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315 estórias

Friday, March 25, 2016

A derradeira festa do Cavaleiro

Comandante Guélas

Série Paço de Arcos


O Cavaleiro preparava-se para dar mais uma festa grandiosa e insistia em não convidar os adeptos do Comandante Guélas. Mas como era tradição, o Gang já sabia e aprontava-se para mais uma noite bem passada. A casa estava dentro de uma quinta, situava-se no topo e pelo meio morava o Zé Preto. E nessa noite o Botelho iria levar o primo, tendo como obrigação protegê-lo de todos os perigos. Foi por isso que o Mac Macléu quando lhe deu boleia, na sua Zundapp, pôs o petiz no meio, para não cair. Eram nove e meia da noite quando o G.M.R.C.P.A. se apresentou à porta da casa onde se ia desenrolar o evento. Desta vez foram recebidos por cinco seguranças adolescentes, todos vestidos de preto, incluindo luvas, e com um ar muito mau.
- Só entra quem foi convidado, – informaram, com vozes de trovãozinhos, os terríveis seguranças imberbes.
O Charlot rosnou, mas não o deixaram avançar. Foi o Pilas. Mas depressa o convenceram de que esses não eram os métodos adequados à situação. De todas as outras vezes tinham conseguido entrar, sem usarem a violência, que fazia parte do espírito do “Guélanismo”. Pediram para falar com a mãe do Cavaleiro. Tinham de esperar! Lembraram-se da primeira festa das suas vidas, no Alto de Paço de Arcos, e de terem dado de caras com o Graise à porta, agarrado à sua primeira namorada, a miúda mais feia da Costa do Estoril, um cágado com bigode:
- Esta festa é só para orientados, – disse apertando a anã.
A frase ficou para sempre na memória de todos os paço-arcoenses pertencentes ao Gang dos Meninos Ricos e Caucasianos de Paço de Arcos.
A um dado momento passou um adulto pela parte de dentro da casa, que foi detectado pelos penetras:
- Tia, tia, – chamaram com uma voz doce os seguidores do Comandante Guélas.
Todos sabiam que a senhora já estava mais para lá do que para cá, devido aos efeitos do sumo de cevada, e ao tamanho do decote, impróprio para rapazinhos na puberdade.
- Olá, olá, – respondeu a proprietária do imóvel, tentando recordar-se do nome daquelas caras desconhecidas.
Mas a técnica era essa. Ela nunca iria dar parte fraca.
- O Zé convidou-nos, mas ele está lá em cima e os seguranças não nos querem deixar entrar, – queixou-se o Velhinho, dando um beijo à tia.
- Mas que disparate, eles podem entrar, são amigos do Zé.
Os imberbes de preto abriram alas e os membros do G.M.R.C.P.A. treparam até ao sótão. Quando passou pelo tenebroso homem de preto que chefiava a equipa, o Pilas deitou-lhe a língua de fora e o Charlot rosnou-lhe aos ouvidos. Lá em cima a festa estava animada e bem organizada. Dançava-se num lado e compravam-se bebidas no outro. Compravam-se?!! Sim “compravam-se”, passado! O proprietário ausentara-se devido a uma necessidade fisiológica e, entre amigos, não havia necessidade de fechar o estabelecimento comercial. Mas por alguma razão o G.M.R.C.P.A. não tinha sido, mais uma vez, convidado e, mais uma vez, entrara. E o João Sá, mais uma vez, prontificou-se a tomar conta da ocorrência. Declarou “Bar Aberto”, e começou abastecer de “bejecas” o grupo de meninos ricos de Paço de Arcos. Quando o Cavaleiro chegou o Bar era do povo, a população abastecia-se de borla, amigos e inimigos. Um acontecimento destes não sucedia em todas as festas. A única solução era encerrar temporariamente para balanço, apesar de toda a gente saber que era negativo, negativíssimo! O João Sá ainda não tinha acendido o cigarro e já estava no olho da rua, encostado à porta do bar, que se fechara. Mas como era de madeira não resistiu aos dois biqueiros que levou. Abriu-se então um grande buraco na parte de baixo, que foi por onde passou a cabeça, para pedir lume ao patrão.
