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315 estórias

Friday, March 27, 2020

O Meia Lua




O Comandante Guélas

Série Colégio Militar




O Colégio Militar era um lugar onde não havia respostas, todos carregavam a mais torpe das contradições, durante o dia ouvia-se o barulho de botas caminhando acertadas num lugar onde era fácil falar em números. Na aula de música do Carioca, ao contrário das obras de Mozart, não havia silêncio mesmo quando a melodia chegava ao fim, pois era o tempo de represálias. E foi numa tarde igual a muitas outras que o Chefe da Copa, quando ia calmamente a dobrar a esquina do edifício, no páteo dos Pavilhões de Desenho e Ciência, e a observar o voo de um melro que, como do costume nas aves, não deixava rasto, quase morreu abalroado por um “senhor aluno” que gritou:

- Sai da frente ó careca!

Ia em fuga desesperada, perseguido pelo Speedy Gonzales, vigilante, que na noite anterior o tinha apanhado a ele, Cão, ao Camélia, ao Gordini e ao Escalope quando os descobriu na piscina, após uma perseguição desenfreada, seguida da respetiva participação. Recuemos. O Cão tinha estado a disputar o Jogo do Barrete, uma das muitas modalidades desportivas exclusivas do colégio, que consistia em tentar acertar com o penico nos buracos do teto, jogo que evoluiu nos anos oitenta para os Miolos ao Teto, onde o objeto a atirar já não era a peça de fardamento, mas um colega, que tinha como objetivo assinar com a sola o teto da sala. O Cão tinha ganho o jogo, mas havia sempre uma consequência, o objeto entrava no buraco e já não saia, ficando de imediato o atleta em modo clandestino, ou seja, tentar chegar ao Geral das Companhias sem ser detetado. Mas o vigilante velocista tinha fama de apanhar todos os coelhos que desafiassem o sistema!

- Malucos, estes miúdos estão malucos, - desabafou o Meia-Lua.

À noite no geral da companhia ia haver um jogo de futebol, cuja bola era saltitona e tinha pele de galinha, rugosa, com um atrito necessário para fazer remates em arco, e os postes das balizas os caixotes de lixo. A caderneta de cromos estava cheia de craques, o Judi, o Panzer, o Cão, com a sua esquerda mágica, o Lory, o Becas, o Dani, uma parede na baliza, o Tofa, o Rita, o Têta, o Cascão, o Geada, o Six, o 76 e muitos outros, cujos vestígios genéticos ficaram para sempre espalhados pelos gerais das companhias. No intervalo dos jogos, como não era aconselhável a Rosa, a mulher do Patronilha, a Listete e a Antonieta fazerem de “cheerleaders”, lá aparecia o Pejó a percorrer o Geral da companhia com flic-flacs à retaguarda, desde a porta da rouparia até à sala de leitura, ocorrência que nunca provocaria uma esgalhação coletiva após a corneta do recolher, excepto talvez alguma exceção. Apesar de as bolas serem de plástico havia sempre uma que se suicidava de encontro a um vidro, estilhaçando-o e provocando um uníssono “PêêêGêêê". Como não havia culpados o prejuízo era dividido por muitos, e 1/180 foi o recorde.

Esta rapaziada, que passava a semana em reclusão dentro do colégio, e alguns o ano todo, tinha de se entreter, e ultimamente o Meia-Lua era alvo de bullying. De cada vez que terminava o trabalho, e quando iniciava a descida das escadas do refeitório das primeiras e segundas companhias, tinha um grupo numeroso de fãs que gritavam, “Meia-Lua, Meia-Lua”. Invariavelmente apanhava o primeiro pau que encontrava e tentava acertar nos pokemon que o rodeavam, uma variante do jogo atual com telemóvel.

- Meia-Lua és da Pide, - gritou o Horrível.

Foi demais para o senhor João, a somar à derrota do seu FCP, elevou o pau e quando pretendia acertar nos costados do Vinasse, ao mesmo tempo que utilizava palavras impróprias, aquele encravou-se no tronco de um eucalipto, e o Meia-Lua desequilibrou-se e rebolou pela encosta. A festa só terminou lá para os lados da sala do Carioca, o alvo seguinte de várias biqueiradas na porta. O padre saiu, como habitual, a espumar lava do Inferno e a perseguir o aluno mais próximo, mas sem sucesso. O senhor João, Chefe da Copa, mais conhecido por Meia-Lua, tinha fama de engatatão, e de confecionar o melhor Amarelo do país. Dizia-se que o segredo da iguaria estava nas batatas oleosas e prensadas, porque ele sentava-se em cima do panelão durante a confeção. E a única peida que se aproximava da sua era a do Capitão Peidinhas.


Saturday, March 21, 2020

A Fotografia



O Comandante Guélas

Série Colégio Militar



No Zimbório o Chulógrafo preparava-se para registar para a posteridade os oficiais e os professores do ano letivo de 1971/72. Todos? Todos, não, porque lá para os lados do ginásio o Maneta procurava desesperado a sua mão, que costumava tirar quando ia nadar, o Estorninho, mestre de esgrima, esgalhava o florete na foto da Rosa pendurada na sala de armas e na sala de professores o Semita jogava descontraidamente uma partida de xadrez com o Casanova:

- Não jogue assim, porque senão ganha-me - disse, já um pouco exaltado.

