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304 estórias

Thursday, November 01, 2012

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 21 - Assalto ao Tic Tac


Comandante Guélas

Série Colégio Militar





O Colégio Militar era um estabelecimento de educação que gostava de varrer as inconveniências e as impurezas para debaixo do tapete. Havia tradições e tabus que eram disfuncionais para o espírito de corpo e de camaradagem. Por isso a sua essência tem de ser captada através das nossas memórias, transformadas em estórias que o tornam imortal. A porta do gabinete do professor de português, o Tic-Tac, só cedeu, após muita insistência do À Nora (4), porque o molho de chaves, uma das relíquias mais importantes do Colégio Militar, que abria todas as fechaduras que lhe aparecessem pela frente, estava agora nas mãos do Chula (263), e por não ostentar etiquetas, obrigava sempre o seu portador à tentativa e erro. A sobrevivência de muitos dependia desta ação, por isso os operacionais entraram com cuidado, e deixaram uma janela com o trinco aberto, para mais tarde fazerem uma visita de cortesia, altura em que os testes, contados, já estariam em cima do armário. O Mathos (324) ainda estava um pouco dorido da porrada que o Carioca lhe dera durante o ensaio, porque o apanhara a deturpar o Hino Nacional, e tudo por causa da língua que se encravara na glote:
- “…entre as brumas da mimória”!
No regresso cruzaram-se com um dos manos Tavares, o de bigode, óculos e cabelo branco, que dava E.V.T., que respondeu à continência dos adolescentes com um sorriso e uma pergunta:
- Então, de onde vêm estes caroços de nêsperas?
- Fomos fazer pela vida, como costuma aconselhar-nos o stor Baco, … Oliveira - exclamou o Pencas.
Em 1986 já não houve as facilidades do ano de 1974, quando o Gordini (601) conseguiu convencer, já no último momento, o professor de matemática, que vinha sempre com um grão na asa para as aulas da tarde e por isso distribuía bordoada com o ponteiro a quem falasse ou se mexesse, a dar-lhe a nota, e tudo isto graças a uma chamada oral em que conseguiu construir na perfeição um soberbo gráfico de eixos cartesianos. Uns dias depois todos comemoravam o sucesso educativo coletivo, desde os com zero até aos de vinte, pois as passagens tinham sido administrativas, logo universais, excepto para o 407 que conseguiu a proeza de chumbar, graças ao Pequito. Nestes tempos de liberdade total, cada um tinha direito a ter o seu gráfico cartesiano personalizado, por isso o do Peidão (191) ostentava orgulhosamente um “x” na coordenada vertical, e um estranho “y” com duas rodas na coordenada horizontal, e caso o Bêbado…perdão, o professor de matemática, tentasse corrigir o erro com o ponteiro, arriscava-se a ser classificado como “fascista”, e isso não era muito conveniente naquela altura para as folhas de serviço. Assim, a geração de oitenta tinha de “fazer pela vida”, como muito bem respondera o 354 ao professor Alcatrão! 
Após a última cornetada da noite, altura em que o oficial de dia já estava mais para lá do que para cá, o pátio das osgas, local de acesso à janela destrancada do gabinete do Tic-Tac, recebeu a visita dos cinco da Luz, não sem antes passarem pelos claustros, cuja porta estava trancada. Mas a sorte acompanhava sempre os Meninos da Luz: o soldado de serviço na portaria era amigo do Pencas, tinham-se conhecido na Feitoria. Abriu-lhes a porta e desejou-lhes boa sorte no estudo. Novo obstáculo, nova paragem. O acesso à janela necessitava de um acrobata e eles eram todos do 4º grupo de ginástica:
- Temos de ir acordar o À Nora! – Sugeriu o Chula (263).
- Borra ideirra, - reforçou o 324, mostrando que desta vez  a língua enrolara-se nas cordas vocais.
 O 4 estava em sono profundo, a Igreja da Luz tinha dado uma badalada, sonhava com a mítica Rosa, uma outra relíquia daquele espaço militar, que ele nunca vira, mas que sabia que havia mexido com as cuecas de muitas gerações, até ao dia em que um grupo de pessoal do 7º ano, durante a época de estudos para os exames nacionais, a emboscara lá para os lados da piscina, dando início a um processo que fez saltar muitas estrelas e inscrições. O À Nora imaginava-a agora a fazer-lhe uma visita personalizada, sentindo a cama a abanar e um cheiro a alho. Cheiro a alho????
- Acorda, precisamos dum macaco, - gritou o Pencas abanando-o furiosamente.
Sentiu-se uma leve tensão no ar, enquanto o À Nora trepou pelo emaranhado de vigas de aço. Aliás, foram trepadores como ele, que se desafiavam uns aos outros a chegar primeiro às aulas sem usarem as escadas, que deram o nome ao pátio. Num abrir e fechar de olhos entrou pela janela e escancarou a porta do gabinete do professor de Língua Pátria. Os testes estavam em cima do armário, dentro de um envelope selado com fita-cola e a assinatura do Tic-Tac por cima. E agora? Nova reunião, e outra decisão: aqueceram água dentro da caixa de costura tirada ao Banheira (388), usando isqueiros. O vapor de água revelou-se um bom aliado. O teste foi rapidamente copiado, e tudo ficou como estava. Passou de imediato para o “Concílio dos Deuses”, o pessoal das notas máximas e das fardas carregadas de medalhas. Foi depois entregue a todos os interessados, que tiveram de decidir qual a nota que mais lhes convinha, sem darem nas vistas. A pedagogia de seca do Tic-Tac revelou-se um sucesso educativo, todas as notas subiram, incluindo as negas que, por estranho que pareça, ainda as houve. Uma semana antes do teste seguinte os cinco reuniram-se e planearam uma nova acção, que começaria como a anterior, com o trinco da janela destravado, e o À Nora com a função de símio.
- A chavrrrre nim roda, - gritou o 324, que estava desde manhã com a língua encravada entre as amígdalas.
A fechadura tinha sido mudada! Mas os Cinco da Luz estiveram imparáveis durante os dois anos que lhes restavam, passando a entrar no gabinete do professor de Português pelo teto. Trepavam pelas casas de banho do terceiro ano, percorriam todo o sótão dos claustros, e desciam nos aposentos do Tic-Tac com uma corda, depois de abrirem o alçapão. Quanto à porta dos claustros, passou a ser aberta com um frasco de shampoo cortado ao meio. E um dia registaram a acção, digna de um 007, num filme em VHS que ainda hoje conservam com muito carinho.



