por Um” tinha ficado no continente, porque houve bufos que entregaram de imediato dois dos autores da blasfémia, que foram separados dos colegas, recambiados para casa e expulsos às escondidas, sem direito ao contraditório e a saber qual a opinião da maioria dos camaradas, para quem tudo não passara de uma inofensiva brincadeira. A medida mexeu com todos os que permaneceram na ilha, e quando alguns ilhéus ousaram meter-se com os Meninos da Luz que arrefeciam o desânimo numa piscina da Matur, um deles teve um ataque de caspa monumental, estilo o do Kebab do Cais do Sodré, que os levou à debandada quando se aperceberam que ia decidido a fazer-lhes a folha de ponta e mola na mão. Só pararam no ponto mais longínquo da ilha, onde se organizaram num grupo maior e partiram em direção ao quartel, numa excursão de vingança. Tiveram sorte, quando chegaram ao aeroporto já o avião militar ia no ar, de regresso à capital!

Thursday, April 28, 2016

Open Batata

O Comandante Guélas

Série Paço de Arcos


Quando o estilo de vida era superior aos rendimentos, o adolescente Pierre Pomme-de-Terre arranjava sempre maneira de descobrir novas minas de ouro, que não passavam pelas libras lá de casa. Um dia resolveu organizar um Torneio de Futebol na Escola Náutica, tendo convencido o anãozinho de suspensórios, chefe máximo do Futebol Clube de Paço de Arcos (com sede junto ao “Bar Cu à Vela”) equipado com dois matraquilhos carunchosos com alguns jogadores decapitados, a emprestar o seu prestigiado nome ao “Open Batata”. A reunião que serviu para desviar as inscrições obrigatórias, teve lugar no gabinete do presidente, que também servia de urinol para os sócios, mas que foi interdito enquanto durasse a combinação da golpada. O Pierre Pomme-de-Terre estava com pressa, as férias no Algarve aproximavam-se e ele queria ir para o hotel “O Golfinho” em Lagos. Quando as inscrições abriram, as vagas esgotaram-se rapidamente. Nesse dia a reunião dos responsáveis do “Open Batata” foi no “Gambrinus”, pois a direcção considerava ser inapropriado para o bom-nome do clube interditar de novo o urinol aos sócios. No dia de abertura o adjunto Pierre Pomme-de-Terre tinha uma surpresa para os participantes: campo havia, bola também, mas as balizas tinham de levar as balizas, que ele não se importava de alugar, e estavam guardadas atrás do Cine-Teatro, para que o guarda do ringue da Avenida não as encontrasse. Cada equipa levava a sua baliza e tinha de entregá-la no fim do jogo. Para segurança do clube, tudo sempre pelo clube, eram obrigados a deixar uma caução no valor equivalente a duas balizas novas, que ficava à guarda do tesoureiro, o adjunto do anãozinho de suspensórios. O primeiro encontro foi entre duas das equipas candidatas ao troféu, que ninguém sabia qual era, uma vez que o responsável, o senhor Pierre Pomme-de-Terre, se encontrar em viagem de “trabalho” pelo Algarve. De um lado do campo estavam os “Benfiquistas”, cujo nome já dava indicações acerca do seu objectivo desportivo, e do outro os “Burrinhos da Pradaria”, estranho nome para uma equipa candidata à vitória final, que tinha como avançado um adolescente loirinho com incalculáveis dioptrias, de nome Mac Macléu Ferreira, um médio que jogava de chinelos e só dava rendimento com uma “sagres” fresquinha nas mãos, chamado Bajoulo, um defesa que parecia ser o mais ajuizado mas era detentor de um nome pouco ecológico, Peidão, um guarda-redes que defendia melhor de costas, o doutor Charlot e por fim um jogador que vinha decidido a marcar nas duas balizas e que o nome dizia tudo, Graise. Quando o árbitro apitou para dar início à partida não podia imaginar que no “Open Batata” só seriam dados três toques, o do Mac que fez um passe tão tenso para o Peidão que este não conseguiu desviar-se a tempo, tendo apanhado com a bola em cheio na testa (segundo se pensa o abanão foi tão forte que a região do córtex pré-frontal saiu do estado de dormência e começou a funcionar normalmente segundo foi comprovado pelos bons resultados a Matemática) e por último o Bajoulo que deu um biqueiro tão grande que a bola ultrapassou não só os limites do campo, mas também a vedação da Escola Náutica, só parando quando despedaçou o pára-brisas de um automobilista que se dirigia em direcção a Cascais. Soube-se mais tarde que o esférico levava cravadas algumas unhas do rematador luso-alemão. A debandada foi geral, o senhor presidente do Clube de Futebol de Paço de Arcos foi o primeiro a chegar à sede, apesar de ser coxo e ter alguma dificuldade em subir aos passeios devido à sua fraca altura. Esse foi o seu último dia de trabalho, pois apresentou a demissão em frente a um espelho, que foi aceite de imediato e usada como papel higiénico. Quanto ao adjunto, e grande responsável pela magnífica organização, estava naquele momento a gozar umas merecidas férias num hotel de cinco estrelas em Lagos, mas já a convencer o gerente para a realização do “Open Golfinho”.