- Mãe, maeeeeeeeee, -gritou o Zé, descendo apressadamente as escadas, ao mesmo tempo que a turba, de amigos e inimigos, lhe invadia o Bar pela segunda, e definitiva, vez.
A mamã veio a correr, com o chefe da segurança atrás, e entrou no Salão de Dança para botar discurso. A música parou e a tia deu a entender aos sobrinhos que estava muito magoada com eles. Tinham-lhe partido a bilha toda…perdão…a porta do Bar e isso era muito feio. Como se esperava, todos negaram o acto! Mas eis que a porta se fechou, deixando-os todos trancados no Sótão.
- Abram, é uma ordem, – gritou a dona da casa.
Ninguém respondeu!
- Eu sei que está aí alguém do lado de fora. Se não abrir a porta expulso-o de minha casa.
Só se ouviram palavras obscenas que foram dirigidas à tia. Quanto à porta, continuou fechada até ser arrombada. Do outro lado não estava viva alma. Teria sido um fantasma? A festa continuou porque todos os que estavam ali eram filhos de “boas famílias” e juraram, por escrito, que não tinham feito nada. Aliás, como ficara provado, o responsável por tudo aquilo tinha sido aquele que momentos antes havia vilipendiado a tia escondendo-se, talvez por vergonha, atrás da porta. Para garantir que o que tinham prometido era cumprido, a proprietária do imóvel ordenou ao único segurança que tinha tido a coragem de a acompanhar ao reduto, porque sabia que junto a ela estava seguro, para ficar a tomar conta dos primos. Foi uma má decisão. O Pilas aproximou-se do garanhão e rosnou-lhe. Não houve qualquer tipo de reacção. Entrou então em cena, contra todas as expectativas, o irmão do Zé Pincel que queria já ali ajustar contas com aquele que horas antes lhe tinha barrado a entrada e que agora ele sabia estar em minoria. Foi barrado pelo “paçoarquiano” Peidão, o único com algum juízo, que o virou ao contrário e o deixou cair, deixando-o abananado e a cuspir fininho junto a uma janela, não fosse faltar-lhe o ar. E nesse momento os fusíveis foram, pela décima vez, propositadamente abaixo, o que levou à precipitação dos acontecimentos. O homem de negro foi selvaticamente atacado e quando a luz voltou estava prostrado no chão, a queixar-se de falta de ar e das duas dentadas que tinha recebido no peito, apesar de não haver nenhum cão por perto. Não era preciso um animal desses para haver dentadas, o Charlot estava lá, e tinha andado em roda-viva durante as trevas. A festa continuou no andar de baixo com o ferido à espera da ambulância. Após a remoção do corpo a tia deu por encerrada esta noite louca, que iria ser a última. Todos se despediram da dona da casa e o Gang de Paço de Arcos montou nos seus “peidociclos” e foram colina abaixo. Mais uma vez o priminho do Botelho foi arrumado na Zundapp do Mac-Cléu , a meio. Mas faltava cumprir a tradição! A tia tinha a decorar o jardim uma monstruosa roda de carroça que ia sempre montanha abaixo no final das festas, para que no dia seguinte o primo Cavaleiro, com a ajuda das irmãs, fosse visto a empurrar o mastodonte para o local que lhe competia, tal como o seu antepassado Sísifo. Ainda os motoqueiros não tinham atingido o meio do caminho e já a roda se cruzava com eles, tendo o Botelho apanhado o maior cagaço do mundo, por ter imaginado que ela poderia ter colidido a meio da mota. Mas o destino foi outro. Nunca mais trouxe o priminho para Paço de Arcos! A roda só parou no quarto dos caseiros, junto à cama deles, e vinda do tecto. Como as relações entre a patroa e os empregados não eram das melhores, isto deu origem a um processo em tribunal, segundo reza a lenda.