-  Mas eu jogo para ganhar, xeque-mate!

O pensamento do engenheiro Grijó, o Semita, estava agora a caminho do centro da noite, rodeado por um nevoeiro espesso, tentando encontrar um interruptor que acendesse uma luz, ao mesmo tempo que o Chulógrafo gritava não muito longe dali:

- Olha o Passarinho!

Ao mesmo tempo que o fotografo oficial do Colégio Militar carregou no botão, o Semita virou as peças com a mão esquerda e retaliou:

- Ainda se lembra da jogada?

No Colégio Militar havia um vórtice do destino à nossa volta que aumentava com cada uma das nossas escolhas, e que nos modificou as sinas das mãos, por isso é no intervalo de tempo entre o aviso do Chulógrafo e o disparo do flash que decorre esta estória de uma breve eternidade que parecia poisar nos raios luminosos que riscavam o Zimbório, e de onde saíam vozes tranquilas de perfeição estética, ao mesmo tempo que somos levados por um vento e por uma tempestade inesperada, brilhante e veloz, vinda das nossas memórias, e que nos traz o Teta a grande velocidade da terceira companhia, montado em patins, com um objetivo bem definido, passar no intervalo de centímetros entre duas mesas de ping-pong.

- Estão-me sempre a chamar Feio, hoje vou dar o meu melhor, - pensou o Francisco António de Simas Alves de Azevedo (2.9), professor de História e Geografia.

Quanto ao 3.19 e ao 3.20 não sabemos qual era o assunto da conversa, mas algo nos diz que iria haver farrobadó à noite na Soca, área reservada ao descanso dos oficiais, neste colégio com tantos pergaminhos. O 3.8  era o mais famoso professor de Música da Luz, Miguel da Silva Carneiro, que tinha muitos traumas na alma:

- Carioca chupa-me a pichota, - era a voz vinda, não do Além, mas da boca do Teta, acompanhada de um biqueiro na porta.

O padre largou tudo e saiu a correr atrás do 332, decidido a enfiar-lhe, como era costume, uma dose de estaladas bem aviadas. Mas, não teve sorte nenhuma! 

No tempo de “Estudo” do professor de Inglês Bernardino Gonçalves Monteiro e Mota (3.15), mais conhecido por Didi, o docente tentava desesperado descobrir a origem dos zumbidos, que se calavam quando olhava, e reapareciam quando estava longe.

O professor Almodover (1.5), o Teacher, preparava-se para debitar mais uma aula do seu Americam Language Course no sofisticado laboratório de Línguas, já com os alunos devidamente distribuídos pelas boxes, quando o 224 deu o berro do Ipiranga ao microfone, que fez com que o docente desse um salto na cadeira, e tirasse apressadamente os auscultadores.

O velho professor Ferreirinha do Carocha (2.3) e da gabardine cinzentos, e do permanente cigarro Kart entre os dedos, que enchia as aulas de fumo. O Padre Joaquim Gomes da Costa Peixoto (2.1), também conhecido por Pichota, professor de História que escrevia as perguntas dos pontos nos triplicados das participações, deitando depois as cópias para o lixo, ação esta que nunca se soube se era deliberada ou por distração, mas que fazia com que nunca ninguém chumbasse. O professor Artur do Nascimento Morais, conhecido por Tabi, que tinha dificuldades auditivas:

- Stor, posso bater à punheta?

O quê? – Perguntou ao 601 o professor de inglês, com a mão em concha junto ao ouvido.

- Apanhar a caneta!

O José Rodrigues Matos Guita (2.27), Guitão, professor de História que utilizava os meios audiovisuais mais avançados da época, o retroprojector e os slides, que punham a sala de aula numa penumbra, facilitando o sono dos alunos.

O Padre António Valdomiro Lusitano Leal (3.24), Baldomijo, que um dia fez uma curva mais apertada com a sua Lambreta e bateu com os costados no chão, contando depois que vira uma “luz” antes de cair.

- Devem ter visto as cuecas da Antonieta, - arriscou o Peidocueca.

O primeiro capítulo finaliza com o professor de Desenho Norberto Pina Lopes (1.15):

- Se marcares o alvo num mapa com o lápis rombo, as bombas caiem ao lado!

Esta é uma estória aberta que deverá ser contada por todos, por isso o final ainda está longe.



    1.1   Dr. Fernando José dos Santos Fernandes (Fufu) - A rubrica dele no livro de ponto era Fufu.

    1.2   Dr. António Lagas Pereira (Pato Marreco)

    1.3     Dr. António Pires Rolo

1.4 Dr. Pierre François Maurice Cador

1.5 Dr. António Manuel Almodôvar (Teacher)

1.6 Dr. João da Cruz Pinto

1.7 Dr. Fernando Venâncio Peixoto da Fonseca (Domdom)

1.8 Cor. Alberto Augusto da Costa Andrade 

1.9 Dr. Cristóvão de Sousa Lima

1. 10 Brigº. Américo Agostinho Mendóça Frazão (Dito) – Promovido a General em Nov/73

1.11 Cor. Juviano Aloísio Chaves Ramos (Sub)

1.12 Dr. João Navarro Brazão (Pipocas)

1.13 Capitão Dr. Júlio de Jesus Martins (Juju)

1.14 Cor. Júlio Beirão de Brito

1.15 Dr. Norberto Pina Lopes

1.16 Dr. Manuel Carlos Corrêa Manitto Torres

1.17 Dr. Enrique Pessoa Lobato Cortesão

1.18 Arq.º Jorge Alberto Ribeiro de Oliveira (Fá)

1.19 Dr. Clementino Moniz de Sousa (Camões)

2.1 Padre Joaquim Gomes da Costa Peixoto

2.2 ???

