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304 estórias

Friday, November 23, 2018

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 86 - Caralhometro




O Comandante Guélas

Série Colégio Militar



A essência do CM é possível captar através de fragmentos de dias vividos ao ritmo de quem tinha pressa, atalhos há muito acondicionados no espaço do tempo passado, transformados agora em estórias que têm como vocação tornar-nos imortais. O orgulho não advém da consumação do erro, mas da coragem que é necessária para admitir esse erro. O tempo era para “Estudos”, mas o final do dia de um inverno rigoroso estava a tornar-se penoso para o 5º C, uma turma especial, por isso tinha direito a uma alcunha, “O Bronx”. E para tudo havia sempre opções no Colégio Militar, que neste caso dava pelo nome de “Caralhometro”! Por isso o Beto, o Cão e o Bagulho tinham acabado de construir um desses tradicionais objectos, não das Caldas, mas da Luz, com uma borracha, uma régua e um clips, e preparavam-se para o utilizar. Entrou pela ficha dentro sem preliminares, e o quadro eléctrico não aguentou a emoção e estoirou no átrio com barulho. O Zimbório era agora uma sombra escura neste final de dia dos anos oitenta do século passado.
- Acabou, não existem condições para continuarmos o “ Estudo” - declarava uns minutos depois o professor.
- Óoooooooo, - respondiam os alunos em debandada.
No dia seguinte novo “Caralhometro”, nova corrida, mas desta vez não aconteceu nada, nem um simples arfar saiu do quadro eléctrico, o Zimbório parecia uma árvore de Natal no mês de Dezembro. O Beto insistiu, tirou o instrumento e enterrou-o à bruta. Nada, nem um grito. Passou-se do TPC para o TPE (Trabalho para o Estudo), tentar descobrir as causas que tinham levado ao insucesso da operação.
- Se calhar só puseste a cabeça e deixaste o pescoço de fora, - exclamou o Cão, mexendo no “Caralhometro” do Beto.
- Não, enterrei-o todo!
- Entrou dobrado, não o tinhas bem esticado, - retorquiu o Bagulho.
- Temos de tentar de novo, - insistiu o Cão, agarrando com violência no instrumento do camarada.
O “Caralhometro” do Beto entrou como ditavam as regras, rijo, à Colégio Militar e sem preliminares, levado pela mão impetuosa do 37, e foi até ao fim. Nada, absolutamente nem um gemido, as luzes continuavam orgulhosamente acesas, e o frio apertava cada vez mais, naquele último tempo lectivo do dia, teoricamente destinado ao estudo, mas com uma percentagem de aderentes muito baixa, como era característica do local.
- Porra, eu não vim para aqui para estudar, - protestou o 25.
- Vou mijar, e pensar no caso, - exclamou o Cão.
As idas à casa de banho eram uma constante, parecia que havia uma epidemia de incontinência, talvez um ovo marado de uma das galinhas do Nunes, o pai da mítica Rosa dos anos setenta, onde os “caralhoometros” dos petizes entravam diariamente pelas almofadas, as vítimas silenciosas, em homenagem à sua musa, tivesse contaminado o amarelo feito com os restos dos bifes da testa da semana anterior. Por isso o vigilante também tinha como obrigação fazer uma rusga aos cagatórios, não vá algum menino ter-se extraviado à volta de um cagalhão. E foi aí que o 37 deu de caras com ele, e ficou a saber, através de uma discreta conversa que envolvia o Glorioso, que um tal Carlos Mitra e um funcionário da EDP tinham reforçado os quadros de electricidade. A resposta a esta provocação veio através de um “Caralhometro” de nova geração, os violadores de fichas do Zimbório tinham agora na mão um compasso, que penetrou ainda com mais violência, à traição e ….. nada, absolutamente nada, nem um tímido gemido. Mas houve uma reacção inesperada, o instrumento ficou ao rubro e partiu-se, e os Meninos da Luz do 5º C, a única turma com alcunha, o Bronx, não tiveram outro remédio do que irem fingir que estavam a estudar para o teste de Português do Tic Tac, que já tinham gamado na noite anterior, uma operação destemida que incluíra uma corda para descer até ao gabinete do docente.    





