miguelbmiranda@sapo.pt
304 estórias

Sunday, July 07, 2013

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 44 - Marcação de Território


Comandante Guélas

Série Colégio Militar

Os homens passam, com os seus vícios e defeitos, com as suas qualidades e virtudes, mas as instituições sólidas permanecem, a bem da identidade nacional, nas memórias de muitos. E é de duas dessas memórias que surge esta estória. O colégio estava em obras lá para os lados do pavilhão de Desenho e Trabalhos Manuais, estendia-se para trás do pavilhão de Ciências e seguia pelo pátio das osgas.

- Façam pela vida, - aconselhou o professor Oliveira, mais conhecido como Baco, ao mesmo tempo que inspecionava o andamento dos cinzeiros, sem se aperceber da atividade paralela que decorria nas suas costas, o arremesso de barro contra a parede branca, que mais parecia um cenário de guerra polvilhado de estilhaços de granadas.

A solarenga sala parecia um museu, havia trabalhos expostos desde a fundação, e decorriam duas atividades em simultâneo. No canto oposto faziam-se caixas de madeira, sob a orientação do professor Loureiro, o Clarence, pois sofria do mesmo mal do Cross-Eyed Lion da série do momento, Daktari. Saindo pela porta da frente da sala de ia-se dar a um corredor, com acesso às duas salas de Desenho, uma à esquerda e outra à direita. Nesta última trabalhava-se com o compasso e tinta da China, estando a caixa de alumínio em cima da mesa, pois o Pina Lopes, decidira fazer uma revista ao material.

- Com este ainda vais poder fazer muitos desenhos, durante longos anos, - disse ao Peidão, mostrando-lhe o coto de lápis nº 1 que estava em cima da régua em “T” de madeira, com o número 191 escrito.

Atrás dele o Horrível a arregaçava as calças, simulando bruços com os braços, dando um toque inadvertido no braço do Elefante, que estava todo compenetrado a fazer um circulo em tinta da china com o compasso. Quando a corneta ecoou, o material foi arrumado à pressa nas caixas, que foram guardadas nos armários de madeira com portas de correr verticais. A maioria dirigiu-se para as companhias, o próximo tempo letivo correspondia ao intervalo da tarde. O Loira, o Peidão, o Horrível e o Cabedo seguiram outro rumo, embrenhando-se no “estaleiro” das obras, um amontoado de entulho, madeiras, tintas, pregos, e todo o tipo de material que não deveria estar ao alcance destes Meninos da Luz. Uma lata de cinco litros vazia convidou um deles a esvaziar a bexiga, logo seguido dos colegas, um comportamento genético exclusivo do povo lusitano. Finda a mija coletiva, um desafio:
- Quem é que consegue passar para aquele lado?
“Passar para aquele lado” significava andar uns metros por um parapeito muito estreito, que dava acesso a um largo varandim sem saída, cujo mínimo desequilíbrio faria o protagonista cair para a azinhaga da Fonte. O Peidão passou e quando o Cabedo ia a meio, proeza testemunhada por um civil com um fatinho azul cueca que se dirigia para o Largo da Luz, ouviu-se um barulho ensurdecedor de um tromba de água a bater com fúria no asfalto, seguido de um grito de raiva alucinante. Na estrada o transeunte escorria mijo, e do rijo, da cabeça aos pés. Debandada geral, o regresso dos heróis foi feito em passo de corrida e o Peidão ainda acelerou a meio do parapeito quando se apercebeu que a vítima procurava um calhau. Só pararam nas companhias, tendo ainda tempo para verem um civil à beira de um ataque de nervos junto ao Chico da portaria.
A segunda memória, guardada num neurónio em decadência, trazida à luz do dia num encontro casual num centro comercial, tem como protagonista o tenente Aparício, um meia-leca com uma tabuleta no ombro esquerdo a dizer “Comandos”, e o Dani, tendo como cenário a sala de leitura da 4ª companhia, onde acontecia um pouco de tudo menos ler livros. O minorca era o Oficial de Dia e jurara a si próprio que ninguém iria cavar, por isso escondeu-se debaixo duma das janelas. O primeiro que saísse para ir para a borga seria recambiado para o seu gabinete, onde enfardaria conforme a tradição. Dentro do espaço que se pretendia cultural, a festa era de arromba, o barulho das garrafas de cerveja a baterem umas contra as outras durante as saudações, mexiam fortemente no seu íntimo, mas ele sabia que a sua missão era caçar fugitivos, por isso não se podia distrair com cenas acessórias. O concurso tinha como tema os gases corporais, por isso aqueles Meninos da Luz quase finalistas alternavam entre barulhos de rãs e tiros de pólvora seca.
- Chiça, mas hoje ninguém foge? – Queixou-se o tenente Aparício, sentando-se nos calcanhares. – Só saltam quando não estou aqui?
Mas os céus fizeram-lhe a vontade. Uma das janelas da sala de leitura da 4ª companhia abriu-se com estrondo, e o comando agachou-se tal qual um felino, gritando baixinho “mama sume”.
- Vais ter cá uma surpresa rapazinho.
O Dáni subiu para o parapeito, o predador preparou-se para o salto, camuflando-se ainda mais. Sobre o tenente Aparício, oficial de dia, caiu uma tromba de água, que o obrigou a fechar os olhos, e a selar os lábios, não sem antes deixar entrar uma gota, que desceu rapidamente para a glote.
- Estava com a bexiga cheia, - disse o 661.
O resto todos podem imaginar, depois de se ter abanado como “cão” que era, correu para a companhia, e escancarou a porta com um chuto, ao mesmo tempo que procurava o autor da brincadeira. Mas esbarrou com o "Um por Todos, Todos por Um" !
 