Friday, April 08, 2016

A Sexualidade da Luz

O Comandante Guélas

Série Colégio Militar


Nestes tempos de mudanças rápidas, pensar que virá o dia em que poder-se-á entrar aluno e sair aluna, caso as histéricas melancólicas de juízo curto, incapazes de suportar a tensão das suas impotências e tormentas, cujos casais de referência são o Romeu e Júlio, ou Mariana e Filomena, vençam, atira por terra o último dos mandamentos do Colégio Militar: pegar de empurrão só para lá dos muros! O 205/1882, futuro pintor e poeta da geração de Fernando Pessoa, que será expulso em 1888 por ter chumbado, revelou mais tarde na sua autobiografia que se tinha tornado "muito onanista" e fumador neste espaço educativo. Por isso quando o Jerónimo, que da Luz não percebia nada, deu de caras com o anúncio escrito no papel que forrava a bandeja do buffet do Continente, “café procura pastel de nata para relação própria”, decidiu-se pela demissão, assim o obrigavam as palavras inconsequentes do Grilo, “carinhos, drogas e roubos, não são admissíveis neste espaço educativo”! O sub andava aos papéis, punha uma tradição, o “gamanço”, no mesmo saco do “montanço”, e isso era um ultraje. Sem aquelas atividades de “desenrascanço” não haveria “firmezas”, “apresentações à alvorada”, e outras brincadeiras exclusivas deste espaço militar, onde tudo começava aos domingos à noite junto à enfermaria, com os graduados a fazerem uma operação stop à bolama e ao tabaco, que rapidamente passava das cuecas dos ratas para os bolsos educativos dos estrelados, sem que estes atos fossem ilícitos e muito menos considerados carícias. Quanto aos “charros”, por lá andaram nos anos quentes da revolução, para aquecerem a malta alucinada pelos ideais revolucionários, que também quiseram transformar em borboletas estes meninos de “tosões de oiro”! Ainda o ano vai a meio, e o “Rei das Fadas”, ao contrário da Cinderela, mal consegue transformar o primeiro “a” da segunda palavra num “o” após o toque do recolher, mesmo já depois de um e uma camaradas terem sido apanhados a serrar na sala de leitura da quarta, e a intoxicação colegial está de volta, mesmo com a Aberta já longe da Luz e perto de Évora, e o onanista primário do Alguidar algures a tentar conservar o tacho que lhe está a escorregar pelos entrefolhos. Nestes tempos tão sensíveis, em que comentar um hipotético olhar de soslaio para uma bilha, tapada ou escancarada, abre mais uma caixa de Pandora, os antigos da “Geração Rosa” deverão ajoelhar-se e agradecer-lhe pelas horas íntimas em que esgalharam freneticamente os frangos, cada qual com o seu, olhando babados para uma “Gina” gamada, onde uma sueca, sem necessidade de charros, ficava com a cara da musa, dava aso à imaginação dos imberbes vestidos de cotim. Arrependam-se aqueles que numa noite tentaram estragar-lhe o bem que, por ser imaterial, pertencia a todos os sonhos, e cujo efeito secundário não passava de umas almofadas rotas ou umas molas frouxas. Orgulhem-se aqueles que “em campos de glória fulge” montaram o Tangerina, o Quadrado, o Alfange, o Eusébio, o Vapor, o Patacho, que vos deixaram com calos perpétuos nas bilhas, ou os outros que, “com ardor guerreiro”, manusearam com brio as Mannlicher, ou que sopraram com “engenho e arte” nas flautas colegiais, servindo hoje, como no passado a deusa Minerva!     

