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Wednesday, July 13, 2016

Camarada Choco 96 - A Coleira

Camarada Choco

Aventura 96


- Picha, Picha, - gritou baixinho o Peter, enrolando mais uma vez a avantajada língua nas poucas cordas vocais, que lhe alterava sempre o sentido das palavras.
Os gestos acompanhavam o aviso do monga africano, e foi isso que chamou a atenção da Menina Tatrícia. Atrás dela estava o encarregado de educação do Cuecas de Buda, que teimava em não sair da sala, mesmo depois de ter entregue o seu herdeiro, e de este já estar a esgalhar freneticamente as tampinhas das garrafas. Pai e filho tinham sido vítimas de um ataque do Cupido, o júnior acabara de repelir a aproximação da stora Mágui, que tentara dar-lhe os “bons-dias”, tendo recebido como resposta “sai daqui, este já tem dono”, e a proprietária do seu coração chamava-se Raquete, que tinha sempre uma cadeira vermelha cativa na entrada da piscina, onde ninguém ousava sentar-se, porque ele já demonstrava estar possuído por um reflexo, rosnar. Quanto a Menina Tatrícia fez uma volta de 180 graus deu de caras com o espetro de um homem em sentido, que mostrava sinais de vida. Longe dali desenrolava-se um drama, sentia-se um cheiro, que não tinha origem, como era habitual, nos intestinos de um Desaparafusado, era um odor a pólvora da vingança, vinha diretamente das entranhas da cabeça de um Aparafusado:
- Gamaram-me a coleira de cobre dos meus antepassados com a medalha da Santinha da Brandoa, - gritou desesperado o Maneta, revirando a gaveta cheia de cuecas adaptadas a um corpo já cheio de tempo. – Guardeio-o aqui quando chegámos, e queria agora impressionar as terapeutas no jantar de despedida da colónia de férias.
Nunca a relação entre Aparafusados e Desaparafusados estava tão tensa, a Doutora Sem Canudo “enfiabrava”, “óvalhanosdeus”, sem apelo nem agravo, no lombo da Maria Destravada, e esta respondia na mesma moeda, e tudo porque se tinham cruzado no corredor do hotel, sinal de que ambas eram vítimas da tirania do “reflexo condicionado” do maldito russo, que provocava uma barreira civilizacional, uma superioridade moral. No hall reunia-se de emergência o conselho pedagógico, e os interrogatórios apertavam:
- Eu nem dormi com o velho dos pincéis, - respondeu o King Kong, - ele acusa-me de ter anõezinhos mortos entre os dedos dos pés.
- Eu também não dormi com o Maneta, - retorquiu o Ládi Manquê, o guarda redes dos “Tubarões do Seixo”, a mítica equipa da Venteira cujo “i” caia sempre à entrada do clube. – Perguntem ao Albertino, ele também tem a nossa cor, e ficou lá.
- Béfica, águe, bariga, - disse com convicção quando a inquisidora o confrontou com o desaparecimento da coleira do monitor.
- Merda, estou farto do clube, - gritou o Castelinho, abandonando a comissão com os olhos a revirar.
Só o regresso da relíquia ao respectivo pescoço poderia desfazer esta tragédia individual, cuja tristeza caia na cabeça e nos ombros da vítima de bulling. A rapaziada tinha aproveitado a higiene íntima daquele que se julgava chefe de quarto, e fizera uma festa privada com a Santa da Brandoa que, findo o farrobadó, fora arremessada, sem apelo nem agravo, pela janela, e lá permaneceu até ser encontrada pela força da investigação. 
    

