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315 estórias

Saturday, October 25, 2014

O Agapito



Comandante Guélas

Série Colégio Militar

O Colégio Militar sempre foi uma comunidade maior do que o território onde se inseria. Por isso há portas que se fecham para sempre e outras que se abrem em lugares inesperados. O que se conta aqui é uma estória curta e antiga que só agora se liberta dos seus sótãos sombrios, uma viagem no tempo capaz de nos descarnar emoções e de nos fazer ouvir sussurros a sair das linhas. As aventuras colegiais são intemporais. Por isso o desabafo do Semita para alguém da arraia miúda, “Psché moço, num monte de esterco, fazes nódoa”, contrastava com a deferência do Menau para este aluno especial, que entrara excepcionalmente para o 5º ano do Liceu:
- Vossa Alteza, dá licença que mande sentar?
O 97 de 1960 ficou para a história do Colégio Militar como aquele que conseguiu a classificação mais alta na disciplina de Português ministrada por este docente com sotaque do Porto, calças apertadas a meio da barriga e um contínuo mascar de tabaco, alternado com soberbas cuspidelas para dentro da gaveta da secretária. Com o Agapito entrou também um irmão, para o 3º ano, que recebeu o número 80. De início a família quis inscreve-lo no 6º ano do Liceu, mas a direcção colegial foi de opinião faze-lo recuar um ano para se adaptar ao sistema. O primeiro embate deste aluno especial deu-se quando viu a pedagogia da instituição a funcionar em pleno. O Semita punha ordem numa turma barulhenta, distribuindo pauladas com o ponteiro, à medida que gritava:
- É gado, é gado!
O 97 depressa mostrou que nunca iria ser contemplado com qualquer tipo de posto comando, a não ser o do país caso o regime mudasse. Nunca se atreveu a comer o reforço da manhã, a refeição que punha à prova o “ardor guerreiro” dos estudantes, que consistia numa corrida caótica em direcção a um cesto geralmente cheio de pão com marmelada, onde mergulhava toda a turbe alucinada que saia em debandada da sala de aula após o toque da corneta, pondo em fuga os funcionários que a tinham trazido. Destas molhadas saíram os oficiais mais condecorados do Exército Português, excepto o Agapito que só teve direito a umas poucas caricas por causa da cor do seu sangue. No 6º ano o 97 não cumpriu os requisitos mínimos académicos, nem em fazer cábulas era competente, e por isso teve de repetir o ano e esforçar-se para não ter novo percalço. No 7º ano ganhou uma estrela, ter um herdeiro abaixo desta graduação era mau demais para o aspirante à Coroa, e deram-lhe o cargo de “Relações Exteriores”, que nunca ninguém soube para que servia. Por não ter deixado muito rasto na Luz, a estória acaba aqui. Foi abatido ao Batalhão Colegial no dia 31 de março de 1964 a pedido da família, porque se descobrira que o Agapito só tinha sangue para reinar no país, e não para estudar no Colégio Militar, onde a prestação académica era pouco abonatória e pouco substantiva. Um segundo chumbo significava uma expulsão, mais uma nódoa que a Dinastia não iria suportar.

 



Sunday, September 14, 2014

Marinho



Comandante Guélas

Colégio Militar

Esta estória é uma meditação lúdica sobre a realidade e a ficção, conceitos que não são nada óbvios, porque estão sujeitos a uma existência periclitante. As memórias do Colégio Militar não são lineares, nem fáceis de encaixar numa categoria única, pois o nosso futuro foi preparado com serenidade e sabedoria. Assim, a resposta do tenente Aparício, um meia-leca que ostentava num dos ombros uma placa para adultos a dizer “Comandos”, ao pedido do Minhoca para lhe assinar uma requisição, manteve a coerência:
- Tou-me cagando, mete na caixa!
Estavam ambos à beira de um ataque de nervos, o oficial por estar a tratar de um assunto não muito usual, um SOS do professor Cymas de Azevedo, que se queixava do comportamento indigno de uma turma, cujos alunos tinham passado toda a aula a imitar ruídos de animais:
- Não consegui dar matéria, parecia que estava no Jardim Zoológico, - explicava nos claustros.
As relações entre o docente e os discentes ainda estavam quentes, pois alguém gritou:
- Feio, estás com a franja nos olhos!
O tenente ficou a falar sozinho, pois o professor de História saiu a correr em direção ao primeiro andar. Por isso a resposta seca e zangada do Aparício mexera com o 280, trouxera-lhe à memória a embirração que o capitão Caetano tivera com o seu cabelo durante os procedimentos que anteciparam a saída do fim-de-semana:
- Não está em condições, tem de ir cortá-lo – informou o oficial comandante da companhia, no momento em que ele ia retirar da vitrina o cartão que lhe dava livre acesso ao exterior.
O cabelo, além de lhe tocar nas orelhas, roçava no colarinho da camisa, e ainda por cima à noite ia haver festa no Liceu Francês, e ele precisava desesperadamente de uma namorada, estava farto das “Ginas” e de esgalhar o frango na solidão das noites. Competência tivera o Peida-Gorda que tinha uma popa de fazer inveja, safara-se na revista, molhara estrategicamente o cabelo e assim conseguira mantê-lo afastado das zonas proibidas. O 280 fora atendido pelo Sabino, um barbeiro senhor de uma unha de dez centímetros, visível pelo canto do olho à medida que  desbastava. Assim, quando deu a ordem à turma saiu uma voz furiosa, comandando-a em direção aos claustros para mais uma manhã de aulas. Lá para os lados da Enfermaria deparou-se com um obstáculo na via, e a voz de comando não foi para os colegas, mas sim para o funcionário que ia acompanhado pela Listete e pela Cassilda, oficialmente roupeiras da quarta companhia, mas também mães de todos os Meninos da Luz:
- Ó Marinho, tira a peida da frente!
O Marinho já era colegial de pleno direito, cumprira o serviço militar na Luz como soldado-maqueiro, onde se especializara a curar todas as maleitas com Sais de Fruto, e por ser jogador de futebol amador do Benfica, participava sempre nos jogos entre alunos & cães. Ele sabia que os relacionamentos construíam-se dia a dia, e principalmente nos dias maus, mesmo quando estava cansado, sem paciência para aturar aqueles meninos vestidos de cotim, alturas em que lhe apetecia estar sozinho ou ir beber um copo com os amigos. Ganhou estatuto, por isso era agora um funcionário responsável por um geral, onde um professor  dava aulas utilizando os meios audiovisuais mais avançados da época, o retroprojector e os slides, que obrigavam a sala de aula a ficar na penumbra, facilitando assim o sono dos alunos. O Marinho chegou ao local de trabalho na altura em que a corneta deu o primeiro aviso, e esperou pela formatura e pela chegada do professor de História.
- Atenção turma, firme, siope, - gritou o chefe de turma quando chegou o docente.
Duas direitas volver e ficaram de frente para ele, pedindo autorização para os procedimentos militares seguintes.
- Podem entrar!
Foi a vez do funcionário atuar, ao mesmo tempo que a turma. O Marinho tirou o molho de chaves do bolso, e pôs uma no buraco. Tentou rodar… nada. Ajeitou a dita, e nova tentativa. Nada. Sentiu na nuca o riso silencioso dos alunos, e na alma o olhar penetrante do corpulento professor. Escolheu outra. Entrou, mas também não rodou, e para agravar a situação encravou. Nem para a frente nem para trás. Os alunos já se ouviam, as hipóteses de não terem aula aumentavam, a irritação do professor já era evidente. O ambiente estava tenso. De repente o docente de História avançou para o fâmulo, que lhe sentiu o cheiro da fúria, levado por um vento e por uma tempestade inesperada, brilhante, veloz e aterradora, como se fosse, não do domínio do ar, mas do interior obscuro da alma, e com uma patada escancarou as duas portas, que bateram com estrondo nas paredes. Tudo ficou calado, o vento, o pó, o Marinho e os alunos.
- Ó shoor agoraaa veja lá se arranja isto, não ééé! – Disse o docente, passando pelo funcionário assustado.



