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Friday, June 22, 2012

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 9 - Cavaleiros da Luz



Comandante Guélas

Série Colégio Militar



Um número, uma alcunha e uma arma, eram estas as três peças fundamentais do enxoval do Colégio Militar. As duas primeiras ficavam para sempre tatuadas na alma do aluno, mas a última era efémera, mais ano menos ano iria ser esgalhada por outras mãos. Mas para que fossem eternamente Meninos da Luz teriam de ser armados cavaleiros, tal como fizera D. Filipa de Vilhena uns aninhos antes na noite de 30 de Novembro para 1 de Dezembro de 1640 aos seus dois filhos, dando-lhes as espadas do pai e do avô. Os alunos mais novos, os ratas, iriam assim receber, segundo a descrição oficial, “os saberes dos mais velhos”, numa cerimónia a realizar na zona mais nobre do colégio, o Zimbório, mais conhecido por claustros. Era um local de rituais, uma espécie de Stonehenge, onde também já se cumprira o apertão do mais minorca, dado pelo Comandante de Batalhão ao aluno mais pequeno, conhecido como o “batalhãozinho”, que na nossa altura ostentava o número 121 (Pejó), e conseguia ser mais baixo que a sua Manelican, e assim permaneceu durante um longo reinado, sendo depois ultrapassado pelo Cuecas de Buda (45), nunca se sabendo se foi porque comprou sapatos com tacão, ou se os bifes de cavalo o fizeram aumentar uns milímetros.

E foi precisamente aí, na véspera do 1º de Dezembro, que o Leitão (384) gritou “Feio”, quando viu o professor careca de história e geografia a passar nos claustros, tendo apanhado desprevenidos os colegas que tentavam arrombar a porta onde o funcionário guardava as bolas de Berlim que iam ser distribuídas no reforço da manhã. A fúria do docente foi tal, que desatou a correr pelas escadas acima e deitou a mão ao primeiro estudante que viu, neste caso o Elefante (300), que estava sentadinho a fazer as cábulas para o teste do Semita, que ostentava o nome Grijó no B.I., e que costumava contar aos seus alunos que quando tinha a idade deles cuspia no pão que levava para a escola, para que os colegas não o comessem. Os claustros eram grandes, muito grandes, e em cada ponta gritava-se “Feio”, “Feio” e mais “Feio”, e o mais sensato era o “Feio” sair dali enquanto podia, pois o cerco aproximava-se, e o professor careca arriscava-se a um “ramalho”, um ritual reservado para os dias de anos, mas que na prática servia para todas as ocasiões festivas. Seria agarrado pela cabeça, obrigado a curvar-se, enquanto os outros lhe dariam toques nas costas com os cotovelos, ao mesmo tempo que cantariam, “ramalho, ramalho, ramalho és tu, vai chamar ramalho ao olho do cu”. Mas o Feio teve bom senso e fugiu!
A vítima seguinte foi o professor Pequito. Quando se preparava para ditar o sumário foi amassado por um coro de gritos estridentes, não tendo conseguido descobrir os autores, porque toda a turma estava com os tampos levantados. Acabou por acusar o único aluno interessado em aprender francês, e cuja intenção foi mesmo ir buscar o livro às entranhas da carteira: o 69 (“o número mais vergonhoso do Colégio Militar”, segundo dizia o 125, o Horrível)! Caso não provasse a sua inocência, arriscava-se a descer uns pontinhos na “Escala de Comportamentos”, uma modernice introduzida pela revolução, que tinha substituído a “obsoleta” pena de detenção de fim-de-semana, cuja duração foi curta porque insistiam em deixar os pioneses ao alcance dos rapazes, fazendo apelo ao seu sentido democrático, o que levou a que o Peidão (191), o Zécarias (666), o Gordini (601), o Coiote (95), o Peixinho (591) e outros bons rapazes, passassem da red line para o verde vivo, enquanto o exemplar 69 (que mantinha os braços à altura dos ombros durante todas as inúmeras marchas diárias, mesmo levando biqueiros consecutivos no traseiro, e foi dos raros que levaram para casa todas as medalhas disponíveis) estava sempre com o pionés no zero, e o tenente Cuequinha à beira de um ataque de nervos!
Noutro canto do colégio o professor Grijó, que já há muito tempo tinha estacionado o  Volvo 130 azul junto ao pavilhão de Desenho e Trabalhos Manuais, dava por encerrada a oral de Química:
- Moçoo, sabes andar de bicicleta? – Perguntou, ajeitando com a mão o cabelo amarelado.
- Sei, - respondeu o Peida-Gorda (668), já antevendo os oito valores.
- Então vais levar uma bicicleta – disse, com a voz rouca que o caracterizava, e continuou. – Ó moço, tu não tens memória, tu tens uma vaga ideia.
Mas muito iria acontecer antes de passarem a ser, para todo o sempre, os “Cavaleiros da Luz”. Como de costume as armas foram distribuídas na véspera, e cada um levou a sua para a camarata. À noite havia combates corpo a corpo com baioneta,  Manelicans a fazer a vez de espadas e almofadas transformadas em escudos. Brincava-se à séria, com gosto, nunca ninguém se magoou, mas se alguma coisa acontecesse havia sempre a Enfermaria e a eterna aspirina de prevenção. À noite houve “Pinturas”, e muitos nem dormiram com a emoção. Não havia tempo nem para traumas, nem para esgotamentos.
O pico das comemorações deu-se quando os graduados se aproximaram dos “ratas” (o equivalente aos noviços nos conventos) e, sacando-lhes para fora as baionetas, tocaram alternadamente nos ombros, ao mesmo tempo que diziam, segundo as fontes oficiais, "armo-te cavaleiro para que, com este sabre, sejas sempre vencedor e nunca vencido", mas que na prática tinha sido um pouco alterado para “armo-te cavaleiro, puto e paneleiro”!














