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304 estórias

Saturday, March 14, 2015

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 72 - Fogo Posto


Comandante Guélas

Série Colégio Militar


As estórias do Colégio Militar são para ser mantidas debaixo de olho, o que elas são e o que elas têm para contar, mas estão todas ancoradas em realidades comprovadas, são estórias de rapazes que se cumpliciaram para lá dos silêncios. Para muitos deles a vida colegial não tinha nada de maravilhoso, porque não fora por suas vontades que estavam ali. É por isso que o Colégio Militar sempre teve um lado sedutor, porque temos um orgulho da pertença, e um lado sinistro, porque conseguiu muitas vezes transformar alunos normalíssimos em pessoas intoleráveis a partir do momento em que lhes deram funções de comando, passando a ficar assombrados pela emanação de desejos recalcados. Apesar de as novas “Meninas da Luz” estarem tão orgulhosas da farda que vestem, cujo desejo em dias de festa é tirar uma fotografia com um antecessor, muitas têm ainda de superar obstáculos, mas como o “ardor guerreiro” ainda faz parte do hino, levantam com orgulho a bandeira de todos nós. Uma viu um dia o sonho tornar-se realidade, o camarada pôs-lhe a mão por cima do ombro, e o telemóvel registou para a eternidade aqueles sorrisos sinceros e aquele orgulho na casa renovada. Mas a amiga não teve a mesma sorte:
- Não tiro a fotografia, o Colégio Militar deve ser só para rapazes, - respondeu a seco o ex-aluno quando viu que o seu sucessor era uma menina.
Por momentos todos ficaram em silêncio, incrédulos, trocando olhares indignados, ao mesmo tempo que olhavam para os olhos brilhantes da camarada. Mas valeu a prontidão de outro ex-aluno, que se aproximou dela, e disse em voz alta:
- Tiras comigo, o número é o que menos interessa!
A Menina da Luz aprendera que ali também havia gente desta, “koninhas”, para quem o Colégio Militar deveria ser imutável, esquecendo-se que era na sua imperfeição que cabiam todas as grandezas e todas as decadências. Por isso recuemos para um sábado de manhã dos anos oitenta, e entremos numa turma à beira de um ataque de nervos, com a saída de fim de semana no pensamento, desesperada com o tempo que parecia ter estagnado na aula de física do Semita, agora um velho professor em fim de carreira. Tinha sido recebido como habitualmente por um contentor do lixo a barrar-lhe o Volvo azul, a seguir à curva da quarta companhia, por isso não se apercebeu que os alunos acabavam de encher a calha que estava debaixo da mesa do 61 cheia de papel e alguém  ateara fogo. Depressa o fumo envolveu o camarada, transformando-o no Desejado mas, antes que virasse frango assado do Ricochete, envolveram-no com muito papel e, quando já estava em formato de múmia, pegaram nele e saíram da aula com as sirenes ligadas:
- Ti,nó,ni…ti,nó,ni…
O engenheiro Grijó nem queria acreditar, os alunos dos anos oitenta eram uns selvagens, quando comparados com os das décadas anteriores, porque em vez de fugirem ainda no exterior quando ele se esquecia das horas a jogar xadrez na sala de professores, esta rapaziada de agora abandonava o barco já em movimento, mesmo com ameaças de bengalas, bicicletas e afins:
- É gado, é gado, - gritava o Semita tentando controlar a turbe com o ponteiro, que saia em debandada do curral,…perdão, da sala de aula.
Para os “koninhas” cenas destas nunca aconteceram, mas mesmo que sejam uma realidade deveriam ficar para sempre enterradas no buraco mais fundo das nossas almas e connosco ao pó voltar. Mas porque no Colégio Militar o tempo nunca foi desperdiçado, continuemos, dizendo que a alcunha do Galo, professor de Geografia fora ganha na Escola do Exército por ter um bivaque que parecia uma crista, informação que serve de interlúdio à próxima cena dos anos setenta.
- Hoje vamos fazer uma Chamada Escrita, - informou a frio o professor de História e Geografia, de apelido Azevedo e alcunha “Feio”, que viera substituir o padre Peixoto, pousando a pasta em cima da mesa.
- Mas isto é à traição, - ripostou o Horrível, deixando cair o tampo da carteira.
- Os alunos estudiosos estão sempre prontos, - disse o Feio, começando a distribuir as folhas.
Quando retornou ao estrado verificou que os alunos tinham apenas preenchido os cabeçalhos. Por momentos trocaram-se olhares, de gozo os dos alunos, de raiva o do Feio.
- Olhem que eu dou um zero a todos! – Gritou, limpando com um lenço o suor da testa.
Nada, os discentes estavam irredutíveis. Aproximou-se do chefe de turma e perguntou-lhe:
- Então, não sabes nada?
Logo este, o 191, repetente. Não obteve resposta! A tensão estava no ar, o professor Azevedo ajeitava os tendões do pescoço que pareciam cordas repuxadas. Por fim cedeu:
- Então, quando é que querem a chamada escrita?
À noite o barulho na camarata era ensurdecedor, assim como o cheiro, apesar da corneta já ter dado o toque para as sombras e para os silêncios. Foram infrutíferas as várias tentativas para acalmar as hostes, por isso o graduado não teve outra solução senão abrir as luzes e dar ordem de sentido. Ia haver festa brava, nada que se assemelhasse aos métodos do 202/1901, de alcunha o Selvagem que, segundo relato no livro do 291/1934,   costumava resolver os problemas disciplinares pendurando os ratas de cabeça para baixo num galho duma árvore. “Impensável”, dirão os Koninhas, “não no meu colégio”. Prossigamos!
- 278, vamos fazer a ronda – chamou o oficial de dia.
- Sim meu capitão.
E como era habitual no colégio, o graduado acompanhou-o aos quatro cantos do espaço, que se dizia “educativo”, incluindo às cavalariças lá para os lados da formação. Todos faziam parte da família da Luz. De regresso às companhias, o oficial convidou o aluno a acompanhá-lo ao bar, a Soca, e por aí ficaram no meio de cafés e bebidas espirituosas até altas horas da madrugada. Após o derradeiro whisky ainda houve tempo para um último comentário:
- Sabes 278, muitos dizem que o capitão Caetano é isto e aquilo, eu sou duro quando tenho de ser, mas também sei ser vosso amigo!
Com estas breves estórias não fingimos ser o que não fomos, recuperamos sim as memórias sagradas e preciosas que nos abrem as portas do Colégio Militar, relembrando-nos que somos exilados do nosso passado.  
   