Wednesday, July 23, 2014

A Ata


O Comandante Guélas
 ISEF 2

 No dia dezanove de julho do Ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de dois mil e quatorze decorreu mais um encontro cultural/gastronómico da turma dois que albergou nos anos oitenta do século passado, durante cinco longos anos (excepção ao Dr. Jacques que continua na zona), junto à inebriante ribeira do Jamor, os rebentos da elite do Instituto Superior de Educação Física de Lisboa. O programa das festas foi elaborado pelo primeiro, e único, que já conseguiu a reforma, graças aos anos que passou no Comité Central, que contaram a dobrar, e a uma queda aparatosa de uma falésia, onde ganhou cinco cromossomas extras, que lhe deram dez anos de avanço sobre os colegas, que o pôs a fraldas e a falar chinês durante vários meses, tentando sempre obrigar as enfermeiras a pagar-lhe a gasolina, tal qual ameaçara fazer uns anos antes o Professor Doutor Parrilha quando se confrontara com o único chumbo a “Dança Clássica”, após uma noite inteira a treinar com a Glorinha do bar. As falhas mentais do reformado ficaram patentes no documento enviado à seleção, onde passou da “Atividade 1” (“Caminhada”) para a “Atividade 3” (“Almoço”), ficando assim em evidência que o número 2 já não consta nas suas memórias. Mas como “Deus escreve sempre direito por linhas tortas”, dizia-lhe sempre o Barreirinhas, houve “Atividade 2”. O encontro deu-se no Pavilhão Desportivo de Portalegre, mas sem a presença do anfitrião, e perto da “Entrada Sul”, e não da “Norte”, como constava no documento.
- Onde está o Dr. Jacques? – Perguntou o Professor Vereador Anselmo, o mais próximo da reforma, com vários anos de vereação e outros vícios políticos, que contam sempre a dobrar.
De Jacques nem vê-lo, mas quem entrou em pião no seu táxi foi o famoso Parrilha, que ameaçara uns anos antes limpar o torneio de Judo da Turma 2, mas acabara no último lugar, atrás duma colega que acabara de vir de uma noitada na pesca, e que  o deixara a tresandar a peixe. Por pouco não atropelou todos os presentes, arriscando a tornar o evento cultural no primeiro almoço individual da História da Turma 2 do ISEF. Os colegas puderam então verificar que este atleta se sujeitara recentemente a uma colonoscopia, exame aconselhável a todo este pessoal da meia-idade, mas que fora vítima da negligencia do médico especialista, Dr. Vale e Azevedo que, em vez de lhe encher a tripa com ar, colocara o tubo numa orelha, à semelhança dos colegas muitos anos antes numa aula de fisiologia prática, em que lhe colocaram o elétrodo do cardiograma nas partes baixas. Saiu do exame com a cabeça inflacionada, como se pode observar na foto que acompanha este documento.
- Onde está o Dr. Jacques? – Perguntou o vizinho do Reformado, Dr. Corista, o primeiro a chegar pela fresca da manhã, com o fato de treino do Benfica, e que acabara de acordar.
A espera foi longa, e quando se aperceberam que o anfitrião não iria chegar, talvez devido a estar a realizar o último exame no Jamor, que finalmente lhe iria dar o certificado do primeiro ano, apareceu um chaparro a guiar um carro que, ao se aperceber da ausência do organizador, disse:
- Bem me parecia que ele estava na “Entrada Norte” amarrado a uma árvore, rodeado de leitões.
Na actividade 1 (“Caminhada”) os presentes constataram que o célebre “Jardim Tarro” afinal se chamava “Jardim Sarro”, pois consistia num lago onde a população costumava lavar-se, o Palácio Amarelo tinha sido pintado na véspera pelo Jacques para impressionar os colegas da qualidade de vida de Portalegre, e a Rua Direita era completamente torta, sinal de que se confirmava in loco o rating negativo das notas do 12º ano dos alunos de matemática de Portalegre.
A “Atividade 2” (“Onde está o Jacques”?), decorreu no local indicado pelo alentejano, que consistiu numa "vaquinha" para o comprar,  pois todas as tentativas para a sua libertação (o reformado chegou a elaborar um poster onde se podia ler "Libertem o careca do povo") se revelaram infrutíferas, uma vez que não conseguiram convencer o dono da quinta de que ele não era a mãe dos bichos, mas sim um Dr. Do ISEF. Uma vez livre o anfitrião, deu-se início à “Atividade 3” (“Almoço”), mas já com o Jacques traumatizado, porque apresentou receios fundamentados, uma vez que o nome do restaurante, “Leitão”, trazia-lhe más recordações, arriscando-se a ser confundido com uma refeição mal entrasse no espaço de degustação. Valeu a pronta intervenção do judoca com hidrocefalia, que ameaçou:
- Só se passarem por cima da minha cabeça é que fazem mal ao Jackes!
Estiveram também presentes uma senhora, que veio acompanhada pelo responsável da foto, o Diniz, e o mais acrobata ginasta do ISEF, senhor das mais famosas cambalhotas, tão direitas como a rua da cidade anfitriã.

Saturday, June 28, 2014

Genesis



Comandante Guélas

Série Colégio Militar


Foi no ano letivo de 1974/75 que o Colégio Militar atingiu o número máximo de alunos: 694! E foi também em 1975 que os Genesis deram um memorável duplo espetáculo no Pavilhão dos Desportos em Cascais, no dia 3 e 4 de março cujos bilhetes custaram oitenta escudos. A banda ainda pensou filmar o concerto, mas felizmente a ideia não foi por diante, porque caso tivesse acontecido o aluno nº 78 do 7º turma A teria agora de explicar aos netos porque aparecia no Youtube a vender bilhetes falsos, junto a um dos blindados do COPCON, o responsável pela segurança do local, e por visitas assíduas ao colégio, onde estudava o filho do chefe, vítima de ataques continuados às orelhas de abano, que andavam tão quentes como o país. Mas o negócio esteve tremido porque alguém tinha sido uns dias antes apanhado pelo oficial de dia, após o regresso de um cavanço, e a segurança apertara. A entrada do aluno pela janela da quarta companhia coincidira com a do oficial de dia pela porta, tendo-se escondido de imediato atrás das cortinas, ao mesmo tempo que o militar se sentava num dos sofás. E assim ficou durante quarenta e cinco minutos, até que se levantou e foi ter com o prevaricador, agarrando-o pelos colarinhos:

- A primeira regra da camuflagem são os ténis, devem ser da cor da alcatifa!

Mas um ex-aluno será sempre um Menino da Luz, e por isso tudo ficou por ali. Regressemos ao evento!

Na secção tipográfica do Colégio Militar havia horas extraordinárias clandestinas pela calada da noite, a máquina já deitava fumo. Todos olhavam gulosos para o produto que iria sair, o vigilante ainda estava longe, o oficial de dia já dormia profundamente, e nas companhias o silêncio era absoluto, excepto na Sala de Leitura da Quarta Companhia, transformada numa casa de jogo clandestina, com um lusco-fusco envolto num nevoeiro de fumo espesso, onde circulavam bejecas e produtos típicos da época revolucionária. Lá fora alguns brincavam com o blindado, que vinha pela quarta vez a toda a velocidade dos lados do ginásio, apinhado de meninos vestidos de cotim, que fazia abanar as janelas laterais com a deslocação do ar.  

 - As letras estão desbotadas, - disse o 315 olhando para os bilhetes amarelados que tinham acabado de sair da máquina de impressão.
- Calma que vamos arranjar uma solução, - exclamou o 78 do 7º A. – Juro que iremos ver os Genesis, comer um gelado no Santini e passear com uma queque.
Olhou para todos os lados e gritou:
- 496, tens canetas de filtro pretas?
- Na sala de aula!
Os claustros estavam mergulhados num silêncio profundo e numa negritude assustadora. Dois vultos embrenharam-se lá para os lados da sala da santa, que olhava no exterior para o Largo da Luz, e era quotidianamente apalpada pelos alunos, porque nestes tempos as apostas choviam a toda a hora, e era preciso ter os bolsos abonados para as jogatanas após a última cornetada da noite, o toque de silêncio. Quando estavam cercados pela escuridão foram surpreendidos por um feixe de luz no andar de baixo, ao mesmo tempo de um abrir brusco de uma porta.
- É a ronda, - avisou o 425.
Um brilho apagou tudo e um segundo depois a luz extinguiu-se, sinal de que  o vigilante rumara para outro recanto do Colégio Militar. A caneta foi entregue na tipografia e de imediato lançaram mãos à obra. No dia seis de março, apesar do pavilhão estar sobrelotado, alguém continuava a vender bilhetes junto à Chaimite estacionada na porta lateral paredes meias com o hipódromo, balcão 80 escudos e plateia 120 escudos, mesmo depois de terem anunciado lotação esgotada uns dias antes. Junto ao pavilhão havia soldados fardados, por isso o Maná passou despercebido. No dia sete a aglomeração de pessoas foi tal, que os soldados optaram por deixar entrar todos, com e sem bilhete, onde se incluiu o 78 que, ao aperceber-se da situação, e como Menino da Luz apto a desenrascar-se nas situações melindrosas, vendeu o seu, e o dos camaradas, meia hora antes, a uns queques de Cascais mascarados de hippies, que levavam as cabeleiras postiças das mães a cheirar a naftalina e os robes das sopeiras a Lavanda. O Teta foi no segundo dia com um bilhete made in Luz, mas não o usou porque entrou no meio de uma molhada que levou os soldados atrás. Mas antes disso já tinha sido vítima de um arrastão no Cais do Sodré, quando desconhecidos assaltaram a caixa de bolos no momento em que se preparava para os comer. Nas memórias destes Meninos da Luz, o 41,o 75, o 78, o 136, o 315, o 332, o 425, o 472 o 496, ficou a imagem do Peter Gabriel a iniciar o concerto com uma camisola branca e um blusão de cabedal preto, no meio de um cenário com luzes, efeitos visuais e pirotécnicos, imagens projectadas de slides, que chegaram aos mil, tudo isto mergulhados numa atmosfera que os deixou a cheirar a “Axe” durante os dias seguintes, e com os bolsos cheios de escudos, muitos deles derretidos horas depois na noite louca e revolucionária vila de Cascais. Tocaram integralmente o The Lamb Lies Down on Broadway e os dois encores foram o Watcher of the Skies e o Musical Box do álbum Foxtrot. Regressaram calmamente ao Colégio Militar às quatro horas da manhã!