2.3 Dr. Ferreirinha (Ferrari)

2.4 Dr. João Augusto da Fonseca e Silva (Felica) - Professor de Ciências.

2.5 ???

2.6 Dr. Walter José Rodrigues de Carvalho

2.7 Prof. Mário Augusto Sampaio de Lemos

2.8 Dr. José Luís Chaves Loureiro (Bóbó) - Professor de Ciências

2.9 Dr. Francisco António de Simas Alves de Azevedo (Feio)

2.10 Dr. Jaime Carmo Amorim de Macedo

2.11 ???

2.12 Dr. Armando Pontes Carreira

2.13 Dr. Manuel Carlos Dias

2.14 Dr. Augusto Almeida Oliveira e Sousa

2.15 ???

2.16 Cor. Jorge do Carmo Vieira

2.17 Dr. Ralho Correia ???

2.18 Dr. Victor José Gamarro Correia Barrento

2.19 Cor. António Catalão Filipe Dionísio

2.20 ???

2.21 Dr. João António Fernandes Varregoso

2.22 Cor. Garcia de Brito

2.23 Dr. Artur do Nascimento Morais (Tabi)

2.24 ???

2.25 Dr. Francisco Antunes Domingues (Bôzô)

2.26 Dr. José Casimiro Rodrigues (Menino) - Professor de História

2.27 Dr. José Rodrigues Matos Guita

2.28 Dr. Joaquim Eugénio Filgueiras Soares

2.29 Dr. Jacinto Augusto dos Mártires Falcão

2.30 ???

2.31 - Tenente Lourenço (Cabo Fedorento) 

3.2 Prof. Nuno Humberto Gama Lobo Vitória

3.3 Ten. Prof. Carlos Dario Fernandes

3.4 Cap. Eng. Mário José Saraiva

3.5 ???

3.6 ???

3.7 Dr. Fernando Alberto Prado Dias Freitas

3.8 Padre Miguel da Silva Carneiro (Carioca)

3.9 Dr. António Campos Monteiro Romão (Mámas)

3.10 Cor. José Maria Vieira Abrunhosa

3.11 ???

3.12 Artur Teodoro de Matos

3.13 Padre Américo da Silva Martins (Capelão)

3.14  Porco Alentejano, professor de Ciências

3.15 Dr. Bernardino Gonçalves Monteiro e Mota (Didi)

3.16 - Jaime de Almeida Godinho, Primeiro Oficial

3.17 Maj. Manuel Júlio Matias Barão da Cunha

3.18 Escultor José João Machado Carneiro de Brito (Judas), professor de Desenho.

3.19 - Capitão Vicente, Chefe da Contabilidade

3.20 ???

3.21 Prof. Manuel Hilberto Freitas de Oliveira

3.22 Maj. Leonel Martins Vicente (Palhaço)

3.23 Arq.º Fernando António torres de Sá Dantas

3.24 Padre António Valdomiro Lusitano Leal
































Tuesday, October 29, 2019

Paradoxos Colegiais







 Comandante Guélas

Série Colégio Militar



O almoço do curso de 1971/78 foi de confraternização, vinte e seis de outubro do Ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de dois mil e dezanove, sem direito a estacionamento dentro do recinto da Feitoria porque o Gordini recusara-se a pagar os cinquenta euros mais IVA que o sub exigia aos ex-alunos, e não aos generais, políticos e afins, e após uma refeição grumete muito original, caldo verde, amarelo e arroz doce, regada com líquidos mais uma vez identificáveis, como mandava a tradição, o 281 confessou:
- Dormi oito anos com vocês!
Olharam uns para os outros, e o 598 acrescentou:
- A frescura da juventude!
No Colégio Militar o ambiente nos anos setenta do século passado era propício ao desenvolvimento pecaminoso, por isso usava-se uma língua bicuda, cheia de ângulos retos e triângulos isósceles, estes Meninos da Luz tinham sempre algo para fazer, por isso recusavam o ócio como um pecado. O Colégio Militar era uma fogueira que não ardia, até que algo despertasse a chama. Por isso quando o Vinasse anunciou na camarata o “achamento” da entrada para o Túnel, o Santo Graal colegial, que ligava às Meninas de Odivelas, uma entrada direta para o inferno, após o consumo dum cigarro com bolor dado pelo 125, mal sabia dos acontecimentos que se iriam desencadear.

- Nem quis acreditar que o prémio Barretina que me querem dar intitula-se “Amor ao Colégio”, - confessou o Zacarias. – Amor??

