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315 estórias

Friday, May 16, 2014

GOTE para o 33


Comandante Guélas

Série Colégio Militar

Através destas estórias ouve-se o respirar do colégio, assim como o vento e a luz, que são cúmplices da nossa passagem sobre o espaço. Na aula de Desenho o Pina Lopes dava um conselho ao Coiote:
- Jovem, a primeira coisa a aprender nesta disciplina é a afiar um lápis. Como futuro militar, se marcares o alvo num mapa com o lápis rombo, as bombas caiem ao lado. 
Além da teoria havia a prática na Tapada de Mafra, por isso a primeira tarefa da patrulha número quatro, 21, 176, 204, 230, 236, 239, 267, 303 e 502 consistiu em armar as tendas, seguindo os procedimentos militares. Até que uma cavilha resistiu ao embate do calhau e teimou em não entrar.
- Dá cá a espingarda, - pediu o 239.
Agarrou-a pelo cano e martelou a espia com a parte reforçada da coronha.
- Pareces uma menina, - gritou o 230, tirando a Mauser das mãos do 176.
Cobriu o ferro com uma parte da lona da tenda, ergueu a espingarda, e martelou impiedosamente a cavilha, mas desta vez com a face esquerda de madeira. A fúria apoderou-se do operário quando se apercebeu que nem assim conseguia enterrar a dita. Aumentou o ritmo, até que:

CRRRRRRR

Coronha para obras! Silêncio sepulcral, todos a olharem para a racha da arma. Optou-se por enrolar o “ferido” numa manta, até se decidir o que fazer com ele. Só após o toque de recolher é que se reuniu a patrulha, com uma lanterna, para encontrar uma solução para a Mauser.
- Tem de regressar intacta ao Colégio senão o capitão dá cabo de nós.
A lanterna contribuiu com um parafuso, que foi colocado, com o auxílio de duas chaves de fendas, na coronha.
- Não chega, precisamos de pregos.
- Sem cabeça!
O material estava nas botas de atanado. Três tornaram a coronha hirta como uma barra de ferro. Mas a ferida continuava visível. O terreno lamacento de Mafra providenciou o betume que tapou a racha. A Mauser foi colocada uma semana depois no armeiro, perante o olhar atento do oficial, que não colocou nenhuma objeção.
Havia também os dias especiais como o da condecoração do 33, que iria receber a medalha da Ordem Militar da Torre e Espada, do Valor, Lealdade e Mérito, com o grau de Gande-Oficial. Como tinha sido impossível recebe-la no dia 10 de junho, por se encontrar ausente da Metrópole, e necessitava de estar perante dois batalhões, no mínimo, exigiu receber a insígnia no Colégio Militar. Teve como testemunhas o Batalhão Colegial, uma companhia de Cavalaria 7, uma Companhia de Lanceiros 2, e uma representação de Comandos Africanos da Guiné, os célebres “Flechas Negras”. Porque ia ter um papel muito importante no desfile do dia seguinte, o Maná aproveitou a noite quente de outubro de 1973 e ausentou-se com uns amigos do colégio. De regresso viram que o campo de futebol de 11 estava repleto de bandeiras nacionais hasteadas e só relaxaram na piscina quando as arrearam. Por estes lados já tinham andado outros artistas, que preferiram entrar no ginásio, juntar colchões posicionar uns quantos plintos e fazerem tarzans com as cordas. Para os Meninos da Luz esta festa revelou-se a maior seca de todos os tempos, pois tiveram de estar toda a manhã debaixo de um sol abrasador, a fazer “apresentação arma” de cada vez que chegava um convidado, e eles pareciam não ter fim. E ainda por cima o presidente Américo resolveu chegar atrasado, talvez devido a uma mudança de fralda imprevista. Nesta estória o responsável por marcar a cadência será o Maná, por ser o “primeiro da direita que comandava a escolta à bandeira” (palavras do próprio), apesar de já haver uns certos indícios de confusão, próprios da idade avançada, nos Meninos da Luz que participaram no fórum cujo tema foi precisamente este acontecimento do século passado.
Quando finalmente o Thomaz chegou, todos respiraram de alívio, ia dar-se início à festa em honra do 33. A cadência era cada vez mais lenta, dir-se-ia que o Maná estava a acusar o esforço feito na noite anterior, e ia lentamente adormecendo. Os pretos do 33 pareciam os artistas do posto fronteiriço de Wagah, que separa a Índia do Paquistão, e com o ritmo do 78 estiveram constantemente a travar, marcando passo.