 

Saturday, June 16, 2012

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 8 - Spell e King





Comandante Guélas

Série  Colégio Militar



Era a última noite do ano letivo, e a derradeira tradição iria cumprir-se: o “Enterro do Cábula”! O Peidão (191), o Horrível (125), o Beterraba (653), o Peida-Gorda (668), o Escalope (307), o Gordini (601), o Bicuda (157), o Macaca (136), o Leitão (384), o Zécarias (666), e muitos outros Meninos da Luz ouviam, impacientes, o cantar do ritual pagão que os graduados e os do sexto ano faziam no campo de futebol de 11. Numa grande fogueira, segundo a descrição romântica do evento, “queimavam-se as cábulas e os cadernos que já não eram necessários”, mas também se acendiam as tochas que iriam servir para o cortejo de assalto às companhias. A tradição chamava a esta marcha uma “romagem aos locais mais significativos do colégio”, que permitia aos finalistas avaliarem o que de bom e de mau se passara ao longo do ano, para que os futuros graduados não repetissem os erros dos seus antecessores. Graças a esta “Troika”, os bons costumes mantiveram-se ao longo dos anos, as “apresentações à alvorada” aumentaram o nível de exigência (pano-cotim-pano), as “pinturas” (“os alunos mais velhos procuram pintar as caras dos mais novos, sem que eles acordem, devendo ser interrompidas se algum acordar”) passaram a ser feitas com trincha e com o imberbe todo nu, os “corretivos pedagógicos” em sentido e em frente à companhia formada tornaram-se mais festivaleiros, as “firmezas” aproveitaram o que de mais chique tinha a Inquisição, e outras coisas úteis para o fortalecimento e crescimento saudável destes futuros oficiais do Exército Português, atos estes substituídos actualmente por iogurtes “Suissinhos” ao pequeno almoço, almoço e jantar, pois aos atuais defensores da pátria nem uma unha encravada podem ter, porque senão a Assembleia forma uma Comissão de Inquérito, e o ofendido pede uma indemnização através do “Correio da Manhã”. Assim, a geração do Cabedo (120), do Pejó (121), do Minhoca (280), do Camélia (299), do Elefante (300), do Vinesse (305), do Vaca (320), do Bico (220), do Soneca (369), do Brumi (418), do Mijón (534), e de todos aqueles que entravam ao domingo à noite e saiam no sábado à tarde, sentia estas festividades na alma, mas acima de tudo no esqueleto, que ficava tatuado para sempre. E foi com um grito apavorado e com um flato nervoso que o Madiura (556) gritou:
- Eles vêm aí!
A debandada para as camas foi geral, e todos se esconderam debaixo dos lençóis. A visita de cortesia dos peregrinos do “Spell e King” ia começar, o coro acompanhava a marcha marcial:
- Ó Spell e King, ó fungágá!
A luz das tochas chegava às janelas altas da camarata, o silêncio caíra como um manto na Terceira Companhia, e todos já estavam mentalizados para o embate. O som foi aumentando, sentiam-se os passos da turba no átrio, o ataque começou pelos vizinhos, ouvia-se o ferro de encontro ao chão frio, os gritos misturavam-se com os cânticos até que….entraram a correr, atacaram todas as camas, umas foram colocadas ao alto (“chaminé de fada”), com o colchão e o seu habitante a caírem desamparados para o outro lado, outras simplesmente viradas ao contrário com um só golpe. Ninguém se mexeu enquanto os visitantes permaneceram no local. Com a sua saída deram-se por encerradas as festividades, para o ano haveria mais. Após a noite das tochas longas iriam os finalistas e os futuros graduados reunir em concílio para avaliar o Ano Letivo e preparar o seguinte? A tradição dizia que “sim”!