O curso de 1971/78 mobilizara-se e mostrava porque é que alguém da “Geração de Oiro”, uma lavra irrepetível de génios e calões, merecia ganhar a “bola de oiro colegial”. Continuemos com as memórias despertadas pelo “Amor ao Colégio”!


Nessa noite o Horrível sonhou que estava no Instituto a «mordiscar ladrilhos de marmelada» com uma resma de fêmeas vestidas de castanho tentação, que o tinham recebido no mosteiro de S. Dinis, junto ao túmulo onde repousava o rei das barbas ruivas. Iria dar oito de seguida sem ver a luz da Lua, a contar com as mijas, mas mal desconfiava que as meninas também já escavavam há muitos anos, usando como ferramentas as pulseiras com o grupo sanguíneo, e estavam com vontade de chupar até ao tutano o primeiro Menino da Luz que lhes aparecesse pela frente, arriscando-se assim o 125 a deixar os ossos misturados com os do Lavrador. O primeiro sinal de que algo  mudara foi sentido pelas filhas do Galo, que todas as semanas montavam na pista de obstáculos, quando um dia ouviram durante toda a atividade um sonoro cacarejar de uma resma de Meninos da Luz, ao estilo Hitchcock , cujo som tinha origem no campo de futebol. No Laboratório de Línguas quando o professor se preparava para dar início ao “American Language Course”, com os rapazes já distribuídos pelas boxes tecnológicas, um “senhor aluno” gritou ao microfone:
- Óó Tabiii, chupa aquiiii”.
O docente tirou os auscultadores já com os olhos fora das órbitas e atacou com raiva o 224, que começara a grafitar a sua cabecinha, com olhos, nariz e boca, prometendo fazer um teatro com o fantoche quando entrasse num dos quartos. A Diolinda tinha um terror psicanalítico dos Meninos da Luz, via-os como a encarnação da «moral do prazer», o gene da atração fatal pelo espaço, cujo origem remontava ao tempos áureos de D. João V, o “freirático”.

Cantou-se o Zacatraz, mais potente que Viagra, ainda capaz de fazer levantar em sentido os ex- Meninos da Luz, com as cabecinhas a olhar para o céu, e as bocas escancaradas. Para trás ficara o trovadorismo amor cortês da altura em que o Instituto de Odivelas era uma referência nacional, e não o monte de ruínas da atualidade:
- As meninas de Odivelas / Pum, pum / As Meninas de Odivelas / Pum, pum / São umas pu / Tiro liro li / São umas pu / Tiro liro li / São umas pu / Tiro liro li / São umas pu…ras donzelas / As Meninas de Odivelas / Fazem bro…ca à janela / Os namorados dessas meninas / Dão o cu / Dão o cu/ Dão o coração por elas.
Para a Diolinda aqueles bardos fardados de cotim eram uma espécie de Bruxos Salemas, mas com tomates cheios, por isso a diretora não olhava a meios para afastar todas as tentações que pudessem conspurcar as almas puras das suas donzelas: mandara cortar as bananas às rodelas, proibira os espargos, as canetas de filtro grossas foram banidas das aulas de Desenho, as visitas de estudo às Caldas da Rainha expurgadas do plano pedagógico, tudo, tudo o que pudesse tresmalhar as Meninas de Odivelas para os lados da “liberdade de costumes”, afastando-as do colinho do Senhor. Mal sabia nessa noite que o 89, o 165 e o 376 estavam a caminho do mosteiro, não através do túnel, que ainda precisava de muita mão de obra para ser uma realidade, mas de táxi, decididos a invadir-lhe o espaço, com a cumplicidade de algumas discentes que tinham deixado estrategicamente algumas portas abertas. O Punhetas levava açaime, o estado em que se encontrava depois de ter sabido da descoberta do Vinasse aconselhava a medidas de proteção, e a um SOS extra, um frasco de clorofórmio gamado ao Valentim, e testado pelo 599 nas galinhas do pai da Rosa, que nestas noites pós “achamento” estava nos sonhos de toda a rapaziada.

- São tantas as recordações, as estórias, as cumplicidades, foi uma vida, - confidenciou o premiado.