Monday, April 21, 2014

Meninos da Luz / Meninas de Odivelas


Comandante Guélas

Série Colégio Militar



“Não somos nós que decidimos a forma das coisas; mas as coisas em nós que decidem a sua própria forma” – Espinosa.

Estas estórias tornam o colégio ao mesmo tempo enigmático, límpido, silencioso e imenso. As nossas memórias são muito mais feitas de emoções do que realidades objetivas. Por isso o professor de Educação Física Isménio Tadeu contava sempre aos seus alunos que deixava o eléctrico arrancar para depois ir a correr apanhá-lo.
O calendário indicava vinte e cinco de abril do Ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de dois mil e quinze quando o ministro Alguidar e a Dona Berta entraram numa Chaimite no Colégio Militar, para a inauguração do edifício que iria albergar meninas, a já batizada “Torre do Pecado”, que tinha custado o dobro do inicialmente previsto, e o tamanho era menor do que o planeado, sinal de que parte do dinheiro tinha ido parar ao bolso de alguém. Iam tensos, amedrontados, pois tinham ousado mexer no que de mais sagrado havia para os Meninos da Luz: as Meninas de Odivelas! Que tipo de meninas seriam estas? Continuavam a ser as musas de antigamente, mas mais perto, ou passariam a ser as Meninas da Luz? Pelo caminho deram de caras com um cartaz que dizia “ Aberta vais levar um Ramalho”, assinado pelo temido “Grupo Zacatraz”, agora na posse de um suporte informático capaz de convocar todos os Meninos da Luz (alunos, professores e funcionários) desde a fundação do Colégio Militar. O Alguidar sabia que iria deixar de ter proteção especial, o governo estava de saída, vinham aí as eleições, e com elas a vinda do Inseguro, que nem uma palavra dissera sobre estes dois lendários colégios de Lisboa. À sua espera no porto estava o 281, o Tofa, pronto para lhe dar mais um apertão. Quanto à Dona Berta, regressaria aos esquemas antigos nas ilhas do Atlântico, escondendo-se uns tempos na Graciosa para deixar assentar a poeira. Mal ela sabia que na ilha estava o 502! Quando iam a passar junto ao campo de futebol uma nova faixa dava-lhes as boas-vindas: “Meninas só existem umas, as de Odivelas e mais nenhumas”. E era verdade, os elos que ligavam estes seres ultrapassavam todas as ideologias, e já eram património da Humanidade. Em 1964 o Comandante de Batalhão, o 8, tinha ido ajoelhar-se, em traje de gala, em frente à diretora do Instituto de Odivelas, pedindo desculpas pela invasão do ano anterior, vésperas da comunhão, quando um dos inúmeros grupos expedicionários de Meninos da Luz, a coberto das trevas, e aparecendo não se sabe de onde, talvez do túnel, um tesouro imaterial do Colégio Militar, tinha atirado pedras às janelas das meninas, a convidá-las para o pecado, dando origem a um acontecimento semelhante ao da independência do Brasil: “O grito da Fernanda”! O susto da Dona Deolinda foi tal, que chamou de imediato a GNR:
- E tragam cães com coleiras cheias de alhos, tenho a quinta infestada de demónios, e quero que as meninas continuem puras para a cerimónia de amanhã!
Mas não foi preciso a presença das autoridades, os cavaleiros tinham feito questão de deixar os números escritos nas paredes do dormitório. Um telefonema para o oficial de dia bastou para que o Colégio Militar preparasse a cela aos fugitivos, pois o “bom filho à casa torna”. No dia seguinte a Comunhão das Meninas de Odivelas foi marcada pela ausência dos Meninos da Luz na guarda de honra junto ao altar, tendo sido substituídos pelos Pupilos do Exército.
- Sentimos a falta do Penacho empinado dos nossos cavaleiros, - confessou mais tarde uma das alunas, desabafando - "tivessem os meninos vindo à nossa camarata que nós não gritávamos!".
- O dos pilões é só pêlo! – Retorquiu outra.
O presente do Alguidar era uma pálida amostra do negrume do futuro que se aproximava. Por isso vacilou:
- Berta, achas que estamos seguros aqui?
- Fizemos um erro, mas agora temos de seguir em frente, - respondeu-lhe a açoriana, espreitando pela vigia.
A “Torre do Pecado” era vista como uma cápsula do futuro, enquanto o decreto que extinguia o Instituto de Odivelas não fosse revogado. Até lá os Meninos da Luz guardariam com todo o amor e carinho as suas musas, até ao dia D, em que elas regressariam à origem, com a Escolta a Cavalo e os Penachos verdes empinados. Até lá romanceava-se o futuro:


A especificidade do Colégio Militar, uma escola onde a ordem unida tinha carácter obrigatório, transformara-se no novo século numa escola inclusiva que não era igualitária, por isso tinha agora de ter respostas diferenciadas para aquilo que era diferente. E as opções não podiam ser redutoras. A aluna 923, a Boca Louca, acabava de confidenciar às suas camaradas que o teste de gravidez dera positivo.


- E quem é o pai, o Esperma? – Perguntou o Cu Justo.

- Sei lá, tanto pode ser ele, como o Tarado, o Punhetas, o Andorinha…sei lá, perdi-lhes a conta!

- O Cu de Senhora? É impossível, ele joga noutro campeonato.

- Ele enganou-se, estávamos a brincar à sala de leitura escura na quarta companhia, e confundiu os rabos.

- E agora, o que é que vais fazer?

- Nada!

- Nada? Não vais contar aos teus pais?

- Se contar eles tiram-me daqui e eu quero acabar o curso, já só faltam uns meses!

- Uns meses? Daqui a algum tempo a barriga vai-se notar!

- E depois, o ministro bem disse que no colégio não há discriminação, as alunas também podem ser obesas!

A vida no Colégio Militar estava metodicamente organizada, o tempo era cuidadosamente repartido, regular, apesar de para uns representar uma solidão e para outros a liberdade. Quando o Diretor do Colégio Militar abriu a pasta, nem queria acreditar! O mês de janeiro de 2025 ainda mal começara e já tinha mais um caso de difícil resolução: uma aluna grávida! Olhou para a frase escrita no papel afixado na parede, “aqueles que preferem ser simpáticos não passam de lambe botas que nunca serão respeitados”, e sorriu. O caso do aluno 889, o Cláudio, que mudara de sexo durante as férias de verão e apresentara-se como aluna, a Palmira, no ano letivo seguinte, abanara a instituição militar, mas o “politicamente correto” nestes tempos em que as histéricas dominavam, depressa resolvera o imbróglio através da atribuição de um novo número, o 991, para assim não traumatizar a rapariga. E até de alcunha mudou, passou de “Quatropatas” para “Mamalhuda”! O 790 também quis ser Tânia Vanessa, mas mantendo intactas as características do Gonçalo, o que obrigou à intervenção do ministro da Defesa, cujos assaltos aos paióis de Tancos eram agora uma tradição, com direito a subsídio cultural e tudo, daí as prioridades serem outras:

- Por este andar vamos a caminho de um novo instituto feminino!

O problema que a aluna 923 agora levantava dizia respeito ao filho. Teria de ser dado um número ao rebento, o equivalente à nacionalidade portuguesa aos que nascem em território nacional?

