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304 estórias

Tuesday, March 22, 2016

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 59 - As Latinhas do Peditório


Comandante Guélas

Série Paço de Arcos


O tempo era de solidariedade, mas para o Pierre Pomme-de-Terre e o Bajoulo não passava tudo de uma questão de oportunidade para o negócio e não havia tempo a perder, pois as latinhas do peditório já andavam a circular nas ruas. A responsável pela área de Paço de Arcos tinha sido, desta vez, a mãe do Peidão, que andava toda atarefada a controlar a saída das caixas que lhe tinham calhado na rifa. Todas as forças vivas da zona estavam empenhadas na colecta, desde as tias, passando pelos escuteiros e acabando nos alcoólicos …perdão…acólitos acima referidos. Quando a mamã do Peidão deu a novidade em casa e pediu a ajuda solidária da família., o “paçoarquiano” ia tendo um “treco”, e veio-lhe logo à memória as caritas catitas do Bajoulo e do Pierre Pomme-de-Terre. Entrou de imediato em prevenção, tentando evitar que os artistas tivessem acesso às latinhas. Já sabia dos esquemas dos anos anteriores, mas agora o duo tocava-lhe à porta e teria de proteger a progenitora. Mas como já andavam nesta escola da vida há muito tempo, anteciparam-se à jogada e aproveitaram a boleia de um inocente.
- Vou à casa do Peidão buscar uma latinha. Vocês também deviam participar nesta causa que é nobre, – disse o inocente Bigornas, trepando para cima do “peidociclo” do irmão, um ex-militar das forças especiais tal como o Conan, mas do ramo dos Comandos, e também com a especialidade de ajudante de cozinha de campo, pois tinha a sua “Sumbeam”, um motão do tempo dos Descobrimentos, toda desmontada à entrada da “Jomarte”, a loja de fotografias mais famosa da Costa do Estoril, que oferecia, de borla, a qualquer cliente que entrasse, uma espera no mínimo de uma hora, até que o proprietário acabasse de ler o livro de quadradinhos do dia.
- Tiraste-me as palavras da boca, – interrompeu o raposão de nome Pierre Pomme-de-Terre, dando um toque matreiro ao acompanhante. – Eu estava agora mesmo a desafiar o Bajoulo para o gamanço…para uma boa acção, e não há nada melhor para a nossa imagem do que participarmos no peditório. Mas como é que temos acesso ao material?
- Este ano a mãe do Peidão é a responsável pela zona e vou neste momento a casa dele buscar a latinha.
- Então podias fazer-nos um favor, e trazer uma caixinha para cada um de nós. Eu tenho um pouco receio de lá ir, pois da última vez que o fiz o avô estava solto e apareceu-me por detrás de uma árvore com um pistolão do Farwest, julgando que eu era um comunista a querer ocupar a casa. E ainda por cima hoje estou vestido com uma t-shirt vermelha.
- Não se preocupem, eu vou buscar várias latinhas para distribuir pela gente caridosa.
Quando se apanharam com as “redondinhas” ao pescoço, o duo nunca mais parou, percorreu a Costa do Estoril duma ponta a outra, chegando a encontrar mais dois colegas de curso em Cascais. Mas o que é bom tem sempre um fim, e o peditório tinha hora marcada para acabar e um prazo para a recolha do material. O Peidão estava agora escalado para o efeito e resolveu começar pelas tias da Figueirinha.
- Estas latas estão vazias porque pus o dinheiro todo nesta, – explicou a velha a cheirar a perfume até às unhas dos pés, e com um penteado que parecia o Moisés dos “Dez Mandamentos” após ter descido da montanha. – Os selos que tapavam as latas caíram, – e fechou a porta.
Seguiram-se os “meninos vestidos de parvos, comandados por um parvo vestido de menino”. Das trintas latas, nenhum selo! E assim continuou a viagem, muito poucas latinhas com selo, a maioria estranhamente sem ele. Uns dias depois a mamã do Peidão teve um ataque de caspa monumental, pois faltavam duas “redodondinhas” do senhor Bigornas. Contactado de imediato, explicou que estavam na posse do Bajoulo e do Pierre Pomme-de-Terre, que se tinham comprometido a entregá-las no prazo. Estariam estas duas alminhas caridosas a fazer horas extraordinárias? O primeiro foi apanhado desprevenido, pediu para esperar um pouco, deslocou-se à garagem, ouviu-se um som dum martelo a malhar num torno, e eis que o anjinho do Barroco regressou com a caixinha amarela do peditório. Mal ela trocou de mãos o selo, que parecia mais de carta do que o original de chumbo, caiu aos pés do Peidão, ficando os dois a olhar para ele. A latinha do Pierre Pomme-de-Terre estava em casa a dormir e foi entregue intacta. Intacta?! O selo só caiu redondo no chão quando chegou à casa do Peidão, ou melhor, na sala dos pais, em frente da mãe que já estava em pleno ataque de caspa, incrédula com a atitude daqueles meninos de coro. Foi aberto um inquérito de averiguações, os dois paço-arcoenses confessaram os desvios, devolveram algumas notinhas de vinte escudos e os factos foram comunicados por escrito e assinados por todos os intervenientes, sendo os relatórios enviados à instituição que prometeu mão de ferro para os prevaricadores. Mas não nos podemos esquecer que estávamos num país de brandos costumes que, com ou sem revolução, deixou ficar tudo na mesma. No ano seguinte o Bajoulo e o Pierre Pomme-de-Terre lá foram vistos outra vez na fila da frente da solidariedade, com umas latinhas amarelas ao pescoço a recolherem donativos para uma causa que era muito nobre.