E que vida:
- Meu tenente, daqui fala da portaria, - disse o Chico tão de rajada que o Ananás teve a sensação de apanhar com perdigotos.
- Calma homem, mas afinal o que é que se passa? Não me digas que o Caco está aí outra vez na portaria em cima duma Panhard, como no 25 de abril?
- No gabinete do sub está…..
- O que é que se passa no gabinete do sub a esta hora da noite? Estão lá alunos, foram fazer uma visita de cortesia?
O oficial ouviu uma voz, destoada e áspera, saíram clarões raros das profundezas do telefone.
- Chico, não digas que me vais obrigar a ir aí? Explica-te de uma vez por todas, – pediu o ex-aluno 78, agora no papel de cão.
- Vê-se tudo, a luz está acesa, - explicou o funcionário olhando para as janelas espelhadas, que de noite eram transparentes.
- Vê-se o quê?
- Uma senhora no gabinete…
- E??
- Está de cuecas…
- Cuecas? Uma senhora de cuecas no gabinete do sub a esta hora?
- …e de botas altas!
- Cuecas e botas altas?
- Só ela?
- Estão a correr…ele vai atrás dela. Vê-se tudo!
- Ele? Ele quem?
- O sub…está a brincar aos índios com uma senhora. Vê-se tudo!
Enquanto o subdiretor se divertia na Luz, em Odivelas o grito da Fernanda ao ver na sua janela um rapaz alto e espadaúdo, de olhos vivos, capazes de engolir o que viam, com um sorriso de marfim, e o número 147, foi o pingo que fez transbordar o copo. A pobre da Deolinda não aguentou a pressão dos demónios vindos da Luz, que já lhe tinham deixado na secretária um frade das Caldas com o dito em sentido, e deu o seu grito do Ipiranga:
- O Colégio Militar é persona non grata!
A Escolta a Cavalo estava proibida de fazer procissões até ao Instituto de Odivelas e eles não poderiam doravante assistir à grande seca da Abertura do Ano Letivo. Em 1964 o Comandante de Batalhão, o 8, tinha ido ajoelhar-se, em traje de gala, em frente à diretora do Instituto de Odivelas, pedindo desculpas pela invasão do ano anterior, vésperas da comunhão.
Por tudo isto e muito mais que isto, o “Amor ao Colégio” tinha de ser incondicional, para o bem e para o mal, e estava embrenhado bem fundo nas memórias de todos aqueles que um dia passaram pela Luz, especialmente estes que tinham lidado diariamente com a Rosa!

Sunday, July 28, 2019

Charles Ganzas




Série Camarada Choco

Aventura 98


Charles Ganzas



A TVI tem destas coisas, quando as audiências são poucas obriga os empregados a fazerem das tripas coração, e foi por isso que Queluz reinventou a biografia do trissómico mais mafioso da Brandoa, que nascera geneticamente entupido ao nível do hardware, com uma mentira sem limites, descaracterizado, normalizaram a sua família fraudulenta, afogaram-no em mentiras, um pobre coitado nas mãos de gentalha em roda livre, atolados nos seus próprios complexos. Uns dias antes a Fininha dos Serviços Administrativos atendera o telefone, e dera de caras com a mamã do Kodac, que lhe deixava um inusitado, e urgente, recado:

- Diga ao meu filho que quero saber onde é que ele escondeu o saco com as doses de erva do sobrinho, porque o miúdo tem de ir trabalhar.

Dizia-se que o mano do Kodac tinha ficado farto das estadias periódicas em Vale dos Judeus e emigrara para a Alemanha, deixando o rebento na Brandoa a gerir o negócio familiar. O Kodac era o bem-amado da zona, os brós idolatravam-no alimentando-lhe piedosamente o vício do tabaco e do sumo de cevada. Mas havia pré-condições, um pacote com vários maços em troca de algumas doses catadas ao sobrinho. Nesta família tão atenta, teve logo de amadurecer a partir do primeiro mês, porque caso o não fizesse não iria longe. E aprendeu que o cromossoma extra no par 21 não iria ser uma desvantagem na Brandoa, mas sim um passaporte para a impunidade, seria o rei da zona, com uma espiritualidade no andar, que brotava diretamente dos próprios pés, que exalavam um permanente cheiro a queijo indiano, e tudo graças a uma mistura explosiva de unhas encravadas, calos jurássicos, fungos locais, alcagoitas familiares, razão suficiente para a mãe nunca ter atendido aos pedidos desesperados da escola para que fosse mostrar os cascos do filho a um especialista. O Kodac apercebeu-se dos poucos neurónios da entrevistadora, por isso deixou a mãe enfeitiçar a pateta da jornalista com fake news:

- O meu filho é esperto, podia ter ido muito longe, mas só encontrou obstáculos na vida. O último sujeitou-o a um trabalho escravo no hospital, oito horas diárias para ganhar uns míseros 136 euros. Despediu-se!

- E fez muito bem, - respondeu a Poeiras.

Mas a verdade era outra, trabalhava três vezes por semana, quatro horas, o resto do tempo que deveria ser na Escola para Desaparafusados da Venteira, era cumprido no hospital a catar nas carteiras dos colegas, dinheiro esse que mantinha vivo outro vício diário, as raspadinhas. Entrava às nove horas, fumava no balneário, catava dinheiro aos colegas, tomava o pequeno-almoço às dez, desviava mais euros da caixa registadora, e fingia que trabalhava no restante.

- Passava todo o tempo a andar, - queixou-se a “extremosa” mamã, que dizia agora estar sempre sentado na escola, a fazer de segurança na portaria.

Desculparam-no durante anos por ter um extra no vinte e um, mas acabou por ir para a rua, despedido. Até para um monga havia limites! Os manos eram assim verdadeiras obras-primas da Natureza e da mão humana, um com três no vinte um, o outro com várias estadias em Vale de Judeus. Quanto ao pai, nunca reconhecera o filho, não se sabe se por não se rever na cara do rebento, e por isso ter pensado que um carteiro chinês tocara três vezes à porta, ou por consumir diariamente sumo de cevada que dava para um batalhão, mas por precaução o petiz estava proibido de fumar na sua presença, não fosse o papá explodir. A tia do Kodac não se conformou com o que lhe tinham explicado, que o rapaz não iria longe, tinha um cromossoma a mais no par 21, e por isso arranjou a morada de um médico “que até marrecos cura, e tudo com um limão”, como lhe explicara a amiga Laurinda, que fazia bordados para fora. Quando o doutor viu o trissómico da Venteira deu a receita:

- Eduque-o como ao outro!