Saturday, June 29, 2013

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 43 - A Alma dos Meninos da Luz



Comandante Guélas

Série Colégio Militar


O 246 dos primórdios do século passado, e mais uns colegas, foram um dia, em representação do Colégio Militar, a um jantar a uma escuna francesa fundeada junto a Lisboa, com o nome de “Zacatraz”, que trazia a bordo alguns guardas-marinhas tirocinantes espanhóis, tendo por companhia oficiais portugueses. No fim da refeição serviram um vinho do Porto, que foi muito apreciado e bebido. A uma dada altura o comandante levantou-se e fez um breve discurso  que foi finalizado com três gritos:
- Zacatraz, Zacatraz, Zacatraz !
- Olé, Olé, Olé, - responderam os espanhóis.
- À Votre Santé, - finalizou o anfitrião.
A cena ficou gravada nas memórias dos Meninos da Luz, e no fim dos jantares especiais passaram a gritar “Zacatraz, Zacatraz, Zacatraz”, seguido de “Olés”, finalizando com “À Votre Santé”.
Mas, como estamos no reino do Colégio Militar, a outra estória também tem como cenário o porto de Lisboa, a mesma data, tendo os alunos sido convidados para uma visita, no fim da qual a guarnição francesa se despediu com um grito de saudação. E como os visitantes eram do mesmo calibre do célebre 3º E do Ano Letivo de 1973 / 1974, recorro a estas personagens para descrever a cena. Assim, o Peidão (191) não se fez rogado e gritou, depois de ter olhado para o nome do navio:
- Zacatraz, Zacatraz, Zacatraz, - com uma intensidade a anos luz do bardo do curso de 1971, o 69 (Fernandinho).
 A que de imediato responderam o 120 (Cabedo), o 121 (Pejó),o 125 (Horrível), o 136 (Macaca), o 151 (Escorpião), o 157 (Becas), o 191 (Peidão), o 224 (Fogaça), o 280 (Minhoca), o 299 (Camélia), o 300 (Elefante), o 305 (Vinesse), o 307 (Escalope), o 320 (Vaca), o 328 (Cão), o 384 (Leitão), o 470 (Lory), o 485 (Pitosga), o 488 (Sorridente), o 601 (Gordini), o 607 (Six), o 652 (Xoxo), o 653 (Bétis), o 664 (Barrada), o 666 (Zacarias), o 667 (Loira) e o 668 (Peida Gorda):
- Traz, Traz !
Mas o Gordini, que tinha queda para o francês, não se ficou por aqui e gritou:
- Allez allez à votre santé !
Falar dos Meninos da Luz é recordar fragmentos, ficções, fantasmas, encontros afetivos de acasos partilhados. Forçam-se os limites das verdades adquiridas, porque estas estórias deixaram sempre resíduos no local. Por isso a estória do célebre grito de guerra do Colégio Militar segue para meados do século, com a ajuda dos figurantes do futuro. Passou então a ser gritado pelo bardo de serviço, depois dos dois “Traz”:
- ALA, ALA.
A que respondiam:
- Arriba.
E finalmente:
-  Allez allez à votre santé.
A que o Six (607) acrescentou, “Allez”, sinal para se avançar rapidamente para o Amarelo, uma mistura de raspas de bifes de cavalo, com ovos mexidos das galinhas do pai da Rosa, tudo regado com muito vinagre, para cortar o sabor do verdete. Por isso quando quiseram ouvir a alma dos Meninos da Luz, gritem "Zacatraz", da mesma maneira que encostam o búzio ao ouvido, para escutarem a alma do mar!