Sunday, March 20, 2016

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 58 - Férias de Verão na Casa do General

Comandante Guélas
Série Paço de Arcos


Férias a sério, só no Algarve. E ainda por cima os manos Abrantes tinham trazido da Bélgica o amigo Fánoir, uma espécie de leitão com olhos azuis. Segundo o Marreco, este Bajoulo de Bruxelas trazia conhecimentos aprofundados de artes marciais, mas o que primeiro deu nas vistas, neste caso nos olfactos, foi o seu cheiro dos pés, que deixava a léguas o cholé do nosso Conan Vargas, em cuja biografia já constava a evacuação da rua da sua casa de férias de Monte Gordo. Mas deixemos estes pormenores para mais tarde, porque primeiro tinha de se escolher o local do acampamento. A autorização para assentar arraiais foi dada pelo General, o papá do querido e muito estimado Bajoulo e do mano, que dizia ser o maior cobridor de Portugal e dos Algarves, principalmente no Verão, quando rumava a Sul na sua potente e invejada Honda-50. As turistas faziam fila para sentir o bafo deste garanhão com cara de papagaio. A guia de marcha mencionava que o terreno em redor da habitação da casa de praia dos pais do Bajoulo estava à disposição destes “meninos de boas famílias”. A CP foi o meio de transporte para estes turistas do Gang de Meninos Ricos e Caucasianos de Paço de Arcos (G.M.R.C.P.A), assim como as suas tralhas, incluindo as motas, indispensáveis para todas as visitas de cortesia, essenciais para a sobrevivência desta rapaziada amiga do ambiente. A chegada ao local do acampamento despertou a aldeia do seu torpor habitual. Aliás o Graise, também conhecido por Sousa, deu nas vistas com um fabuloso flato, que parecia mais um foguete a anunciar a procissão da Senhora lá do sítio . A primeira noite foi passada em cima de um chão duro e pedregoso, seguido de um incêndio às 4 da manhã, que obrigou a aldeia a trabalhar, para não serem incomodados e calcinados os amigos dos filhos do senhor General. O despertar foi dado por um galo que estava em cima do Cocciolo, que resolvera dormir ao relento em cima de uma cama estilo “burro”. A senhora Maria, vizinha já de uma certa idade, teve pena das condições miseráveis em que tinham passado a noite estes “meninos de boas famílias”, e resolveu abrir uma excepção, à revelia dos patrões e emprestar a chave de acesso ao alpendre fechado. Assim, estes anjinhos ficariam um pouco melhor, protegidos das agruras do tempo. Mas no alpendre havia outra porta, a de acesso ao interior, e era fraquinha. Bastou um chuto do João Sá e a fechadura cedeu. Estavam agora na sala a arrumar as tralhas, incluindo as motas, que também não se podiam constipar. Os primeiros tomaram de assalto os três quartos e os restantes distribuíram-se pelos vários cantos da casa de férias do General. Quando saíram para a praia a fechadura já estava no local de origem e a porta novamente operacional, mas desta vez só fechada no trinco.
Mal o grupo de amigos, oriundos das mais nobres famílias de Paço de Arcos, pôs o pé na areia, já o Pilas tinha alugado um barco a remos, com motor. Tudo foi feito dentro da Lei até dobrarem a esquina, ponto a partir do qual os remos foram substituídos pelo motor, apesar de não fazer parte do contrato. Depois de muitos “ss”, piões e outros malabarismos, a falange do G.M.R.C.P.A. regressou ao ponto de partida…novamente a remos. Mas o dono da embarcação também tinha a escola toda e era sócio do Gang dos Pescadores da Praia da Luz (G.P.P.L.), e como tal tinha acompanhado o movimento da sua embarcação, pela falésia. Após o desembarque dos soldados do Comandante Guélas apresentou a conta da “viagem a motor com remos”. Já tinha ganho o dia à pala daqueles rapazinhos imberbes, pensou. Mas pensou mal! Do alto da falésia vira o rasto de espuma, que o uso de remos nunca conseguiria fazer (excepto se fosse o Conan Vargas ao comando do paquete), mas não as várias mijas que tinham sido feitas directamente para o depósito, tendo em vista compensar o consumo clandestino de combustível. E não constava que o suminho de cevada emborcado na noite anterior explodisse na presença de uma faísca, porque senão o Velhinho há muito que tinha rebentado. Continuava são que nem uma pêra, porque tinha sido visto há uma semana atrás a arrastar uma porta, pela praceta, com o Pilas a dormir em cima, para lhe ir dar o cházinho retemperador do costume. Queria isto então dizer que o pescador iria ficar apeado quando regressasse da próxima pescaria, indo engrossar a lista dos “desaparecidos com bom-tempo”.
O dia chegou ao fim, significando que se aproximava a hora crítica, a noite, onde todos se transformariam em demónios, mas de “boas famílias”. O retorno à casa do General foi feito no meio de transporte do costume, “peidociclos”, indo o Karateca  Fánoir à pendura do adolescente Peidão, o mais ajuizado, numa Yamaha 50 “Mini Enduro”, tendo o mau hábito de ir sempre em pé aos gritos. As péseiras acabaram a época balnear a apontar para o chão e as suspensões traseiras a queixarem-se de escoliose grave. Na casa de banho havia fila para o banho, e o cartaz na porta, escrito pela esposa alemã do militar, pedia para deixarem as instalações tal como as tinham encontrado. Quinze dias depois parecia que o areal da Praia da Luz se tinha mudado para o sanitário do General.
Banho tomado, umas quantas latas de atum e sardinhas com tomate abatidas, e o G.M.R.C.P.A. rumou todo aperaltado para o “Luz Bay Club”, agora ocupado pelos pescadores, depois de terem corrido, e muito bem, com os arrogantes “bifes”. E tudo isto graças ao “Espírito do 25 de Abril”, que foram os melhores anos para se ser adolescente, porque a Lei tinha morrido!
O irmão do Marreco estava de amores por uma “franciu”, com cara de suíno e exclusividade na língua francesa. Assim, os amigos falavam à vontade junto a ela, questionando-o porque é que andava com a “Porky”. Seria que depois da meia-noite se transformaria em princesa? Só quando o fabuloso Carateka Fánoir confessou que tinha medo de ir para casa sozinho, impossibilitando assim o Marreco mais velho de ficar a apanhar gambuzinos na praia com a oxigenada, é que a “vampe” teve um ataque de caspa, descontrolou-se, e desbobinou o que lhe ia na alma mas … em português. O resto do que faltava da noite foi passado na casa do General, com o Tonico já mais para lá do que para cá, com a cabeça encostadinha aos pés nauseabundos do belga, que obrigavam o resto do pessoal a conservar um perímetro alargado de segurança, visto ser impossível descobrir oxigénio naquele ambiente pestilento. Enquanto todos tentavam descobrir um espaço para dormir, eis que chega o Graise envergando um bonito vestido de cor verde alface propriedade da mulher do General, que tinha descoberto no armário do quarto onde ia pernoitar. Atrás dele seguia-o outro, e outro, e outro, parecia uma passagem de modelos da Fátima Lopes. Foi uma noite longa, muito longa!




