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315 estórias

Wednesday, September 15, 2004

Estranhos Perfumes


                           Camarada Choco
                                          
 
A noite já ia longa, a Lua Cheia banhava de luz as ruelas estreitas da pacata Freguesia, indo os últimos raios terminar nas cabeças dos dois felinos mais famosos da Venteira, o “Rapaz” e a “Boneca”. Mas o sossego estava condenado ao fracasso ! Uma sombra misteriosa e caduca deambulava calmamente pelo terceiro andar direito do número sessenta e nove da rua Mestre Gameiro Monga. A silhueta de uma cifose, vulgo marreca, deslizava com desprezo pelas paredes brancas da habitação, acompanhada à frente por uma face também ela amarrecada. Lucky Luke era o cowboy mais famoso do oeste, que conseguia disparar mais rápido do que a própria sombra e o Choco era o monga mais conhecido da Brandoa, que já não conseguia aguentar com o seu próprio cheiro. As insónias sucediam-se, e a culpa disto tudo devia-se ao facto das actividades na piscina terem encerrado com a chegada do final de mais um Ano Lectivo. Sem natação não havia banhos e agora o Choco vergava-se ao peso do sarro e das borgalhotas. Até um leão deste gabarito tinha limites ! Os carneiros recusavam-se a saltar e sem eles o João Pestana entrara em greve. A solução encontrava-se na cozinha e tinha a forma de um elegante garrafão de perfume, que dava pelo nome de “PacoRabóne”, made in uma loja dos 50 das elegantes catacumbas da Manchúria. Nestas alturas o Choco desnudava-se, tendo mesmo assim dificuldades em arrancar as cuecas amareladas, estilo pergaminho, que teimavam em agarrar-se, tal qual uma carraça, à sua elegante bacia em forma de couve flor. Ultrapassada esta sensível fase, o nosso herói do cinema mudo abria com os dentes o gargalo em forma de tremoço e expulsava com sofreguidão o cheiro nauseabundo que já lhe riscava a alma. Mas havia algo que teimava em permanecer e esse algo eram os odores insuportáveis das entranhas! Como felino que era, também conseguia sempre ultrapassar estes obstáculos. Nada como uns bons gargarejos, seguidos de várias deglutições do maravilhoso “PácoRábo”. E assim terminava mais uma das inúmeras sessões nocturnas do nosso querido Choco. A tudo isto assistia a sua incrédula progenitora, também ela com dificuldades em adormecer, mas por só contar até às 3 ovelhas e assim não conseguir accionar o velho John Péstan. Tudo isto ela contou, na décima pessoa, à educadora responsável pela difícil tarefa de transformar a irmã do Choco, a já célebre Bélinha, numa cidadã útil à sociedade:
- Todas as noites é sempre a mesma coisa, vejo-o sempre nu a banhar-se no perfume e depois bebe-o, será que o meu Choco é um drógado, um tchocoindependente ?
- Nãoão – respondeu-lhe a educadora, revelando ser uma mulher do norte.
- Mas não vim aqui só para falar de tristezas – continuou a Encarregada da Reeducação do Choco – sabe que hoje deixei a minha Bélinha usar o meu perfume especial – e deu um toque orgulhoso na filha, uma espécie de Choco com saias – emprestei-lhe o “Ananás, Ananás” que comprei por 200 na loja dos 300.
Algures perdido numa das casas de banho do Centro, o nosso herói sofria na pele, mais propriamente ( e sejamos realistas! ) no olho-do-cú, as agruras do seu vício nocturno. Agachado em cima da retrete, tal qual uma galinha no poleiro, despejava, sem apelo nem agravo, o seu “PácoRábo” ingerido na véspera. Mas como a sua coluna nunca fora uma linha recta, sofrendo por isso um desvio no fim da linha, metade do conteúdo intestinal teimava em deslizar pela parede abaixo. O responsável pela pele do Choco Silva estava atento e por isso proibira o uso de cigarros numa área de 50 metros em redor do Predador-Cagador. Uma beata mal apagada poderia transformar o nosso Choco tipicamente europeu, num Choco africano, vulnerável aos instintos rácicos dos vizinhos. Os mais optimistas diziam que ele estava com o cio e tinha assim necessidade de marcar o seu território. Mas fosse qual fosse a razão de largar tanta quantidade de merda, acabou por não ser autorizado a ir com os colegas ao museu do fado, não resolvesse lá marcar o traje de alguma fadista mais atrevida. E o despejo a que foi sujeito, já depois de ter abancado na carrinha, marcou-o profundamente. Foi visto a entrar enfurecido na Escola, deixando rasto como o caracol, só parando na casa de banho mais perto, onde deixou um grafitti de desprezo. Depois da obra feita atirou-se, com as garras de fora e as cuecas dobradas, às costas do Pitrongas, afiambrou duas bolachas no GiGi e marcou um penalty na perna esquerda da Palmira Melga. O Predador-Cagador estava incontrolável ! A cor esbranquiçada esfumava-se, até dava a ideia que já havia um novo Papa, o Choco aproximava-se da forma dum fantasma, um misto de Corcunda–de-Notre-Dame com um saco de Farinha-Nacional-de-50-Quilos. As queixas acumulavam-se à porta do domador da fera, os papéis azuis de vinte e cinco linhas entupiam a entrada para a sala de Artes Gráficas. Até o Windows 95 tinha fugido em pânico! O que fazer para parar esta máquina infernal de chutos, pontapés e borradas?

Sunday, September 05, 2004

O Universitário - Odisseia 2


                         Camarada Choco
                                         Aventura 15 


 

A Faculdade sobressaía imponente do meio verdejante do Estádio Nacional. O laboratório esperava impaciente pela Máquina Humana que se encontrava a uns escassos quilómetros de distância, mais propriamente à porta do ginásio, pela centésima vez, da Instituição onde, afincadamente, se dedicava a tirar o curso “Bucis, Dobradiças e Pinceladas” , tendo em vista ocupar num futuro próximo o Conselho de Gerência da empresa do pai, mas somente nos dias quentes de Verão, visto a mãe se recusar a abrir a loja nos dias frios e húmidos de Inverno, devido ao enrejelamento do único neurónio cerebral, característica partilhada por todos os membros desta tradicional família brandorenha.
A carrinha que se preparava para rumar em direcção ao Palácio da Ciência não saía da fase dos ratés, talvez em solidariedade com o nosso grande Choco, que também manifestava a sua raiva com uns “descuidos” giríssimos, junto à porta da sala de treinos.
- Há,ó,ó,ó,há,à – gritava o nosso herói do filme “E Tudo os Microcéfalos Levaram”, apontando para o interior do micro pavilhão.
Na carrinha o chauffer exprimia a buzina ao máximo e também ele já dava ratés.
- Então, o homem vem ou não !??
- O Choco quer entrar no ginásio, senhor Porres.
- Digam-lhe que a festa hoje é na Faculdade e já estamos atrasados.
Nada demovia o nosso Hércules. Mas algo inesperado, e bem-vindo, aconteceu. Um relógio da marca “United Colores of Benton” encontrava-se perdido a um canto do corredor e uma funcionária ousou encontrá-lo.
-Quem é que perdeu um relógio ? – perguntou em voz grossa.
A confusão era tanta que ninguém lhe prestou atenção...ninguém !??..ninguém não, um irredutível valente agarrava corajosamente no Leão, com o fato a escorrer, felizmente ainda não era sangue, mas da espuma que saía abundantemente dos caninos da fera, agora cravados na porta da “Sala de musculação para mongas e afins”, e mesmo assim ainda conseguira captar a mensagem.
- Que horas é que ele marca ? – gritou
- 21h30 do ano de 1345 AC!
- É do Choco – disse de imediato o valente esquivando-se, mais uma vez, do ataque furioso do Pantera.
O Choco reconheceu o objecto, retraiu as garras, embrulhou a língua, puxou a face pontiaguda de encontro ao crânio e presenteou-nos com o seu sorriso “após um 69”, rumando ao encontro do senhor Porres, que já se encontrava à beira de um ataque de caspa miudinha.
Na Faculdade todos esperavam por esta espécie de simbiose entre o Zé Maria e o John Holmes. Até um especialista vindo expressamente do país mais poderoso do Mundo, um Professor Doutor ( por extenso ), fazia questão de estar presente e participar no teste do Senhor Doutor Choco ( também por extenso ).
Trinta minutos depois e envolto num denso nevoeiro, a carrinha aterrou na Motricidade Humana trazendo a bordo o “Desejado” e as suas inseparáveis faluas vermelhas número 50. A alma branca do Choco contrastava com a cor acastanhada do seu fato de treino do 1º Domingo do Ano Lectivo anterior. Até a sua aura exalava um odor corporal digno dos melhores cobridores da Brandoa.
- Hello, Is this the athlete ?
- Há-ó-ó-há-bóbó – respondeu o nosso querido e estimado Choco no seu melhor inglês, dando a entender ser um especialista nato com a língua.
Entrámos para o laboratório e ficámos de imediato encadeados com a panóplia de luzes e aparelhos que nos aguardavam, sequiosos de prazer. E sequiosa para iniciar o teste estava a nossa cobaia! Tal qual um felino a atirar-se sobre a presa, o Choco dirigiu-se sem receio para o tapete rolante sendo, mais uma vez, traído pelos majestosos paquetes cor de sangue, que o obrigaram a projectar-se de encontro a um enorme cogumelo vermelho, que de imediato obrigou o computador a debitar um número igual ao de uma cautela da lotaria popular. Após uma breve reanimação da enfermeira, que não ganhou para o susto depois de ver tão apolínea figura, ou por ver todo o seu trabalho a ir pela pia abaixo devido a uns Adidas indianos, iniciou-se a ligação das duas máquinas, a artificial e a natural. Tentou-se em vão ligar um conjunto de eléctrodos ao peito do Eleito, mas estes não estavam habituados a agarrar em crostas ensebadas. Foi necessário pedir uma lixa 70 ao senhor Trabujo para assim podermos abrir caminho em direcção à pele do Monumento.
- 1,2,3...teste !
E o computador confirmou a ligação do coração ao hardware.
- Há, ó, ó , á, bóbó – gritava o Choco de prazer, notando-se uma tumefacção debaixo dos sete fatos de banho.
De seguida tentou-se introduzir na boca do herói da Brandoa o analisador de gases, uma espécie de vibrador labial, de cor branca. Mais um problema ! Com a emoção, própria destas situações, o Choco quase que o engoliu, mudando a sua facies de peixe corneta, para a de uma anaconda gigante. Um safanão na cifose fez com que projectasse o aparelho de encontro à parede da sala. Quanto ao computador, dava sinais de não entender nada de nada, as luzes mudavam de cor a um ritmo estonteante e as curvas dos gráficos ultrapassavam o espaço do écrã, dando a entender que tentavam aproximar-se do esquema mental do senhor Choco. Após algum esforço nas tentativas de ligação da Máquina Humana à máquina do Homem, foi dada luz verde para se iniciar o teste. O tapete rolante começou a roncar e atrás dele foi a gazela.
As rotações aumentavam, as da máquina, através dos números, e as do Choco, através das alterações aerodinâmicas, facias e costais, que davam a ideia, e o temor, de que o nosso garanhão iria levantar voo a qualquer momento. A prova aproximava-se do fim, o oxigénio fugia do corredor como o Diabo da Cruz, a cor vermelha das bochechas mudara para azul e os célebres ténis cor de Ferrari pareciam querer fugir dos pés que os alimentavam. Ingratos !

Trás – Pum – iiiii – Chuá
Gritou o bucal quando desacoplou dos beiços carnosos do sensual pantera branca da rua Roque Gameiro e foi esborrachar-se no écrã de 17 polegadas que fazia a ficha à fera.
- Stop, Stop – ordenou o mestre, mas sem sucesso.
A cobaia fazia questão de continuar, estava mais programada do que as máquinas. O professor saiu do seu lugar de espectador deliciado, pôs-se de gatas e num ápice encontrou o silicone. Algum tempo depois já estava colocado, tal qual uma rolha, na boca musculada do Choco, que agora ameaçava catapultar o olho esquerdo.

Trás – Piiiim – Pòin – Chuáá
- Stop, Stop – gesticulava o americano, mostrando à assistência também ser adepto de faluas nº 50.
A gazela fazia orelhas moucas, a meta estava a um piscar de olhos, mas de momento só podia usar o olho direito, visto o outro já deitar fumo e ter a pálpebra colada à testa devido à força do vento.

PUM – PUM
O raté do Choco foi tão violento que colocou o Professor Doutor do país mais poderoso do Mundo na sala ao lado, ao colo de um Professor Doutor do país do Achamento.
E como mandam as leis da Física, a uma acção há sempre uma reacção, consubstanciada no arremesso do silicone, desta vez para o lado esquerdo, devido à posição da boca da fera, indo este alojar-se na boca da assistente, que acusou um excesso de dióxido de carbono e baba no gráfico do computador, levando a incauta observadora a ingerir de imediato um frasco de álcool, receando ficar igual ao atleta tostado...perdão...testado. Tomara ela ter no seu código genes tão finos e delicados como os do Choco !
Fim da prova, discussão dos dados e conclusões:

Ter-se-ia de pedir aos “states” um outro tipo de vibrador....perdão...bucal, mais indicado para o nosso campeão.

Nova marcação, nova corrida !
O nosso querido menino saiu da Faculdade tal como entrou, envolto numa estranha neblina, igual à do D. Sebastião, também ele um grande choco.

Algumas Semanas Depois !
- Então o homem vem ou não vem? – barafustava o chauffer de nome Porres, ao mesmo tempo que tentava, desesperadamente, pegar a velha carrinha já meio amongoada.
- Está colado à porta do ginásio.
- Porra, não me digam que perdeu outra vez a cebola ? – gritou, dando um murro no volante e conseguindo pôr o motor a rugir.
- A cebola não é, está no tornozelo.
- Há, ó, ó, ó, ó, á – espumava o senhor Choco, dando um violento pontapé na parede, fazendo com que a falua esquerda número 50 abandonasse o pé e fosse colar-se ao tecto, devido ao excesso de sebo que transbordava do seu interior.
- Abram-lhe a porta antes que ele destrua o edifício – ordenou o motorista, puxando agora dos galões de Presidente da Instituição e mostrando o cartão que comprovava a sua genuína autoridade.
Desta vez eram uns calções tipo cueca que faltavam ao Pantera Branca, um pouco encardida, da Brandoa. Não podia ir para a Faculdade só com 6 pares vestidos !
A chegada ao recinto da Universidade foi mais gloriosa. O fumo era tanto que os milhares de alunos fugiram do local pensando tratar-se do dia do Juízo Final.
O estrangeiro desta vez tinha tomado as suas precauções. Toda a equipa estava protegida com o equipamento usado no Futebol Americano. Quanto ao Choco, ainda vinha mais cheiroso do que na sessão anterior.
Mas tudo correu às mil maravilhas, o nosso leão vinha mais potente do que nunca e atingiu a nota máxima, excepto na parte final em que cuspiu novamente o bucal. A causa foi descoberta nas folhas da Net que acompanhavam a biografia autorizada do nosso Bomba: o perfil anatómico tinha uma pequena variação em relação à maioria dos da espécie e quanto a isso a tecnologia estava ainda um pouco atrasada.
A festa acabou com o Porres a gritar bem alto, como manda um bom político:
- Comigo a Presidente todos vão ficar iguais a este !

Thursday, August 19, 2004

O Universitário - Odisseia 1

                          Camarada Choco


                                      

A emoção era enorme e imprópria para cardíacos, coxos, zarolhos, carecas e afins. Pela primeira vez na história da nossa querida Cooperativa de Reabilitação...etc.,etc., e mais algumas mariquices, um dos seus associados tinha sido seleccionado, entre muitos milhares de mongas ( metade da população portuguesa ), west boys, cromossomas-x-men, Dandy-Walker’s e muito mais hippies, para fazer parte da selecção mundial...perdão, é a emoção a ultrapassar o meu discernimento....para fazer parte da amostra dum estudo que se iria realizar numa Faculdade.

Nome do Herói: CHOCO SILVA, ou melhor, DR. CHOCO SILVA (com letra Maiúscula e a Negrito).

Ficaria assim para a história da Brandoa como o primeiro Treacher-Collins a norte do Tejo a ingressar numa Universidade !
Iria ser sujeito a um treino intensivo durante algumas semanas e depois teria de passar por implacáveis exames finais. O Choco nem estremeceu, estava desde aquele momento pronto para a luta, com o peito ao vento...peito !??..Oh não...enganei-me...com a Cifose...lá estou eu a armar-me em intelectual...com a marreca ( nome popular ) ao vento e a língua junto aos pés.
Ainda a madrugada era uma menina e já o nosso atleta montava arraial à porta do ginásio, devidamente equipado com a sua jurássica camisola de alças número 69 do Benfica, os seus calções verde esperança e os ténis número 55, sendo os 12cm em excesso ocupados pelas suas unhas estilo predador e para amortecer o cheiro de doze anos consecutivos sem ver a luz do Sol e as carícias da água.
1,2,3..., eram tantas as flexões que até a cifose dorsal desaparecia no meio de toda aquela massa muscular, parecendo ir instalar-se sorrateiramente na face sensual do nosso Sansão, que ficava agora mais parecido com um peixe corneta.
4,5,6..rugia o leão da Brandoa, à medida que fazia manguitos com a barra de 15 quilos, ou seriam toneladas!?? A expressão facial e a posição da língua, que já tocava na testa, tendiam para a segunda hipótese.
Na 8ª tentativa o colapso traiu as expectativas e o ferro caiu com estrondo no seu sensual pescoço, provocando o arremesso imediato dos seus ténis vermelhos contra a parede branca, assim como o crescimento descontrolado das unhas pré-históricas, que se enrolaram com estrondo na língua em forma de jibóia, ao mesmo tempo que deitava fumo pelas orelhas. Foi graças às toneladas de roupa que o Choco sempre trazia na mochila que conseguiram extinguir o fogo.
A prova seguinte fazia apelo aos seus abdominais. E este parecia ser o ponto forte do nosso Tarzan Choco Taborda!
- Preparado...atenção...vai – gritou o professor com voz grossa, digna de um verdadeiro treinador.
Mas só veio a língua, que recolheu com um pedaço de caliça do tecto. Iria ser o fim do mundo quando o chefe Porres tomasse conhecimento da ocorrência! Deu-se por finalizado o primeiro de muitos treinos. O nosso herói pegou na mochila, que geralmente pesa toneladas, devido aos milhares de cassetes piratas, bugigangas, roupas, toalhas, fatos de banho, shampôs, chinelos, óculos de mergulho e muitas, muitas mais surpresas que o acompanham para todas as actividades da vida diária.
Ainda os poucos galos da cidade não tinham tocado nas cornetas e já o nosso UNIVERSITÁRIO estava junto à porta do ginásio, pronto para o segundo combate.

Prato do Dia: Resistência Aeróbica

- Aos seus lugares...pronto...Piu !
Tal como um trovão, o nosso querido Choco partiu em slaide, com os ténis a chiar e o escape na máxima potência. Contra todos os prognósticos e apostas, não foi longe! Ainda não tinha atingido o meio da recta e já se precipitava de encontro aos paralelepípedos. O cronómetro não parou, obrigando o nosso Carlos Lopes da Brandoa a retomar a marcha. Mas nem assim melhorou ! Novo despiste no mesmo local. O director da prova deu ordens para se suspender o encontro e ordenou um exame rigoroso à máquina e ao terreno. Neste não havia nada que fosse o responsável, nem mesmo uma humilde bosta da cadela Duna. Geralmente os cocós tomavam banhos de Sol na relva do Porres e do Virgulino. A culpa era dos pneus!
- São inadequados – gritou o responsável.
Os ténis vermelhos eram grandes demais para as jantes. Metade deles, mais precisamente as partes da frente, não acompanhavam o andamento e ficavam sempre para trás. Treino suspenso até mudança de faluas.
Dia 3. Mais uma vez o atleta a antecipar-se aos galináceos.

Prato do Dia: Flexibilidade
A caixa, emprestada pela faculdade já esperava ansiosa pelo utente. Primeira exigência: o jovem tinha de se descalçar!...Descalçar !??..Meu Deus, e o ambiente, a camada do Ozono, iriam aguentar ?? Desatar aqueles paquetes iria ser um trabalho “herculíneo”. Pelo menos mil nós dados desde o nascimento até à idade adulta, separavam as fedorentas meias do final do século XX. Missão Impossível! Foi com o auxílio de um pé-de-cabra meio monga que as carcaças saíram, levando coladas parte das unhas encravadas e do seu conteúdo calórico. A partir daqui o odor insuportável a chulé-por-camadas traiu a consciência dos presentes e dos mais próximos e só voltaram à luz do dia com a ajuda dos profissionais do 112. Quanto à “flexibilidade”, esta alternava de lado por influência da marreca, da escoliose e de outros problemas afins.
Há certos momentos que temos a sensação de que o Tempo anda a gozar connosco. Ainda mal tínhamos recuperado do dia anterior e já o Choco se encontrava pronto para mais uma corrida.

Prato do Dia: Salto em Comprimento sem Balanço

Duas marcas de giz branco no chão assinalavam o ponto de partida e o de chegada. Os ténis benfiquistas persistiam em não largar o grande Choco Silva e por isso teve de ser feito um desconto pessoal: a Segunda linha recuou 10 centímetros! Foi-lhe explicada, da melhor maneira possível, a técnica ideal para ser um verdadeiro campeão.
- Hã, hã – rugiu o nosso herói, dizendo que tinha percebido claramente as instruções....ou talvez não!??....agora já era tarde de mais!
O garanhão já estava preparado para o Take Off ! As asas balançavam freneticamente, das orelhas já saia fumo branco, a língua esvoaçava em todo o seu esplendor, a cara parecia o Concorde. Colocaram colchões na parede distante, para o caso do jovem decidir aterrar na sala ao lado. Quando partiu o fumo já tapava todo aquele magnífico Jumbo da Brandoa e o barulho era ensurdecedor. O Landing provocou um autêntico terramoto. Uma eternidade até o fumo desaparecer.....todos olhavam estarrecidos para a parede, tentando vislumbrar o nosso Ser Olímpico. Mas dele, nem sinal ! Teria entrado em órbita, estando agora a ser cobiçado por um par de marcianas siamesas ?
- Está ali – gritou um dos assistentes, obrigando-os a olhar para trás.
E estava mesmo.... a 10 centímetros à frente da linha da partida.
O cabedal do herói crescia a olhos vistos. A prova dos nove veio num dia de Sol na casa dos pais. Estavam os pintores a dar novas cores ao quarto de dormir dos progenitores quando foram surpreendidos por gritos femininos alucinantes vindos da cozinha. Desceram apressadamente dos escadotes e correram como lebres para o local da tragédia. O espectáculo era arrepiante ! O nosso atleta acabara de atacar, tal como um felino, a sua progenitora e a sua querida irmã, que desde o nascimento partilhava com ele o síndrome de Treacher – Collins. As duas fêmeas já estavam “Ko” e o agressor transportava-as agora como os antigos Treacher – Collins das cavernas. O chefe da família foi confrontado com a dura realidade quando chegou do trabalho, já a noite ia longa. Lançou-se de imediato no encalço da fera, que tentava desesperado contar os carneiros, que teimavam em não sair do número três. Apanhou-o num momento de fraqueza e lançou-lhe um grito de morte:
- Se eu um dia chegar a casa e encontrar a tua mãe e a tua irmã aqui esticadinhas, dou-te uma sova que também ficas alinhadinho com elas.
Ainda o nosso herói não conseguira guardar o rebanho e já o cinto, comprado na feira da Brandoa, lhe fazia uma tatuagem na marreca.
- Querido toma cuidado com o teu “castrol”, que está muito elevado – avisava a vítima mais velha, tentando salvar o seu menino das garras do seu garanhão.
No dia seguinte o Universitário apresentou-se, tal qual um Apolo, na zona dos treinos. O mau tempo do dia anterior já não fazia parte da sua memória ( nem cabia ! ). Desta vez ia em direcção à Faculdade, precisava de se adaptar aos aparelhos. Os efeitos do árduo trabalho sobre o escultural corpo do Choco eram bem visíveis na inclinação lateral da carrinha, também ela deficiente.
O tapete rolante já roncava e o atleta olhava para ela como um palácio para um boi.
- Ah, á, á – dizia, e muito bem !
- Pronto ? Go, go...
- Nem os ruídos fisiológicos prejudicaram o arranque do pantera branca da Brandoa, que lá seguiu tipo foguetão, esteira acima.
O dia D aproximava-se, assim como o estudo exaustivo da fera.

Tuesday, August 10, 2004

A CARTA


                         Camarada Choco
                                          
Estava o chefe calmamente a arrumar os papéis na secretária, quando o telefone tocou de mansinho. Ainda teve tempo para deitar um último olhar ao relógio, que o informou serem horas do recolher. Levantou o auscultador e foi de imediato metralhado por uma voz à beira de uma convulsão:
- A minha filha foi convidada pela Escola para um show porno no dia 24 de Março - gritou um enlouquecido, ensandecido, desvairado, endoidecido, desatinado, frenético, enfim, um mentecapto, do outro lado da linha.
O chefe nem queria acreditar ! Estaria a delirar ou já estava em casa a dormir e o excesso de trabalho provocava-lhe alucinações ? Não, era mesmo verdade.
- Estou !??
- A minha filha foi convidada pela Escola para um jantar íntimo à luz das velas e tem de ir vestida com uma blusa decotada e mini-saia - atirou o outro de rajada.
- O quê, com quem é que eu estou a falar ? - perguntou, atónito, o Chefe, pondo-se de pé, tal qual um felino, passando a falar de cima para baixo.
- DAQUI FALA O ENCARREGADO DE EDUCAÇÃO DA PALMIRA MELGA - respondeu em voz maiúscula.
- Boa-noite, senhor Evaristo Melga !
- BOA-NOITE NÃO, MÁ-NOITE. ENTÃO VOCÊS ANDAM A CONVIDAR AS ALUNAS PARA ENCONTROS DESAVERGONHADOS? - tornou a gritar o papá Melga.
O Chefe nem queria acreditar. Agora tão perto da reforma, depois de ter cumprido várias comissões militares no Ultramar, só faltava esta melga para lhe estragar o resto do dia.
- O senhor está a dizer que recebeu uma carta da nossa Instituição a convidar a sua filha...
-....PARA UM ENCONTRO SEXUAL....PEDEM PARA ELA IR TODA NUA...
O Chefe deitou um rápido olhar para um Tegretol que dormia descansado a um canto da secretária e desejou poder envia-lo, via Telecom, para aquele pai tresloucado.
- O senhor vai-se acalmar e amanhã manda-nos a carta pela sua filha.
- MANDAR A CARTA PELA MINHA FILHA !?? NÃO, NUNCA, JAMAIS....
Uma carta daquelas nunca poderia ser transportada por uma menina deficiente. E se ela engravidasse, mesmo não sabendo ler ? Hoje em dia não se podia confiar em ninguém, o perigo espreitava em todos os sítios, os pedófilos....perdão...os mongófilos não davam descanso às pobres damas, até já atacavam dentro dos envelopes. O senhor Evaristo Melga arriscava-se a ter um envelope como genro e a ser avô de uma melguinha correio azul.
- Então venha cá o senhor entregar-nos a carta.
- E DORMIR !?? APESAR DE EU SER UM PAI ATENTO E PREOCUPADO, AS RESSACAS.....OS SERÕES DE TRABALHO OBRIGAM-ME A DORMIR DURANTE TODAS AS MANHÃS. VOU ENVIAR-LHE A CARTA E A MINHA MULHER. MAS NÃO SE ESQUEÇA, SENHOR DIRECTOR, A MIM NINGUÉM ME CALA !
A carta foi entregue com nojo, diria mais, com asco...com aversão..com repugnância...pela agastada mãe à beira do precipício da vida. O local onde ela julgava que a sua filha estava e estaria sempre em segurança, revelara-se agora numa diabólica armadilha, que não hesitava em enviar espermatozóides liofilizados através dos CTT, um produto mais corrosivo do que a própria droga. Que mais coisas tenebrosas poderiam fazer ? Seriam cobaias de experiências comportamentais ? Aquela sala de luzes e sons, que a tinha maravilhado, não seria um laboratório de experiências sexuais ? A televisão tinha razão ao alertar e mostrar ao mundo estes centros de terror. Depois desta reunião com a direcção iria à SIC denunciar estas conspurcação, esta depravação, esta profanação e com certeza que o seu Evaristo Melga iria abrir o telejornal das 20H00, sendo assim o primeiro "Informador" português, aquele que descobrira o verdadeiro objectivo das Cercis deste país.E assim o envelope foi aberto e lido em voz alta o seu diabólico conteúdo:

" Vimos por este meio informar que a sua educanda Palmira Melga vai participar numa prova de Natação no dia 2 de Março. Neste dia terá de trazer fato de banho, toalha e chinelos ".

Saturday, August 07, 2004

Desenvolvimento Pessoal e Social

                           Camarada Choco

                                             Aventura 12
 
O tema escaldava ! Pedia-se a colaboração de todos, tinha-se chegado a um ponto sem retorno, o abismo estava cada vez mais perto, a ponte para a outra cueca...perdão...para a outra margem tinha de aparecer o mais rapidamente possível. “Sexo”, sempre o maldito “sexo” ! Ficar-se-ia pela teoria, como do costume, ou tentar-se-ia socializar a prática ?
A Natureza andava a brincar connosco. Privava-nos de muitas coisas, mas no que tocava ao “chéxu” estava tudo intacto. Era só esperar pela chegada da Primavera e aí estávamos todos a abanarmo-nos de todas as formas e feitios, para chegarmos ao mesmo prazer. E quais iriam ser os temas a transmitir-nos ? Seriamos divididos por classes, os Eremitas, os Pescadores ( tudo o que vem à rede é peixe ), os Predadores, os Arrastões...etc.,etc., ou ficaria tudo ao molho ? Ou até não teríamos direito a participar, pois só aos doutores diria respeito ! Ainda as decisões não estavam tomadas e já choviam propostas:
- Os alunos da Educativa poderão ir visitar os do C.A.O. !
Uma simples visita de cortesia ou um encontro mais picante !?? E quais seriam as regras?? Existiria fora de jogo e cartão vermelho ? Quantos doutos juizes ? Não seria melhor deixar andar as coisas como estavam, do que ir mexer num vulcão meio adormecido ? A decisão estava tomada....
A sala 6 da Área Educativa, constituída por meninos e meninas no início da Puberdade tinha sido a escolhida para ir fazer uma visita sexual....perdão...perdão....uma excursão de trabalho à sala 9 da Área do C.A.O., para aí assistirem a uma Acção de Informação sobre “Sexo”. A excitação estava dentro dos parâmetros normais, incluindo duas convulsões de última hora. A saída decorreu ordeiramente ao som de um ritmo caótico e alucinante.
Na sala a Formadora esperava pacientemente os utentes, entretendo-se a desenhar num quadro um estranho objecto constituído por dois círculos pequenos e uma linha recta avantajada. Os assistentes foram-se acomodando à medida que chegavam e algum tempo depois o local já fervilhava de mongas teenagers inconsequentes.
- Bem, podemos começar – avisou a oradora, apontando para o desenho – Isto é um Pénis ! Alguém sabe o que é um Pénis ?
- Énis...Énis – levantou-se de imediato alguém da assistência com o braço no ar – Énis, Énis...
- Diz lá, Palmira Melga, o que é um Pénis.
- Énis...Énis – gritava excitada a espectadora à beira de uma convulsão, sendo acompanhada pela multidão em histerismo – Énis, Énis...
- Vá lá, explica aos teus colegas...
E como um gesto vale mais do que mil palavras, puxou de imediato o Choco que estava ao seu lado e prontificou-se para mostrar o que era o “Énis”. O macho não cabia em si de contente por ter sido ele o eleito e já deixava escapar a sua enorme língua de encontro ao chão. Abriu os braços e avançou a bacia em sinal de cooperação.
- Énis, Énis – continuava a gritar a intelectual.
Puxou pelo indicador da mão direita e colou-o de imediato nos ténis vermelhos número 50 do seu querido e respeitado Choco. A decepção foi geral, mas não evitou que a turba se lançasse furiosamente de encontro a todos os ténis presentes. O retorno à calma demorou uns longos trinta minutos, tendo sido necessário recorrer a todos os calmantes disponíveis na sala. Quanto ao macho eleito, ainda se podia ver o seu gesto reprovador, como que chamando burra à sua ilustre colega.
- Énis, Énis – gritava ininterruptamente a interveniente, alheia ao caos em que se transformara o “Desenvolvimento Pessoal e Social”.
- Quem sabe o que é um “pénis” ? – tornou a perguntar a Formadora.
De imediato, o Choco tomou a iniciativa e saltando para o palco, tal qual um felino, gritou bem alto para quem o quisesse ouvir:
- Áálho, áalho, áalho – rosnava o nosso herói do cinema mudo, ao mesmo tempo que baixava furiosamente os calções...os calções...os cinco calções multicolores que trazia desde o mês anterior.
Nem as vozes contra o demoveram da exibição e num piscar de olhos ficou com a cintura pélvica ao léu, mostrando ao público presente o apêndice avantajado, torto e com um nó na ponta com que os céus o tinham presenteado e agora aumentado com o calor da discussão. E, no meio disto tudo, ainda se ouviu um grito alucinado duma das presentes, que desmaiou com a emoção. Era a nossa querida e estimada Madame Amorim ! Quanto ao Choco, permanecia parado e orgulhoso, exibindo o seu fabuloso Chevrolet com os pneus furados, uma precaução da Natureza, não fosse ele querer seguir as pisadas dos progenitores e manter indefinidamente a inscrição da família Choco na Segurança Social.
A primeira parte da sessão estava concluída, já não havia dúvidas quanto ao “Pénis”. No entanto, foi necessário esperar algum tempo para fazer sentar a Papoila que, devido à sua fraca visão, insistia em ver o Chevrolet, tendo-se para isso deslocado para junto do colega e colado os olhos ao seu descomunal pepino. Quanto aos outros machos presentes, todos eles também exibiam os seus dotes às colegas interessadas...todos!??....todos não, havia uma excepção, o Ambrósio Caspa que, por mais que procurasse, não conseguia vislumbrar o seu cacete, ausente devido às contingências genéticas.
- Amigos, tenho outra pergunta para vos fazer – avisou a Formadora, conseguindo captar, depois de muito esforço, a pouca atenção dos presentes.
O próximo tema também não era dos mais fáceis. Foi com muito medo que se atreveu a passar à questão seguinte:
- Alguém sabe o que é uma “Vagina” ?
Foi demais ! Com esta o Choco não se aguentou e atirou-se sofregamente à Zobaida, que permanecia no seu normal estado letárgico rodeada de moscas, mas foi traído pela sua visão estereoscópica, indo cravar os dentes na roda traseira esquerda, que apresentava um piso careca, despedaçando-a com estrondo, facto este que provocou um súbito desequilíbrio na pré-histórica cadeira de rodas, que não aguentou a traição da força da Gravidade, arremessando, de imediato, o seu pesado conteúdo de encontro ao chão frio. Mas como o destino é madrasto, nesse preciso momento ia a passar a apressada Lolita que não teve outro remédio senão apanhar com os cento e tal quilos da sua colega, ficando espalmada, tendo ainda tempo de atirar umas sábias palavras para o ar:
- Organizem-se !
Foi com muito esforço que conseguiram dominar o senhor Choco, tendo o Conselho Pedagógico, que reuniu de emergência, deliberado amarrá-lo a uma cadeira. Decidiu-se também avançar com a projecção do pequeno, mas muito elucidativo, filme “A Actividade Sexual dos Caracóis, das Lentilhas e dos Percebes” da autoria do Alto Comissariado Europeu para a Igualdade no Trabalho e no Sexo ( A.C.E.I.T.S. ), que estava previsto para o final da sessão. Entretanto, os organizadores desta educativa e pedagógica Acção de Formação acharam por bem também eles recorrerem à ajuda dos milhares de drunfos postos à disposição dos presuntos....perdão...dos presentes. Pode ainda ouvir-se o protesto do Fangio Espástico, que queria que pusessem no ar a cassete com a gravação da sessão do canal 18 da TVCabo do dia anterior.
As lentilhas foram mais eficazes do que os caracóis, pois conseguiram adormecer a assistência, principalmente o impetuoso Choco que dormia agora como um anjinho, no regaço da sua amada Florbela. Quanto aos responsáveis pela organização, já estavam de novo preparados para a acção:
- Vamos falar outra vez sobre “Vagina” – principiou a titubeante Formadora, lançando um olhar medroso para as suas colegas, ao mesmo tempo que ligava o projector de slides que atirou para o écrã a imagem de uma rosa.
O tema era muito forte ! O nome da Rosa mexia demais com as profundezas da alma e das....cuecas....do nobre e altivo Choco, obrigando-o a dar um pulo majestoso, tal como um garanhão, mergulhando de cabeça no retrato...
- Ele vai dar cabo do écrã – gritou a Formadora, conseguindo afastar-se a tempo do predador.
Não se sabe a causa, nem o truque utilizado, mas todos são testemunhas juramentadas de que o herói saiu do local com uma rosa vermelha entre os dentes. Quanto à do écrã, desapareceu misteriosamente sem deixar rasto.
- Lá vão as lentilhas outra vez – gritou o projectista, rodando o manípulo do aparelho.
Ficou-se pelos bivalves e quanto aos utentes, que se desenrascassem na próxima Primavera.






Thursday, August 05, 2004

A Sala de Snooker

                           Camarada Choco
                                                                

 A notícia não podia ter sido a melhor: a Sala de Snooker já tinha aberto ao público......perdão.....Snoezelen......Sno quê !??..... Snooker, aquela com um tampo verde, muitas bolinhas coloridas, uns quantos buracos e uns tantos paus!??...Não, não, Snoezelen, também havia bolinhas, mas mais, muito mais, um colchão de água que vibrava e debitava música, uma bola de espelhos, um tubo alto com água e peixinhos coloridos, que mudavam de cor quando lhes tocavam, e outras atracções, que eram para o menino e para a menina. Portanto, Snooker “Sim”, mas um Snooker da Guerra das Estrelas, capaz de excitar o mais profundo dos colegas. E tudo isto por uma pequena bagatela: três mil contos!!
Resolvi antecipar-me à realidade e dei um pulo ao Futuro (nos sonhos pode-se tudo ). Lá estavam eles, os meus queridos amigos de infortúnio esperavam ansiosos a sua vez de curtirem, o néon colocado à porta da casa de espectáculos indicava que era ali o sítio mais in da cidade da Amadora:

Sala de Snooker
... Ò Perdão ...

SALA DE SNOEZELEN

...onde até o teu bisavô embalsamado diz “YES”....

.....anunciava com orgulho a luz cintilante.

O ambiente, enevoado pelo fumo dos cigarros estilo anos 30, mostrava que a tensão, em todas as partes do corpo, era muita. Havia homens e mulheres a preceito.
- Olha o calmante, Vallium 20 do melhor – anunciava a nossa querida Lolita, vestida de coelhinha do PlayBoy, tendo nos pés as famosas faluas 53 do seu amante Choco.
- Quero Fê.....Fê....Fê – gritou um macho de óculos escuros barrando o caminho à vendedora.
- Vê lá se te organizas – disparou de imediato a artista do Portugal dos Pequeninos.
- Fê...Fê... – e o senhor Kodak não passava disso, parecia ter o cromossoma extra do vinte e um encravado na garganta.
Ao seu lado uma senhora com a cara de toupeira mantinha um diálogo animado com as suas próprias mãos. Era a dona Snawzer, uma jogadora inveterada, viciada ainda no Colchão de Água, mas já curada do Pufo. Numa cadeira próxima, uma snoezelendependente careca tentava desesperadamente dar lustro à sua cabeça , roçando violentamente com esta numa placa de anúncio, que avisava:

“ Neste Estabelecimento é vedada a entrada a indivíduos com P.C. “
P.C. !?? Partido Comunista !?? Estava vedada a entrada a deficientes inscritos no Partido Comunista !??
- Ordens da Dra. Sem canudo! – apressou-se a esclarecer a abstracta Dona Lolita – Os utentes com Paralisia Cerebral podem ir dar uma volta ao bilhar grande, porque isto não é para os vossos dentes....perdão...para os vossos ossos.
- Avante camaradas – gritou o Fangio Espástico acelerando contra a multidão, ao mesmo tempo que dava sinal ao extenso cordão de mongas para o seguirem.
Parecia uma das cavalgadas dos filmes do velho oeste:

- na ponta esquerda o lendário Ambrósio acelerava como uma lesma, deixando para trás a sua própria caspa;

- ao seu lado, mas um pouco mais à frente, a famosa lebre sem patas, o inigualável Zé Balbas, deixava no soalho as marcas da borracha dos sapatos;

- no extremo direito e um pouco atrás, a pesadona Mercedes Esgoto deixava no chão um rasto como o caracol, mas acastanhado para dar um toque pessoal;

- em sentido contrário seguia a Telma Estrábica ao encontro dos seus fantasmas;

- em passo de corrida, quase junto ao líder, a madame Castafiore cantarolava tão afinada como a sua progenitora de cabelo verde;

- e muitos mais que a História iria registar para sempre no imemorável filme ,

“ A Fuga dos PCs para a Brandoa “.
Lá dentro a loucura era total ! O Tubo Mágico embebedava as almas atormentadas e estas lançavam os neurónios, tal como os dados num jogo de Poker, pelas áreas apertadas daqueles cérebros micros, indo bater de encontro às luzinhas que subiam pela coluna. O Colchão de Água, para além de vibrador, soltava uma música radical, a dos “Rolingspásticos”, a banda de rock do momento. O Pufo já era, a Zulmira Destravada tinha-lhe pregado uma dentada monumental e agora o seu conteúdo esvoaçava pela boîte, dando um toque natalício ao ambiente.
- Neve, neve – gritava tresloucada a madame Amorim, uma veterana nestas andanças, deixando cair, com estrondo, os dois anõezinhos que tinha escondidos nos sovacos....sovacos não...axilas...axilas!?? .... A madame Amorim nunca teve axilas, mas sim sovacos, e dos grandes...SOVACÕES, já para não falar das crostas acumuladas nas suas pernas peludas, devido às ausências prolongadas ao chuveiro. E a sua progenitora que andava sempre tão aperaltada e perfumada !
Na Piscina de Bolas viam-se pernas, muitas pernas, acompanhadas de risinhos marotos, entrecortados por vezes por cabeças que emergiam com bolas coloridas entre os dentes, mas só por poucos segundos, desaparecendo de imediato nas profundezas.
Quanto à Bola de Luzes, a rotação era infernal e já levava agarrada quatro espásticos, três atetósicos, cinco coxos, dois marrecos e meio, sete micro, dois hidro, sem contar com a Zobaida que, devido à força centrífuga, já tinha abandonado o carrocel, encontrando-se a deslizar lentamente pela parede branca do recinto.
- Fujam, vem aí o chefe Porres – avisou o Zé Balbas.
- Mas tu não ficaste mudo depois daquele fim-de-semana alucinante oferecido pelas doutoras no dia das “ Comemorações do Regresso Pedagógico ao lar doce lar “ ? – perguntou a sempre atenta Lolita, afastando o melão do senhor Melão.
- É tanga, só não falo para receber o subsídio, mas à noite transformo-me no Super-Balbas, o maior orador de todos os tempos.
- Ó menina, ainda vais ficar muito tempo agarrada ao meu melão ? – refilou o senhor Melão ( não confundir com o dos “Excesso” ), apoiando-se na cabeça micro que lhe aparecia entre as pernas.
- Se já te tivessem operado a esta hérnia monstruosa não estavas aqui a ocupar tanto espaço – respondeu, de imediato, a candidata a deputada à Assembleia da República.
- O meu mal não é ter todo o intestino nos joelhos, é ter nascido preto e não ser filho de ministro. Os especialistas dizem que não é urgente !
- Sai da frente ó P.C., esta procissão “belongue” aos mongas – gritou o Johny Kodak, o rei dos trissómicos, uma espécie de maçons do Ensino Especial.
Num canto escuro e já um pouco inclinado pelos efeitos dos drunfos, o Choco mostrava a sua requintada arquitectura corporal a uma moça desprevenida.
Na Sala de Snoezelen a festa aproximava-se perigosamente do RedLine. Dentro do tubo já nadavam dois utentes e a Violeta ameaçava com uma crise existencial e tudo devido a eles não mudarem de cor quando lhes tocava. Os boateiros depressa espalharam que a boite era uma fraude, tinham-na comprado numa loja dos 300, não era uma Znoezelen genuína. Queriam a cabeça do responsável !
No ar pairava a ameaça de uma convulsão em bloco, um autêntico 25 de Abril dos deficientes.
- Calma, o povo é sereno – gritava para as massas a única pessoa lúcida, a D. Lolita, depois de ter trepado para as costas do Pitrongas.– Só tenho drunfos para os mais radicais ! Quem quiser reclamar dirija-se à Secretaria e fale com a chefe.
A festa acabou nos Serviços Administrativos com os utentes em histeria total e a Dona Sãozinha em início de colapso, depois de ver, mais uma vez, as folhas de pagamentos desaparecerem, desta vez engolidas pelos artistas mais incomodados.



Tuesday, August 03, 2004

Linha de (Des)montagem

                          Camarada Choco

                                          

- Conseguimos – gritavam com orgulho as educadoras para quem as quisessem ouvir – conseguimos a “Linha de Montagem”, os nossos alunos vão começar a produzir !
Era o delírio colectivo, a nossa querida Escola acabava de entrar no pelotão da frente do Mundo Ocidental. Pus-me a imaginar ! Um centro industrial pujante no meio da cidade da Amadora, o orgulho de toda uma população, um exemplo para o Universo, o país dos Descobrimentos tornava a renascer das cinzas e mostrava-se agora babado aos bárbaros. E tudo isto devido à já famosa “Linha de Montagem” !
De repente o meu sonho foi invadido pela imagem arrogante do Choco, o melhor operário fabril, a apertar com convicção uma porca a um parafuso monstruoso, pertencente a um petroleiro liberiano que entrara recentemente nos estaleiros da Lisnave. O seu empenho reflectia-se na enorme língua que descansava suavemente no chão de madeira, tendo os olhos colados à cara barroca da sua querida namorada, que recebia o trabalho acabado pelo seu macho e dava início ao seu: desaparafusar ! Não, não era possível, estes pensamentos eram anti-operários, não iria ser com certeza esta a realidade da nossa futura fábrica.
A “Linha de Montagem” iria fazer jus ao seu nome, as porcas sairiam da fábrica devidamente enroscadas, quer quisessem, quer não. Aqui trabalhar-se-ia, o tempo das mordomias chegava ao fim ... avante camaradas ... ó, perdão ... avante mongalhadas !
- Então, onde estão as máquinas ? – perguntou o professor.
- São estas – respondeu a educadora, mostrando-lhe três recipientes de plástico da “Loja dos Trezentos” e vários sacos com porcas e parafusos.
- What !?? Perdão, caras senhoras, eu com toda a certeza que não me fiz entender ! Vou repetir o pedido. Minhas caras colegas, V. Exas. terão a gentileza de me mostrar o material.
- Aqui está !
De novo os recipientes de plástico, os sacos com os parafusos, as indomáveis roscas e .... e ..... ( claro que faltava alguma coisa, a sua indignação era genuína ! ) as irresistíveis anilhas finas e anilhas grossas, escolhidas em função do tamanho dos parafusos dos operários.
Fui outra vez puxado para o mundo alucinante da cadeia de produção e dei de caras, para mal dos meus pecados, até já parecia uma perseguição, com o rei dos trabalhadores, o irresistível sindicalista Choco, que apresentava agora um cartão de identificação colado à testa, que o denunciava como membro do clube dos portadores de Síndrome de Treacher – Collins. A mania das grandezas deste macho da Brandoa já me começava a irritar ! Estava agora a tentar pôr no seu parafuso uma anilha fina, não se coibindo de usar como martelo a cabeça oleosa da sua colega operária, a Dona Lolita. Ao seu lado estava a Telma Estrábica a tentar pôr uma rosca num parafuso fantasma, produto da sua visão dupla. À sua frente a Florbela debicava alegremente nas porcas, sendo a sua barriga de grávida testemunha da sua gulodice extraterrestre, não se coibindo de lançar uma mão ao parafuso do seu amado. Na ponta final da linha de produção estava a majestosa Zobaida tentando, há já muito tempo, colocar a sua anilha grossa, sendo prova desse esforço o bigode que entretanto crescera, cobrindo-lhe agora o lábio superior, dando um toque nobre à sua silhueta barroca.
De repente a confusão instalou-se na secção S.L.M.E.A.A. quando a operária Papoila resolveu suspender , unilateralmente, o trabalho, para presentear o seu camarada de posto com um jacto de vómito, deixando-lhe um odor muito in, digno dos melhores perfumes Brandoenses, como, por exemplo, a célebre “Essência de Anão”. Isto obrigou o operário a soltar do parafuso a sua mão direita, para assim poder retirar dos óculos os restos da maçã, bife e massa e outros produtos alimentícios calóricos, que lhe perturbavam a visão de 140 dioptrias, esquecendo-se, no entanto, que a mão esquerda já há muito tinha virado a 180º, sendo por isto inútil nesta faraónica “Linha de Montagem”. Como se previa, a Lei da Gravidade era para todos sem excepção e assim o parafuso despencou em direcção ao solo, acabando por aterrar na cabeça do JóJó Báfo-de Bode, que estava a sorver, com enorme prazer, um resto de bife expulso das entranhas da sua amiga Papoila. O que se ouviu na secção S.L.M.E.A.A. ( Sub-Linha de Montagem para Espásticos, Atetósicos e Afins ) não foi um “ai”, porque o operário Báfo-de-Bode não era dotado para a oralidade, mas também não correspondia a um “ui”, porque o som vinha das entranhas, tal como um vulcão, deixando no ar um pressentimento de estado convulsivo, seguido de hecatombe de merda. Perdoem-me, mas só pode ser este o termo certo ! Na nossa alegre Casinha os utentes há muito tempo deixaram de fazer coco, fazem merda, muita merda, em qualquer altura, em qualquer lugar, sem avisos, tudo à traição, e muitas vezes com cumplicidades familiares, que os atulham de purgantes, dados nas alturas certas, para eles assim despejarem o conteúdo intestinal longe de casa. E foi numa das ocasiões mais impróprias que a operária Mercedes Esgoto resolveu expulsar os quilitos que tinha a mais. O resultado ficou expresso no número alucinante de moscas por metro quadrado.
Os episódios laborais foram-se multiplicando, tendo atingido o seu auge na manifestação de operárias junto à porta da Administração. Queriam ter os mesmos direitos dos seus colegas machos, ou seja, o uso de bigode e pêlos nas pernas. A Patroa não cedia ! Mulher que fosse encontrada na “Linha de Montagem” com pedículos capilosos nos beiços ou nos membros inferiores era de imediato obrigada a deslocar-se à zona da tosquia, mesmo que isso significasse divórcio, fim-de-namoro, fim-de-amante, etc., etc. A “Igualdade” ainda era uma palavra vã nesta fábrica de Roscas, Anilhas Finas, Anilhas Grossas, Mongas e Parafusos.
Mas, e há sempre um “mas” em todas as histórias, a hora da libertação aproximava-se, como o nevoeiro pela costa. O sinal veio através de um jornal clandestino, que já circulava nas hostes operárias, o “Almondegas”, assinado pelo punho da operária Catarina Eumacho ( pseudónimo da Zobaida ). O título do pasquim não deixava dúvidas:

“O Buço é do Povo, Abaixo a Rapação”.
A resposta do poder foi brutal, mandando retirar as drogas que paralisavam os poucos neurónios disponíveis, apagando de vez estas veleidades revolucionárias, deixando o povo trabalhador à mercê da tirania das suas almas.
A partir desse momento não havia nada para ninguém, acabaram-se os Largastil, Mellail, Brunil, Nalium, Unisedil, Tegretol, Diplexil, Sabril, Bialzepan, Luminal, Noostan, Artane, Haldol,.........
As palavras revolucionárias inundaram de imediato as paredes brancas:

“Espásticos Unidos jamais serão vencidos”
“ Abaixo as Roscas Fascistas “
“ Operário Amigo Junta a Nós a Tua Atetose “
“ Marreco Trabalhador, o Povo está Contigo”

A Revolução estava em marcha, ninguém a parava. Do alto do palanque, tal qual um Lenine de saias, a camarada Lolita enchia os ouvidos dos seus colegas com a sua verborreia revolucionária, estando agora mais vermelha do que o normal, talvez devido à falta das doses maciças de Diplexil. No meio da multidão de fêmeas que clamavam pelos seus bigodes, um agente fascista disfarçado com uma saia e uma camisola do Benfica com o número 69 e um cheiro popular, tirava partido do calor revolucionário e abusava das ingénuas camponesas.
- Há, Ó, Ó, Há, Á, Á – gritava, excitado, o técnico de porcas.
Até o Zé Balbas gritava de emoção e furor proletário, prontificando-se a ajudar o Fangio Espástico a pegar o bólide e a desaparecer no meio de um chiar de pneus, pelos vastos corredores da fábrica de roscas e anilhas, tendo-se esquecido de parar no sinal vermelho, apanhando assim distraída a Carolina Caracol que, com o impacto, ficou sentada ao colo do piloto, indo ambos precipitar-se pela Secretaria adentro, só parando em cima da Dona Sãozinha, que viu, para seu desespero, as folhas de pagamento ficarem coladas ao tecto, devido ao excesso de baba revolucionária, tendo ainda tido tempo para recriminar os invasores:
- Saibam V. Exas. que se esqueceram de pedir licença para entrar !
O estrondo trouxe-me de novo à realidade. E lá estavam eles, aqueles charmosos homens e mulheres, a trabalhar arduamente a um ritmo de caracol, no eterno ciclo

PARAFUSO, ANILHA FINA, ANILHA GROSSA E PORCA.
Ao longe a cera já borbulhava, pronta a atacar o buço mais entranhado e o pêlo mais teimoso !





Monday, August 02, 2004

O Demolidor

                                                        Camarada Choco

                                            
 
Plim, Tlim, Tim ......... gritava a loiça quando atingia o chão da sala ao lado.
- Os pratos, os pratos do almoço - gritou uma funcionária. - É o Zé Trovão.
Era sim, senhora, o Zé Trovão, tinha conseguido iludir a vigilância, que por vezes se quebrava devido à falta de meios humanos. Quando chegaram ao local do crime deram de caras com o autor, que lhes estendeu as mãos e confessou:
- Ó patiu, patiu.....à, à mau - dizia, ao mesmo tempo que revirava os olhos e mordia furiosamente os pulsos, tatuando-se com a sua dentadura de onze anos, a maior parte deles atormentados por doenças da Alma.
- És mau, és mau, estes pratos eram para o almoço - disse a primeira senhora a juntar-se aos cacos.
Coitada, coitadinha, nem teve tempo para se aproximar mais, pois o Zé Trovão deu paz aos seus pulsos e declarou guerra à intrusa, agarrando-lhe freneticamente a cabeleira, arremessando a proprietária contra o chão de nylon, roubando-lhe parte dos cabelos, que ficaram entre os seus dedos gordos. Em socorro da maltratada foi uma educadora, que também não teve muita sorte, apesar de ter ido munida com os métodos pedagógicos mais avançados. Eu fui testemunha ocular e juramentada da cena canalha ! O Zé Trovão parecia estar de relações cortadas com o sexo feminino, pois presenteou esta admiradora com um excelente biqueiro, digno dos melhores momentos do tio Eusébio. Escusado será dizer que deixou a senhora a coxear e a tentar afastar-se o mais rapidamente possível do predador, usando para isso a perna que ainda estava sã. Mas o trovãozinho já não estava para aí virado ! Atacou a terceira, e a mais cuidadosa, que se tinha conservado longe, à entrada,. Desta vez o tiro saiu-lhe pela culatra, pois pretendia distribuir chutos em rajada, ou seja, incluir o professor no lote das vítimas. E como a melhor defesa é o ataque, ele neutralizou-o de imediato, deixando-o sentado no chão, entretido novamente com os seus pulsos, ao mesmo tempo que os feridos eram retirados da zona de combate.
Aos dois anos uma gripe resolveu armar-se em esperta e transformou-se numa encefalite, que deixou muitas marcas no cérebro do Zé Trovão. Teria sido obra do acaso ou tudo já estaria traçado algures nos astros, ou talvez até nos genes? Respostas desnecessárias perante um mal que se instalou e levou para o fundo do poço toda uma família.
Quando fui para aquela Instituição, o Zé Trovão já lá estava a distribuir murros e pontapés a todos. Nem em casa parava. O pai já só aparecia aos fins-de-semana, a irmã ameaçava sair de vez e a mãe ( sempre as mães ! ) era uma mártir nas mãos daquele filho que vivia quotidianamente possesso. A loiça acompanhava o crescimento daquele rapaz de onze anos, e era colocada em armários que trepavam pela parede, estando sempre fora do seu alcance. Quando a segurança falhava, lá saia pela janela um conjunto de canecas ou de pratos, o que estivesse mais à mão, que só parava, felizmente até agora, no alcatrão do bairro. Mas como mais valia prevenir do que remediar, o Zé Trovão tinha acoplado a si um seguro contra terceiros. Em cada canto da casa havia um balde para o menino selvagem poder urinar, visto que quando a vontade apertava ele despejava para onde estivesse voltado.
Mais uma tragédia aproximava-se desta família, pois a mãe ameaçava suicidar-se ! Quiseram então falar com o médico responsável pelo acompanhamento desta criança. Ficaram a saber que o doutor “observava” o seu paciente via telefone. Usaria um satélite ? Não, não era um satélite, era mesmo um telefone, e dos antigos. Precaução, somente precaução e nada mais. Nas últimas visitas do Zé Trovão ao seu consultório, dois anos antes, este tinha-lhe deixado como recordações os cacos do mobiliário. O doutor estava traumatizado !
Na conversa que tiveram abordou-se o tema “lobotomia” e foram informados de que já não se fazia, era contra os Direitos do Homem. Os métodos usados tinham seguido um caminho totalmente diferente, que iam dar ao mesmo ou eram ainda piores. Usavam-se os químicos, montanhas de comprimidos, que neste caso chegavam às 16 bombas diárias, com efeitos secundários que atiravam o nosso amigo para o abismo. Não havia Estômago, Fígado, ou sei lá o quê, que aguentasse tamanha carga de drunfos. E não se limitavam a receitá-los, mudavam-nos constantemente para verem os seus efeitos. Uma “Lobotomia Química”!
- Basta - disseram um dia. - Temos de fazer qualquer coisa !
Quiseram falar pessoalmente com o psiquiatra, que se prontificou de imediato a recebê-los, mas com uma condição: não levar a fera ! Há dois anos que não o via, fugia dele como o Diabo da Cruz. Aceitaram as únicas condições possíveis e propuseram uma outra, que consistia em filmar o artista no seu habitat natural, para assim Sua Excelência o poder observar no quentinho do lar, sem maçadas e sem encargos, tendo ao seu lado um copinho de Whisky de 12 anos, estando ambos livres das garras do José Trovão.
Pelo caminho ficaram outras histórias de indivíduos da mesma tribo do nosso amigo, como, por exemplo, a daquela família que contratou um ex-comando para andar sempre colado ao filho, tendo como missão dominá-lo em casos de crise. Mesmo assim o artista conseguiu, durante um jantar familiar, arremessar o caniche através da janela do 5º andar.




Friday, July 30, 2004

Viagem ao Centro da Terra

                                                       Camarada Choco
                                                                        

 Já estávamos de férias quando fomos convocados para ir ao Centro de Saúde. Desconfiava-se que uma das minhas colegas contraíra tuberculose e, como tal, todos nós tínhamos de fazer uma micro e um teste antituberculina. Missão Impossível ! Fazer deslocar os colegas aquele sítio, dar-lhes uma pica e espalmá-los entre duas chapas metálicas ?? Seria mais fácil Portugal declarar guerra a Espanha e com certeza que as baixas seriam muito menores. Mas a missão era de carácter obrigatório ! Os professores optaram então pela fuga em frente e foi em estilo manada que aparecemos no local apropriado para os exames, depois de uma viagem alucinante, dentro da carrinha de nove lugares, segundo dizia o livrete, transformada desde a fundação num “bus” sem lotação definida e com um fedor constante, resultado de uma mistura de odores da Idade Média: suor, roupa suja, dentes podres, baba, urina, gordura rançosa dos cabelos, sovacos, sebo, meias seculares, ténis jurássicos, cuecas mijonas, etc.,etc. A aliança de todos estes componentes terminava num apoteótico cheiro a merda. Com certeza que se alguém acendesse um fósforo tudo explodiria !
O Centro de Saúde era um local animado e animador, disso testemunhavam as caras simpáticas que ocupavam as dezenas de cadeiras.  Entrámos de rompante, sem aviso, a sangue frio. Fomos de imediato engolidos por um mar de olhos e empurrados para as paredes nuas por uma onda gigantesca de silêncio. As “ gentes normais “ estariam aterrorizadas ou escandalizadas ? Tinham entrado ali com doenças do Corpo, era inevitável e antidemocrático que saíssem com doenças da Alma, e tudo isto causado por aquele bando de bárbaros, que se recusava a ter os mesmos genes da classe operária.
A primeira parte do plano chegara ao fim: os seres superiores estavam amedrontados, temiam ser mordidos, era este o efeito da política oficial da integração a funil ! Iríamos agora dar início à segunda fase da operação “Picamongas”, ou seja, arranjar lugares sentados para todos nós, os príncipes e princesas de sangue preto. Apesar de todos serem testemunhas do esforço dos funcionários e dos técnicos para manter os mais pesados em pé e os mais lunáticos em ordem, ninguém se dignava a dar-nos lugar. Até que, e felizmente há sempre um “ até que “, chamaram alguém, ficando assim um lugar vazio, ocupado de imediato, segundos ordens do professor, pela querida Papoila, a tal miúda da “careca”! O trajecto desde a tribo até à cadeira azul foi seguido de perto pelos olhares indiscretos dos presentes. Os vizinhos desta nova e estranha inquilina encolheram-se nos seus lugares, mas isso não foi o suficiente para evitarem ser atingidos pelos perdigotos disparados pela nossa leoa. A sua cabeça abanava agora ininterruptamente de um lado para o outro, acompanhada por um bufar que fazia vibrar os lábios e distribuía criteriosamente a saliva mal cheirosa. Foi remédio santo ! Poucos minutos depois os vizinhos fugiram em debandada, deixando duas cadeiras vazias, que foram de imediato ocupadas por atletas do mesmo calibre. Três já estavam aviados ! A estratégia continuou até à vitória final ! Os papéis tinham-se alterado. Agora ocupávamos orgulhosamente todos os lugares e os adversários acumulavam-se a um canto da sala de espera. Enquanto estas acções se desenrolavam, outros inscreviam pacientemente os nossos colegas.
Algum tempo depois deu-se início às consultas. A primeira a ser chamada foi a Zulmira Destravada, uma veterana dura de roer, que não admitia ataques  à sua integridade física, viessem de onde viessem. Dois funcionários dirigiram-se ao gabinete da médica com a nossa amiga e quando se preparavam para entrar uma enfermeira barrou-lhes “ educadamente “ o acesso à doutora:
- Aqui só entra a...- e olhou para o papel - ..Zulmira, mais ninguém foi chamado.
- Ok, chicas espertas, ela é toda vossa - responderam, ao mesmo tempo que trocávamos olhares cúmplices um com o outro.
Aquelas senhoras acabavam de perder uma grande oportunidade para estarem caladas. A porta de vidro fechou-se pesadamente e todos nós ficámos  perdidos de riso e na expectativa. Não iríamos perder o espectáculo por nada deste mundo. Aproximava-se um tufão !
Guinchos, berros, coices, murros, dentadas, a Zulmira Destravada distribuía mimos a tudo o que lhe aparecia à mão. A porta abriu-se de rompante e a enfermeira, que há pouco nos tinha corrido, recebia-nos agora de braços abertos e só faltava estender-lhes um tapete vermelho. Era urgente irem salvar a doutora das garras daquela fera, senão ela ainda se transformaria numa utente e teria de ir para o grupo que estava de pé a um canto da sala de espera do Centro de Saúde.

 

Thursday, July 29, 2004

Não Leves o Olho para a Água

                                                          Camarada Choco
                                               


 - Ai, Ai, Aiiiiiiii - gritava de dor a funcionária, depois de ter sido atirada ao tapete.
Pelo chão ficara o tufo de cabelos a que a Rosinha tinha deitado a mão, para aplicar o golpe de judo à senhora. Na semana anterior fora a vez do avô ser projectado à porta da Escola, tendo aterrado no chão duro do belo jardim de calhaus e lixo. Ainda o caos matinal não se organizara e já a Rosinha dera um enorme ósculo de bons-dias ao colega mais próximo esquecendo-se, no entanto, de não usar os dentes. O resultado ficou registado na bochecha vermelha do Zé Trovão, que resolveu entrar numa crise de identidade profunda, começando-se a morder furiosamente e acabando por dar um valente pontapé nas costas do Tó Carvão, que já tinha organizado os neurónios e brincava calmamente no chão com peças de Lego. E assim mais um entrou na festa, presenteando a Papoila com um chapadão digno das melhores performances do lendário Tarzan Taborda, alterando-lhe os circuitos, obrigando-a, contra a sua vontade mais íntima, a dar uma valente, mas convicta, marrada na porta mais próxima, que se fechou com estrondo, entalando os dedos da Telma Estrábica, deixando a nossa heroína do cinema mudo a guinchar e a rodar furiosamente os olhos. O dia começava bem, já não havia bombeiros suficientes para apagar os fogos ! Para ajudar à festa, a manobra da carrinha tinha sido mal calculada e ela encontrava-se agora numa posição instável, ameaçando deitar-se e dormir uma soneca merecida. Entretanto, a Rosinha aceitara mal as críticas que lhe tinham sido dirigidas e ameaçava agora tudo e todos:

- Olhem que eu trinco o olho !

- Atreve-te - disse-lhe alguém do meio da confusão.
E como não era mulher para desaforos, lançou furiosamente um indicador ao buraco do globo ocular, deixado pela grave rubéola que a mãe sofrera durante a gravidez, e sacou o meio berlinde, que fazia a vez de olho, para o exterior e colocou-o entre os incisivos. Bastou um movimento das maxilas para se ouvir o som característico das promessas cumpridas:

Crrrrr !  
No fim do dia lá iriam os cacos embrulhados num guardanapo de papel, para serem entregues aos avós, com a proprietária a fazer um auto de contrição:
- És má, a Rosinha é má - sinal de que, além de ter paralisia cerebral, atraso mental e ser cega, também tinha dupla personalidade.
No dia seguinte fomos à praia, no mesmo autocarro do ATL que partilhava connosco as instalações da Brandoa. O destino eram os vastos areais da Costa da Caparica, numa viagem alucinante que demorava hora e meia para lá e outra tanta para cá, enfronhados num calor abrasador e num trânsito caótico. À chegada montámos arraial logo no início e fomos por grupos à água, que se encontrava ao longe, perdida no horizonte. O primeiro batalhão partiu em busca do líquido precioso e dele fazia parte a nossa amiga Rosinha. Quando iam sensivelmente a meio do caminho, a educadora responsável lembrou-se do esquecimento e deu ordens aos excursionistas para pararem, obedecendo estes de imediato, ficando estáticos no meio de uma das inúmeras escolas que ocupavam todo o vasto território de areia branca.
- O olho Rosinha, não leves o olho para a água - avisou a educadora, vindo a correr ao encontro da sua aluna.
Por momentos naquele pedaço de praia pararam o falatório e ficaram assustados a ver a cena.
- Olho !?? Levar o olho para a praia !?? – pensavam. - Estariam a ouvir bem, ou era somente uma alucinação auditiva provocada pelo intenso calor !??
Com um profissionalismo a toda a prova, a senhora nem se apercebeu que estava fora da Escola e num fechar de olhos enfiou o seu indicador pelo globo ocular da Rosinha e tirou-lhe o brilhante, embrulhando-o cuidadosamente num lenço de papel.
- Já podem ir, foi por pouco ! - Desabafou.
Quanto aos mirones, continuavam estáticos e apáticos, perdendo por momentos os bronzes que tanto custaram a ganhar. A partir de agora tudo o que viesse daqueles estranhos banhistas seria possível. E se por acaso ouvissem – “Ó Júlio, não leves a cabeça para a água, pode enferrujar” - nem se dariam ao trabalho de olhar....

 

Wednesday, July 28, 2004

E Tudo por causa de uma careca

                          Camarada Choco

                                           

Um par de portas azuis abriu-se repentinamente e lá de dentro saiu um vulto, sem rumo e sem mundo, explodindo em todas as direcções, num passo de corrida semelhante ao de um pinguim, parando repentinamente alguns metros à frente, como se tivesse sido colada ao chão, soltando em direcção aos céus um estridente ruído de protesto, um autêntico vulcão oral. Um rapazito que passava despreocupado no exterior foi apanhado de surpresa e ficou imóvel, com os olhos presos naquele Papão diurno, pedindo um socorro silencioso à mãe, prometendo-lhe não tocar mais às campainhas dos vizinhos a partir desse dia.
Um encontro imediato do terceiro grau !?? Uns olhos pequenos, que se escondiam por detrás de umas grossas lentes, focaram-se no novo professor, e uma magnífica franja em forma de poupa deu-lhe as boas-vindas. A mão direita junto à garganta mostrava quatro dedos, com o médio ausente, perdido algures no código genético do pai. A mesma dose para a outra mão ! O olhar da Papoila mudou de alvo e a adolescente encaminhou-se para um escorrega medieval, mostrando-nos ( não se esqueçam que no terreno baldio ao lado da escola está um rapazito congelado ! ) uma careca que lhe decorava a parte de trás.
                    Uma careca ! Mal sabia o docente o trabalhão que esta careca lhe iria dar. Iriam ser acusados de torturar sem piedade a filha, de lhe arrancarem os cabelos um a um, fazendo assim desvanecer o sonho de uma mãe sofrida, que era ver a filha com uma frondosa cabeleira tipo Raquel Welch.
No meio desta aparência hollywoodesca as mãos tortas, os dedos ausentes, a conjuntivite crónica, o cheiro  insuportável a dentes podres e a um constante nariz entupido por culturas de bactérias do Terceiro Mundo e muitas mais outras coisas inimagináveis, seriam pequenos grãos de areia escondidos por uma fascinante beleza nativa. Infelizmente, o Inferno existe, e a nossa querida Papoila nasceu e cresceu bem dentro dele e aí se tornou uma mulher. Mas como um mal nunca vem só, em vez de uma filha a mãe deu à luz um par de gémeas, ou seja, duas papoilinhas, que se desenvolveram por caminhos diferentes.
A nossa menina bem cedo bateu o recorde nacional no número de operações: duas ao nariz aos 3 e 4 meses, a uma hérnia aos 14 meses, várias às mãos, aos olhos, aos dentes, laqueação de trompas, e sabe-se lá ao certo quantas mais, tendo uma destas estadias hospitalares causado, segundo os especialistas da alma, um trauma de isolamento, devido a ter estado 34 dias internada sem visitas. A juntar a este curriculum vitae havia a assinalar sarampo, faringite, meningite, encefalite, rubéola, varicela, papeira, epilepsia, miopia em alto grau..., não havendo ainda à superfície da  Terra  um ser humano dotado de um córtex cerebral que fosse resistente a tantas doses de bactérias, vírus e anestesias. O da nossa Papoila não foi excepção à regra e depressa os seus carretos corticais griparam, ou melhor, colaram, soldaram-se, e para sempre ! Assim, foi lançado ao mundo um ser cujo envolvimento pouco fez para a compensar dos fracos atributos que os céus lhe tinham dado. Não foi ensinada a comer alimentos sólidos e assim a dentadura, que era das poucas parcelas do corpo que apresentava uma estrutura normal, entrou em desuso e apodreceu. Os comportamentos agressivos, muitas vezes devido às dores e o cheiro a texugo que exalava da boca em nada ajudaram a sua integração social. Nestas alturas de êxtase tanto podia arremessar uma cadeira, como marrar, e é este o termo correcto, marrar contra a parede mais próxima, sendo as inúmeras marcas nas paredes de madeira as provas das baixas pressões que se instalavam com frequência na alma da nossa Papoilazinha, também da Brandoa. Mas, e há sempre um “mas” e haverá sempre outro “mas” na sua atordoada existência, pois ela surpreende-nos quotidianamente. Quando não está voltada para as marradas, coloca o indicador torto na garganta e resolve pulverizar o ambiente com o conteúdo ácido das suas entranhas. E foi assim que resolveu presentear os colegas semanas a fio, dentro da carrinha. Com um movimento rápido conseguia expelir o líquido fedorento e perfumava os amigos, os móveis e os imóveis. A funcionária responsável depressa arranjou o método mais eficaz, atando-lhe as mãos, mas a estratégia foi considerada antipedagógica pelas mentes mais esclarecidas e o vómito continuou a jorrar, para desespero daqueles que estavam encarregues de ir pôr e buscar os mongas a casa. Diziam estes técnicos iluminados que iriam resolver o problema rapidamente, através de intervenções adequadas tendo, no entanto, o cuidado de  manter as distâncias de segurança da guerrilheira. Como era de prever, nada se alterou, a Dona Papoila estava inflexível, insistia em presentear matinalmente os seus colegas de curso com o seu show aquático, os pais dos outros já reclamavam, pois muitas vezes isto acontecia no regresso a casa, sendo os seus rebentos entregues com um intenso perfume a ervas amargas, um produto digno das melhores lojas da especialidade, que pululavam pelas vastas ruelas da tradicional Brandoa. Alguns meses depois esta estranha crise de adolescente inconsequente foi ultrapassada e o ambiente entrou nos eixos, com os berros, os urros, os piolhos, as borradas, as babas, etc., etc., que fazem o dia a dia da nossa bem amada barraquinha. Até a mãe da Papoila entrou na rotina, tornando a acusar os professores de serem cúmplices no desaparecimento do pêlo, que ela dizia ver aparecer naquela careca calejada pelas pancadas nas paredes. Tinha desistido de acusar a filha depois de lhe terem explicado que ela não conseguia fazer pinça com os dedos, visto eles apontarem para lados contrários.
- São os colegas ! - disse um dia numa das inúmeras reuniões.  
As acusações iam subindo de tom, já nem sabia quem era mais demente, se a filha, se a mãe ! A senhora acusava agora de terem uma cadeira com pregos, onde sentavam todos os dias a sua Papoilazinha. A relação extremamente punitiva que a mãe mantinha com a filha transferira-se para os técnicos, humildes aprendizes de carrascos da Idade Média. E tudo com origem numa careca, calejada pelas horas e horas que esteve fechada sozinha encostada às paredes, abanando a cabeça de um lado para o outro e fazendo um barulho monótono com a boca. Vagueou por vários sítios, desde a ama onde passava 12 horas seguidas, até às várias instituições que a acolheram, tendo sido sempre o patinho feio.
A uma crise seguia-se outra e os céus não lhe davam o descanso que pedia. De um momento para o outro adquiriu um comportamento obsessivo, que consistia em ir frequentemente à casa de banho e esfregar os olhos com água. Tudo não passava de outra mania, julgavam, até que o oftalmologista diagnosticou uma cegueira irreversível. Lá em cima não lhe queriam dar sossego ! Depois de muitas batalhas, a mãe lá a conseguiu levar a um especialista em Barcelona e a nossa Papoila veio com uma outra oportunidade. Até quando ? Isso ninguém saberia, pois neste mundo os genes escrevem sempre torto por linhas tortas. Quanto ao pai, há muitos anos que tinha sido expulso de casa por não querer trabalhar e, por incrível que pareça, casou-se novamente e teve um rebento de calibre idêntico ao desta sua meia irmã. Não nos podemos também esquecer que as tias materna e paterna sofriam de debilidade mental, mas é melhor ficarmos por aqui.......

 
P.S. – Lamento tornar a incomodar os vossos espíritos sensíveis, mas preciso de acrescentar mais um dado importante na vida desta mártir: a sua mão dominante era a esquerda, mas até a este nível foi contrariada, passando a usar a direita.    

Tuesday, July 27, 2004

A Relíquia



                                                         Camarada Choco
                                                                        
 
- Estou sim? É por causa de um quadro - disse a Lolita com uma voz muito acelerada, estando encostada a uma das paredes, tendo uma das mãos junto a um ouvido, fazendo, mais uma vez, um dos inúmeros telefonemas para a Câmara Municipal - eu encomendei-o para as 13H30.
Os céus dotaram-na com uma boa memória, inútil a maior parte das vezes, ou mais correctamente, inconveniente.
                                138 - 29 - 94 - 38, são as medidas mágicas, em centímetros, desta espectacular fêmea de 30 anos, representando o primeiro conjunto de números a altura, seguido do tamanho dos pés, do perímetro da cintura e finalmente do perímetro da cabeça.
- Ai, ai,ai,ai, mas que grande confusão, organizem-se - exclamou a nossa diva, passando como um foguete de uma sala para a outra, abanando furiosamente as mãos, sinal de contentamento.
Confusão !?? Confusão foi quando decidiu ir pela primeira vez à piscina e na hora da verdade quis dar música aos professores, e que música !! Até parecia uma deputada a falar, arranjava todo o tipo de argumentos para não ir à água.
- Eu nem consigo lavar-lhe a cabeça com água, tem de ser com algodão e álcool – explicou a mãe às educadoras uns dias antes quando lhe comunicaram que tencionavam levá-la à piscina.
Mas desta vez a Lolita não se ficaria a rir, pois a Constituição desta Cooperativa de Ensino e Reabilitação dizia no seu artigo 1º que

                                                    “Aqueles utentes que desejarem deslocar-se à Piscina Municipal têm obrigatoriamente de entrar dentro de água, podendo-se em casos extremos, usar as medidas que forem consideradas necessárias para os colocar no meio aquoso”.
- Eu sei, já ouvi, não sou surda - gritava a futura Tágide da Brandoa, ao mesmo tempo que se escapava, mais uma vez, como uma enguia, das mãos daqueles que a queriam lançar às águas tumultuosas. - Temos de conversar.
Conversar!?? Ainda queria mais diálogo!?? Não, agora era a sério! Acabou por ser encurralada e pouco tempo depois flutuava no meio do oceano, dentro de uma bóia roxa gigantesca, que orgulhosamente tinha trazido de casa. E ali estava a dona Lolita mais vermelha do que um tomate, depois de ter caído dentro de uma lata de tinta vermelha, imóvel, mas acima de tudo calada graças a Deus ( ou seria graças aos Mestres, como ela chamava aos pacientes docentes ?? ), uma autêntica tumba. Falar significava balançar e isso ela não queria. Só lhe restava esperar que o tempo passasse e a hora do regresso viesse depressa. Até lá podia recordar um passado que lhe era estranho e de que não guardava memórias, como, por exemplo, a gravidez da mãe que fora normal apesar de ter levado uma injecção para a segurar. Também não sabia que só tinha querido vir ao mundo vinte dias depois e ainda por cima com a ajuda de fórceps e ventosas. O seu tamanho era mínimo, ao contrário do cheiro que era máximo, e ainda por cima estava sempre enrolada como um caracol. Foi encaminhada para uma incubadora e fez greve à mamada, ao mesmo tempo que o coração também resolveu chamar as atenções, soprando. Ria-se de felicidade, mostrando ao mundo a sua colecção de dentes podres, pois sabia que tinha sido uma criança muito desejada.
Uma onda fez a sua bela bóia abanar violentamente, trazendo-a à realidade. Ainda pôde vislumbrar o belo Choco, agora transformado num magnífico tubarão martelo, nadando tal como um prego. Ao seu lado estava um espectacular peixe-espada enfiado numa câmara de ar, com um sorriso de orelha a orelha, contemplando com satisfação o quadro vivo de Dali. O suave balancear levou-a de novo para o andar das memórias, que lhe revelaram ter sido internada aos dezanove meses devido ao excesso de convulsões. Os inúmeros exames detectaram que a sua idade óssea correspondia ao de uma criança de um mês, tinha microcefalia, sendo a causa disto tudo, como na maioria dos casos, de “etiologia desconhecida”.
- Lolita, se quiseres, podes sair - disse-lhe um dos “mestres” no meio daquela confusão aquática.
Era esta a palavra mágica que a nossa tágide esperava desesperada ouvir, a fácies vermelho explosivo mostrava claramente a sua motivação. Sair, mas como !?? Continuava a meio daquele vasto mar, a costa estava cada vez mais longe, o Choco resolvera agora nadar nas proximidades da sua elegante bóia versão petroleiro e as ondas produzidas afastavam-na cada vez mais do porto seguro. Depressa descobriu a maneira mais eficaz de resolver a situação: usar os braços como remos. E assim começou mais uma extraordinária aventura da nossa heroína do Portugal dos Pequeninos. O oceano estava agitado, revoltado, tenebroso.....penso que é melhor recorrer a  um tal de Camões para descrever a terrível cena:

                                                  “ Tão temerosa vinha e carregada,
                                                  Que pôs nos corações um grande medo;
                                                  Bramindo, o negro mar de longe brada,
                                                  Como se desse em vão nalgum rochedo. “
                                                   .......
 
Finalmente chegou ao destino, uma multidão de fãs esperava-a pacientemente. A diva encostou o iate e subiu graciosamente a escadaria da fama, envolta numa chuva de palmas e palavras de admiração e carinho. Mal pousou os pés tamanho vinte e nove em terra firme parou, olhou para os nativos e declamou, tal qual uma sábia:
- ORGANIZEM-SE ! – e dito isto arrancou, deixando para trás a própria sombra.

 

 

Monday, July 26, 2004

A Ilustre Casa dos Ramires

                                                    Camarada Choco


                                                                       

- Piolhos tem você na pintelheira – respondeu, educadamente, a avó da Narcisa Ramires à funcionária responsável pela carrinha, depois desta a ter informado de que a menina estava acompanhada de muitos Pediculus Humanus Capitis.
Aliás, como pôde constatar in loco, aqueles bichinhos amorosos e traquinas tinham uma grande afinidade por aquela ilustre família. A mãe da Narcisa, que se encontrava junto da velha senhora, também deixou escapar um Pediculus Humanus Capitis para a cabeça de pêlo raso do seu último rebento, que resolvera vir ao mundo, imaginem só, sem a avisar! E ainda ficavam indignados quando lhes chamavam “geração rasca” !?
- Mamã, o período apareceu ! - dissera a progenitora da Narcisa, via telefone, muitas semanas antes, no intervalo da telenovela.
Infelizmente, muitas vezes São Monga prega-lhes partidas, principalmente aqueles cujo conteúdo craniano é maioritariamente forrado por areia. E a mãe tinha-a avisado uns meses antes durante uma reunião com o professor e as educadoras.
- Espero que aquele malandro do teu primo não te emprenhe outra vez. É sempre a mesma coisa cada vez que vem cá abaixo para uma obra - avisava-a a única meia cabeça pensante, balançando uma outra neta, também nossa colega.
Mas como há males que vêm por bem, ou o que é mau para uns é bom para outros, ou o que é bom para uns é mau para outros...bem, deixemo-nos de retóricas e passemos à frente, porque senão ainda aparece por aí o primo-cobridor e eu ainda não falei do novo rebento e já ele presenteou a Narcisa com um par de gémeos e assim nunca mais acabo a história...Como ia dizendo, a vinda ao mundo deste novo ser humano até trouxe certas vantagens à família Ramires, principalmente no que diz respeito à alimentação. A mãe conseguia matar “dois coelhos de uma só cajadada”, neste caso fazia assim uma pequena alteração, ou seja, amamentava dois filhos de uma só vez: o rebento e a Narcisa, que andava sempre esfomeada. A teoria da educadora para esta fome crónica era de que a sua aluna estava no fim da escala alimentar da família, por outras palavras, ficava com os restos, quando os havia! E foi devido a estes zelosos cuidados, que demonstraram ser esta mãe uma fanática leitora do doutor Spock, mesmo sendo uma analfabeta existencial, que o peso da Narcisa Ramires ficou no escalão pluma, ou seja, perto da subnutrição, com uma única risca no pijama, que é mudado quando se desfaz com o passar do tempo. Estes momentos pós-parto-na-sala-em-vez-de-menstruação-em-atraso foram de fartura, pois a senhora encontrava-se em estado Mimosa, apta a fornecer leite de borla a toda a família. O único perigo era o rico primo resolver vir a Lisboa para uma obra, pois seria trigo limpo que ele começaria com calores fisiológicos no final da segunda circular, sendo voluntariamente obrigado a inflectir para a Brandoa, não conseguindo resistir a estes instintos carnais, acabando por mudar o óleo aos pés da sua tágide amongoada, ao mesmo tempo que lhe dava a surra do costume, e neste caso devido ao facto dos seus seios jorrarem leite, em vez de bagaço. Não saberia ela que ele era alérgico, desde tenra idade, a esse asqueroso líquido branco !!? E foi num destes desentendimentos ocorridos quando a Narcisinha ainda fazia parte da mãe, que o Júlio pedreiro resolveu treinar boxe na barriga da sua prima, decidindo definitivamente a identidade científica da sua futura filha: Sindrome de Dandy-Walker.
Na festa de Natal organizada pela escola oferece-se sempre um grandioso banquete a todos os presentes e ausentes ( a comida também lhes chega à boca, pois há sempre convidados que vão para a mesa munidos de sacos de plástico - gente fina é outra coisa ! ). Este é o dia tão esperado da família Ramires, as suas barrigas são tiradas da miséria do ano civil que está prestes a terminar. Ainda a mesa está a ser apetrechada e já a tribo a cerca, debicando aqui e acolá nos queques e croquetes mais distraídos. E a linguagem?? Um mimo, um autêntico vocabulário vicentino, e do puro, sinal de uma educação esmerada, baseada na mais fina linhagem da Brandoa. É nestes momentos mais socialmente íntimos que se fazem excelentes observações da maioria das famílias. Estava a banda da Dona Ermelinda a tocar freneticamente, pondo até em ritmo acelerado o mais profundo dos colegas, quando reparei na mãe da Narcisa, imóvel, insensível àquele terramoto musical. Seria possível que nem com um pé tentasse acompanhar o roque da pesada que fazia abanar o auditório da câmara !?  Estaria morta ? Aproximei-me cautelosamente e qual não foi o meu espanto ao deparar com a senhora a respirar. Aquele era o seu estado normal, agora compreendia porque é que a Segurança Social lhe dava uma pensão e as refeições diárias à família. Um dia alguém a abordou e lhe sugeriu  que fizesse uma operação para não ter mais filhos.
- Ainda sou muito nova ! - foi a resposta.
E como a tradição é um princípio irrevogável nesta ilustre casa dos Ramires, a filha mais velha, com 15 anos, não quis ficar atrás e acabou por presentear a mãe letárgica com um belo neto, portador dos mais finos genes da Brandoa. Ainda não tinha feito 20 e já era mãe de três!