Wednesday, March 23, 2016

Pó para Todos

Comandante Guélas

Série Paço de Arcos

Quando os cafés encerravam a actividade tornava-se febril. O Gang dos Meninos Ricos e Caucasianos de Paço de Arcos funcionava por sazonalidades e uma delas consistia em valorizar a região e colocar a Costa do Estoril na rota dos grandes destinos de férias de qualidade. Entretenimento também era cultura e neste aspecto o grupo era muito criativo. A operação “Pó para todos” teve início no pólo cultural da moda, a Estalagem do Farol, e mais uma vez graças ao Max (o porteiro), que barrou a entrada ao Gang, junto a um extintor. Enquanto se esgrimiam as vantagens e desvantagens de permitir a entrada de 25 gandulos, de boas famílias, na discoteca, parte deles desmontou o garrafão de “Pó ABC” e todos juntos saíram do espaço de diversão com o extintor ao colo e a cantar os “parabéns a você”. O aplauso foi geral, do Max que conseguiu ver-se livre daquelas melgas que lhe infernizavam a vida e do Rodrigues (o dono) que estava na fase sentimental da bebedeira:
- Vê-se mesmo que são filhos de boas famílias, tão ordeiros, - disse, limpando uma lágrima ao canto do olho. – Levam o aniversariante ao colo.
Mal ele sabia que o amigo era um extintor de 10Kg, e não tinha por nome Peidão, porque o agente propulsor da botija era o nitrogénio, enquanto que este andava a metano. O Pacheco levou seis no carro e do lugar do morto era quem levava o brinquedo. O primeiro aviso foi dado logo ao sair do parque:

BROOM

E ficou uma nuvem branca na noite escura. Estava operacional, mesmo caducado. Contra todas as probabilidades, visto ser uma raridade na Costa do Estoril, habitat de queques, o carro parou junto a um par de pretos, que se aproximaram todos solícitos quando o Pilas os chamou delicadamente, tratando-os por “patrão”:
- Ó preto, queres ficar branco?

BROOOOOOOOOOOOOOOOOOM

A nuvem que se formou parecia um cogumelo, mas por estranho que pareça os clientes não saíram de dentro dela, tendo-se limitado a sacudir o pó, à procura de ar. Enfim, maneiras diferentes de reagir perante imprevistos. A próxima paragem foi em Oeiras, junto à taberna que era paredes-meias com a esquadra da polícia. Mais tarde este local de venda de meio-gordo branco modernizou-se e tornou-se numa agência bancária, cujos funcionários trocaram os aventais com desenhos de pipas por fatos com gravata, mas a qualidade de atendimento diminuiu grandemente, assim como o número de clientes. O Pilas carregou no gatilho e só o largou muitos minutos depois, quando o pó acabou. Ninguém reagiu. Uma nuvem branca saia em fúria do estabelecimento, mas da Associação dos Amigos do Tintól não havia viva alma. Só dez minutos depois é que saiu um cliente a cambalear. Mas foi só 1! O que é que terá acontecido aos restantes sócios? Ficou tudo no segredo dos deuses porque o “Correio da Manhã” ainda não passava de uma intenção.