Friday, March 18, 2016

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 57 - O Nando Maluco

Comandante Guélas

Série Paço de Arcos

Este ilustre “paçoarquiano” era senhor de vários “hóbis”, um dos quais consistia em levar a aparelhagem dos pais a pastar para o jardim, paredes-meias com a estação dos comboios. Ligava o microfone, encostava-se ao muro e dava início ao programa radiofónico, dirigido a todos os utentes que esperavam a composição para Cascais.
- A menina que está encostada à coluna é uma pu..! – Dizia uma voz da rádio, acordando até os surdos.
A multidão era assim apanhada de surpresa, a sangue frio, sem possibilidade de resposta. Como era de calcular, todos os olhos se colavam na adolescente, que tentava disfarçar, abandonando sorrateiramente o local. Mas o predador radiofónico ia no seu encalço:
- Não vale a pena disfarçares, és uma grande pu.., ó oxigenada! Esconde-te atrás do careca que tem estado a olhar para o teu cagueiro.
- Já viram as prateleiras da velha com bigode que está sentada ao pé do monhé?
- Ó caixa-de-óculos, só és míope para os livros, mas para olhares para as tetas da cigana já não tens dioptrias.
O calvário só terminava quando o “verde”, o “pára-em-todas”, chegava e esvaziava a gare, deixando o Nando-Maluco sem ouvintes. Mas a festa não acabava aqui!
Recolhida a aparelhagem, chegava a altura do programa “in sito”, ou seja, o artista rumava para a estação, passando a actuar na gare do lado de terra. Desta vez a festa iria acontecer com a chegada da composição. Mal o comboio parava, o senhor Nando-Maluco procurava a vítima, alguma velha que estivesse sentada junto à janela, com esta aberta. E tinha de ter um “cabelo-à-Moisés” (igual ao do filme, na cena em que o atleta acabava de descer da montanha), sinal duma ida recente ao cabeleireiro. O predador introduzia os braços no comboio e penetrava, com as suas mãos grossas, na cabeleira encharcada de laca, transformando-a num “desperdício” digno dos melhores mecânicos da Costa do Estoril. E nem havia tempo para reclamações, pois geralmente o “pica-bilhetes” dava ordem de partida!
De regresso a casa o Nando-Maluco passou um dia pela praceta e deu de caras com uma discussão entre dois Gangs, o de Paço de Arcos e o de Caxias. O Zé Pincel tinha abafado o cachimbo da mota de um membro do segundo gang, que fora à estação comprar um bilhete, e deixara o “peidociclo” naquela zona, e no regresso topara a ausência do acessório. Como ninguém se acusara, tinha ido ao território buscar reforços, que estavam a chegar a conta-gotas. O Nando-Maluco foi recebido em glória, pois representava uma ajuda de peso para o Gang de Paço de Arcos, por ser mais velho e matulão, mas também por representar o “bom-senso”. Como não quis tomar partido por nenhum dos lados propôs arranjar uma solução equilibrada, que evitasse o confronto: um jogo, e quem vencesse ficava com o cachimbo! Cada grupo nomearia um representante, e fosse o que Deus quisesse. E qual seria a prova de fogo?
- O Zé Pincel vai buscar umas garrafas de vinho do pai e o primeiro a cair perde!

Thursday, March 17, 2016

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 56 - O Enforcado


Comandante Guélas
Série Paço de Arcos
 
A zona mais famosa de Paço de Arcos já deu pelo nome de Fontainhas podendo dizer-se que existe uma “Geração Fontainhas”, que representa o produto da transição entre os “bons costumes” do Antigo Regime e os “livres costumes” da pós-Revolução. Foi numa bonita noite de Verão que o Gang de Meninos Ricos e Caucasianos resolveu presentear todos os automobilistas que circulavam na Marginal com um enforcamento! O local escolhido foi a entrada de cima, pois havia aí uma árvore ideal para pendurar a corda, e uma sebe para esconder as pernas. O Bernardo pôs à disposição dos amigos o seu pescoço e trepou para cima de uma pedra que o Charlot entretanto tinha deslocado até ao local. A corda foi gamada de um dos barcos que estavam perto e começou a preparar-se a cena da execução. No palco apareceu metade do enforcado, com a cabeça à banda e a língua de fora. Um, dois, três….ACÇÃO!
Passou o primeiro, passou o segundo, mas não passou o terceiro carro, que fez uma travagem tão brusca, que ia provocando logo ali um acidente. O “defunto” nem se mexeu, tal era a convicção. O condutor saiu do carro pé ante pé, não fosse acordar o “morto”, mas não passou do passeio, talvez com medo de incomodar o eterno descanso daquela costeleta que não abanava, apesar de estar uma noite muito ventosa. A seguir parou outro, e outro, até se formar uma pequena multidão. O “zumzum” da assistência abafou um flato inconveniente do “morto”.
- É melhor chamarmos a polícia, – disse alguém.
Mas naquela altura chamar a polícia era um pouco arriscado, pois à noite os agentes não gostavam de ser acordados, e logo por causa de um mero presunto atado a uma árvore, que nunca iria fugir.
- Mas primeiro vamos tentar salvá-lo, – aconselhou alguém de dentro de um carro, e já com meia-hora de espectáculo.
Quando o Bernardo já estava a ficar com “cãibras” e à rasca para fumar, alguém avançou decidido para o enforcado, de apelido Sá. A alguns centímetros do artista e ao preparar-se para lhe tirar a pulsação, deu-se o milagre: o presunto puxou dum cigarro e pediu-lhe lume. O cagaço do herói foi tão grande que quase ficou ao colo do que estava atrás. Por momentos parecia que estavam todos num velório. Mas depressa o terror se transformou em ódio e gritaram:
- Cabrão!
Foi o sinal de alarme para o ex-enforcado, que largou o púlpito e deu corda aos sapatos, indo no seu encalço uma multidão de fãs enfurecidos, decididos a fazer-lhe o funeral.

