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Wednesday, August 04, 2010

Camarada Choco 67 - A Prova dos Nove


Camarada Choco
Aventura 67



- Tu és um calhau com olhos, - disse, com vaidade, o coxo-mais-rápido-da-Brandoa, dando uma palmada severa na cabeça do colega, que fez eco.
O desafio tinha sido o do costume, nomear as quatro cores definidas como meta pela Dra. Sem Canudo, para o sucesso educativo na fabulosa Escola para Desaparafusados da Venteira: Vermelho, Verde, Azul e Amarelo. Apesar de ser confrontado todos os dias, a todas as horas, em todos os sítios, por todas as pessoas, com estas quatro tonalidades, o colega do coxo-mais-rápido-da-Brandoa, o Filete, “Fi” da parte do pai Filipe, e “lete” da parte da mãe Arlete, olhava sempre para o Vermelho como um boi para um palácio, e chamava-lhe Azul , depois de muitos silêncios e de várias introspecções, onde procurava desesperado por pequenos detalhes que lhe facultassem o nome da cor, e evitassem assim as consequências previsíveis. Os colegas desesperavam sempre, e não conseguiam compreender como é que o Filete não dava uma “p’rá” caixa, e por isso a cada resposta errada arriavam-lhe um calduço dos antigos, tentando estimular-lhe algum neurónio perdido no espaço vazio onde deveria estar a mioleira. Nestas alturas a cabeça do Filete parecia um gongo de igreja a chamar os fiéis para a missa.
Mas o coxo-mais-rápido-da-Brandoa não sabia que iria ser confrontado com a dura realidade, onde nem tudo se equivalia e onde a tendência para a verdade vinha sempre à superfície. Foi como se uma única e profunda fissura se tivesse cavado na sua alma, levando esta chita bronzeada a tomar consciência de que o seu defeito na perna direita também se estendia ao coco. A visita natural da pequena Maria, uma Aparafusada de uns escassos 6 anos, causou uma tensão no coxo-mais-rápido-da-Brandoa, levando-o a tomar consciência do seu passado perdido e do tempo presente. Os gestos da menina traduziram, com rigor científico, as subtilezas e as misérias deste Desaparafusado de 17 anos. E tudo isto por causa do canalha do “Jogo Júnior de Luz e Som”, que deveria ter um aviso na capa, tal como têm os maços de tabaco:
“Jogar com Aparafusados e Desaparafusados ao mesmo tempo faz mal à saúde destes últimos”
Mas recuemos no tempo.
Quando o coxo-mais-rápido-da-Brandoa foi confrontado com o “Jogo Júnior de Luz e Som para crianças dos 3 aos 6 anos”, aceitou de imediato o desafio, olhando com vaidade para os colegas, que estavam em estado letárgico. As placas e as perguntas desfilaram perante o único olho disponível, uma vez que o outro fingia que via, e a luz vermelha esteve mais tempo acesa do que a verde.
“De onde é o pormenor?
O que é que não está relacionado?
Procura 14 alimentos
Procura 14 brinquedos
Qual é o mesmo?
Quantos há?”
Muito tempo depois deu por terminada a gigantesca tarefa e desabafou:
- Ai, gostei, estou cansado da cabeça, é muito difícil, tenho de descansar.
Das orelhas já saía um espesso fumo negro, e a cicatriz que lhe atravessava grande parte do coco inchara, parecendo querer abrir de novo, não para deixar sair a mioleira, que essa já tinha saído na altura da queda sobre as rochas, mas sim para facilitar o arrefecimento da areia.
Foi neste momento que a pequena Maria entrou e ao mesmo tempo que falava nas aventuras da vida, fez as 12 fichas num abrir e fechar de olhos, sempre com a luz verde a acender. O coxo-mais-rápido-da-Brandoa nem quis acreditar:
- Ah, foi tão depressa! – E adormeceu.