Saturday, February 21, 2015

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 71 - Antonieta









Comandante Guélas

Série Colégio Militar

As pernas da Rosa acolheram muitos gemidos apaixonados, ela engatava-os com tudo o que mexia, era uma flor aberta exclusivamente aos Meninos da Luz, porque amava o cheiro daquela rapaziada. Mas não dava vasão ao batalhão (até rima!). Por isso muitos aproveitavam a primeira sexta-feira de cada mês, após o jantar, para irem confessar-se ao seminário na ponta do Largo da Luz. Saíam a marchar, e pelo meio fugiam para as capelinhas…perdão, para as tascas de Carnide, enquanto os mais necessitados aventuravam-se com uma sessão contínua no Olímpia e Odéon, e os veteranos iam diretamente falar com a “Albertina das Mamas Grandes” e a “Dallas Cowboy”, lá para os lados do Bairro Alto. Mas um dia aconteceu o que parecia ser impossível: a Antonieta! Uma fêmea mais roliça, com o dobro da prateleira, logo o dobro da ereção e, para agravar a situação, também tinha uma pandeireta de sonho. A nova rapariga destabilizou o Gordini e grande parte do batalhão, habituados à filha do hortelão e à Maria Macaca e, nos dias de festa nos claustros, às pernas das mamãs dos ratas que os observavam do primeiro andar. E nas horas de desespero servia a mulher do Patronilha, cujo nome se mantém um mistério, sabendo-se unicamente o da sua irmã, a Júlia.
- Patronilha, a tua mulher nem com uma almofada na cabeça, - costumava dizer o Horrível.
Mas o vigilante dava sempre o troco:
- É feia mas f… bem!
Até o Chico Porteiro julgou estar a alucinar quando numa noite deu de caras com o Sub de cuecas e botas altas, no gabinete, atrás de uma senhora, tudo visível da rua porque as luzes do gabinete estavam acesas.
- Dentinho, - gritou alguém da quarta, quebrando o silêncio obrigatório do recolher.
O “homem” acordou assarapantado, e saiu a correr em direção ao corredor da companhia, disposto a apanhar os atrevidos e a aviar-lhes os vários abrunhos da praxe. Chocou violentamente contra a porta do geral, trancada com um piaçaba.
Quem não estava em bons lençóis era o 404, na aula de equitação a Nono pedira-lhe colinho e sentara-se em cima do seu joelho. Valera-lhe alguém “c’um saber só de experiências feito”:
- Toma estas duas aspirinas, e espera pelo Dr. Salgueiro Rego, que chega daqui a duas horas, - disse o Valentim tirando o braço do frasco castanho cheio do produto made in Laboratório Militar.
Acabou internado na Falca (enfermaria) a apanhar injeções nos pés, porque o enfermeiro não conseguira descobrir as veias dos braços por estarem “escondidas pela gordura”. Mas a conversa do dia era a queda do padre Baldomijo, perdão, Valdomiro, que tinha feito uma curva mais apertada com a sua Lambreta, talvez devido à tensão alta causada pela cena da dama com as mamas a abanar do filme de quinta feira, “A Quadrilha Selvagem”, contando agora a todos que vira uma “luz” antes de bater com os costados no chão.
- Deve ter visto as cuecas da Antonieta, - arriscou o Peidocueca.
No primeiro andar o Moreira gritava desesperado com os alunos que tinham acabado de lhe atacar o armário, mal abrira a porta, recheado de Bolama:
- Bós sois piores que os ciganos!
Na semana anterior tinham-lhe tirado os fundos do armário e por isso quando se preparava para iniciar o complemento do ordenado, já com uma fila de clientes devidamente ordenados, e com distância de segurança, das bolas de Berlim e dos mil folhas só restava algum açúcar e umas poucas páginas. No campo de futebol de 5 a festa ia animada no jogo de professores contra alunos, o Carioca levara uma cueca dum discente mais habilidoso, que fizera passar o esférico entre as suas pernas, e causara um burburinho na assistência, que o pôs irado não tendo descansando até lhe ter dado uma porrada cristã. A estória acaba no pátio dos fâmulos com o Barnabé, motorista do Diretor, a tentar impressionar a Antonieta, ajeitando a peruca laranja e mostrando o seu stand de carros usados, cujo contacto da empresa era o número da central do Colégio Militar, que tinha um aviso para o chamar caso fosse algum cliente.