Saturday, June 15, 2013

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 42 - Rali da Luz



Comandante Guélas

Série Colégio Militar



O Colégio Militar é feito de sonhos, tem várias dimensões, tem algo de misterioso, de mágico, de hipnótico, de fascinante, de sedutor e de sinistro, o seu nome tem todos os desvarios e todas as errâncias, todas as grandezas e todas as decadências. Mas não fingimos ser o que não fomos.

- Vamos dar uma volta no carro do Chulógrafo, - disse o 357, dando uma palmada na bola de espelhos, pronta para bombar no Chá Dançante do dia seguinte.

Estava lançado o desafio, o Ford MK1 azul cueca, do senhor Delgado, fotógrafo oficial do Colégio Militar, que dormia calmamente junto ao campo de futebol de 5, iria ter uma noite alucinante. A lima do corta unhas do 66 enterrou-se, sem preliminares, na ignição do Cortina, e este acordou sobressaltado. O aquecimento foi feito até ao campo de futebol de 11, com passagem obrigatória pelo Pavilhão de Ciências, mas quando sentiram a terra batida, onde muitos tinham apanhado grandes secas de desfiles, o piloto pôs o acelerador a fundo, mostrando aos sete magníficos que o acompanhavam, a maioria espalmada no banco de trás, as suas extraordinárias performances, ganhas ao volante da autometralhadora que decorava a parada junto às companhias, tantas vezes empurrada para a colina onde se erguia o ginásio, descendo depois, com a lotação esgotada e a blindagem forrada de indivíduos pendurados, vestidos de cotim, ao sabor da gravidade. O Ford Cortina MK1 azul cueca, propriedade do Chulógrafo, o fotógrafo oficial dos Meninos da Luz, dançava com estrondo no campo pelado, levado por um vento e por uma tempestade inesperada, brilhante, veloz e aterradora, como se fosse, não do domínio do ar, mas do interior obscuro do carro onde todos, o 357, o 308, o 557, o 248, o 79, o 522, o 335 e o 66, controlavam a ansiedade com um sorriso no rosto, ao mesmo tempo que balanceavam de encontro aos vidros, à medida que os ângulos de ataque mudavam, ao sabor dos humores do piloto. E toda esta cena estava iluminada por uma magnífica lua cheia, cuja luminosidade foi temporariamente ofuscada por uma nuvem de pó espessa, que criou um efeito especial, onde o carro parecia correr, parar, recuar, avançar, desaparecer e reaparecer. Saíram da arena, passaram pela piscina, com uma atividade clandestina frenética, onde os antigos contam que um dia foi lá parar um carro, e aceleraram em direcção ao campo de obstáculos da equitação. Uma sombra vaga apareceu-lhes no horizonte, o 66 controlou a ansiedade com um sorriso no rosto e uma calma no corpo, ao mesmo tempo que se aproximavam da autometralhadora que descia, mais uma vez, furiosamente a rampa de acesso aos refeitórios, forrada por uma massa de cotim cintilante. O piloto estava decidido a ultrapassá-los, por isso obrigou o bólide a pôr a língua de fora, e o Patronilha a correr, pois caso não o fizesse seria com toda a certeza confundido no dia seguinte com um gato em formato de tapete. Finda a primeira etapa, seguiram-se outras, cada uma com um motorista diferente. Quando entraram na última reta da derradeira volta o 357, agora o piloto oficial do Ford MK1 azul cueca, viu tudo desfocado, desproporcionado, uma aura de luz fantástica, com cores e brilhos toldou-lhe a razão, sentiu que os seus sentidos estavam a perder a unidade, gritou quando se apercebeu que estava a perder os contornos da estrada e ia passando a ferro o Meia-Lua, o carro parecia um barco no mar alto, por isso a proa embicou  para o campo de futebol de 5, onde a rede se abriu graciosamente com a ajuda do carro do Chulógrafo, o fotógrafo oficial dos Meninos da Luz, levando à sua frente, em pedaços, a baliza, que ainda cheirava a nova, tudo acompanhado de relâmpagos, fragmentos curtos e súbitos clarões. A noite espessa voltou, o 308 tentou encontrar algum interruptor que lhe acendesse uma luz, o 522 pediu ajuda para o ar, as emoções espontâneas fizeram-nos gritar frases soltas e curvas, “…da-se”, “cara…”, “o Cortina está todo fodi..”. O 66 olhou pela janela e viu uma lua branca, tocou ao de leve o vidro e com a ponta dos dedos os lábios. Desviou o olhar e ficou de frente para o retrovisor, onde viu o seu reflexo, e os olhos rasgados e os sorrisos de marfim dos colegas. Sentiu-lhes as respirações ofegantes, a geraldina do Cortina do Chulógrafo tinha acabado.
 