Tuesday, March 22, 2016

As Latinhas do Peditório


Comandante Guélas

Série Paço de Arcos


O tempo era de solidariedade, mas para o Pierre Pomme-de-Terre e o Bajoulo não passava tudo de uma questão de oportunidade para o negócio e não havia tempo a perder, pois as latinhas do peditório já andavam a circular nas ruas. A responsável pela área de Paço de Arcos tinha sido, desta vez, a mãe do Peidão, que andava toda atarefada a controlar a saída das caixas que lhe tinham calhado na rifa. Todas as forças vivas da zona estavam empenhadas na colecta, desde as tias, passando pelos escuteiros e acabando nos alcoólicos …perdão…acólitos acima referidos. Quando a mamã do Peidão deu a novidade em casa e pediu a ajuda solidária da família., o “paçoarquiano” ia tendo um “treco”, e veio-lhe logo à memória as caritas catitas do Bajoulo e do Pierre Pomme-de-Terre. Entrou de imediato em prevenção, tentando evitar que os artistas tivessem acesso às latinhas. Já sabia dos esquemas dos anos anteriores, mas agora o duo tocava-lhe à porta e teria de proteger a progenitora. Mas como já andavam nesta escola da vida há muito tempo, anteciparam-se à jogada e aproveitaram a boleia de um inocente.
- Vou à casa do Peidão buscar uma latinha. Vocês também deviam participar nesta causa que é nobre, – disse o inocente Bigornas, trepando para cima do “peidociclo” do irmão, um ex-militar das forças especiais tal como o Conan, mas do ramo dos Comandos, e também com a especialidade de ajudante de cozinha de campo, pois tinha a sua “Sumbeam”, um motão do tempo dos Descobrimentos, toda desmontada à entrada da “Jomarte”, a loja de fotografias mais famosa da Costa do Estoril, que oferecia, de borla, a qualquer cliente que entrasse, uma espera no mínimo de uma hora, até que o proprietário acabasse de ler o livro de quadradinhos do dia.
- Tiraste-me as palavras da boca, – interrompeu o raposão de nome Pierre Pomme-de-Terre, dando um toque matreiro ao acompanhante. – Eu estava agora mesmo a desafiar o Bajoulo para o gamanço…para uma boa acção, e não há nada melhor para a nossa imagem do que participarmos no peditório. Mas como é que temos acesso ao material?
- Este ano a mãe do Peidão é a responsável pela zona e vou neste momento a casa dele buscar a latinha.
- Então podias fazer-nos um favor, e trazer uma caixinha para cada um de nós. Eu tenho um pouco receio de lá ir, pois da última vez que o fiz o avô estava solto e apareceu-me por detrás de uma árvore com um pistolão do Farwest, julgando que eu era um comunista a querer ocupar a casa. E ainda por cima hoje estou vestido com uma t-shirt vermelha.
- Não se preocupem, eu vou buscar várias latinhas para distribuir pela gente caridosa.
Quando se apanharam com as “redondinhas” ao pescoço, o duo nunca mais parou, percorreu a Costa do Estoril duma ponta a outra, chegando a encontrar mais dois colegas de curso em Cascais. Mas o que é bom tem sempre um fim, e o peditório tinha hora marcada para acabar e um prazo para a recolha do material. O Peidão estava agora escalado para o efeito e resolveu começar pelas tias da Figueirinha.
- Estas latas estão vazias porque pus o dinheiro todo nesta, – explicou a velha a cheirar a perfume até às unhas dos pés, e com um penteado que parecia o Moisés dos “Dez Mandamentos” após ter descido da montanha. – Os selos que tapavam as latas caíram, – e fechou a porta.
Seguiram-se os “meninos vestidos de parvos, comandados por um parvo vestido de menino”. Das trintas latas, nenhum selo! E assim continuou a viagem, muito poucas latinhas com selo, a maioria estranhamente sem ele. Uns dias depois a mamã do Peidão teve um ataque de caspa monumental, pois faltavam duas “redodondinhas” do senhor Bigornas. Contactado de imediato, explicou que estavam na posse do Bajoulo e do Pierre Pomme-de-Terre, que se tinham comprometido a entregá-las no prazo. Estariam estas duas alminhas caridosas a fazer horas extraordinárias? O primeiro foi apanhado desprevenido, pediu para esperar um pouco, deslocou-se à garagem, ouviu-se um som dum martelo a malhar num torno, e eis que o anjinho do Barroco regressou com a caixinha amarela do peditório. Mal ela trocou de mãos o selo, que parecia mais de carta do que o original de chumbo, caiu aos pés do Peidão, ficando os dois a olhar para ele. A latinha do Pierre Pomme-de-Terre estava em casa a dormir e foi entregue intacta. Intacta?! O selo só caiu redondo no chão quando chegou à casa do Peidão, ou melhor, na sala dos pais, em frente da mãe que já estava em pleno ataque de caspa, incrédula com a atitude daqueles meninos de coro. Foi aberto um inquérito de averiguações, os dois paço-arcoenses confessaram os desvios, devolveram algumas notinhas de vinte escudos e os factos foram comunicados por escrito e assinados por todos os intervenientes, sendo os relatórios enviados à instituição que prometeu mão de ferro para os prevaricadores. Mas não nos podemos esquecer que estávamos num país de brandos costumes que, com ou sem revolução, deixou ficar tudo na mesma. No ano seguinte o Bajoulo e o Pierre Pomme-de-Terre lá foram vistos outra vez na fila da frente da solidariedade, com umas latinhas amarelas ao pescoço a recolherem donativos para uma causa que era muito nobre.

Sunday, March 20, 2016

Férias de Verão na Casa do General

Comandante Guélas
Série Paço de Arcos


Férias a sério, só no Algarve. E ainda por cima os manos Abrantes tinham trazido da Bélgica o amigo Fánoir, uma espécie de leitão com olhos azuis. Segundo o Marreco, este Bajoulo de Bruxelas trazia conhecimentos aprofundados de artes marciais, mas o que primeiro deu nas vistas, neste caso nos olfactos, foi o seu cheiro dos pés, que deixava a léguas o cholé do nosso Conan Vargas, em cuja biografia já constava a evacuação da rua da sua casa de férias de Monte Gordo. Mas deixemos estes pormenores para mais tarde, porque primeiro tinha de se escolher o local do acampamento. A autorização para assentar arraiais foi dada pelo General, o papá do querido e muito estimado Bajoulo e do mano, que dizia ser o maior cobridor de Portugal e dos Algarves, principalmente no Verão, quando rumava a Sul na sua potente e invejada Honda-50. As turistas faziam fila para sentir o bafo deste garanhão com cara de papagaio. A guia de marcha mencionava que o terreno em redor da habitação da casa de praia dos pais do Bajoulo estava à disposição destes “meninos de boas famílias”. A CP foi o meio de transporte para estes turistas do Gang de Meninos Ricos e Caucasianos de Paço de Arcos (G.M.R.C.P.A), assim como as suas tralhas, incluindo as motas, indispensáveis para todas as visitas de cortesia, essenciais para a sobrevivência desta rapaziada amiga do ambiente. A chegada ao local do acampamento despertou a aldeia do seu torpor habitual. Aliás o Graise, também conhecido por Sousa, deu nas vistas com um fabuloso flato, que parecia mais um foguete a anunciar a procissão da Senhora lá do sítio . A primeira noite foi passada em cima de um chão duro e pedregoso, seguido de um incêndio às 4 da manhã, que obrigou a aldeia a trabalhar, para não serem incomodados e calcinados os amigos dos filhos do senhor General. O despertar foi dado por um galo que estava em cima do Cocciolo, que resolvera dormir ao relento em cima de uma cama estilo “burro”. A senhora Maria, vizinha já de uma certa idade, teve pena das condições miseráveis em que tinham passado a noite estes “meninos de boas famílias”, e resolveu abrir uma excepção, à revelia dos patrões e emprestar a chave de acesso ao alpendre fechado. Assim, estes anjinhos ficariam um pouco melhor, protegidos das agruras do tempo. Mas no alpendre havia outra porta, a de acesso ao interior, e era fraquinha. Bastou um chuto do João Sá e a fechadura cedeu. Estavam agora na sala a arrumar as tralhas, incluindo as motas, que também não se podiam constipar. Os primeiros tomaram de assalto os três quartos e os restantes distribuíram-se pelos vários cantos da casa de férias do General. Quando saíram para a praia a fechadura já estava no local de origem e a porta novamente operacional, mas desta vez só fechada no trinco.
Mal o grupo de amigos, oriundos das mais nobres famílias de Paço de Arcos, pôs o pé na areia, já o Pilas tinha alugado um barco a remos, com motor. Tudo foi feito dentro da Lei até dobrarem a esquina, ponto a partir do qual os remos foram substituídos pelo motor, apesar de não fazer parte do contrato. Depois de muitos “ss”, piões e outros malabarismos, a falange do G.M.R.C.P.A. regressou ao ponto de partida…novamente a remos. Mas o dono da embarcação também tinha a escola toda e era sócio do Gang dos Pescadores da Praia da Luz (G.P.P.L.), e como