Wednesday, October 24, 2018

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 111 - O Pantera Branca







O Comandante Guélas

Série Paço de Arcos

Futebol P. A. 42

Éi, O Futebol PA é como o Vinho do Porto, Éi, quanto mais velhos ficam os atletas, melhor jogam. Éi, execeção para o Chico Boatos e o atleta da panificação. Este domingo o Chico Sá deu um show de bolas, Éi, mostrou a todos como elas se dominam, marcou 5 golos, dois deles solidários, Éi, porque optou por obrigar o esférico a fazer ricochete no atleta da panificação antes de entrar na baliza adversária, depois de se aperceber que este já estava a ficar em formato Chico Marinheiro perante a insistência do Peidão para que ele jogasse à bola. Éi, a explicação para a súbita performance do Chico Sá explica-se cientificamente: a lesão que contraiu, Éi,  na obra melhorou-o biomecanicamente, e tudo graças a um tijolo burro, Éi, em que ele tropeçou, e nos ténis da padeleirice que teima em usar! Éi, o Godofredo passou grande parte do jogo no ar, o que atemorizou os adversários perante as probabilidades de apanharem com um pombinho daqueles no lombo. Éi, o Fininho, como já é tradição, ganhou o jogo porque, mesmo não estando, foi escolhido pela equipa vencedora no final do encontro. Mas a vitória da equipa do Cinzento (ex-Preto, cujo nome não pode ser mencionado pela Lei dos Cabritos) é posta em causa por, Éi, motivos de “exclusão desportiva” (aproveitamento de desvantagem física). O Espalha só via metade do campo devido a uma catarata traiçoeira, e por isso a metade da baliza por onde entraram a maior parte dos golos foi o seu ângulo cego, sendo, Éi, neste momento, Éi, anulados os golos. Mesmo assim ainda conseguiu, Éi,  defender por instinto muitos remates traiçoeiros. Éi,  por isso a vitória justa será da equipa dos manos, Éi, um ao ataque e o outro à defesa, e assim a inscrição do Fininho deverá ser corrigida para que ele mantenha a vitória. É justo, Éi, um jogador que já deu tanto à casa merece estes miminhos, mais o clássico apertar das suas chuteiras pelo gestor da fortuna Futebol PA de nome ecologicamente inconveniente, Éi, Peidão. Mas o maior milagre aconteceu, o Tarolinho saiu da casca e teve grande parte do jogo a enviar bocas ao mano Maninho Ensina. Há quem diga que vê nele um futuro Choné. Éi !

Friday, October 19, 2018

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 110 - Supertaça "O Isaltino também joga bem com as bolas"

O Comandante Guélas

Série Paço de Arcos

Futebol P.A. 41


Quando se fala de Futebol PA, “Éi”, tem-se logo, “Éi”,não um gostinho como o Capitão, “Éi” mas uma visão poética de Paço de Arcos, “Éi” uma visão integradora em que se misturam poemas, flatos e discussões. Por isso, “Éi”, o Milhas já merece uma condecoração desportiva, “Éi”, em valor absoluto e em valor relativo. Mas este domingo, “Éi”, a estória foi outra, houve uma confusão das antigas, que trouxe à memória o saudoso Chico, “Éi”, e os boxistas Estalinho e Zé da Tapada! E tudo porque o Ulki resolveu deixar de jogar à bola, mas continuou a enviar as três crias, uma delas com caibras nas cordas vocais: “Éi”! E porque é o mais velho, “Éi”, tem a mania que é Brinca na Areia, “Éi”,e tal como o Chico adolescente, “Éi”, é muito sensível ao jogo psicológico paralelo ao jogo técnico. E ainda por cima, “Éi”, o irmão mais novo, “Éi”, o Cabeça de Giz, “Éi”,dá-lhe um baile de bola, “Éi”, e não tem ataques! Mas desta vez foi o do meio, “Éi”, que se armou em Estalinho, “Éi”, e quis arrear no Caramelo que se limitou a classificar o jogo do mano na categoria de “anormal”, “Éi”, e ele não gostou. Mas como é que se classifica um jogador que passa todo o jogo a gritar “Éi”? A bola chega aos pés de um colega da equipa que está no outro extremo e ele grita “Éi”, o guarda redes prepara-se para atirar a bola, e lá está ele “Éi”, o Chico Sá prepara-se para dar o clássico biqueiro na bola e,“Éi”. Todo o jogo um constante “Éi”, coisa nunca vista  no Futebol PA, um atleta com a língua enrolada nas cordas vocais. Uma espécie de Estalinho dos tempos modernos. E legalmente está a infringir a “Lei do Ruído”! Se continuar a frequentar este espaço desportivo-cultural terá de o fazer amordaçado. Mas falemos do jogo deste domingo, onde pela primeira vez se levantou a questão do racismo, precisamente quando os dois manos, o “Éi” e “Estalinho”, foram mandados “jogar para a sua terra”. Então, chamar Branco ao Preto também será racismo? E “Anormal” ao Cuzinho? Para que questões atuais como esta não sejam de novo trazidas ao recinto desportivo, quem quiser chamar pelo Preto, terá de gritar:
- Ó Pardo!
Em termos técnicos o Chico Boatos, depois de expulso para meio campo, para assim a sua equipa poder compensar os seus constantes deslizes futebolísticos, revelou-se um distribuidor  eficaz e contundente, mesmo continuando a ser responsável por muitos dos golos sofridos pelos esforçados companheiros. Muitas das vezes que tentava fintar alguém, mesmo ele próprio, lembrava-se da mula velha da casa da avó, na aldeia onde costumava passar as férias, que também tinha cabras, ficando afetado pela nostalgia, que lhe trazia à memória o farrobadó de penáltis com a criação. Corre a lenda que os descendentes da Tita, a cabra mais atrevida, têm muitos traços do Chico Boatos, os dribles sem nexo!