Tuesday, May 14, 2013

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 41 - O Gungunhanha

Comandante Guélas
Série Colégio Militar


Há quem pense que todas as virtudes principiam no pouco e não no muito. Por isso, quando a corneta ecoou pelo pavilhão, a formatura aconteceu mais depressa do que o habitual, o chefe de turma, o 191, não teve necessidade de ameaçar os colegas com um “abrir fileiras marche”, para facilitar a distribuição de abrunhos, com a ajuda dos adjuntos, o 81 e o 125, que se ocupavam da segunda e terceira filas respetivamente, e que no fim se tinham de apresentar ao superior hierárquico para também receberem a sua dose, um sinal inequívoco de que o princípio da equidade já se aplicava nestes tempos da outra senhora, pois caso o Peidão não conseguisse manter na ordem os trinta e três colegas, arriscava-se a um enxerto à noitinha na última formação da companhia, onde seria acusado de incompetência. Se aqueles que agora ficaram a meio de qualquer coisa quando decidiram o futuro do Colégio Militar tivessem passado por aqui, a história talvez fosse outra. Continuemos! O temperamento do professor de matemática por quem todos esperavam, tinha uma componente de desassossego, composta por uma multidão de potencialidades. O seu nome próprio era Afonso, o porte avantajado fê-lo “Bifonso”, mas a cor da pele depressa o transformou em Gungunhanha. O engenheiro apareceu a correr, como era habitual, e de óculos escuros, apanhando desprevenido o 191, que se viu impossibilitado de dar as ordens à turma:
- Estão a achar piada? – Perguntou o Gunga, aproximando-se da terceira fileira e enfiando um flatete, a sua especialidade, ao Cuecas de Buda, que recuou com o impacto, seguido de um caldo ao Horrível, que lhe fez saltar a boina. Regressou ao local de origem e encarou de novo o Peidão, que deu início às formalidades. Duas “direita volver” sozinho, seguido de uma ordem para o geral:
- “Firme”, “Siope” (sentido).
Mais duas “direita volver”, continência ao professor e pedido:
- Dá-me licença que mande entrar?
Autorização dada com um sinal de cabeça, nova “dança” do chefe de turma, mais dois “direita volver”, seguido de uma ordem coletiva de “esquerda volver”, um batimento do pé direito no chão, “passo de corrida” até à fileira mais próxima da porta e, em sentido, nova ordem, “em frente marche”, afastando-se para a do meio. A mesma coisa mais duas vezes. Mas desta vez os colegas excederam-se e entraram a marchar, fazendo um barulho ensurdecedor com as botas no soalho. Perfilharam-se em sentido junto às carteiras, e esperaram pela autorização para se sentarem. O Gunga subiu para cima do estrado com cara de mau, e por momentos todos viram o Adamastor, assunto que só seria estudado alguns anos depois com o Ferrari, o Ferreirinha do Carocha e da gabardine cinzentos, e do permanente cigarro Kart entre os dedos, que enchia as aulas de fumo.
- Querem brincadeira, pois vão tê-la. - Prometeu o único professor de matemática que entregava os testes 10 minutos depois de os recolher. - Estou a ver que querem desenhar infinitos de joelhos!
Houve distribuição de estaladas, seguindo-se uma revista às carteiras com nacionalização seletiva de bolama, que foi consumida à medida que ia sendo apreendida. Quando ia a passar na fileira junto às janelas apercebeu-se que alguém estava com o escape destemperado:
- Peidaram-se, - gritou, veloz e acutilante. – Quem é que se peidou?
Silêncio absoluto. Olhou para o Bina,  viu a cor de pimentão da sua cara, e presenteou-o com duas fabulosas lambadas que ecoaram pelo pavilhão, tendo o barulho chegado aos ouvidos do oficial de dia, o capitão Oscaralhito, que estava mais preocupado a pentear a penugem, a partir da orelha, tentando desesperadamente tapar a careca. Virou costas e dirigiu-se para a secretária, mas a meio do caminho deu um salto e encarou de novo a turma, especialmente o Horrível, que fizera uma careta, confirmando-se assim o boato de que este docente também via pelo “olho-do-cu”. A mesma dose, mantendo a tradição colegial, castigar sempre bem, pouco e no princípio, para nunca se castigar mal, muito e no fim.