Monday, October 22, 2012

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 20 - A Relíquia Colegial


Comandante Guélas
Série Colégio Militar

No Spell e King as tochas eram feitas com os cadernos e as cábulas dos finalistas, os graduados faziam o “balanço do ano lectivo” com os sucessores, e entregavam-lhes a relíquia que só poderia ser usada quando tivessem as divisas nos ombros: um molho de chaves que dava acesso a todos os recantos do Colégio Militar! A todos? A todos, não! A missão dos novos responsáveis era juntarem mais algumas, para que a próxima geração conseguisse chegar ainda mais longe. E uma delas foi longe demais!
A noite ainda era uma menina, mas o Zimbório já estava às escuras. De vigilantes nem sinal, e os praças destacados para vigiar o paiol que, segundo a lenda, se situava por baixo dos claustros, roncavam noutro local. O oficial de dia mantinha a tradição, vigiava dormindo, lá para os lados das companhias, que o digam o 191, o Horrível, o 224 e o Vinasse, que tantas vezes deslocaram o canhão das fotos da praxe para junto da janela aberta do gabinete, por onde entrava o cano que ficava sempre colado à cabeça do dorminhoco. A fúria era geralmente muita, não se sabe se por bater com o coco no dito, após monumental cagaço, ou por não ser capaz de pôr no lugar, sozinho, o mais rapidamente possível, a prova da sua desatenção. Quando o Rato rodou a maçaneta da porta do Diretor ela abriu-se, sinal de que no molho das chaves que tinham sido colecionadas ao longo de muitos anos, num penoso trabalho de formiga, constava agora a do gabinete do chefe máximo. O facto assemelhava-se à conquista do Evereste, pela primeira vez alguém ousava penetrar no local mais inexpugnável do Colégio Militar, sem ser obrigado ou convidado. O Peidão já tinha lá estado, devido à primeira opção, para tomar conhecimento da sua pena de detenção durante a primeira semana das férias da Páscoa, um segundo castigo para um só “crime”, porque o primeiro já tinha sido aplicado umas semanas antes na primeira companhia, após o jantar, em sentido em frente ao grupo de execução constituído por três graduados, que tinha sido incumbido de aplicar a pena de várias festinhas cada um, bem aviadas como era tradição, e tudo isto porque durante o último tempo letivo do dia anterior fora encarregue de manter a disciplina do 1º E (turma que aparecera por geração espôntanea no segundo período, constituída por 6 alunos do 1º A, 7 do 1º B, 7 do 1º C e 6 do 1º D) devido à falta do professor, e o oficial de dia, o tenente Aparício, ameaçara-o de umas bordoadas, bem aviadas como também era tradição, caso ouvisse barulho, coisa que o 289 insistiu em fazer, tendo sido castigado com um banho de Óleo de Fígado de Bacalhau, remédio da moda, presente em cápsulas na maioria das carteiras. Quando chegou à Companhia o  413 sentiu-lhe o cheiro a texugo, e no momento em que se preparava para arriar-lhe por “javardice”, o Stratopel, que tinha entrada por cunha por ser desaparafusado, contou-lhe ter sido vítima de “bullying farmacêutico”.
- Um ato grave de barbárie, - disse o graduado aos colegas.