Wednesday, April 06, 2016

O Todo Boneco

Comandante Guélas

Série Paço de Arcos

O cartaz prometia, o filme era de máximo terror, a Idade Média era o cenário e os vampiros bronzeados tinham nos pulsos as marcas dos relógios. O gang ocupava duas fileiras de cadeiras na parte mais fina da plateia, a segunda, cujas cadeiras continuavam a ser de pau, mas um pouco mais luxuosas pois tinham espuma, comprada no António da Lúcia, que atenuavam a “dor-de-cu”, reservada para os utentes das duas primeiras filas, o Ánhuca, o Ratinho Blanco, o Pedro da Avozinha, o João da Quinta, o único preto, o Fernindó e o resto dos habitantes de Paço de Arcos profundo. A festa começou logo na primeira dentada, quando o Zézé Camarinha local deu o ósculo fatal no pescoço duma donzela distraída, que resolvera ir fumar um cigarrito às cinco da manhã para a Cova da Moura lá do sítio. Tocou um despertador. O Pirilampo veio a correr e acendeu a lanterna, não para arrumar um espectador, mas para tentar localizar o prevaricador. Só havia santinhos. A luz desapareceu e ele ficou em alerta máximo no local. Nova dentada seguida agora de um barulho de pato, apetrecho para a caça e propriedade do Conan Vargas. Desta vez o barulho vinha da parte de trás e da ponta oposta. A lanterna tornou a acender-se e varreu a zona. O público adolescente estava todo atento ao desenrolar do filme e não era para menos. Uma das vampiras tinha aparecido agora em todo o écrãn com as mamas de fora e isso num filme no Cine-Teatro de Paço de Arcos correspondia a encontrar uma agulha num palheiro. E a seguir a esta cena veio outra, o caçador de vampiros resolveu dar um beijo apaixonado numa camponesa a cheirar a alho, que o mauzão do castelo queria trinchar. Aconteceu o habitual, o Todo-Boneco, um conquistador de bairro genuíno, que picava em todas as sopeiras da vila e arredores, fez, pela milésima vez, o seu único comentário que estava sempre reservado para estas cenas íntimas:
- Espera aí que já cospes!
Risota geral, cartão amarelo do Pirilampo. De novo o despertador, seguido do pato, de um apito de árbitro, de castanholas, que puseram o atento Pirilampo à beira de um ataque de nervos, sem conseguir dar o vermelho a ninguém, porque mal deu à luz caiu um silêncio sepulcral, a condizer com o momento. Chegou o intervalo que permitiu restabelecer a circulação sanguínea dos cus da plateia e normalizar os níveis de nicotina nas veias. Foi nessa altura que todos reparam que o bombeiro voluntário de serviço era o Álhi. Mal as luzes se apagaram o pato, o despertador, o apito, as castanholas, foram substituídos por ininterruptos “Álhis”, que não deram descanso ao Pirilampo e ao Bombeiro. Também se gritava “Tó Pi Tói”, outra maneira de irritar o Álhi que, segundo os colegas de carteira da primária do dito soldado da paz, queria dizer “senhor professor”. Ainda hoje, já reformado, reage a estes dois chamamentos quando algum pai ou avô o avista. Os comandos têm o “Mamma Summe”, os paço-arcoenses o “Álhi” e o “Tó Pi Tói”.