Saturday, July 31, 2010

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 37 - O Massinhas


Comandante Guélas

Série Paço de Arcos


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O Massinhas nascera sissioso e parecido com o Manelinho dos livros da Mafalda, ou seja, tinha porte de leitão. E para agravar, o interior do coco estava em curto-circuito permanente sendo por isso o alvo ideal para os netos da Dona Ludres, generala por parte do marido. Para o Nódi, o Gui e a Ninani o melhor presente que a vovó lhes poderia dar era convidar a sua grande amiga Maria Alice, pois com ela vinha sempre acopulado o já famoso Massinhas, que significava farrobadó para os netinhos de oiro da generala e consulta garantida no dia seguinte no psicólogo do costume, para o visitante. Mas houve um dia em que o farrobadó se assemelhou a uma bomba atómica, e este teve consequências desastrosas para este petiz que vivia um século atrasado. E tudo se passou no último minuto da visita! Até lá o Massinhas já tinha ficado a apanhar toda a tarde, não compreendendo porque é que a pedra que decidia o cargo lhe cabia sempre em sorte, e de cada vez que iniciava a contagem, já era tradição, os outros fugiam para dentro de casa, zona interdita ao Jogo da Apanhada, e iam ver televisão. O Massinhas desesperava, fazia quilómetros no vasto jardim, e isso reflectia-se na sua cara, que acentuava cada vez mais a cor de leitão. Quando já estava desconfiado, apareciam todos a tocar no coito e festejavam a vitória. Os adultos que conversavam animadamente na relva sentiam nestas alturas a tensão, a quezília, o conflito, a aversão, a violência, a crueldade, o desespero, a dor, a destruição, do pouco juízo do Massinhas que, geralmente, soltava de rajada todos os palavrões que aprendera com o pai, também ele com graves problemas de asfixia emocional. Mas nestas alturas o petiz já parecia um sapo que inchara até atingir o tamanho de um boi e as suas meditações eram sempre viscerais. E havia uma altura em que os adultos tinham o bom-senso de se separar. Foi num destes momentos, quando o Massinhas se preparava para descer a escadaria de acesso ao exterior que o Gui se aproximou e lhe pôs a mão no pescoço, convidando-o a ir à garagem ver a sua Play-Station que ficara em casa. O golpe estava montado. O tio Peidão, que já devia ter idade para ter juízo, mas nunca o encontrara, tinha-se posicionado atrás de um carro com uma máscara diabólica de um ser verde, e aguardava pacientemente a chegada da canalha. Até a Santinha, a tia mais linda do mundo, estava ao corrente do plano e optara por ficar no jardim, junto aos adultos, a limpar a piscina, para assim tentar subir pontos na consideração da sogra, a Dona Ludres (generala por parte do marido), detentora exclusiva da moral e dos bons costumes do alto de Paço de Arcos. Quando se apercebeu da chegada do gang à garagem o tio Peidão colocou a máscara à pressa, mas não foi preciso, porque o Massinhas estava a olhar para lá e apanhou um cagaço tão grande que soltou um grito assustador, e saiu a correr e a deitar fumo pelas orelhas, passando pela Santinha tão rápido que só parou no colo da avó, aliás, aterrou, porque saltou. Mas não teve muita sorte, pois a dona Maria Alice, senhora absoluta da Porcalhota, mal sentiu água no carrapito em forma de ananás que lhe decorava a cabeça forrada de areia, atirou de pantanas o netinho para a relva.
- Monstro, eu vi um monstro na garagem, – gritava o Massinhas, procurando alguma alma caridosa que o protegesse da visão aterradora do inferno que presenciara.
Mas a sua fama estava de rastos, não tinha credibilidade alguma, foi por isso que o avô, o coronel com cara de papagaio, gritou palavras pesadas:
- Este miúdo está cada vez mais estúpido. Agora até vê monstros!
O Massinhas tinha sido atirado para um universo virtual e no seu Cérebro inconstante plantara-se um monstro verde difícil de extirpar.
No terreno já andava o fiscalizador da verdade, o antropomórfico investigador e visionário, pai do Gui, um ex -Cabo destituído de contradições, falhas ou hesitações, omnívoro, mas acima de tudo o sintonizador oficial da dona Ludres (generala por parte do marido), que insistia em comprar aparelhos chineses para poupar dinheiro para as inúmeras viagens que fazia ao longo do ano. Ele vira o seu filho entrar na garagem abraçado ao Massinhas, depois de ter estado toda a tarde a tentar matá-lo, e desconfiou. Olhou para um e viu um estranho anjinho, criado e educado pela sogra, e olhou para o outro e viu um morcego com a alma amarfanhada e o rosto a arfar, abraçado à mãe, a tremer por todos os lados e a espumar da boca.
- Aquilo não vai lá nem com um camião de psicólogos, – pensou, tentando arranjar uma explicação para aquele minuto fatal.
- A culpa é dele, o meu neto está cada vez mais estúpido, – insistiu o avô papagaio, já de pé. – Não se incomodem, isto é uma nódoa para toda a família.
Tudo foi esclarecido com a verdade, após o regresso do investigador do local da tragédia. O ex-Cabo do General, e favorito da generala, que só não conseguia sintonizar o “sonotone” da avó da esposa, ambas surdas que nem portas, aproximou-se dos presentes e explicou:
- O mistério já está esclarecido – disse, puxando o peito para fora e abrindo as asas. - Foi tudo uma grande coincidência. Na altura em que eles iam a entrar na garagem caiu uma lata da garrafeira e assustou-os.
- Eu vi um monstro, eu vi um monstro, – insistiu o Massinhas, desesperado. – Há um monstro na garagem.
- Levem daqui o miúdo antes que envergonhe mais a família. Palerma, – retorquiu o avô papagaio, agora ainda mais vermelho que o neto, e também a espumar da boca.
A verdade do Cabo prevaleceu durante três longos anos, o Massinhas dormiu largos meses na cama da mãe, e o Psicólogo fartou-se de facturar. Nunca mais os avós o trouxeram à casa da Dona Ludres (generala por parte do marido), mesmo com os convites insistentes dos seus netinhos de oiro.

Friday, July 23, 2010

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 36 - Penina à Noite


                         Comandante Guélas
                                 Série Paço de Arcos


Era nesta classificativa do Rali de Portugal que se soltavam todos os demónios que habitavam dentro das pessoas. E os “meninos de boas famílias” de Paço de Arcos estavam cheios deles. Após o bólide ser engolido pela noite serrada, depois de ter tornado dia, por breves segundos, uma pequena parte do asfalto, e o seu ruído ensurdecedor ter obrigado os demónios a fugirem assustados para as suas casas, tudo voltava a cair na escuridão da Penina. Era nestas alturas que a festa retornava à estrada. Um Tarzan sobrevoou o povo na sua liana, mas o grito tornou-se aflitivo quando ela se partiu logo a seguir a ter atingido a vertical do alcatrão, obrigando o selvagem a uma aterragem forçada, e de costas. As lanternas acenderam-se e descobriram que o morcego era o Xinoca, o acólito mais alcoólico da vila, e que nem um “pio” soltava.
- Se não o tirarmos dali vamos levá-lo para casa em forma de tapete oriental, - disse o Olho Vivo, com uma vista no chinês e a outra no decote duma desconhecida.
Bastou passar um copo a transbordar de cachaça pelas suas narinas, para que o preferido do Capitão da Quinta Divisão voltasse à vida e corresse apressado para o seu garrafão, que o aguardava em cima do barranco. O chinês tinha ficado desidratado com a queda. Quando já se ouvia ao longe o roncar de mais um bólide, eis que outro artista aparece no palco, fazendo questão de presentear o público com uma pega de caras. Tinha feito mal os cálculos e acabou por ser atirado à valeta, não com o impacto, mas sim com a deslocação do ar. O Peidão aproveitou mais esta pausa para tentar entrar em contacto com o Zé Pincel via Walkie–Talky, que tinha ficado na base a guardar os “peidociclos”.
- Pincel, aqui Peidão, escuto!
- Rrrrrr…rrrrr.
- Pincel…estás a ouvir-me?
- Rrrr…dão..ou…tomar uns copos.
- …copos???...Guarda o aparelho no bolso..
- Rrrrrr
Finda a comunicação, mais duas horas de prova. Depois foi a terrível descida. O Mac Macléu Ferreira estava mais para lá do que para cá e o seu peso era incomportável com os corpos franzinos dos amigos. A opção tomada foi deixá-lo a dormir na vala e ir buscar uma mota. Quando chegaram à base foram recebidos por um Zé Pincel com o capacete integral na cabeça e em estado etilizado que nem lhe permitia conhecer os amigos, muito menos o paradeiro do aparelho. Desapareceu na escuridão e só ouviram algum tempo depois o motor da sua Zundapp em alta rotação a desaparecer na noite fria e escura da Penina. Foi nessa altura que a estrada foi aberta ao público e os únicos a subirem foram os membros do Gang de Paço de Arcos. O Mac Macléu Ferreira só foi descoberto meia-hora depois, após difíceis buscas ao longo da valeta.
- Ficou sem cara, - gritou o Zé do Fotógrafo, ex- cozinheiro-comando, irmão do Bigornas, gerente da mais importante loja de fotografias da vila de Paço de Arcos, a Jomarte, “onde a sua cara de cu fica uma obra de arte”.
O mistério foi esclarecido quando olharam melhor para o adolescente caixa-de-óculos loirinho. A cara estava tapada pelo jantar, que tinha saído sem pedir licença. Veio à boleia do condutor mais sóbrio do grupo, o Velhinho, que o levou de imediato para o Hospital de Cascais, porque necessitava urgentemente de uma dose de glicose. O Mac Macléu Ferreira teve direito a uma unidade, enquanto que o seu motorista Velhinho, o sóbrio, gramou com duas. Entretanto na serra procedia-se a outra busca, o Walkie–Talky do Peidão. A sorte estava do lado dos bons. Um elemento do grupo que pernoitava alinhadinho debaixo de uma árvore contou-lhes que umas horas antes tinham sido atacados por um desconhecido, que lhes dissera ser lutador de Karaté e quisera praticar com eles a arte milenar.
- Tivemos de nos defender daquele louco, que para o Karaté não parecia ser dotado, acabando por tentar acertar-nos com este rádio.
O Zé Pincel apareceu no dia seguinte com a cara toda inchada e, segundo explicou, tivera um acidente de mota. No entanto não foi capaz de explicar como é que a mota e o capacete nem um risco tinham. Quanto ao Mac o Velhinho contou que o tinha levado a casa, aberto a porta e perguntado se estava bem:
- Estou rijo, - e avançou, batendo com a cabeça na parede, com tanta força, que a mãe acordou.
O motorista pirou-se, pois não queria que o vissem sóbrio, dava mau aspecto.






Thursday, June 17, 2010

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 35 - O Senhor "Xantola"


 Comandante Guélas
Série Paço de Arcos 

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- Esta ainda há-de ser a casa mais afamada de Paço de Arcos, – prometeu o senhor Xantola, ajeitando as patas do caranguejo grande, pescado junto à saída do esgoto do “Chalé da Merda” (o colector de esgotos da vila) e comprado clandestinamente (livre de impostos) como era e continua a ser tradição nos restaurantes da zona.
- É para lhes dar um ar sensual, – explicou o Xantola ao atento Focas. – Assim, o cliente fica com água na boca e entra, tendo direito a ser atendido pela minha filha Tita-dos-Pés-Sujos, sob visão atenta do seu noivo Bajoulo, que está ali na mesa das imperiais desde ontem à noite. Vai dar um genro de peso!
- O marketing é perfeito, o senhor irá com toda a certeza roubar a clientela ao seu primo galego. O Bajolinho é uma jóia, é um descanso para qualquer pai, – disse o Focas, atirando de mansinho uma santolinha para o aquário dos peixes.
Mas como os exames estavam perto, o estudante Focas despediu-se do senhor Xantola e foi para casa fazer o exame nacional, roubado uns dias antes e agora na posse de todos os estudantes de Paço de Arcos. Só saiu depois do jantar, para se juntar ao grupo de amigos que o esperava no “Áries”, o Centro Comercial junto à estação, onde também se situava o novo restaurante que pretendia fazer sombra ao velho e famoso restaurante “Os Arcos”. A noite iria ser longa, aproximava-se uma “directa”, no dia seguinte um grupo partiria em direcção a Chaves, para desceram o rio Tâmega até Amarante. Só o motorista, tinha recolhido aos aposentos, excitado com a aventura em que se ia meter, não a de descer o rio, mas sim pelo facto de ir passar uma semana com um grupo de adolescentes tenrinhos. Quando a torre da igreja deu as badaladas da meia-noite, o Focas juntou-se aos amigos. Pelas duas da madrugada começou a retirar da parede um cartaz que anunciava a vinda dos “Tubes” a Cascais, e embrenhou-se nas catacumbas do espaço comercial. Apareceu dez minutos depois com algo embrulhado no papel. Parecia um bolo, um tronco de chocolate. Chocolate?! Chocolate não era, mas sim o conteúdo intestinal do velho Focas, o maior cagador de Paço de Arcos e arredores.
- E agora, o que é que faço a isto?
Os amigos recuaram e veio-lhes à memória as férias passadas em Sagres e aquele dia em que o Focas tivera uma dor de barriga e resolvera a questão abrindo uma cova à beira-mar, ao mesmo tempo que assistia a uma partida de “beach-ténis” entre dois turistas. Tentaram atacá-lo durante o acto fisiológico, mas quando estavam a um metro do cagador ele voltou-se repentinamente, agarrou no cagalhão e atirou-o. Felizmente nessa noite não estava nos planos desperdiçar tão formosa escultura. Resolveu espalhá-la pelos vidros do restaurante do senhor Xantola e tapar-lhe as fechaduras. O cartaz dos “Tubes” também ficou colado! Até às dez da manhã o material secaria e o proprietário, mais a sua bela filha, a Tita-dos-Pés-Sujos, iriam ter uma surpresa, e das grandes. Mas a festa não ficou por aqui! As frinchas entre os vidros não estavam tapadas e houve um concurso de escarretas, cujo objectivo era decorar as carapaças das Santolas cozidas que ocupavam a montra. Até com mijas participaram!
No dia seguinte estavam longe, muito longe, e com toda a certeza que as culpas iriam cair direitinhas no já célebre Cocciolo.


Wednesday, May 19, 2010

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 34 - Eu Peidão me confesso!


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Comandante Guélas
Série Paço de Arcos

Como faço meio século de existência começo por explicar a origem do nome porque sou conhecido na gloriosa vila de Paço de Arcos: Peidão! E para baralhar as contas o nome nada tem a haver com o excesso de meteorismo intestinal, mas sim com uma questão de relações públicas. Esta alcunha ficou para sempre entranhada no meu já grande nome e uso-a como “cartão de visita”.
- Olá Janeca, daqui fala o Miguel, posso falar com o Rui? – Perguntei ao telefone, com uma voz suave e bem colocada.
- Miguel?? Miguel quê?
- Peidão! – Acrescentei.
- Já podias ter dito!
E a partir deste momento apercebi-me da grande importância do meu indicativo. A razão era simples, durante uns meses após ter feito onze anos mandava levar na “peida” todos aqueles que o chateavam, e tantas foram as vezes que acabou Peidão. O aluno 191 do Colégio Militar fazia agora parte daqueles que, além do número, também tinham uma identificação alternativa, com registo no livro de alcunhas da instituição, onde outras também se destacavam, como o “Cuecas de Buda”, o “Cu de Senhora”, o “Peidocueca”, o “Beduíno”, a “Judi”, o “Horrível”, o “Escalope”, o “Gordini”, e muitas, muitas mais. As novas gerações amaricaram e passaram para os “nick name”, como o “Solid Sonic”, o “Rickybaby”, o “Magnífico Repolho”….Quanto ao Peidão, agora um exemplar chefe de família, mantém-se firme e hirto como uma barra de ferro.
Quando se enamorou pela sua Aninhas, uma paixão bela, simples e frágil, primeiro só lhe disse o nome oficial, mas quando resolveu apresentá-la aos amigos não teve alternativa. No dia do casamento, quando entrou na igreja da Quinta da Granja em Sintra, para se dirigir ao altar, ponto de encontro que combinara com a sua Aninhas logo de manhã quando acordaram juntos na casa onde viviam, olhou para as galerias e deu de caras com os amigos que abriam e fechavam a boca, um coro que pronunciava o seu célebre nome. Felizmente a casa de Deus distorceu a letra e à plateia chegou uma “Ave Maria” em latim de Trajouce, que emocionou as beatas, atónitas com tantos “meninos de boas-famílias” reunidos ao mesmo tempo, num lugar sagrado. Deveriam com toda a certeza pertencer aos escuteiros de Paço de Arcos. A noiva, que já ia a meio caminho quando os anjinhos cantarolavam, foi entregue pelo pai e o padre, que também era um amigo e sabia de cor a letra, deu rapidamente inicio à cerimónia e ordenou ao casal que se ajoelhasse.
- O Peidão tem o preço dos sapatos nas solas, - gritou o Espalha.
O auto-colante mostrava ao público que as faluas do noivo eram made in Maconde, e que os números correspondiam de certeza ao preço mais baixo da loja, o que comprovava definitivamente a forretice compulsiva do jovem.
Desde muita tenra idade que a relação do Peidão com os números foi muito conflituosa , obrigando as professoras a trabalhos extras de reguadas que lá encarrilaram o petiz, mas não o endireitaram. Sobreviveu no sistema, no meio de Derivadas, Exponenciais, Logaritmos, Variáveis, e muita mais treta que não serviu, nem para ele, nem para a maioria dos amigos que escolheram a área de Ciências, uma vez que aqueles que agora acusam os filhos de nada fazerem, foram aqueles que no 5º ano do liceu se piraram para letras, intitulando-se agora os intelectuais de serviço. Nos curtos fim-de-semana em que via o filho, porque este andava no Colégio Militar onde entrava ao domingo à noite e só saia no sábado seguinte à tarde, o pai tentava-lhe dar explicações de matemática mas depressa desistia, obrigando-o a fazer os exercícios que ele tentara explicar. O Peidão queria era ir brincar com os amigos, mas sem o TPC correcto nem pensar. Pedia então ajuda aos céus para lhe iluminarem os neurónios, mas de lá nunca veio uma ajudinha, nem um simples raio de sol. Nunca soube se Deus não o ajudava por escrevia por linhas tortas, ou se também não percebia nada desta chata ciência dos homens. Sobrevivi!
Beijinhos a todos


Saturday, May 01, 2010

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 33 - A Fonte Santa




  Comandante Guélas

Série Paço de Arcos
 
O Peidão era aquele tipo de adolescente que todas as mães sonhavam, com um sentido sóbrio da realidade e da sua proporção. Filho de militar, neto de militar, menino da Luz, cabelo rapado, cabedal a perder de vista, enfim, um currículo que daria com toda a certeza para um qualquer crepúsculo. A sorte (ou terá sido azar? Maldição?) de se cruzar com ele calhou à menina mais prendada de Oeiras, a Aninhas, santinha de aspecto e de feitio. O soberbo bigode do rapaz cruzou-se com os grandes olhos azuis da menina e ele sentiu uma silenciosa tomada de consciência do seu novo estado por esta menina que pensava ser uma queque da Avenida de Roma, enquanto que ela manteve-se frágil e embevecida pelo amor. Um mês depois o adolescente enganou-se na hora de ir levar a sua querida a casa e deu de caras com a família toda reunida. Beijinho nas senhoras, aperto de mão aos homens e no fim…engano…tentativa de beijinho num primo que chegou a colocar a cara à disposição, mas que à última o Peidão identificou como macho, apesar de ter o cabelo a tocar-lhe nos ombros. A apresentação estava feita. Mas voltemos ao início da relação, que começou dentro da Feira Popular onde ambos estudavam. O Peidão apresentou-se com nome próprio, mas no dia em que resolveu levar a namorada ao local onde estavam os amigos teve de se confessar, descobrindo que entre o passado e o presente nada mudara. Assim, uma vez Peidão, sempre Peidão, a família compensava esta nódoa na alma do rapazinho. E fez bem em abrir-se à namorada porque a recepção no café foi acompanhada por um coro monumental de “Peidões". Mas foi a viagem ao Algarve de mota que os levou ao grande e definitivo confronto com o destino.
- Confie em mim, – disse o jovem, firme e hirto como uma barra de ferro, ao futuro sogro. – Andar de mota comigo é seguro, e dá prazer (entre dentes), garanto-lhe que a sua catequista virá inteirinha para casa.
À palavra de filho e neto de generais não havia como recusar, uma jóia destas só aparecia de 100 em 100 anos, era pegar ou largar. E uma semana depois o Peidão foi buscar a Aninhas a casa e descobriu que não tinha lugar na mota para ela, ocupada com sacos, remos, canoa, tenda. Como a rapariga era despachada, trepou para a máquina e lá arranjou um buraquinho. Foram enlatados, mas felizes, era uma luta entre o real e a fantasia! O primeiro incidente ocorreu a meio do caminho quando sentiram um abanão e a Aninhas alertou para a saída de um dos sacos. Havias cuecas de ambos espalhadas pelo asfalto quente do Alentejo profundo, sinal de que no amor tudo era possível. A primeira paragem foi na Zambujeira do Mar e o campismo selvagem contemplou uma tenda com entrada obrigatória de gatas e sem duplo tecto, mas com uma vista magnífica sobre a praia. E ao lado havia a "Fonte dos Amores” de onde brotava um fio de água que enchia constantemente garrafões de “peregrinos”, que se aventuravam a subir uma escadaria que desaparecia lá para os confins da praia. Com a chegada destes dois meninos vindos directamente da Costa do Estoril, o serviço de abastecimento das almas passou também a banhos públicos. Mas como é que se conseguiu tal feito, se o que saia do tubinho era um mísero fio de água que demorava meia hora a encher um garrafão? O Peidão era um rapazito que se adaptava a todas as situações, por isso é que era “de comer e chorar por mais”. Pôs-se de imediato à procura da nascente e deu logo de caras com uma porta selada que se encontrava por cima da bica. Cinco minutos depois estava pendurado a encher um balde e a atirá-lo para cima da sua Santinha, que aproveitou para se ensaboar, ser ensaboada e pôr champô. E os baldes foram tantos e tão rápidos, que da bica já saia uma água completamente turva, sinal de que o interior da “Fonte Santa” estava em convulsão.
- Vem aí alguém, – avisou a jovem ex-catequista indo sentar-se no banquinho do miradouro.
O Peidão fechou a portinhola e juntou-se à namorada, abraçando-a com amor. Ambos estavam carregadinhos de espuma da cabeça aos pés quando o “turista local” chegou. Pôs o garrafão na boca da bica e sentou-se a fumar um mata-ratos, olhando desconfiado para aqueles estranhos “camones” cheios de espuma do mar. Afinal, o quotidiano não era assim tão normal como ele pensava. De tempos a tempos o casal de pombinhos espreitava pelo ombro um do outro e lá viam a água turva a cair lentamente no garrafão. Iria ser toda consumida e de certeza entupir os rins ao velho e mandá-lo ir viver para outra freguesia. Mal o aldeão saiu precipitaram-se para a bica e trataram de finalizar a higiene. Quando saíram do local, de “Fonte Santa” só tinha o nome, porque do tubo não saia nem uma pinga. Abandonaram a região cedo com o fresco da manhã e rumaram em direcção a Aljezur e no dia a seguir a este montaram tenda em Lagos, e depois em Quarteira, e quando iam em direcção a Faro a mota teve um furo no pneu da frente e deitou-se, obrigando os motociclistas a esfregarem as pernas desnudadas e os braços bronzeados no alcatrão de Boliqueime, e tudo isto na presença de um carro da GNR que ia atrás. A Aninhas foi a primeira a pôr-se de pé, e com os braços ensanguentados e metade do biquini conseguiu que ninguém passasse por cima do seu tesouro. A assistência de uma casa próxima foi rápida, saiu de lá uma senhora avantajada que ofereceu guarida a todos, chamou a ambulância e ainda teve tempo para mostrar os arranjos de flores que fazia para funerais, ao mesmo tempo que dava em mão própria um cartãozinho ao Peidão, para futuras necessidades. Mas ele estava mais para lá do que para cá. Foram atendidos por um médico com bronzeado de nascença, raro para a época, que se interrogava com a origem do paciente que roncava desalmadamente numa cadeira por detrás dos feridos que tinham acabado de chegar. O Peidão ainda ouviu a explicação da enfermeira que contou ser um brutamontes que entrara a meio da noite a partir tudo, só parando com uma dose cavalar de um calmante, que já estaria a perder o efeito. O doutor pincelou os miúdos e pô-los na rua num abrir e fechar de olhos, ao mesmo tempo que desaparecia nos confins do hospital. A Santinha foi entregue ao pai uma semana depois….toda partidinha. No dia 11 de Junho de 1988, oito anos após a “Fonte Santa”, um amigo padre declarou-os unidos para sempre!

Saturday, April 17, 2010

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 32 - Tiros para que te quero


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Comandante Guélas
Série Paço de Arcos

Quis o destino que uma soberba espingarda porção-de-ar Diana 38, com mira telescópica, fosse parar às mãos do adolescente mais responsável do alto de Paço de Arcos, que tinha uma alcunha não muito amiga do ambiente, Peidão, ganha a muito custo no Colégio Militar, onde durante alguns anos ostentara o número 191! O primeiro ensaio de tiro foi feito no mirante da casa onde morava o gang dos dez irmãos, tendo como alvo as cortinas do vizinho, que nesse dia esvoaçavam graciosamente ao sabor do vento. Ao aperceber-se que podiam fazer a vez dos pardais, o Milhas agarrou nos manos, a Ínclita Geração, e refugiou-se nos quartos. A resposta não se fez tardar, o amigo desceu à cave para ir buscar a sua carabina e responder à ameaça, não sem antes o Janeca partir o vidro da casa de banho quando tentou assistir ao contra-ataque do mano. Desde esse momento ficaram cientes de que quando o papá chegasse haveria chicotadas psicológicas e físicas para todos. O campeonato de tiro foi ganho pelo Graise, com distinção, depois de ter furado inúmeras vezes as cortinas, que deixaram de esvoaçar porque o ar já passava pelos buracos, e molestado duas vezes o traseiro do Quicas. O Milhas mostrou ser um adversário sem espírito desportivo, uma vez que disparou contra a pobre da Diana 38, numa altura em que o Peidão e o Chico Paulo, dois jovens com tendências missionárias, a abandonaram depois de terem sido emboscados quando tentavam arrebentar com o outro vidro da casa de banho, não fosse o Janeca parti-lo também e aleijar-se. À noite a festa foi outra, e consistiu num assalto à casa do Conan Vargas, o único paçoarcoense que dava “sete seguidas sem ver a luz do Sol (sic), e que estava sozinho em casa com as manas. Mas macho que era macho estava sempre em alerta, não fosse alguma fêmea ousar passar por perto, e desta vez também não foi diferente. Apercebeu-se da invasão e ainda foi a tempo de se trancar por dentro, excepto um dos quartos do rés-do-chão. Conseguiu sentir a respiração dos vinte amigos a arrastar os móveis para o jardim e passou ao contra ataque no momento em que eles se prepararam para trepar ao primeiro andar por uma das varandas. Montou uma emboscada com a sua carabina de ar comprimido e acertou em cheio na barriga do Peidão, que desceu em queda livre, agarrado ao Pilas, tendo ainda tempo o Pontas de evitar o esmagamento. Como o Mac Macléu via mal de noite, e alguns diziam que também de dia, a segunda chumbada apanhou-o de costas e o chumbo foi de encontro ao seu bumbum. Respondeu com um “ai” e com um calhau, que passou a rasar a cabeça do Conan e o vidro. Foi altura de içarem todos a bandeira da paz e irem para os copos. O dia seguinte iria ser de guerra: brincar aos polícias e ladrões na quinta ao lado…à chumbada! Logo de início foram definidas regras, estavam proibidos de atirar às cabeças uns dos outros. Era justo e mostrava que estes rapazes, que provinham das melhores famílias de Paço de Arcos, tinham muito bom senso … até quando brincavam. O Conan Vargas apresentou-se no campo de batalha disposto a vencer, trazendo um coldre com uma soberba pistola e o camuflado do jardineiro, o senhor José, que estava de relações cortadas com a mulher e como tal acampara, com um cadeirão de verga, no terreno ao lado da casa onde morava o Bugio. Para que a luta fosse justa, trouxe para o Graise a espingarda da noite anterior. O Peidão colocara a mira-telescópica na sua Diana 38 para amedrontar os adversários, não deixando assim os pergaminhos de descendente de militares em mãos alheias. Por unanimidade o Zé dos Porquinhos e o irmão foram escolhidos como lebres, para assim os amigos poderem afinar as miras. Ainda protestaram, mas foram sensatos quando se aperceberam que a decisão era irreversível. Correram para os lados das colmeias e o primeiro a disparar foi o guerreiro da pistola, que causou o riso geral quando apertou o gatilho: a bala demorou a sair, fez um percurso em arco, todos a acompanharam até cair no chão e os pardais nem se mexeram. Seguiu-se o Peidão e a sua elegante mira, que espreitava para um lado e acertava no outro, ou seja, tirou o talho ao João e acertou no cu do Zé, que foi aos berros para casa, não a dizer “ó mãe dá-me uma carcaça que eu estou cheio de traça”, porque essa frase era exclusiva do mano, mas sim, “os meus amigos estão a dar-me tiros”. Estranhas brincadeiras! Quanto ao bacamarte do Graise, disparou várias vezes, mas o chumbo recusou-se sempre a sair, optando por ficar a dormir a meio do cano. Só ao fim de algum tempo, e após várias insistências, lá caiu aos pés do inconsequente adolescente. A inocente brincadeira foi bruscamente interrompida com a aproximação da dona Rosa, mãe das lebres, que vinha pedir explicações com uma enxada nas mãos.

Monday, April 05, 2010

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 31 - Jomarte


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 Comandante Guélas
Série Paço de Arcos

Ainda o século XXI era uma miragem e já Paço de Arcos possuía um espaço comercial equivalente ao actual Shoopping de Oeiras: a Jomarte! Aqui se realizavam os sonhos de todas as idades, as montras eram um hino ao bom-gosto e ao profissionalismo, puro e duro. E tudo isto se devia a um visionário único no mundo, o elegante Bigornas, proprietário desta oitava maravilha, que combinava fotografia, biblioteca e ferro-velho. A vitrina principal ostentava para a rua o maior cabeçudo da região, o auto-proclamado Rudolfo Valentino da Tapada do Mocho. Tinha ido expressamente falar com o responsável pela galeria pedindo-lhe, de joelhos, que expusesse a sua sensual cara, avaliação exclusiva do próprio, para que as miúdas nunca mais esquecessem tão vil e formoso focinho. Ficou então ao lado das fotos do casamento do Craveiro Lopes e da Quitéria Barbuda, uma iniciativa do Centro Paroquial de Paço de Arcos, que representou para a noiva a possibilidade de passar um dia da sua vida sem levar nos cornos, situação que se ia alterando no final da boda quando o Craveiro pegou numa cadeira para tentar arrear na dama. Assim, o cabeçudo estava bem acompanhado, até dava a impressão de ser o rebento do casal mais famoso da vila. Quando o cliente entrava na loja deparava de imediato com o motor do “peidociclo” do mano Zé e com um vasto balcão, semeado de fotografias de passe de metade de Paço de Arcos, todas a preto e branco. E a loja era tão original, que o cliente poderia ter de ficar o dia todo à espera para ser atendido, arriscando-se a maior parte das vezes a ter de voltar no dia seguinte, caso o senhor Bigornas tivesse iniciado, na divisão dos fundos, de acesso reservado ao Gang, a leitura de um novo livro de quadradinhos. E geralmente era isto que acontecia! Para lá do balcão a gruta abria-se numa vasta galeria, a sala das fotos, com palco e cortinas de espectáculo, onde o patrão limpava as mãos após uma mudança de óleo. Nestas ocasiões o senhor Bigornas colocava-se atrás de uma caixa com um trapo, punha a mão numa determinada posição, dava ordem para olharem para ela, e mal os olhos se fixavam no sensual dedo gordo com óleo (de 20.000Km), “zás”, saia um relâmpago que punha toda a gente como o OMO, incluindo o único não caucasiano da zona, o Zé Preto. E pronto, uma semana depois era só ir levantar a obra de arte, constituída pelas fotos e uma saqueta de plástico que ostentava o nome “Jomarte” e um desenho estilizado que representava o artista em pose de trabalho, atrás de um objecto. Nunca se soube, no entanto, se era uma mota ou uma máquina fotográfica. