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Monday, December 16, 2013

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 53 - A Nossa Luz


Comandante Guélas
Série Colégio Militar


Vale a pena contar os acontecimentos da vida dos Meninos da Luz, porque se reconhece neles um significado decisivo e profundo. No século XIX por causa de um artista com um Q.I. igual ao do Alguidar, o colégio foi momentaneamente extinto. Por isso é preciso ir resgatar ao passado as palavras adequadas ao momento:

- “Verticalidade, meus meninos, é o que se exige, quanto mais se dobra a espinha mais o rabo fica a jeito!”

São detalhes tão delicados e preciosos que nos preenchem o encantamento que sentimos por este espaço. O lendário estabelecimento militar junto ao Largo da Luz era uma instituição sui generis, onde os alunos eram conhecidos pelos números, e os cães e os cavalos pelos nomes. Mas havia mais excentricidades!

- O Colégio Militar é o único local do país que canta o hino nacional a 6 vozes, - dizia com orgulho o meia-leca do professor de música narigudo e com careca avantajada, encostado ao órgão, em cima dum estrado, que fazia a vez de tacões.

O Carioca não estava com toda a certeza a pensar no 324, que tinha grande dificuldade na despalatização, e que nunca conseguira retirar a humidade das camaratas das cordas vocais, encravando com regularidade a língua no “entre as brumas da memória”, cantando “entre as brumas da mimória”, levando sempre o docente, atento a coisas mínimas, a um esbugalhar de olhos, um vociferar para dentro, seguido de uma fúria tão grande que levava o padre a pecar de imediato, com dois chapadões à maneira.

- Pior do que tu só aquele tenente-coronel pequenino, escuro e enrugado, que só faz merda, - desabafou um dia.

Mal ele sabia que este gesto inconsequente iria ter repercussões para toda a vida do sub-Diretor, pois este acabara de entrar no panteão das alcunhas: Olho-do-Cu!

Por isso, só uma minoria servia para aves canoras, estando as canas rachadas arrumadas, a excentricidade maior, no Canto Coral, que no resto do país significava elite.

- Encontrámos um cavalo na serra de Monsanto, e pensamos que vos pertence, - informou o guarda da GNR quando o Oficial de Dia atendeu o telefone.

E era verdade. Havia sempre confusão de cada vez que os cavalos eram levados para as aulas de equitação. No Largo da Luz seguiam em procissão bichos com os carretos gripados, em direção à Azinhaga da Fonte, no fundo da qual entravam no colégio e no respetivo picadeiro. Davam coices nos soldados, nos colegas e faziam riscos nos carros. Por isso às vezes extraviavam-se!

Só um colégio com o lema “Mente Sã em Corpo São” é que foi capaz de dar ao país adultos com tanta qualidade como o Gordini, o Peidão, o Escalope, o Zacarias, o Cão, o Leitão, o Pitosga, o Beterraba, o Six, o Maneli, o Coiote, e tantos, tantos outros que “por obras valorosas “ merecem pertencer à “Ínclita Geração”.

- Não se mexam, - gritou o enfermeiro Valério à medida que espetava as agulhas nos Meninos da Luz alinhados.

Seguia-se o colega Valentim com uma seringa atestadinha de produto, distribuindo uma dose a cada rapaz. De novo o Valentim para recuperar o material e desinfectar, com o mesmo algodão, a zona de penetração. Por isso uma das provas de admissão consistia em inspecionar a fruta dos petizes, para ver se era normalizada, uma modernice que se estendeu às leguminosas do país muitas décadas depois.

- Ó puto, julgas que eu estou aqui porque quero? – Perguntou ao futuro 191 o soldado ajoelhado à sua frente, com um tomate em cada mão, quando ouviu o riso do candidato. 

O 601 levava tão a peito o parágrafo oitavo do “Código de Honra”, “ser generoso na prática do bem” que, em vez de requisitar egoisticamente solarina “Coração” para dar brilho aos botões enfiados na Tala, instrumento que os separava do pano da farda, para não a manchar, escreveu na folha “Camisas de Vénus”, possivelmente para distribuir pelos colegas. O senhor Manuel é que não compreendeu o gesto e por isso saltou o balcão e correu atrás do artista, disposto a fazer-lhe a folha. E um dia até requisitou a Rosa!

Quando o padre Castelão chegou à aula de Religião e Moral, já com atraso, deu de caras com o 78 a fazer a vez de professor, sentado na secretária, e a abanar algo para os camaradas:
- Estas são a chaves do Céu!
Acabou o dia na barbearia com uma carecada.

Dizer a verdade e não mentir era um mandamento sagrado e incondicional do Colégio Militar. Não havia nenhuma circunstância, nenhum pretexto, nenhuma conveniência, nenhuma motivação para mentir. Mentir implicava a rejeição da dignidade da Luz. Foi com os olhos postos nos 10 mandamentos que o 413, actualmente a residir no Algarve em formato hippie, arriou com tanta força no 191, que “até me doeu”, disse mais tarde o 120. Felizmente o  mandamento nove estava suspenso desde a fundação, tal qual como o quinto mandamento do Moisés, e por isso todos os procedimentos tinham decorrido dentro da lei. Uns minutos antes a algazarra na camarata era tanta, que obrigara o graduado a medidas extraordinárias. Acendeu as luzes e com o mandamento cinco (“ser verdadeiro e leal, assumindo sempre a responsabilidade dos seus atos”) no pensamento, gritou:
- Quem não está a falar, lá para fora.
Saíram vários, incluindo o 31, que estava a decorar a matéria em voz alta, e que segundo as suas convicções safava-se graças ao quatro, “dedicar à sua formação todo o seu esforço e inteligência”, que o excluía da categoria de ruído. Felizmente nem todos iriam ter direito a ceia, duas estaladas bem aviadas por desrespeito à corneta, que já declarara há mais de meia hora que o tempo era de silêncio. Na semana anterior não fora assim, por causa de um artista que se deitara de cuecas, um desrespeito aos procedimentos militares, todos tinham tido direito a uma dose. E foi durante o ritual de preparação para a festa que o 191 fez uma pergunta, por gestos, ao 120, que lhe respondeu na mesma linguagem. Azar, o 413 estava raivoso e interveio de imediato:
- Estás a falar, apresenta-te, - sinal de que iria ter direito a uma entrada.
O 191 lembrou-se do mandamento dois, “dignificar a farda que enverga”, no caso o pijama, e interveio, assumindo as responsabilidades, fora ele o responsável pelo gesto ruidoso do colega.

Circulava a informação de que o vinho das refeições, outra excentricidade, além de água também continha cânfora, destinada a açaimar o íntimo. Mas não é isso o que a literatura da especialidade diz! Talvez esteja aqui encontrada a explicação do porquê das “Ginas” terem estado durante longos anos no top das preferências, mesmo com a concorrência feroz do livro de estudo de português que dizia “piscis conas funderunt”, sinal de que ensinar línguas mortas neste espaço educativo desenvolvia tudo menos o intelecto.
Nestes tempos marchava-se para todo o lado, o “esquerdo direito, op dois, esquerdo” era o que mais se ouvia, seguido de continências o dia todo. E como de início a confusão de fardas e patentes era uma constante, o 502 e vários colegas saudaram um dia com aprumo um inspector da carris que entrou no eléctrico impecavelmente fardado para pedir os bilhetes aos passageiros.
 

Wednesday, October 30, 2013

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 52 - Simplesmente Vapor

Comandante Guélas
Série Colégio Militar
O Vapor


- É o Gui que vai mandar na Força dos Estabelecimentos Militares de Ensino, - ordenou o Alguidar, levantando-se e pondo-se em bicos dos pés.
O silêncio pesava. O Tó sabia que todos sabiam que ele era mais um daqueles ministros que nunca comandara nada, e que agora tinha tido a oportunidade da sua vida, negada uns anos antes pela “enurese”, declarada por um atestado semelhante ao da sua licenciatura. O país tinha um político em processo de “transferência”, deslocava sentimentos do passado, ausência de pilão ao despertar, para pessoas do presente.
- Mas senhor ministro, os outros já cá andam há mais tempo.
O assunto estava a transformar-se num jogo floral, com barricadas e trincheiras, o poder usara e abusara de inépcia política, assumindo o confronto como forma de vida, os do outro lado, estavam fechados no seu mundo, perdendo a capacidade de entender o que os rodeava. Todos faziam poucas tangentes à realidade, havia adagas e espadas a tilintar.
- Quem manda sou eu, está decidido, o gordinho vai comandar.
O fundamentalismo instalara-se na Luz, já nem o pin escapava, havia quem os quisesse tirar àqueles que no  passado tinham dado luz à gloriosa Luz, o Moca, o Patronilha, o Miranda, o Semita, o Carioca, e aos que com orgulho e competência os substituíram, mostrando que o local estava sempre para lá de formatados conceitos estéticos. A “Geração Calimero”, alimentada a Suissinhos, que nunca provara um amarelo feito com bifes da testa e ovos do pai da Rosa, saídos do interior das galinhas desmaiadas com o clorofórmio que alguns tinham desviado ao Valentim e arremessado para cima das aves, pedia uma revolução, e quando escutavam nos ipod o Pequeno Saul, o seu líder incontestado, apetecia-lhes bater em alguém. Por isso esta estória merece um ponto parágrafo.
O passado com estórias continua a ser uma memória útil, onde certas decisões eram difíceis de tomar, mas representavam um grande ato de coragem. O Vapor era um equino rebelde, acreditava na possibilidade de escapar ao sentido único do seu tempo, que o reduzia a uma simples cavalgadura militar, com direito a número mecanográfico e a documento oficial de existência. A oportunidade surgiu num 3 de março e abalou as convenções, o Vapor fez uma insurreição do espírito que deixou no éter, e nas memórias de muitos, a sua marca, não com “engenho e arte”, que isso era exclusivo da rapaziada, mas sim com “engenho e ferradura”. O Colégio Militar era detentor do mais antigo título de legitimidade na arte de receber figuras ilustres e iria mostrar, mais uma vez, que estava de boa saúde. Preparou-se com “ardor guerreiro” para a visita de um português que uns anos antes enfrentara, durante uma campanha eleitoral, os tiros de uma pistola, subindo para o tejadilho dum carro, tal qual um “doirado pomo brilhante”, tornando-se no alvo perfeito:
- “Não tenho medo”, - gritou para a turba que o esperava em Évora, no longínquo ano de 1976, deixando para sempre um risco na superfície da cidade alentejana.
Por isso tinha à sua espera a meio da estrada da Luz a Escolta a Cavalo, onde se incluía o célebre Vapor. Os cavalos envergavam fato de cerimónia, assim como os Meninos da Luz, que só podiam pertencer a esta elite com as “lides do estudo” alcançadas. E eles montavam como mais ninguém! Quando o barulho dos cascos de encontro aos paralelepípedos se tornou audível, o comandante engrossou a voz e:
-  Batalhão…firme…sentido!
A sinfonia das botas e das armas dos alunos juntou-se ao ritmo dos equinos, e ao carro que trazia o presidente.
- Ombro arma, - continuou.
O Mercedes parou junto ao monumento, e o Vapor encostou de imediato a garupa à porta por onde a excelência pretendia sair.
- Apresentar arma!
E apresentadas ficaram, pois careciam do consentimento do visitante para regressarem aos ombros. Quando o presidente quis abrir a porta do bólide, esta esbarrou com o traseiro roliço do Vapor, que espreitou através do vidro. O bípede sentiu a fúria de seguir em frente, mas o quadrúpede tirou-lhe o cavalinho da chuva, parecia querer fazer-lhe a folha. Por causa do impasse, a maioria dos militarzinhos encaixou o cão nos cintos e aliviou o peso das armas, que já estava a tornar-se insuportável. A pressão interna na porta do Mercedes preto era igual à pressão externa. O Vapor estava inamovível. Por breves instantes o Gordini fez a revisão da matéria dada:
- Qual é a unidade padrão da pressão? – Perguntara uns tempos atrás o Semita ao seu colega Peidão.
- É o Rascal! – Respondera a seco o colega, provocando o riso da turma.
- “RASCAL”???? Moçooo, sabes o que é um Jericoacéfalo? É o que tu és….um burro sem cérebro, - e deixou cair o ponteiro no coco do 191, – ao mesmo tempo que se virava para a turma. – Nesta aula uns dormem de olhos fechados, outros de olhos abertos.
- Esta cavalgadura não vai ficar a rir-se, - pensou o ilustre visitante exasperado, empurrando a porta com raiva, riscando o vidro com as estrelas.
O equino foi apanhado desprevenido, afrouxara o flanco depois de sentir os esporins a picarem-lhe a barriga, e perdera a primeira batalha.
- A mim ninguém me pára, - disse orgulhosamente o presidente quando sentiu a cabecinha ao vento.
Compôs a farda, ajeitou o chapéu, e olhou com desprezo para o Vapor, que espumava por todos os poros. Mas este já tinha feito os cálculos, e por isso disparou de imediato um soberbo coice, decidido a fazer a folha ao intruso. A direção das ferraduras estava correta, o queixo do inimigo era o alvo, o local previsto para a aterragem indefinido, mas uma mão invisível protegeu ambos de um destino cruel, o bípede safou-se de ficar com a cara ainda mais à banda, o quadrúpede de ser transformado em bifes no jantar seguinte e o colégio de alterar o sentido da História. A partir deste momento o visitante registou para sempre nas suas memórias que o único vento de uma tempestade inesperada, veloz e aterradora, com o cheiro da humidade da palha apodrecida, não do domínio do ar, mas do interior obscuro das cavalariças, fora sentido na Luz.  

Monday, September 30, 2013

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 51 - O Triunfo dos Porcos






Comandante Guélas

Série Colégio Militar


“Para certas exclusões pode haver justificação, mas se não se trata de um curso que exija aptidão física, não estou a ver qual”
Reis Novais

("um dos mais conceituados constitucionalistas portugueses" - DN)


Neste 1º de dezembro de 2020 matavam-se vários coelhos de uma só cajadada, o Fábio, o primeiro presidente da República anão, que entrara para a política como Vanessa, e mudara a identidade aos 16 anos, aproveitava a cerimónia para vir inaugurar as novas camaratas para os alunos seus conterrâneos, erigidas no jardim do Palácio do Conde de Mesquitela, "enferma" para os antigos, onde durante muitos anos reinara o saudoso enfermeiro Valentim, uma espécie de professor Karamba, que curava tudo com aspirinas e sais de fruto,  obra esta desenhada à imagem do Portugal dos Pequeninos, que vinha ocupar o espaço que durante muitos anos fora exclusivo do lago, onde tantos atiraram tantos para o charco. Após o Tribunal Constitucional ter declarado que as regras de acesso ao Colégio Militar, no seguimento de uma notícia de um dos pasquins do regime, serem inconstitucionais por “exigirem testes físicos e psicotécnicos”, o número de candidatos aumentou exponencialmente, tendo obrigado a rápidas transformações arquitetónicas, que custaram milhões de euros aos cofres do estado, e a constantes acrescentos por força de providências cautelares que passaram a atirar o início do ano letivo para esta data, agora sem qualquer significado. O Edifício Berta, que a “Brigada Zacatraz” frequentemente grafitava com um “A”, destinado inicialmente ao sexo feminino, cuja construção não respeitara o projeto inicial, encurtando-o, para assim poderem ser desviados alguns milhões para uma offshore,  fora obrigado a sofrer várias alterações à medida que as exigências da sociedade civil faziam as primeiras páginas de todos os jornais diários. A primeira deu origem a várias camaratas para acomodar LGBTTTs (Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis, Transexuais e Transgêneros), cujo primeiro “T” foi de imediato sujeito a uma providência cautelar que obrigou as “alunas indefinidas” a pernoitarem numa área provisória do picadeiro, onde ainda continuavam ao fim destes anos de reformas compulsivas. Mas a epidemia de providências tornara-se crónica, esperava-se agora, a qualquer momento, o veredito sobre o pedido de um novo espaço destinado às alunas com burka. E neste dia primeiro de dezembro a capa de um pasquim dava conta de uma nova polémica, a descriminação que os alunos de estatura normal tinham sofrido desde a aceitação de anões nas fileiras do ex-Colégio Militar, agora Externato Teixeira Rebelo, e futura Cooperativa de Educação e Reabilitação da Luz, uma ideia do brilhante constitucionalista Dr. Maom-erda Al-Guidar, um filho ilegítimo de mãe marroquina e do pai Branco, que os tinham definitiva e anticonstitucionalmente afastado do acesso ao título de “batalhãozinho”.
- Fiz tudo para que o meu filho, o 45, Cuecas de Barbie, ganhasse o título, fechei-o dentro de um microondas quando nasceu, racionalizei a comida, e mesmo assim cresceu tornando-se agora vítima desta discriminação inconstitucional, - queixara-se um pai no jornal das oito.    
E ainda por cima a mensalidade era menor, porque ocupavam menos, consumiam pouco, um ovo das galinhas do sucessor do pai da Rosa  fazia cinco amarelos, um pano do tamanho dum lençol normal dava para fazer um enxoval e bastavam camas iguais à do Kent nas camaratas.
- É com grande orgulho que venho declarar abertas as aulas, - principiou o presidente ao colo do seu ajudante de campo. – Este colégio é o espelho do país, os portugueses e as portuguesas esperam de vocês a continuidade do nosso esforço, e ao esforço dos nossos antecessores, a Aberta e o Alguiar, a quem desde já atribuo dois números e duas alcunhas honorários, tal como fizeram há uns anos atrás ao Aníbal, o 695, cujo silêncio o tornou um  aliado de peso das nossas reformas, respetivamente 901 e 902, a Padeira e o Pena Branca. Graças aos constitucionalistas visionários Reis e Otero posso hoje saudar a Companhia dos Coxos, ver marchar o pelotão dos Destravados, abraçar o Comandante de Batalhão, o 879, o Pega à Manivela…..
Felizmente a corneta tocou, o 191 (Peidão) e o 601 (Gordini) tinham uma apresentação à alvorada!

Wednesday, September 25, 2013

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 50 - Uma coisa chamada Fernanda


Comandante Guélas

Série Colégio Militar

Os lençóis levantaram-se com estrondo, levados por um vento e por uma tempestade inesperada, brilhante, veloz e aterradora, que não era do domínio do ar, mas do interior obscuro dos intestinos, com ligação direta ao cérebro. Seria real ou apenas uma alucinação o pungente pesadelo da “jornalista”, fruto de um estado psicótico atormentado pelos spots televisivos dos Meninos da Luz? Ouviu murmúrios que caiam uns sobre os outros, viu olhares hostis, medonhos e perversos, os pensamentos ficaram caóticos, excessivos, fantasmagóricos, estava ali e fora dali, distante com proximidade, num universo fragmentado no tempo e no espaço, com um clima de tensão no limite do insuportável, cheio de pássaros negros chocando no ar. Queixava-se de ter sido atacada por vibrações emitidas por uma barretina, alucinação causada por fumo ilegal, por isso ouviu uma tosse surda vinda das paredes do pardieiro, sentiu uma entidade estranha, viu então uma mulher lívida, de sorriso estampado na cara, com um olhar doce. Aproximou-se com a ganância que lhe era conhecida, mas esta transformou-se num homem com sotaque do Porto, calças apertadas a meio da barriga e um contínuo mascar de tabaco, que lhe atirou uma soberba cuspidela para dentro da cara lúgubre.
- Querias, - gritou-lhe o Menau. - Bai-te lá deitar ó calhau com olhos, tu és “a desonra dos valores essenciais da república portuguesa, um atentado à razão”, mesmo sendo eu monárquico.
- És um “híbrido escandaloso”, - acrescentou outro de nariz saliente, voz rouca, vinda do fundo, e cabelo amarelado, - uma bronca, nem uma bengala mereces. Na tua profissão, que é a mais antiga, umas dormem com o olho fechado, outras com o olho aberto, por isso nunca aprendeste a ser autêntica.
Fernanda tossiu uma tosse seca e nervosa, e esfregou, com rapidez e repetição, as mãos, que só sabiam escrever obscenidades, injúrias e insultos.
- “Criada na monarquia para os rebentos das elites do exército”, - leu o professor de Português, aproximando a cara da coisa. – Rebentos das elites?
- Sabes o que é um Jericoacéfalo? – Perguntou-lhe o professor de Físico-Químicas. - É o que tu és….um burro sem cérebro. O Rebelo criou o colégio porque estava preocupado com a educação das crianças e jovens familiares da sua guarnição.
Como é que uma pessoa, sem qualquer tipo de vocação, cuja educação se baseara no oportunismo, como ficara patente uns anos antes ao aceitar fazer o papel de namorada de um político, obrigando-a a inventar um sentimento que não sentia pelo género oposto, poderia agora dar palpites sobre o Colégio Militar?
- Sabes “porque é que ainda existe”? – Gritou o Ferrari, puxando-lhe por uma orelha. – São duzentos e dez anos !
Fernanda procurou um pensamento mais forte, pensou no ontem e no amanhã, mas o ar estava saturado de cansaços, decadências, desistências e derrotas. O Ferrari, professor de português vindo do Além, porque as circunstâncias assim o obrigaram, pôs uma mão no bolso, tirou um maço de Kart, colocou um cigarro na boca e acendeu-o calmamente, atirando-lhe o fumo para a cara, ao mesmo tempo que torcia a coisa da coisa:
- Escuta, Fernanda, não passas de um peido e julgas-te perfumada a violetas!