Foi a sorte dele, na Brandoa não havia coincidências, tudo acontecia quando tinha de acontecer, na altura certa e no lugar certo, por isso agora na idade adulta aos fins de semana, sem variações, o Kodac não chega a casa, fica sempre estatelado num qualquer passeio da Brandoa, de braços estendidos, fitando os céus num movimento de translação onde, devido à mistura de erva e cevada dada pelos brós, uma estrela se transforma invariavelmente na amada Barbuda, que lhe expõe, sem preconceitos, a abundante turfa, que nasce nos pés e acaba nas beiças.

Saturday, July 06, 2019

Charles Love






Série Camarada Choco

Aventura 97


Não sei por onde hei-de começar esta estória. Talvez pelo princípio: o Pintor, o único licenciado de baixa densidade da Porcalhota com a força de uma epifania, acabou o mandato pedagógico na Escola para Desaparafusados da Venteira, reformando-se! Mas eu sabia que ele não iria deixar-se consumir pela bisca-lambida e milho aos pombos no Parque Central, era um velho capaz de responder às novas tendências sociais, proporcionando um conjunto de bens e serviços suficientemente latos, capazes de responder aos diversos anseios de cada consumidora, ávida por uma visita sua à cave. Por isso, estava eu calmamente a curtir uma “santinha”, epilepsia exclusiva da minha família pela parte da mãe, que se começou a manifestar após a morte da pastorinha com cara trissómica, que resolveu aparecer-me nos canos do balneário para machos da piscina que frequentava, com a saia levantada e as cuecas nos joelhos, quando fui repescado à realidade por alguém com um sotaque da Brandoa profunda. No écran da televisão estava, não o Dartacão como inicialmente pensei, mas sim o hilariante Pintor, com uma legenda de Formador Principal, que tentava a todo o custo convidar para o pecado, usando o seu mítico savoir faire, uma formosa, mas não segura, tia do Bolhão:

- Sou filho de alguém que morreu por amor!

Amor ao Moscatel sem limites, à cachaça ao pequeno almoço, ao meio-gordo à taça, enfim, uma panóplia ilimitada de químicos capazes de transformar em iscas qualquer fígado com pergaminhos. Mas felizmente deixou à Humanidade uma figura singular, uma ostra única, um fidalgo com marca própria: Charles Love!

Um reformado com um estilo romântico próprio, promissor, capaz de preservar o património local:

- Fui candidato ao Festival da Canção!

 Da televisão muda, que mesmo assim o rejeitou mal o viu!

- Eram só cunhas, como é que se podia recusar uma figurazinha destas? – Explicou um dia fazendo uma auto massagem.

E continuou:

- Contracenei com a Marreca de Monsanto na longa metragem “Pinceladas para que te quero”.

E continuou:

- No sítio onde exerço a minha profissão de Forrador, perdão, Formador Principal, dirijo um Atelier imponente, decorado ao estilo romântico, como eu.

Soube mais tarde por uma fonte credível, ele próprio, que, graças à performance do Pintor, o canal televisivo recuperou o top das audiências:

- Desde esse momento o telemóvel nunca mais parou de tocar, eram fêmeas dos seis continentes, incluindo a Atlântida.

E de Formador Principal passou a Doutor num abrir e fechar da boca, apesar do sinal vermelho que a tia do Bolhão lhe deu, sem apelo nem agravo.

- Arrependeu-se, telefonou-me a confidenciar-me que tinha deitado para o lixo o bilhete premiado do Euromilhões, com a terminação da Lotaria.

Mas como nunca aceitou mudar o que a Natureza lhe dera, um esgalhador sem limites, foi para o veículo da repescagem à procura da fêmea perfeita, uma teenager de encher com o pipo por baixo do sovaco esquerdo, uma Eva da Repimpa, e saiu-lhe uma reformada oxigenada sem apetite para velhos, levando de imediato mais uma luz vermelha, e uma admoestação do Conselho de Sábios:

- Nós a pensar que tínhamos um Rodolfo Valentino com cheiro a rosas, e saiu-nos um canastrão marreco com bafo de bode!

Por isso foi com enorme satisfação que soube do regresso, na 2ª Temporada, do sexagenário Charles Love, agora na versão de candidato ao altar, mas com pré-condições inegociáveis:

- Não quero uma velha de 60 anos, exigi uma fêmea que esteja disponível para engravidar nas Ilhas do Seixal, - explicou o Pintor Principal, e Formador no lado oculto do espectro moral nas horas vagas.