Wednesday, January 28, 2015

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 70 - Único & Única



Comandante Guélas

Série Colégio Militar

O Colégio Militar sempre foi um paradoxo e sempre manifestou um desconforto, porque sempre foi uma crítica ao sistema vigente, que não poupava inimigos nem cúmplices. Pagou com a omissão ou com uma má reputação esta atitude. Por isso a estória vai começar pelo Único e ser encerrada pela Única, duas personagens colegiais que ficaram para sempre gravadas nas memórias de várias gerações de alunos.
No picadeiro o Jaimito preparava-se para dar uma aula de equitação, e mais uma vez destinava um quadrúpede desaparafusado, o Único, ao aluno com quem mais embirrava, o matulão do 480, que tinha um pavor por este tipo de mamíferos. E estava à frente de todos. Atrás de si tinha o Salame, que mordia, seguido da Rata, uma égua branca que dava cangochas quando lhe tocavam na garupa. O quarto era o Quadrado, de cor castanha e feitio muito vivo, que um dia partiu o braço ao 80. Seguia-se o Alfange, uma máquina a disparar coices por tudo e por nada, com o Eusébio, que tinha mau feitio, atrás de si. Continuavam a Tangerina, a Quirina, o Patacho, o Vapor, o Cabeça de Mula,  e muitos outros quadrúpedes que ficaram para sempre nas memórias dos alunos, e que também passaram pelos estômagos de alguns, porque fazer parte desta estranha família dos Meninos da Luz, implicava sacrifícios. E não nos podemos esquecer da Nono, uma égua mansinha mas que, para não fugir à regra, também gostava de dar coices. Por isso ia sempre para o fim da fila. O oficial colocou-se num dos cantos do picadeiro com o chicote na mão, e ordenou ao soldado que o ajudava para se posicionar noutra ponta, também de chicote na mão.
- Montar - gritou, dando início à aula de equitação.
Quando o barulho dum relâmpago cortou o ar todos se puseram em movimento, cada vez mais acelerado, à medida que a trovoada aumentava. O que montava a Tangerina depressa ficou pendurado, com uma mão no arreio e preso só num estribo. De repente o barulho de um saco de batatas a cair no chão com estrondo sobrepôs-se a todos os outros. Era o 480, que tinha sido traído pelo efeito da força centrífuga!
- Quem é que mandou apear? – Gritou o Jaiminho aproximando-se do aluno.
- Eu não aguento mais, meu capitão.
- Já lá para cima.
Nova corrida, nova rodada, os chicotes voavam por cima das cabeças de todos, e o 480 já se agarrava desesperado ao cepo da sela.
- Se te voltas a agarrar aí vais ao chão, - avisou o equitador, atirando o chicote para cima do Único.
Deixemos esta aula alucinante, impensável nos dias de hoje, porque os cavalos são de pôr moedas, iguais a muitos que estão à porta das pastelarias da capital, e mesmo assim os pais dizem à associação que os filhos se queixam de “dores no rabo” e continuemos o passeio pelas nossas fabulosas memórias do século passado. 
- É gado, é gado, - gritava o Semita distribuindo ponteiradas pela turma, que tinha estado a imitar ruídos de animais à medida que o ajudante do engenheiro Grijó, também conhecido por Ruca e Fiasco, cortava as doses de sódio e potássio que iriam ser usadas na aula prática de química. – Psché, num monte de esterco fazeis nódoa.
O 376 estava com a cabeça no devir, olhava com orgulho para o Cartão de Identidade duplo, que lhe permitia sair do colégio quando bem entendesse. O “Homem” (Oficial de Dia) guardava religiosamente os originais, que iam para o geral das companhias ao sábado, dia da saída geral. Esta era a maneira mais cómoda de sair. E como ele, muitos também possuíam um duplicado.  A aula de Biologia do Perdigão decorria dentro da normalidade até que o professor pediu ao 125 para explicar à turma os efeitos visuais do caroteno. O aluno levantou-se, como mandavam as regras, e disse:
- Quando a minha mãe põe os tomates ao sol, - e foi interrompido pelo riso geral da turma.
Na música o Carioca estava no ensaio para a mudança de voz, e tinha à roda do seu órgão o 515, que também possuia um Cartão de Identidade extra, o 518 e o 351.
- 518, cante, - ordenou o professor.
- “Dó, Ré, Mi, Fá…”
Os colegas riram e gozaram com a voz estridente do colega. O Carioca olhou para o 351 e pediu-lhe:
- Olha ó menino, vai ali à bateria e traz-me as baquetas.
O 515, que estava de frente para o docente, desconfiou do pedido e preparou a fuga. Quando o colega satisfez, a rir, o pedido do Carioca, este levantou-se e arriou-lhe forte e feio com os paus, ao mesmo tempo que o avisava, “não estamos no recreio”.
Através destes flashes das memórias sente-se o respirar do colégio, assim como o vento e a luz, que são cúmplices da nossa passagem pelo espaço. Por isso esta estória, que foi iniciada pelo Único, é agora encerrada pela Única, a mítica Rosa, a musa dos anos setenta, presença habitual em todos os sonhos colegiais, metamorfoseada em centenas de almofadas, atual funcionária do SEF, na ponta final para a reforma. Se o país fosse justo, os anos que passou a bambolear-se para os Meninos da Luz deveriam contar a dobrar, e estaria por isso agora a curtir o sol em qualquer uma das Ilhas do Seixal. E vai agora acompanhada pela Maria Macaca, uma aquisição já dos finais da década!

Saturday, November 01, 2014

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 69 - Boiada de Abril

                                                                                 
                                                   Comandante Guélas

                                                        Série Colégio Militar



 