- O puto tinha tantos atos legais à disposição, firmeza, murros, biqueiros, chapadas, mas foi logo escolher uma pena que atenta contra os Direitos Humanos Colegiais! – Interveio o 434.
- Merece pena máxima e execução imediata, - gritou o Piscas.
- Óleo de fígado de bacalhau? Isto é um insulto às tradições colegiais! – Exclamou o 413.
 Acusação: “despotismo”! Pena: “ação de…despotismo”! E o Diretor achou que a visita de cortesia do réu ao Hospital Militar tinha sido irrelevante e, depois de mostrar aos pais todos os seus diplomas que o confirmavam como um chefe justo, toma lá mais um castigo! Eram assim as regras, e não consta que o Peidão tenha ficado traumatizado. A festa estilo árabe ficou-lhe entranhada nas memórias, para mais tarde recordar, principalmente quando dava de caras com meninos traumatizados por lhe terem roubado um Bolicao, e que eram capas de jornais. Mas voltemos ao Zimbório, mais propriamente ao gabinete do Diretor. Os heróis, que em vez de terem ido divertir-se para o “Ricochete”, o café da zona, após terem sido autorizados pelo graduado do pelotão a encetarem uma fuga, que começava nas janelas altas da zona dos lavatórios, tinham-se arriscado a penetrar na única zona que nem em pensamentos alguém ousara entrar, desde a fundação. E como prova do feito, trouxeram umas estrelas que estavam em cima de um altar, dentro de um pequeno recipiente destinado às hóstias, que foram guardadas numa caixa de costura dourada, parte integrante do enxoval colegial. Quando no dia seguinte o Diretor se preparava para colocar as ditas de prata, uma prenda da filha, e só apalpou o pó do gabinete, sentiu de imediato o fluxo sanguíneo dilatar-lhe as veias, os movimentos cardíacos e respiratórios aceleraram-se, os músculos contraíram-se, a boca entreabriu-se, o rosto ruborizou-se, os dedos grandes dos pés reviraram-se, foi envolvido por súbitos clarões, fragmentos curtos de relâmpagos, fantasmas reais, que o transformaram a preto e branco, com muito grão, num espectro psicótico.

- Mayday, red alert! – Gritou o chefe máximo desesperado.

Pôs o Colégio em "DEFCOM 1” e mandou formar o batalhão. Estavam suspensas as saídas até os responsáveis lhe devolverem as estrelas que tanta graxa…, perdão, trabalho, lhe tinham custado. No íntimo apetecia-lhe aplicar uma firmeza geral, pô-los de cócoras até ao nascer do sol, altura em que os rabos já estariam tão vermelhos como os dos babuínos devido às biqueiradas sem fim; ou uma apresentação à alvorada no seu gabinete de pano-cotim-pano-cotim-pano…o dia todo; ou um “abrir fileiras…marche”, para poder distribuir bolachada até que os culpados cuspissem as estrelas. Não podia, iria dar muito nas vistas, sempre negara a existência destas práticas quotidianas, que obrigavam os oficiais de dia a esconderem-se nos gabinetes à noite, altura em que o batalhão ficava entregue a si próprio.
- Vou chamar a Polícia Judiciária Militar! – Ameaçou.
Iria ser quebrada uma tradição secular, alguém do exterior viria tentar resolver um problema interno, e que interno deveria continuar. Foi o suficiente para fazer os “heróis” darem um passo em frente. O Colégio Militar não merecia ser enxovalhado por umas estrelas foleiras!