Friday, March 04, 2016

Camarada Choco 95 - A Única Mulher



Camarada Choco
Aventura 95

Há um período e um tempo para todos os Aparafusados banhados pelo sol da Venteira. O Primo do Choco nem queria acreditar quando, após a curva da saída da Escola para Desaparafusados da Venteira, deu de caras com a mãe da Mó no meio da estrada, disposta a uma pega de caras, e assim garantir uma estadia prolongada no bem bom do Francisco da Fonseca, ou quiçá, uma avença vitalícia do país, após um momento de glória na primeira página do Correio da Manhã, onde o seu cabelo sueco apareceria espalmado no alcatrão, tipo carpete, tendo ao seu lado um corpo semelhante a uma das fãs de encher do único motorista da zona que guiava de pé: o Picachu! Antes do embate ainda teria acesso, tipo flash, à última das memórias libidinosas mais fresca, o convite que o Florzinha, colega da sua filha, lhe fizera durante uma das entregas matinais quando, ao vê-la de robe, lhe pediu para o tirar e mostrar-lhe os marmelos, sinal de que os clientes, que se faziam passar por grogues desde a nascença, derretendo grande parte do Orçamento Geral do Estado, tornavam-se sabichões quando as cuecas apertavam. Desde que o brazuca do Dom Café entregara o troféu de “Miss Simpatia” à terapeuta Julieta, um descafeínado enfeitiçado, que esta fugia do local como o Diabo da Cruz.
- Este espaço é meu, só meu, tenho o poder absoluto sobre as pastilhas elásticas, por isso só autorizo que seja este Desaparafusado a atender o meu telefone, - gritou a Espatinha para o Stor Pobre, revirando os olhos como o Manelinho.
A tradição não se cumpriria, a Madrinha, que estava do outro lado da linha, não iria ouvir o tradicional “churrasqueira da Brandoa, bom dia”, uma ideia da Única Mulher, assunto que irá ser tratado mais à frente, mas sim os gritos alucinantes daquela que se julgava dona e senhora do espaço que servia as primeiras refeições do dia à maioria dos Aparafusados, servidas a custo por alguns Desaparafusados escolhidos a dedo por esta responsável que se autointitulava pedagógica, a Maria Maluca e o Chico Duplo.
- Esses destemperos emocionais indicam que está aí uma informadora com problemas no chip, - exclamou aquela que detinha o posto mais peripatético da Venteira, mas também o mais difícil do concelho, qualidade para quem era dotado de sentimentos intempestivos, que lhe condicionavam a alma, conseguindo ainda ouvir o barulho do rodar dos glóbulos oculares da agente, semelhante a uma roleta da sorte.
O ataque de caspa provocara a fuga, prontamente travada, do Chico Duplo, que jurava a pés juntos ao seu irmão virtual ter ouvido os gritos da temida Popinha dos têxteis, cujo amor pelo seu colega desaparafusado mais preto da Venteira não era correspondido. Mas o assunto do dia dizia respeito à falta de carcanhol nas contas de todos!
- Só há uma certeza de que um futuro melhor é apenas possível com mais e melhores Aparafusados, - disse alguém entregando uma lista reivindicativa.
Este ato inconsciente e ingénuo iria ter repercussões inimagináveis, que mostrava a fragilidade e a crueldade da vida na Venteira.
- Temos de lhe pôr as barbas de molho, - sugeriu uma outra já mais batida nestas andanças políticas, dando o já tradicional murro na mesa, ao mesmo tempo que confessava querer agora erguer um Califado na zona, caso o seu programa dirigido a pessoas complexas ganhasse as eleições.