Saturday, September 29, 2018

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 109 - Supertaça “Tarzan vai à cidade de Uber à procura do Preto”




O Comandante Guélas
 
Série Paço de Arcos
 
Futebol P.A. 40


Neste domingo a Supertaça tinha o nome “Tarzan vai à cidade de Uber à procura do Preto”.   Sempre que o Chico Boato entrava em campo havia magia no ar, e desde que reapareceu no Lagoas Parque, numa manha de nevoeiro, iniciou um processo de transformação que culminou num soberbo golo neste domingo, após ter tropeçado nos pés, num momento em que a pressão era enorme, e o território diminuto,
- Fininho, este é para ti, - gritou, apontando para o ar!
No resto do jogo limitou-se a passear na sua cabeça, como é costume!
Mas a ausência mais notada foi a do Preto, que mais uma vez disse que jogava e não compareceu e foi visto no aeroporto de Lisboa, com o mano Chico Sá, aquele que joga futebol com sapatos de Padel, ambos a lançarem um drone em direcção ao avião que trazia o Milhas da Finlândia, tendo-o desviado para Malta. O Futebol PA conseguiria assim mais uns domingos de descanso. Descanso foi o que não teve o Clark Kent, que teve de ir ao hospital mostrar as bolas da garganta, que tinham inchado após uma noitada com a Judite a alinhavar o telejornal. Mandou o mano Chico Marinheiro na sua vez que, vindo directamente da Escócia, prometeu jogar à inglesa, tornando a perder. O herói do jogo foi o Cabeça de Giz, que mostrou porque é que destronara o Brinca na Areia para a categoria de Zé das Cápsulas. Fica registado o susto que a geração de sessenta apanhou no momento em que uma bola louca, que acabara de ser manipulada pelo Chico Boato, lhe acertou com violência no coco, misturando-lhe momentaneamente os neurónios com a cevada armazenada. Todos se lembraram do dia em que o Choné caíra desamparado na grande área e ficara, durante alguns minutos, com B.I. desconhecido. O outro lado também tinha problemas,  o Godofredo, ou Pata Larga, parecia irmão gémeo do Chico Boato, mas com uma diferença, conseguiu sempre jogar ao sol.

Friday, September 21, 2018

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 108 -Supertaça "Por Mais que Batas Não Te Abro a Porta