Tuesday, April 15, 2014

Os Demónios da Luz


Comandante Guélas

Série Colégio Militar



- As nossas relações estão cortadas, - gritou a Dona Deolinda, – já não iremos mais às vossas festas, nem os convidaremos para as nossas.
Os Meninos da Luz tinham atingido o patamar da praga nas noites frias de Odivelas, estavam ao nível do Rhynchophorus ferrugineus que se saciam atualmente com as palmeiras do país, por isso era preciso desativar os demónios. Já não bastava o estranho “milagre” que tinha colocado em cima da secretária da diretora um frade das caldas em sentido, era agora o grito alucinante da pequena aluna Fernanda que atormentava os sonhos que a chefe máxima das Meninas de Odivelas dizia serem puros. Seria possível que os meninos desaçaimados do Colégio Militar tivessem finalmente encontrado o mítico túnel, que ambos procuravam com “engenho e arte”, eles escavando com as mãos o terreno junto à pista de obstáculos, e elas tentando deslocar uma laje junto à caixa onde repousava o rei, usando como ferramentas as suas pulseiras com o grupo sanguíneo, que no passado colocara os frades nas alcovas das noviças? Recuemos!
A revolução estava na fase da bandalheira, havia Durões Barrosos em todas as esquinas a gritar que a Albânia era o farol do socialismo, nacionalizava-se tudo o que mexia, só faltava as Meninas de Odivelas passarem a ser propriedade dos “operários, camponeses, soldados e marinheiros”. Por isso a segurança fora reforçada, havia patrulhas na quinta contígua ao mosteiro com ordens para dispararem contra os intrusos. Mas nada disto demovia os possessos Meninos da Luz cujo “ardor guerreiro” os impelia a tentar alcançar os ninhos das suas dulcineias, e ainda por cima com o Colégio Militar em formato de balda geral, onde a autoridade tinha atingido o nível mínimo, facilitando as fugas maciças da escola pública cujo Estado se tinha comprometido perante as famílias a guardar os seus filhos durante a semana. Conheciam todos os recantos, Odivelas e a Luz eram uma só entidade, como atualmente. E numa noite a presença destes jovens adolescentes chegou ao conhecimento das meninas do D. Diniz, provocando uma debandada geral da camarata, que deu nas vistas, porque mais parecia a manifestação do 1º de maio a seguir à revolução. Com isto a tia Deolinda ultrapassou a beira do ataque de nervos e tomou medidas excepcionais, mas nem essas conseguiram conter as visitas de cortesia dos cavaleiros da Luz. Estavam indomáveis! Teria aquela visita oficial, em que a Escolta a Cavalo viera da Luz até Odivelas, onde foi recebida em apoteose por meninas a acenar com lenços brancos da varanda que dava para o largo, acendido o rastilho? Teriam os Meninos da Luz confundido os lenços com cuecas, e estavam agora a querer receber os troféus? Quando o 147 espreitou através da janela da camarata feminina, deu de caras com o rosto angelical da Fernanda, e sentiu a flauta a arrebitar. Para a menina ele era o herói que a despertara do sonho de amor aos soluços, que lhe trazia agora relâmpagos, fragmentos curtos, súbitos clarões. Um brilho apagou tudo e um segundo depois a luz extinguiu-se. Primeiro deu um grito silencioso e deitou-se como se fosse feita de milhares de pedacinhos coloridos, agitada. Sentiu a sombra do pecado a movimentar-se no soalho e a aproximar-se de si. Na janela centenária viu um rapaz atlético, alto e espadaúdo, de olhos vivos, capazes de engolir o que viam, com um sorriso de marfim. Sentiu a respiração ofegante, um súbito calor subiu dos pés à cabeça. Mas a figura omnipresente da Senhora Dona Deolinda trouxe-a de novo à realidade, pois o grito que deu foi tão alto e assustador, que até a barbicha ruiva que sobrava dos restos do monarca se arrebitou com o barulho, assustando aquelas que calmamente fumavam um cigarro junto ao túmulo. O corte de relações entre o Instituto de Odivelas e o Colégio Militar foi imediato, a Dona Deolinda comunicou à direcção dos Meninos da Luz que a partir daquele momento deixaria de enviar delegações às festas deles, e eles estavam proibidos de assistir à grande seca da Abertura do Ano Letivo delas. Mas como os arrufos de namorados são sol de pouca dura, bastou uma delegação de alunos com caras de anjos deslocar-se ao Instituto de Odivelas e pedir formalmente desculpas à Diretora, para tudo ficar na mesma. Tinham sido feitos uns para os outros!



Friday, April 11, 2014

Assalto a Odivelas


Comandante Guélas

Série Colégio Militar


O diretor do Colégio Militar discursava com eloquência para o curso de ex-alunos que visitava com “saudade” o Colégio Militar, quando as portas do Salão Nobre  se abriram de rompante e, tal como um dos Gafanhotos do Dario, o Girafa entrou às cambalhotas. Mas não é de cambalhotas destas que se vai falar nesta estória!
  