A SIC sabia que a personagem era muito forte, e com o desenrolar iria tornar-se cada vez melhor, a Ferreirinha que se cuidasse, a Casa da Cristina arriscava-se a ser substituída pela Casa do Pintarolas. Mas como só teremos televisão à séria em Setembro, e já havia muitas pessoas ansiosas, pus-me a imaginar. Alucinei uma estreia, vi, aparecendo numa manhã de nevoeiro na Praia do Trancão, o Desejado, um gato com um olhar desconfiado, postura traquina e provocadora, expressão hipnótica de desprezo, bafo a maré vazia, olhos de águia, que gentilmente disponibilizava aos milhares de fêmeas a possibilidade de saborearem aquela forma de arte humana, um cisne depenado, que só a tecnologia podia proporcionar penas. Ainda a fêmea não se apresentara e já ele a namoriscava, havia algo de mercurial, sensual, perigoso, provocante, arrogante, mal educado, que tinha a capacidade de engravidar qualquer uma só com o olhar, de qualquer idade, sem que ela desse por isso. O segundo episódio, e já com eles mais vazios, e cheios de bolhas, a baterem, tal qual badalos num sino, nos joelhos, era uma cena de chuva à porta do Louvre, uma taberna na Brandoa, com o nosso macho a mastigar um pastel de bacalhau e a perguntar a uma candidata:

- A que horas abres?

E dá-lhe uma martelada sensual com o alho porro.

- Já vou ser pai-avô!

No terceiro capítulo, e já com as audiências a baterem recordes estratosféricos, aparece montado na sua Harley-Charleston a sentir o cheiro a bacalhau da candidata, que mal cabe entre a mala e a marreca do condutor, e ressona com a boca aberta.

- Quando chegarmos à praia do Jamor vou-te mostrar a facilidade com que pego no pincel, sinal de que das minhas mãos sai sempre uma obra de arte, como prometi à produção.

Charles Love era o único macho com direitos meteorológicos exclusivos, nas suas veias sentia-se  a inconfundível inconstância do Badaró, por isso abandonou as filmagens e fugiu para o Luxemburgo atrás de uma das suas musas. 


Monday, February 18, 2019

O Galo





O Comandante Guélas

Série Colégio Militar


Estas estórias devem ser mantidas debaixo de olho, o que elas são e o que têm para contar, estórias de rapazes que se cumpliciaram para lá dos silêncios. O Colégio Militar condensou e engrandeceu a nossa experiência de vida, para o bem e para o mal!
Façanhas extraordinárias marcaram para sempre o lugar, ninguém consegue ficar indiferente a feitos quase impossíveis, a feitos extremos que desafiaram os limites da condição humana: saltos da 1ª Companhia para colchões empilhados junto do canhão, tunnings com o carro do capitão Caetano, rally no bólide do chulógrafo, ataques de cavalaria contra o pessoal da esgrima, pôr capotes na cruz do zimbório, visitas de cortesia às Meninas de Odivelas. Numa sala do primeiro andar dos claustros um tenente-Coronel armado em peru, dava início ao teste de geografia, após ter avisado os discentes de que não toleraria cabulanços, não fosse ele um ex-aluno conhecedor de todas as técnicas extras de auxílio da memória. Ainda teve tempo de abrir uma janela e falar com alguém:
- Ó ordenança, o meu cavalo já está arreado?
Felizmente não ouviu o Esperma:
- Eu montava era as tuas filhas!
O Colégio Militar representava um estabelecimento de ensino sobrevivente a 214 anos de instabilidade crónica, num país dirigido por gente que “não se governam, nem se deixam governar”, onde estudavam rapazes especiais. O 205/1897 dizia que quando entrou para a Luz era moda entre os alunos serem do contra, o Galifão tinha a admiração dos camaradas, quanto mais dias de prisão apanhava melhor, porque ao domingo ia à missa escoltado por dois alunos armados, e isso dava estilo.
Nestes anos setenta do século passado o Galo andava instável, a Rosa tinha sido atacada numa noite escura lá para os lados do ginásio, e todos os Meninos da Luz eram suspeitos, e ainda por cima as suas galitas costumavam acompanhá-lo na atividade na Pista de Obstáculos, observadas sempre à distância por um rebanho de meninos rebarbados fardados de cotim, que cacarejavam sem interrupção, tentando sentir o cheiro a maresia nos momentos do trote, que tinha um efeito no comportamento noturno dos imberbes.
A alguns o colégio desaparafusou-os para sempre, não se sabe se por ter dado um empurrão nos genes, ou por circunstâncias do envolvimento cultural, pinturas, firmezas, mocada, apresentações à alvorada, flatetes, biqueiros, murros, estaladas e muitos outros feedbacks que se diziam pedagógicos, que o diga o diretor que um dia discursava com eloquência para o curso de ex-alunos que visitava com “saudade” o Colégio Militar, quando as portas do Salão Nobre se abriram de rompante e, tal como um dos Gafanhotos do Dario, o Girafa entrou às cambalhotas. A miudagem tinha comportamentos exclusivos, por isso ao jantar havia muitas vezes, algures numa mesa perdida no vasto refeitório, uma atividade cultural clandestina, o jantar  pré-histórico, em que era proibido usar os membros superiores, havendo por isso alguma dificuldade em apanhar as lulas com os dentes, e quando as apanhavam alguns arremessavam-nas de imediato, ao estilo lançamento do martelo. O Selvagem, o 202 de 1901, quando se apanhou com estrelas nos ombros, divertia-se a amarrar os ratas a um tronco de uma árvore, onde os suspendia de cabeça para baixo. Eram os psicopatas de serviço!
Noutra ponta dos claustros a aula do Falcão no primeiro andar não tinha deixado saudades, a única positiva, um “suficiente”, fora para o 157, que lhe foi pedir explicações, tendo como resposta uma ordem de saída, ou pela porta ou pela janela:
- Vou pela janela, - disse o aluno correndo para ela e atirando-se.
O Falcão ficou branco, mas desconhecia que este Menino da Luz fazia parte do Grupo Especial do professor Dario, e por isso após o salto agarrou-se à borda da janela e assentou os pés no parapeito exterior. Houve retaliações na escadaria, o Cascão quando viu que o docente já estava a uma distância de segurança, atirou-lhe com o dicionário de português do Cão, que acertou em cheio no coco do professor.
O Galo ganhara a alcunha na Escola do Exército por usar um bivaque que dava a impressão de uma crista, uma espécie de militar freak! Esteve durante todo o tempo a fazer uma marcha marcial pela sala, com as botas altas a marcarem o ritmo, enquanto os Meninos da Luz copiavam à fartazana graças aos tampos transparentes, com excepção do 69, o número mais vergonhoso do Colégio Militar!
À tarde o Ramalho impressionara a malta com um mortal à retaguarda, com a bata vestida e os bolsos cheios de tesouras e pentes, após a insistência de vários “senhores alunos”. O Madiura dera de caras com o tenente-Coronel, quando este entrava no colégio, na altura em que apalpava a santa, que há muito contemplava com orgulho o Largo da Luz.