O Comandante Guélas

Série Paço de Arcos

Futebol P.A. 39


O jogo deste domingo foi inédito porque teve, pela primeira vez, duas vitórias e uma derrota. Apesar da equipa do Peidão ter perdido 8 - 7 frente à do Preto, que não a escolheu mas tem estatuto de representante, também ganhou, porque teve na sua equipa o Carlos da Tapada um atleta com um estilo de jogo parecido com o do Bill, mas ao cubo. E houve mais, muito mais! O Brinca na Areia casou-se, e isso reflectiu-se na performance. Mudou de nome, para o Futebol PA é agora o Zé das Cápsulas, tendo o lugar sido ocupado pelo filho número três do Ulki, o Cabeça de Giz!  Dez minutos depois do início do jogo o Carlos da Tapada já estava bastante debilitado fisica e psicologicamente, só conseguindo jogar à sombra. O Fininho, capitão e mister da equipa, recambiou-o para a baliza, e foi aí que tudo aconteceu com o único jogador do Futebol PA que só lava os pés de 2 em 2 meses, e que tem uma relação sadomasoquista com o futebol.
- Fui atraiçoado por uma visão de gambuzinos que voavam todos na vertical e desapareceram, - justificou-se ao sofrer o terceiro golo de rajada, agravando o sentimento de pasmo da sua equipa.
Para este veterano do Futebol PA, que todos pensavam ter desistido do desporto rei, mas que voltou miraculosamente no ano passado, uma espécie de Choné Renascido com sinal negativo, a grande área sempre foi um local escuro pintalgado por clarões brancos, que escondem o esférico, e que lhe põem o coco tão negro, que só vê espuma. O Carlos da Tapada revelou-se neste domingo num dos mais extraordinários casos de transumância futebolística: sempre que rematavam para a direita ele defendia para a esquerda; sempre que a bola vinha alta, ele mergulhava; sempre que precisava de se antecipar, recuava, com fumo a sair das orelhas. Por isso, quem ficar com o Carlos da Tapada, cuja alcunha foi agora recuperada, Chico Boato, um atleta que joga com as tripas, porque a luz que lhe ilumina a consciência é a mínima imprescindível para respirar, terá direito a escolher toda a restante equipa, formando os restos a outra metade. E mesmo assim a vitória nunca estará garantida!

Monday, September 10, 2018

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 107 - Supertaça Bastonário








O Comandante Guélas

Série Paço de Arcos

Futebol P.A. 38


A escolha das equipas no Futebol PA é sempre metodicamente organizada, os atletas são cuidadosamente repartidos, apesar de no início do jogo haver sempre discussão:

- Peidão, foste outra vez enganado pelo Preto, a nossa equipa são só coxos, - gritou o Tio Kiki a babar-se de raiva, ou seria da velhice?

Dava-se inicio assim à época do Futebol PA, 41ª Edição, Ano Letivo 2018/2019, com muitas novidades: O Fininho apresentou-se com as chuteiras gamadas ao filho, o Peidão apertou-lhe uma vez, só uma, os atacadores, sendo depois visto a conseguir fazê-lo sozinho durante a marcação de um canto, cuja defesa do primeiro poste estava à sua responsabilidade; o Carlos da Tapada trouxe voluntariamente obrigado o rebento mais forte, que quis de imediato ficar na equipa nº 3 para poder continuar a dormir, entrando em pânico quando o informaram que naquele espaço não havia suplentes; o Brinca na Areia mudara de estado civil, e foi visto deitado numa sombra do campo a tratar dos oblíquos, coisa nunca vista na época de solteiro, quando costumava chegar atrasado e desequilibrar todo o jogo; o pai dele entrou em campo num sprint fabuloso sendo de imediato apoiado pelo Fininho:

- Com esse passo chegas no final do jogo!

O Clark Kent veio em formato Faisão, com o carrapito no cimo do coco, e fartou-se de fazer faltas, sinal de estava com problemas nos calces dos travões. O Ricardinho foi convocado por telemóvel e apresentou-se em campo dizendo que estava ferido no joelho, tendo realizado o melhor jogo da sua vida, provando que a máxima do Futebol PA se mantém actualizada: quanto mais coxo melhor! Houve lugar para jogo tático psicológico, quando o Caramelo acusou o colega de equipa, o Ulki Iam, irmão do Kenzo, de ricardíces, estando por isso a contribuir para a derrota da equipa:

- Não lhe ligues, ele é que não te passa a bola em condições, - disse o Fininho, um temível defesa direito.

E por causa deste apoio do adversário o brinca na areia Iam continuou no registo de ricardíces e a equipa dele perdeu o jogo. A mudança tática na equipa do Fininho tornou-se a arma mais eficaz rumo à vitória: o Carlos da Tapada foi para a baliza, saindo de lá o Espalha, que estava um passador devido ao boné transgénico da EDP, boné este que teve um efeito milagroso no primeiro. Na Supertaça Bastonário, que disse que vinha e não veio, jogaram os seguintes atletas: Fininho, Laranja, Brinca na Areia, Ricardinho, Peidão, Tó Zé, Clark Kente, Alfredo, Preto, Tio Kiki, Caramelo, Ulki 1 (Iam), Ulki 2 (Kenzo), Carlos da Tapada, Gui Palito (filho do anterior), Cabeça de Ananás, Dédé  e Espalha. Nenhum dos Taroulos se fez representar porque se mantêm no regime "Estudo para Exames"!

O próximo jogo será o “Torneio Por Mais que Batas Não Te Abro a Porta”.