Tuesday, July 05, 2016

O Comandante Guélas - série ISEFL 4 - Na Herdade do Rogério


Comandante Guélas

Série ISEFL 4

- Esta Catarina de Quintos faz-me lembrar a Glórinha do Jamor, - suspirou o ex-político do Montijo, o Professor Doutor Anselmo benzendo-se junto à sepultura da Eufémia, um passeio cultural da responsabilidade do organizador do evento, fã do Comité Central.
- Mas aqui não há nada da Direita, - protestou o latifundiário Pedreta.
Uma ata tem de ter um ritmo definido por isso aí vai: no dia 2 de Julho do Ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de dois mil e dezasseis decorreu mais um encontro cultural/gastronómico da “Geração de Oiro” do Instituto Superior de Educação Física dos anos oitenta, a célebre Turma Dois. O evento foi da responsabilidade do mais alentejano de todos os alentejanos, que humildemente mandou retirar o seu nome Rogério da porta de entrada da Herdade, tendo-o substituído pelo seu nome artístico, Grou, acrescentando o “s” para despistar as fãs. A ementa foi toda ela vegetariana, Sopa de Bolota Recheada, Croquetes de Chouriço, Legumes de Inverno com Alheira, Chalotas de Carneiro, Alho Alentejano com Molho de Tomate de Porco Caseiro,  Tofu de Porco Preto, Tremoços do Comité, Caracóis com os Toninos do Cunhal, Chouriça com Algas, Bolota Suada, Sumo de Uva, e outras iguarias que fazem sorrir qualquer entranha mais exigente. Estiveram presentes na mesa 13 pessoas, um número que dá saúde e faz crescer, principalmente aos reformados: Anselmo, Paula, Guida, Luísa, Parrilha, Jacks e esposa, Corista, Nuno, Bezerra, Pedreta, Rogério e Anabela.
O Montijo nunca mais foi o mesmo após a passagem do garanhão político, o Zézito como era carinhosamente tratado, vereador com o pelouro do desporto, que tornou a zona num exemplo de inclusão ao introduzir no município um desporto popular australiano, o “Lançamento do Anão”, que reduziu para zero a taxa de desemprego dos minorcas. Escusado será dizer que foi lá que o António Vitorino do PS iniciou a sua carreira política, por isso as más línguas dizem que ambos, o ex-comissário e o ex-vereador, estão ligados aos Vistos Gold desde estes tempos memoráveis. O Zézito também conseguiu reduzir a fatura do RSI do concelho quando substituiu a selvagem modalidade “Tiro aos Pombos” pela pragmática “Tiro aos Ciganos”. Enfim, um visionário digno da turma 2!
A Professora Doutora Paula veio de longe e chamou Jacks ao Professor Doutor Nuno, não se sabendo se foi devido ao primeiro exibir agora uma franja maior do que o segundo, ou serem sinais preocupantes de troca de identidades devido aos efeitos da rescisão. Os dois ex-trabalhadores mais famosos do Jamor exibiram escandalosos sinais exteriores de riqueza, tendo por isso confidenciado, após vários copos de sumo de uva, ao Professor Doutor Parrilha, que exibia uma preocupante fácies de psicopata, feito fortuna, uma espécie de complemento especial de reforma, no dominó de Setúbal, muito frequentado pelo grupo de motares da região, os Inválidos e Alzheimers do Comércio. A refeição foi momentaneamente interrompida pela saída intempestiva do anfitrião que alegou uma súbita dor de barriga, sinal de que as bolotas que forravam o estômago já estavam no reto, e caso alguma rebentasse, passava-se de um almoço para um velório. Regressou, para alívio de todos, alguns minutos depois, gabando-se de ter feito um grande negócio, e como tal ir patrocinar o almoço do ano seguinte para uma zona turística do país. Pediram então à Professora Doutora Luísa, pioneira na gestão do desporto, que confidenciara ser o sotaque do alentejano muito semelhante ao Hiragana de Hiroxima, para ligar ao Professor Doutor Xarepe e marcar mesa algures junto a uma praia do sul, e quando o dito senhor atendeu ela julgou ter-se enganado, pois o som que saiu do outro lado da linha assemelhava-se ao Katakana de Tóquio. A Professora Doutora Margarida, que após o final do curso seguiu a área desportiva das Finanças, rapidamente se apercebeu que falar de dinheiro com aqueles pés rapados era uma perda de tempo, mesmo com o Parrilha a tentar impressiona-la com o Mercedes, como fez nuns tempos idos com a assistente de dança, também com o mesmo nome, que o deixou à beira de um ataque de nervos com um miserável chumbo, após semanas intensas de treinos com a Dona Blandina. Não passou despercebido aos presentes que a bicharada da zona, galinhas, ovelhas, cabras, vitelas e éguas, acessórios típicos das casas da zona, estavam sempre atentas aos movimentos do anfitrião, fugindo sempre em debandada, e com algazarra, de cada vez que ele se deslocava na sua direção. E foi numa destas situações que o ex-vereador, já com muita uva e bolotas à mistura, teve um desabafo inapropriado para a idade:
- Eu com o meu feitio e com aquelas ovelhas….!
E assim se encerra mais um capítulo das nossas vidas, para ser recordado mais tarde nalguma nuvem perto de si.