O Colégio Militar tinha determinadas atividades culturais exclusivas, e muitas delas excessivas. Havia uma que geralmente deixava sequelas: a boiada! E um dia na segunda década do século passado uma destas brincadeiras com um professor durante uma refeição chocou tanto o diretor de barbinha afiada, que se apeava sempre nos claustros às cinco e meia da manhã , que se suicidou com um tiro na cabeça.  Mas cinco décadas depois deste peculiar acontecimento, e com muitas boiadas pelo meio, porque as tradições eram as fundações do colégio dos Meninos da Luz, uma sessão de esclarecimento dirigida pelo 265 de 1956, quase lhe ia custando a vida, a sua e a dos cinco artistas que o acompanhavam. E foi neste dia que o Cueca Sueca o enfrentou com um “ardor guerreiro”, ficando para sempre nas memórias dos seus camaradas. Quando o 33 de 1920 participou na revolução de abril, nunca pensou que iria ter tantos problemas com colegas de carteira. O país estava submerso numa anarquia profunda, no campo de futebol de onze aterrara, sem qualquer tipo de autorização e segurança, um Alouette, que fora rodeado por alunos curiosos, mesmo com os motores em funcionamento, porque o cunhado do 224 resolvera fazer-lhe uma visita, e assim o Colégio Militar recebeu um dia a visita de seis revolucionários de ocasião, para uma "Sessão de Esclarecimento". O espaço era um dos raros aquartelamentos que não se deixara deslumbrar pelos “amanhãs que cantam”, o 442 já sofrera na pele a ousadia de desfraldar a bandeira vermelha daqueles que estavam a entregar partes da nação aos inimigos, mas tivera sorte de não ser arremessado pela janela do primeiro andar, numa espécie de 1º de Dezembro antecipado; as companhias recebiam visitas frequentes de militares com dísticos a informarem que eram do “COPCON”, tendo um dia um deles saído em passo de corrida da 3ª, depois de ter sido emboscado numa das camaratas, onde ainda sentiu a deslocação do ar das escovas para engraxar sapatos que lhe assobiavam aos ouvidos; também apareceu um barbudo durante uma das formaturas a querer impingir fardas novas, apelando ao "voto democrático" dos Meninos da Luz, que o puseram vermelho de raiva ao escolherem um conjunto digno das atuais “Paradas Gay”; e o carro com os adidos militares polaco e russo levara uns valentes abanões durante a Abertura Solene do Ano Letivo. Todos estes sinais deveriam ter sido levados em consideração pelos seis militares da Quinta Divisão que resolveram naquele dia ir ter um encontro "pedo-revolucionário" com o batalhão colegial, no ginásio. O ex-265, agora capitão da Quinta Divisão, julgava que estava no tempo em que fora um Comandante déspota da 3ª Companhia, e por isso pensou que poderia dizer o que lhe ia na alma quando iniciou a sessão:
- Camaradas (o conceito tinha agora para ele outra conotação), este colégio é para os filhos dos ricos e privilegiados, para as elites, - gritou o Paulino com o punho cerrado levantado, sendo aplaudido pelo comandante Varela, que estava sentado ao lado.
Sentiu de imediato uma plateia hostil, muitos daqueles que estavam lá em baixo eram órfãos de pais,  caídos aos serviço da Pátria, porque nunca tinham virado as costas à defesa do país, ao contrário daqueles que no palco tentavam trair o seu povo todos os dias. O ex-265 era um homem melancólico e taciturno, que não passava de um eterno candidato a conquistador de bairro, conseguia ter nestes tempos tristes algum sucesso nos encontros com as operárias de bigode e sovacões revolucionários. Havia no Paulino uma inquietação, não se insinuava qualquer linha de fuga imprevista, estava num estado de insanidade porque tinha tomado consciência, perante aqueles verdadeiros camaradas, da humilhante situação a que chegara. Os segundos passaram um a um. A verdade revelou-se insuportável, estava com os olhos no chão, era incapaz de encarar aqueles rapazes fardados de cotim, sentia um vazio na alma e a incerteza absoluta no dia seguinte, os seus sentidos estavam a perder a unidade. Até que alguém da assistência levantou um braço, a pedir licença para intervir. O 265 de 1956 tinha à sua frente um rapaz franzino com o cabelo cor-de-cenoura, e pensou que finalmente alguém lhe iria dar razão:
- Meu capitão, o meu pai não é rico, nem tem privilégios, mas não tenho culpa de o seu os ter, - respondeu com orgulho de ser Menino da Luz o Cueca- Sueca, o 279.
O coronel Varela Gomes, comandante da 5ª Divisão do Exército, sentiu o cheiro nauseabundo do subordinado:
- Borraste-te Paulino!
- Temos de sair imediatamente daqui chefe, se queremos manter-nos vivos!
- "O Colégio Militar não está com o MFA", - gritavam os alunos.
Valeu-lhes a pronta intervenção do sub-Diretor Oliveira, que sonhara com uma promoção ao convidar esta turbe para botar um discurso revolucionário no Colégio Militar. Foram vistos a correr pelo campo de futebol em direção à saída, perseguidos por um batalhão que se preparava para lhes aplicar um “Ramalho”, uma das tradições colegiais, mas que desta vez seria fatal.
- Senti também que o Oliveira se borrara, - contou mais tarde o Miranda, que quase ia chocando com eles, lá para os lados do Pavilhão de Química.