E nestas alturas caía sempre um manto de silêncio, ao mesmo tempo que todos se afastavam. A culpa da falta do pilim devia-se à ausência da Única Mulher, a detentora dos códigos que permitiam, não o lançamento de mísseis atómicos, mas a libertação dos fundos mensais. E até o Troca Tintas, teoricamente o mais poderoso, andava ao papel! Para agravar a situação a Escola de Desaparafusados da Venteira estava a ser vítima de uma epidemia de santinhas, fenómeno até agora exclusivo do Camarada Choco e da sua irmã Bélinha. A maioria jurava tê-la visto junto à igreja central, por isso surgiu de imediato um novo papel a propor um carjacking ao veículo da dita Senhora, e com ele ir buscar a desejada e a respetiva folha com os números mágicos! O ambiente estava tão tenso, viviam-se tempos insensatos, que bastava um comentário inocente fora do sítio para começar um incêndio:
- Ó, uma nódoa, - disse, perdendo a medida das conveniências, com um ar sereno e natural, a terapeuta Julieta, tocando levemente na t-shirt branca do Cabo Pilas, que se lambuzava com uma bola de Berlim com creme.
A vida do ex militar era desprovida de riscos, sensaborosa, com uma disciplina férrea que lhe permitia aproveitar bem o tempo, evitando desperdiça-lo no ócio, que o dissesse a stora Raquete, que fora contemplada com uma resma de papéis com o “Horário das sessões de apoio psicopedagógico para o ano de 2016”, por ter ousado prolongar a aula do Castelinho cinco segundos para além do tempo, obrigando-o a chegar atrasado àquele apoio fundamental para o seu futuro de desaparafusado incondicional. Por isso estas ocasiões raras com subtis magnetismos da natureza eram sempre aproveitadas para dar uma escapadela ao oeste selvagem, que lhe davam um vigor inesperado. Encarnou de imediato num Romeu de consciência duvidosa:
- Queres lavá-la? – Perguntou com tom e som, fazendo uma aproximação sugestiva à terapeuta.
- Se ma deres, tiro-te a nódoa, - respondeu a rapariga com tanto mimo e talento que o entonteceu.
Dito e feito, o Cabo Pilas retirou a t-shirt com uma impetuosidade masoquista e colocou-a nas mãos da colega, hirto e duro, peito para fora e barriga para dentro, que foi confrontada com o mundo natural do pedopedagogo, envolto num cenário erotizado semeado de pequenas malícias, um organismo vital sujeito a leis não humanas, primitivo e abafado, com um cheiro impossível de esquecer, que se colava à alma, tradicional e agrícola, selvagem, sem sentimentalismos, enfim, um “emoticon” dos tempos modernos, com o corpo agitado em excesso, soltando inoportunos gemidos. A terapeuta foi rodeada de ecos míticos, recheados de relâmpagos com uma intensidade cada vez maior, que lhe causaram um tom intensamente febril, só amainado com convulsivos sinais da Cruz, para afastar o demo que parecia andar à solta pelos vastos corredores da Escola Para Desaparafusados da Venteira, parecendo querer-lhe afagar violentamente o cocuruto.
- Não te esqueças que o teu nome vem do grego, Pétros, pedra, é sobre ti que edificarei os serviços de informações da Venteira. Vai ao bar, uma das minhas informadoras tem o chip avariado! - Ordenou a Madrinha ao Engenheiro, o único a dar o exemplo naquele espaço que se pretendia pedagógico. 
Estava decidido, estes tempos insensatos assim o obrigavam, a Única Mulher regressaria à escola, a bem ou a mal, por isso o carro da santinha depressa desapareceu nesse fim de dia, envolto, não no nevoeiro que nunca trouxe o rei monga, mas no lusco fusco da Venteira, após a recolha da dita senhora ao ninho, ao colo do prior. Ninguém soube quem foi, mas todos temiam agora a Távora Redonda das Terapeutas, com reuniões contínuas ao longo do dia, que foi capaz de produzir uma folha A4 reivindicativa que mexeu profundamente com o IN da toda poderosa Madrinha, que via agora súbditos cercados por más influências. Todas as frases fora de contexto eram consideradas suspeitas, excitavam-na, por isso a primeira a ser confrontada por aquela obstinada que deveria obedecer ao Troca Tintas, mas que fazia o que não devia, foi a terapeuta Pamela, que teve um descuido desproporcionado com a porta aberta, considerado uma possível ameaça à chefia da Escola para Desaparafusados da Venteira:
- Na relação sou eu que visto as calças!