Friday, May 27, 2016

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 69 - Os Cartonistas

O Comandante Guélas

Série Paço de Arcos


O dinheiro que o Peidão tinha amealhado, como uma formiga, nos jornais, só lhe chegava para ir passar dois dias à quinta do Zé dos Porquinhos, em Manique, e ele queria ir para o Algarve. Por isso juntou-se ao Milhas e ao Kikas e os três foram labutar para uma fábrica de embalagens da zona, a Novembal. No contrato de trabalho dizia que tinham a categoria de “Cartonistas”, ou seja, “paus para toda a obra”. O Peidão foi destacado para o exterior, dobrar ferro para cima de uma enorme parede de um futuro pavilhão. O Milhas foi para o bem-bom, transportar caixotes de cartão e o Kikas passava o dia na praia, porque entrava de manhã pela porta principal, picava o ponto e saia por um buraco na parte de cima da empresa. Ao fim do dia fazia o caminho inverso e assim permaneceu durante todo o primeiro mês, no fim do qual recebeu o primeiro ordenado e despediu-se de imediato. Quanto ao Peidão, só esteve três dias no topo da fábrica, pois de cada vez que atingia o cume, escondia-se num buraco que lá havia e adormecia. O encarregado bem podia gritar pelo seu nome, mas devido a um “bem-aventurado” problema físico, era coxo, não tinha possibilidades de subir a escada. Por isso teve de o enviar para dentro, juntando-o com o Milhas. Com esta dupla a linha de produção nunca mais foi a mesma. Tinham como tarefa colocarem os caixotes num tapete rolante a um ritmo que permitisse ao colega, que estava na ponta longínqua, ter tempo para recolher o produto e empilhá-lo. Mas surgiu algo que desestabilizou a equipa maravilha. Descobriram que o colega do extremo oposto era o Álhi, o bombeiro mais famoso da vila, que não gostava que o tratassem por esse nome. O ritmo de caixotes colocados passou a ser de tal maneira alucinante, que o Álhi viu-se obrigado a “spintar” durante vários minutos até que desistiu depois de ter sido engolido por dezenas de caixas de cartão a dizer “Skip”. Quando o encarregado se apercebeu do caos, parou a máquina e viu-se obrigado a fazer ajustes. Os “cartonistas” Milhas e Peidão foram mudados de posição, ou seja, passaram para o lugar do Álhi e este foi ocupar o lugar que antes pertencia a estes. E ainda receberam um reforço de peso, um operário mais pequeno que o Trovãozinho, mas com muita vontade de trabalhar, que não era o caso daqueles “meninos de boas famílias”. Enquanto a dupla demorava dez minutos a arrumar uma simples unidade, o Pequeno Polegar fazia-o em rápidos segundos. O que valia era que o ritmo do Álhi estava tão lento, devido ao esforço anterior, que acabou por influenciar as prioridades dos dois membros do Gang dos Meninos Ricos e Caucasianos de Paço de Arcos. Resolveram construir um labirinto com as caixas e quando o concluíram, adormeceram. O coxo passou várias vezes por eles, estava desesperado à procura dos seus “cartonistas”, mas só os conseguiu encontrar no dia seguinte quando se apresentaram para mais um dia de trabalho. Tinha uma nova função para os seus subordinados: a Linha de Etiquetagem! Um rolo de papel passava por uma bacia de cola, era cortado mais à frente e o Peidão e o Milhas colavam as etiquetas nos caixotes. O trabalho era tão árduo, que eles começaram a ficar com calos nas mãos, uma violência inadmissível para estes “meninos de boas famílias”. Depressa descobriram uma maneira de se safarem. Bastava haver um atraso na fase da colagem para que mais tarde ou mais cedo tudo se encravasse e a bacia tombasse do alto do tripé e o chão ficasse forrado de cola, ao mesmo tempo que o monstruoso rolo de papel se enrolava na máquina que o puxava, entrando tudo na redline, sendo necessário carregar no botão encarnado para parar a produção. Isto significava trinta minutos de descanso para os nossos jovens e trabalho árduo para os verdadeiros operários. E mal as máquinas tornavam a roncar, mais tarde ou mais cedo a cena repetia-se. O coxo andava desesperado e tudo só voltou ao normal quando a dupla Milhas e Peidão foram separar tampinhas para uma arrecadação perdida algures numa ponta do Pavilhão. Mal o chefe os deixou sozinhos, descobriram um buraco e adormeceram. Tiveram azar. O Encarregado Geral e o Chefe Máximo detectaram-nos por acaso. O Milhas adormecera com os pés de fora! Agora iriam trabalhar a sério. Devido a serem muito religiosos, os céus ajudaram-nos. O mês chegara ao fim, os salários foram pagos e eles entregaram o papel do despedimento ao mesmo tempo que o Kikas.   