Thursday, June 14, 2012

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 7 - O 1º de Dezembro



Comandante Guélas

Série  Colégio Militar 



O dia da Restauração aproximava-se, o capote do graduado mais novo já esvoaçava por cima dos claustros abraçado a uma Cruz, e acima dele uma Barretina que tapava a cabecinha do pára-raios. Não muito longe o professor Grijó, ou melhor, o Semita, distraíra-se, mais uma vez, a jogar xadrez na sala de professores e quando se apercebeu já só encontrou meia turma à porta do pavilhão de química. Por isso, quando iniciou a experiência com o Sódio e o Potássio calculou mal as doses, e o estrondo assustou o ajudante, mais conhecido como Ruca, não estivéssemos nós no reino dos números e das alcunhas. Como já era tradição, a responsabilidade caiu no subalterno:
- Ó Morais, és um bronco, disse-te para cortar mais fininho o produto!
A turma riu em uníssono, mas foi por pouco tempo.
- Tenho aqui as vossas notas, que são uma miséria, - disse o Semita olhando para o Zacarias (666). – Moço, levas para casa uma bengala (sete valores). E tu, número 384 (Leitão) uma bicicleta (oito valores), e tu 463 (Banhadas) outra Bengala -, e assim sucessivamente.
Noutro pavilhão um tenente-coronel armado em peru, o Galo, dava início ao teste, e avisava os Meninos da Luz de que não queria ninguém a cabular, pois como ex-aluno sabia todos os truques. Permaneceu em movimento o tempo todo, com as botas de cano alto a marcar u ritmo no soalho, como se estivesse numa marcha marcial, enquanto o Vaca (320), o Peidão (191), o Peida-Gorda (668), o Macaca (136), o Vinasse (305), o Six (607) e muitos outros, copiavam à fartazana, com o material de apoio debaixo dos tampos transparentes. A aula de Trabalhos Manuais mais parecia um campo de tiro ao alvo, tal era a quantidade de barro que forrava a parede branca da sala. O trabalho consistia em fazer uma rosa, mas ninguém conseguia chegar ao fim, era humanamente impossível, que o diga o 69 (“o número mais vergonhoso do Colégio Militar”, segundo o Horrível), o único a marchar com os “braços à altura do ombro” e a “bater os calcanhares”, mesmo a levar biqueiros no cú, e dos raros que não cabulava, pois sempre que colocava a última pétala, o Gordini (601) distraia-o e o Peidão (191), um aluno com uma vasta ficha na Direção, ou outro que estivesse mais a jeito, enfiava um abrunho na flor, reduzindo-a novamente a uma amálgama de barro. Do outro lado da sala o professor Clarence (Cross-Eyed Lion da série Daktari), conseguia ver com um dos olhos, pois o outro apontava para o teto, a rebaldaria da aula do colega, mas não arriscava ajudar. Estava a classificar os trabalhos em cartolina, e acabara de dar vinte valores à Torre Eiffel feita pelo “número mais vergonhoso do Colégio Militar”(sic), que não iria durar muito, pois dois dias depois foi vítima de um incêndio de origem criminosa, depois do Horrível (125), o Peidão (191) e o Cabedo (120) terem entrado clandestinamente nas instalações para fumar um cigarrito, e ensaiado uma tocha com o símbolo da cidade luz, para relembrar o ainda distante “Spell e King”. A festa que se aproximava era o 1º de Dezembro e, antes do Batalhão marchar para a população, iria haver um confronto final entre portugueses (graduados) e espanhóis (os do 6º ano), armados com mocas, toalhas encharcadas na véspera, ensaboadas, enroladas e secas, que ficavam com a dureza do cajado alentejano, com os restantes a assistirem à cena no primeiro andar dos claustros, depois de terem atirado pela varanda o boneco do traidor Miguel de Vasconcelos. Mas havia mais. De um momento para o outro os inimigos transformavam-se em lusitanos ressabiados, formavam duas colunas a perder de vista e obrigavam os castelhanos, a arraia miúda da assistência, a passar pelo meio, ao mesmo tempo que lhes serviam mocada, e da grossa. Umas horas depois estava tudo engalanado a marchar!