Monday, April 04, 2016

America Calling

Comandante Guélas
Série Paço de Arcos

O último paço-arcoense a ser avô antes do 25 de Abril tinha como nome de guerra Vaca Prenhe devido ao seu estilo atlético e à juba encarapinhada que lhe chegava aos ombros. Ao contrário do Sansão, e com a ajuda da revolução, quando cortou o cabelo para assumir algumas responsabilidades de pai precoce, lá conseguiu transitar de ano. Mas como a Natureza compensa sempre, o seu cunhado Peidão, um adolescente modelo, ajudou-o a criar o filho. E foi numa das noites frias do pós-25 de Abril, apesar da época estar ao rubro, que o Peidão abdicou dos estudos para ir fazer de baby-sitter ao seu sobrinho com cabelo de caniche. Para estar em contacto permanente com os verdadeiros “pais” do pequeno, os avós maternos, o Peidão foi munido com os Walkie–Talky que o avô lhe trouxera das Lajes dois anos antes. Até lá tinham servido para os adolescentes irem gamar peixes à noite à Quinta do Leackoque, ficando sempre um de vigia para o caso do senhor Manuel, o motorista, dar conta e vir de caçadeira. Por volta das onze horas da noite e já depois de ter desistido de empinar a tabuada dos quatro, recebeu a visita do Graise, que também era tio do pequeno, mas tinham evitado dizer a verdade ao puto, para ele não se traumatizar, pois para isso já bastava o pai, que veio acompanhado do Vasco Americano, um radioamador profissional, que debitava inglês californiano do melhor, e era dono da maior antena da vila, com luzinha e tudo na ponta, para os aviões não tropeçarem. Segundo o papel de instruções que o general dera ao neto Peidão, um adolescente já com muitas preocupações ambientais, estava marcado um novo contacto para as 23H10.

- Allô, allô, P1 chama P2, escuto, - disse o Peidão.
- Rrrrrrrrrrrrrrr
- Allô, allô, P1 chama P2, escuto!
- Rrr…P2….P1…iga….tendeu?
- Estou a ouvir mal, avô!
- “Avô” não, P2, - gritou a voz vinda do cimo da colina.
O tempo era de cautela, o COPCON andava na rua à procura de fascistas. E todos os meninos de boas famílias estavam na corda bamba, apesar de “política” para eles significar “festa permanente”. O Vasco Californiano meteu-se na conversa e no seu magnífico inglês iniciou o diálogo entre dois profissionais, um general a válvulas e um adolescente com a boca cheia de transístores. Identificou-se correctamente e o da colina disse que estava na China.
- China?! But I have the antennas look to Europe?!
Os tempos eram de insegurança, o Otelo e o seu gang dominavam a capital e arredores, e podiam estar à escuta. A comunicação com a América foi bruscamente interrompida, mas o Peidão e o Vasco Americano passaram à cena número dois, simulando outro contacto, agora entre dois portugueses, um madeirense e um paço-arcoense. O militar estava agora a assistir, sem poder intervir.
- P1 aqui Fox do Funchal, escuto.
- Fox aqui P1 de Paço de Arcos, escuto.
O general nem queria acreditar, ele sabia que o neto era uma nódoa a química, pois já ia na centésima explicação na garagem e ele ainda nem tinha conseguido decorar a fórmula da água, mas agora estava a ultrapassar todos os limites razoáveis, dando de bandeja ao inimigo a sua localização.
- Desliga, não diga onde está, o COPCON anda por aí e pode estar à escuta, - gritou desesperado o P2.
Mas o P1 estava imparável, pois disse a morada, o seu nome, o da família toda, quanto calçava, o nome dos cães, Boby e Bugio, o número do B.I. O general a válvulas desligou o aparelho, tirou-lhe as pilhas e carregou a metralhadora chinesa. Se o gang do Otelo aparecesse eram recebidos à bala.

No dia seguinte os pais do Bajoulo foram visitar os avós do Peidão e o tema principal da conversa foi o “contacto milagroso com a América”. Devido a condições meteorológicas excepcionais, que iam de encontro a todos os manuais de Electrónica & Comunicações, a vila de Paço de Arcos ficara para a História, no Ano da Graça de Nosso Senhor de Mil Novecentos e Setenta e Cinco, ligada com a América, através de um Walkie – Talky a pilhas!