“Senhora Directora deveria ter uma dor tão grande, que quando mais corresse mais doesse e quando parasse rebentasse”.
A chefe máxima das Meninas de Odivelas nem queria acreditar no que lia. Alguém tinha colado um papel na porta, juntamente com uma forca em miniatura. Entrou furiosa no gabinete e deu de caras com um marsápio em loiça das Caldas da Rainha, que a convidava, em sentido, para o pecado, em cima da secretária. Mas havia mais: 50 papéis com exigências tinham sido estrategicamente espalhados pelo espaço educativo, onde se albergavam as Meninas de Odivelas, eternas musas dos cavaleiros do Colégio Militar. E para provar que tinham estado lá, conforme combinado, os Meninos da Luz escreveram os seus números num dos cantos da piscina: 89, 165 e 376! Recuemos.
Eram 21 horas de uma noite quente de junho quando três vultos vestidos com fato de treino, sapatilhas e capote passaram pela cerca de arame junto à pista de aeromodelismo e seguiram rumo à segunda circular, onde os esperava um táxi, previamente combinado. O plano iria ser cumprido à risca, cada Menino da Luz levava um pedaço de corda, vários panfletos imprimidos no colégio e uma obra de arte comprada durante uma visita de estudo. Tinham recebido das cúmplices um mapa detalhado do terreno das operações e quais as portas estrategicamente destrancadas. Levavam também uns bifes, e um frasco com éter desviado do botequim do Valentim. Foram deixados num descampado, onde se dirigiram à árvore assinalada no mapa, desenhado com muito amor pelas amigas enclausuradas, ataram os pedaços de cordas que traziam, e passaram tranquilamente o muro da quinta. Esconderam-se dos canídeos num buraco e aguardaram. O líquido trazido da enfermaria poderia ser usado em duas situações extremas: se o Diniz e a Isabel os detetassem, despejavam-no sobre os bifes; ou caso o camarada Punhetas tivesse uma recaída e resolvesse desviar-se do objectivo da missão e ir uivar para uma das camaratas, despejavam-no pelas suas calças abaixo. Dos canídeos nem sinal, o silêncio era total.
Às vinte e duas horas e trinta minutos do dia nove de junho do Ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil novecentos e sessenta e nove deu-se início à mais extraordinária aventura alguma vez protagonizada por Meninos da Luz e Meninas de Odivelas, numa simbiose passada da teoria à prática, que passará, a partir deste momento, de neurónios efémeros para o Éter eterno. O 89, o 165 e o 376 rastejaram cautelosamente até ao edifício, e dirigiram-se depois à porta assinalada. Rodaram o trinco, e esta abriu-se. Tinham acabado de entrar no espaço que fazia parte dos sonhos de muitos camaradas, que à distância faziam ranger as camas.
- Onde é que elas estão? – Perguntou de rajada o 376, quebrando o silêncio sepulcral do mosteiro.
O 165 tirou de imediato o frasco do bolso.
- A nossa missão é só uma, temos pouco tempo, o táxi está à espera, - alertou o 89.
Dirigiram-se ao gabinete da Diretora, pelo caminho foram colocando estrategicamente os panfletos com as reivindicações das suas musas, espetaram com raiva a forca na porta, colaram a carta e depositaram gentilmente o magnífico cacete em loiça das Caldas da Rainha, sinal de que a visita de estudo uns meses antes iria ficar para sempre gravada na memória destes adolescentes. Assim como chegaram, furtivamente se escapuliram. O dinheiro só deu para metade do percurso de regresso, tendo feito o resto a pé. Quando passaram de novo a rede, o relógio da Igreja da Luz tocava as doze badaladas.
No dia dez de junho do Ano da Graça de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil novecentos e setenta e um houve duas formaturas, à mesma hora, em locais distintos da capital, os Meninos da Luz preparavam-se para o desfile do Dia da Raça, enquanto as Meninas de Odivelas eram confrontadas com o conteúdo de cinquenta panfletos espalhados pelo internato:

“Exigimos que as bananas nos sejam servidas inteiras e não cortadas como habitualmente, e queremos que nos autorizem a trazer canetas de filtro grossas pois as finas só servem para a aula de Desenho.”

Ficou assim provado que o lema “Um por Todos, Todos por Um”, não era exclusivo dos Meninos da Luz, mas também fazia parte do código genético das Meninas de Odivelas. Ficaram privadas do fim-de-semana, e nem a PIDE nem a Polícia Judiciária conseguiram alguma vez descobrir o estranho caso do “Assalto a Odivelas”, que também fora visitado pelo 275, o 440 e o 583 que, por falta de dinheiro para o táxi, fizeram o percurso de ida e volta em passo de corrida!