Friday, June 08, 2012

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 6 - Zona com Restrições


Comandante Guélas
Série Colégio Militar


A vida no Colégio Militar dos anos 70 era dura, desprovida de sentimentos éticos, com uma justiça sumária que causava duas sensações, o que a aplicava estremecia de prazer, o que a sofria estremecia de dor. E havia muitas interdições! Passar pelos claustros, era uma delas, só em formatura, excepto para os senhores graduados, os alunos do 7º ano. E nunca pelo corredor junto à bomba de gasolina. Por isso o contigente mínimo para se poder passar pelos claustros era de cinco elementos, quatro a marchar e um a comandar. De manhã tinha havido problemas com o professor de matemática, o Gunga, que não respeitava a ética do limite. Chegara à formatura junto à sala de aula, de óculos escuros, impossibilitando o chefe de turma, o Peidão (191), de dar as ordens necessárias à formatura: “firme”e “siope” (voltado para os colegas), “direita volver” (duas vezes sozinho), ficar de frente para o professor em sentido, continência, autorização, mais dois “direito-volver” sozinho, “esquerda volver” para todos, passo de corrida para a frente da primeira fila e ordem “em frente marche”, ao mesmo tempo que se deslocava lateralmente para a fila do meio, que recebia a mesma ordem quando o último da primeira entrasse na sala, seguido de passagem para a terceira fila, sendo depois o último a entrar, seguido do Gunga. Todos ficariam em sentido junto às carteiras, até receberem ordem para se sentarem. Mas o ”firme” não saía, o chefe de turma não conseguia dar a ordem, à sua frente os colegas riam, atrás de si o Gunga mirava-o do seu metro e noventa, com um ar imperial.
- Estou a ver que temos festa, - ameaçou o único professor de matemática que entregava os testes 10 minutos depois de os recolher.
Tudo correu na perfeição exceto a entrada. A turma, num ato de suicídio coletivo, continuou a marchar dentro da sala de aula, fazendo um barulho infernal com as botas. Não tiveram autorização para se sentarem, ou melhor, a ordem só foi dada depois de o Gunga ter distribuído abrunhos duplos a toda a turma, que permaneceu sempre em sentido durante o ato pedagógico.
Nesse dia, durante a hora de almoço, o funcionário Zé Pereira andou numa azáfama com o bloco de notas na mão, os copos caiam que nem tordos, e de cada vez que se ouvia o barulho do vidro a quebrar todo o pessoal gritava em uníssono “P.J.”, ou seja, “Paga já”, obrigando o funcionário a deslocar-se em passo de corrida com o bloco de notas na mão, até ao local da ocorrência. E como o lema do Colégio Militar era “Um por todos e todos por um”, arriscava-se sempre a ter de arranjar vários papelinhos para que a despesa fosse repartida. E a repartição neste dia chegou aos “1/90 avos” do copo do Barrada (664), ou para ajudar a Loira (667) quando um dia durante uma fuga ao Moca, depois de lhe ter acertado com uma escova de sapatos, conseguiu uma “camaradagem” até “1/180 avos de uma sanita”. Umas horas depois, na outra ponta do colégio, o Peidão (191), o Escalope (307), o Gordini (601) e o Horrível (125) encontravam-se encurralados no pavilhão com acesso único pela zona interdita. Precisavam de mais um elemento, mas não havia ninguém para aqueles lados. Arriscavam-se a ter de dormir no local! Tiveram de arranjar uma solução de recurso: o Horrível (125) desmaiou, e os outros iniciaram uma travessia dos claustros com o corpo imóvel nos braços, e em passo de urgência. Tinham tido tanto sucesso noutras ocasiões, em que o doente voltava a si miraculosamente após o atravessamento da zona vermelha, e todos corriam em debandada, só parando nas companhias, que não hesitaram em simular uma nova maleita num deles. Desmaio concretizado, um agarrou nas pernas e os outros dois distribuíram-se pelos braços, iniciando de imediato a travessia. Quando iam sensivelmente a meio caminho, apareceu à porta da sala dos professores o oficial de dia, e todos gelaram quando deram de caras com o tenente Aparício, o oficial mais pequeno da zona, mas o mais malandro, que ostentava num dos ombros uma placa para gigantes, que tinha escrito “COMANDOS”. O Horrível agravou o desmaio, enquanto os outros iam quase largando o desmaiado. O pequenote pôs-se no meio da via e deu ordens para entrarem com a vítima na sala, e poisarem-na num sofá. A ordem foi cumprida tão depressa, que o Horrível  acabou sendo literalmente arremessado para o local indicado, e deixado á sua sorte. Os socorristas só pararam na camarata, e rezaram pela alma do número 125, do ano lectivo 1971 / 1972. Entretanto, algures numa sala da zona interdita dos Claustros o tenente Aparício conseguira ressuscitar o desmaiado depois de vários abrunhos e outros miminhos.