Saturday, May 14, 2016

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 68 - O Relógio

O Comandante Guélas

Série Paço de Arcos

Numa noite de Verão o Gang resolveu ir inaugurar um novo espaço de diversão, a piscina do Serapito. O local cheirava a novo e as mudanças da numerosa família estavam para breve, ou seja, o espaço ainda se encontrava vulnerável. A água azulinha convidava a uns mergulhinhos, mas os turistas não vinham preparados para o evento e por isso tiveram de improvisar. Foram todos nus. Todos?! Todos não, o mano mais velho do Citron foi o primeiro a inaugurar as instalações. Caiu no erro de ir espreitar para o fundo da piscina sendo de imediato arremessado lá para dentro. Ficou furioso, dizia que tinha avisado que estava na digestão, talvez da cerveja, mas foi de imediato confrontado com a dura realidade: se tivesse de lhe acontecer algo não era por estar aos berros à procura de um culpado que faria o tempo voltar para trás:
- Paciência, também já viveste muito, - sossegou-o o amigo Pontas.
- É melhor morreres de congestão do que cortado ao meio pelo rápido de Lisboa, como aconteceu com o primo surdo-mudo do João da Quinta, - reforçou o Peidão, outro amigo de longa data.
A festa estava animada, havia “bombas” por todos os lados e montes de terra e palha a alterar o outrora paraíso azul. Até já o “condenado à morte” participava nos saltos, mas todo vestido por causa da digestão. Havia mais água fora do que dentro, a relva acabada de plantar fora engolida pela lama, havia pegadas por todo o chão branco imaculado e os adolescentes carregadinhos de cerveja vertiam águas constantemente, tendo o cuidado de o fazer para dentro dos vasos. A quantidade de cevada descarregada iria com toda a certeza alterar o código genético das futuras rosa vermelhas que, com o choque, passariam para amarelo escuro. Por volta das três da manhã o João Pestana veio buscar os meninos rabinos, chegando muitos deles a casa sem acessórios. No dia seguinte o pai do Serapito, proprietário do espaço privado, teve um ataque de caspa. A piscina parecia mais o lago dos patos da Avenida, havia um cheiro intenso a mijo, e do rijo, e o limoeiro resolvera produzir cuecas, uma delas com marcas profundas, sinal de que o Bajoulo também participara na festa. No chão algo brilhou, era um relógio, a única prova decente. Lembrou-se que tinha deixado um dos filhos a guardar a casa, o mais corajoso, e acordou-o. Confrontou-o com a situação e teve de agarrá-lo de imediato, porque ele ameaçou descer as escadas e matar os prevaricadores.
- Calma filho, já não está lá ninguém.
Mostrou-lhe o que tinha descoberto no chão e o ele provou ao pai que o único mano capaz de ter amigos com cebolas daquelas era o Serapito. Foi de imediato à outra casa confrontar o outro filho com o achado e depois de ele ter feito um checklist mental das manias do gang a que pertencia, chegou à conclusão de que só um é que poderia gastar tão pouco na comprar de um relógio:
- O Peidão, esse relógio só pode ser do Peidão e com toda a certeza que virá buscá-lo.
- Peidão?! Então o menino tem amigos com esse nome?! Não foi essa a educação que lhe dei. Vou reforçar-lhe as idas à missa.
Nesse dia foi abordado pelo suspeito que queria o relógio de volta e estava decidido a ir pedi-lo ao proprietário. Foi um encontro cordial, o jovem afinal não era um pecador, prometeu não participar em mais invasões, aliás não seria mais necessário pois o pai do Serapito tinha-lhe posto o espaço à sua disposição. Reparou que o estranho nome daquele amigo do filho não condizia com a figura angelical que lhe pedira perdão pelo acto anti-social dos seus amigos que ele, como Menino da Luz, tentara evitar mas fora impotente perante a turba de selvagens que lhe tinham passado por cima e arrancado o relógio de pulso. 