Monday, December 31, 2018

Fundação Daniel José Martins de Almeida





O  Comandante Guélas

Série Paço de Arcos

Futebol P.A. 43

O Futebol PA ensinou-lhes a ter o coração junto ao dedo grande do pé direito, a reagir às reações do Milhas, a deixarem no campo todas as inquietações. Vale a pena invocar os exemplos históricos, desde as lendárias cenas de quid pro quo entre o Estalinho e o Zé da Tapada, as possessões do Chico, a breve carreira do Carinha da Avó, as taras do Capitão Porão, os malabarismos do Bill, a forma única como o pai Marinheiro atacava o esférico, o fim abrupto de muitos jogos quando a equipa que estava a ganhar se apercebia da eminência de sofrer um golo, alegando excesso de penumbra, a expulsão dos cabritos, cenas tão intensas e marcantes cujas consequências fazem parte da vida de todos. Quarenta anos a massacrar o Milhas é obra: Mesmo ausente é sempre uma referência em qualquer jogo! Nas brumas da memória ficou o desaparecimento do Charlot, o autor do hino do Futebol PA, uma espécie de “Papoilas Saltitantes”:


A equipa cujos jogadores não compreendem o que se passa, apesar de se movimentarem, e que perdem a ligação com os colegas, é sempre derrotada. Mas de perda em perda o Peidão ganha sempre, pois ele é o Centeno do Futebol PA. Os jogos de domingo são sempre ancorados na referência da convergência paçoarcoense e inspirados tanto no passado como nas novas exigências futebolísticas. O Chico Sá é um exemplo disso, deixou cair o Sá, e passou a Chico Solas, quando joga com ténis do Padel, modalidade onde o ConanVargas, o Marreco e o Cocilo são referências, ou Caveirinha quando utiliza com virilidade as chuteiras. Um sopro novo dir-se-á! Entre os que apenas pretendem melhorar a sua pouca qualidade para a modalidade, apesar de estarem em decadência acentuada, e os que pretendem toute casser, está sempre o Milhas. E há os que sofrem a angústia de ver que se estão a aproximar da performance dos pais, depois de uma longa permanência no topo da modalidade, cujo exemplo é dado pelo Brinca na Areia, que é agora conhecido pelo Zé das Cápsulas, e que este ano lectivo nunca conseguiu ganhar um jogo, mesmo chegando estrategicamente atrasado. Casou-se! O ex Preto, que passou a Cinzento por questões de racismo, continua a escolher equipas, vagueando entre a loucura negocial e o pragmatismo da modalidade. O dono do campo, sobrinho do Isaltino, vê agora flashes, em vez da bola, com o olho direito, ameaçando trocar a baliza que defende por uma de hóquei, porque caso o não façam irá autorizar a ocupação do mítico espaço da modalidade rainha por campos de Padel. Mas o último domingo de 2018 recebeu a visita de um ilustre futebolista paçoarcoense, o lendário Sarapito, que chegou a cinco minutos do fim, apesar de na véspera ter prometido chegar a horas, conseguindo a proeza de dar três biqueiros no esférico, sair com uma vitória, apesar de não ter tido tempo de conhecer toda a sua equipa. Por isso ao fim de quarenta anos merecemos ser uma Fundação, antes de nos transformarmos num Lar Desportivo, onde haverá equipas, não de Baptistas contra o Resto do Mundo, ou de Velhos contra Novos, mas sim de Atletas de Fraldas contra Atletas Algaliados. Bom Ano atletas do Futebol P.A. !