tal tinha acompanhado o movimento da sua embarcação, pela falésia. Após o desembarque dos soldados do Comandante Guélas apresentou a conta da “viagem a motor com remos”. Já tinha ganho o dia à pala daqueles rapazinhos imberbes, pensou. Mas pensou mal! Do alto da falésia vira o rasto de espuma, que o uso de remos nunca conseguiria fazer (excepto se fosse o Conan Vargas ao comando do paquete), mas não as várias mijas que tinham sido feitas directamente para o depósito, tendo em vista compensar o consumo clandestino de combustível. E não constava que o suminho de cevada emborcado na noite anterior explodisse na presença de uma faísca, porque senão o Velhinho há muito que tinha rebentado. Continuava são que nem uma pêra, porque tinha sido visto há uma semana atrás a arrastar uma porta, pela praceta, com o Pilas a dormir em cima, para lhe ir dar o cházinho retemperador do costume. Queria isto então dizer que o pescador iria ficar apeado quando regressasse da próxima pescaria, indo engrossar a lista dos “desaparecidos com bom-tempo”.
O dia chegou ao fim, significando que se aproximava a hora crítica, a noite, onde todos se transformariam em demónios, mas de “boas famílias”. O retorno à casa do General foi feito no meio de transporte do costume, “peidociclos”, indo o Karateca  Fánoir à pendura do adolescente Peidão, o mais ajuizado, numa Yamaha 50 “Mini Enduro”, tendo o mau hábito de ir sempre em pé aos gritos. As péseiras acabaram a época balnear a apontar para o chão e as suspensões traseiras a queixarem-se de escoliose grave. Na casa de banho havia fila para o banho, e o cartaz na porta, escrito pela esposa alemã do militar, pedia para deixarem as instalações tal como as tinham encontrado. Quinze dias depois parecia que o areal da Praia da Luz se tinha mudado para o sanitário do General.
Banho tomado, umas quantas latas de atum e sardinhas com tomate abatidas, e o G.M.R.C.P.A. rumou todo aperaltado para o “Luz Bay Club”, agora ocupado pelos pescadores, depois de terem corrido, e muito bem, com os arrogantes “bifes”. E tudo isto graças ao “Espírito do 25 de Abril”, que foram os melhores anos para se ser adolescente, porque a Lei tinha morrido!
O irmão do Marreco estava de amores por uma “franciu”, com cara de suíno e exclusividade na língua francesa. Assim, os amigos falavam à vontade junto a ela, questionando-o porque é que andava com a “Porky”. Seria que depois da meia-noite se transformaria em princesa? Só quando o fabuloso Carateka Fánoir confessou que tinha medo de ir para casa sozinho, impossibilitando assim o Marreco mais velho de ficar a apanhar gambuzinos na praia com a oxigenada, é que a “vampe” teve um ataque de caspa, descontrolou-se, e desbobinou o que lhe ia na alma mas … em português. O resto do que faltava da noite foi passado na casa do General, com o Tonico já mais para lá do que para cá, com a cabeça encostadinha aos pés nauseabundos do belga, que obrigavam o resto do pessoal a conservar um perímetro alargado de segurança, visto ser impossível descobrir oxigénio naquele ambiente pestilento. Enquanto todos tentavam descobrir um espaço para dormir, eis que chega o Graise envergando um bonito vestido de cor verde alface propriedade da mulher do General, que tinha descoberto no armário do quarto onde ia pernoitar. Atrás dele seguia-o outro, e outro, e outro, parecia uma passagem de modelos da Fátima Lopes. Foi uma noite longa, muito longa!