Thursday, May 12, 2016

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 67 - O Dente de Elefante

Comandante Guélas

Série Paço de Arcos

Depois de ter marrado com o descapotável do Chulo do Pimenta, o carro que dobrava ao meio de cada vez que arrancava, visto o proprietário ter-se limitado a serrar o tejadilho, o Bajoulo ficou atulhado de dívidas. Estava no top dos estudantes paço-arcoenses mais endividados da região de Cascais, visto que o Pierre-Pomme-de-Terre nunca chegava a essa situação enquanto o pai teimasse em coleccionar libras em ouro. Só muito mais tarde é que iria ter de se ausentar do país, porque quem andaria atrás dele não seria o Chulo do Pimenta, mas a Interpol. Tornou-se, por assim dizer, num “tio”, com direito a escolta policial e tudo. O Bajoulo tropeçou à noite na solução quando se preparava para recolher aos aposentos: um soberbo dente de Elefante a quem o papá dava lustro todos os dias. Ia-se estatelando no chão devido ao dito cujo e à grade de cervejas que lhe forrava o estômago.
- Amanhã já estás a morar noutra freguesia e o Chulo do Pimenta a chatear outro, – prometeu ao dente, expressando-se meio em português meio em alemão, com um arroto de cevada pelo meio.
Foi até à garagem arranjar espaço para o “canino” na sua Zundapp, cujo motor deveria estar no Algarve junto ao seu legítimo dono. Amarrou ao banco um caixote de fruta e irritou-se quando descobriu que só havia “meio-gordo” no frigorífico.
- Nestas condições deploráveis não consigo gamar…trabalhar, trabalhar. Vou ao “Bachil” buscar um suminho.
Por pouco não se cruzou com o Estudante Focas, o Pilas e o Irmão do Marreco, que iam fazer uma visita de cortesia ao Bakáus, o irmão mais velho. Os turistas bateram, bateram, mas o mano do Bajoulo dormia um sono profundo, sonhando com uma resma de suecas deitadas sobre a sua soberba “Honda 50”. Como não lhes abria a porta, ficaram preocupados com a saúde do luso-alemão. Treparam ao primeiro andar, entraram por uma janela e iniciaram de imediato uma batalha campal com laranjas, na cozinha, mas mesmo assim o Bajulão não acordou. Quando acabaram os citrinos, passaram para as roupas, arremessando-as da janela. Finda a brincadeira , saíram pela porta e foram interceptados pelos gritos estridentes duma das vizinhas, que lhes chamou “ladrões”. Quando o senhor Bajoulo regressou, achou estranho ver as suas cuecas mijonas penduradas no catavento do General e a toalha do bidé a ocupar o espaço reservado à bandeira nacional, mas a sua preocupação estava exclusivamente reservada para o incisivo do Elefante. Iria amarrar o dente à mota, logo após a última ronda do papá, para que no dia seguinte fosse o primeiro a sair para o “trabalho”, ou seja, ir vender o marfim lá para os lados da capital.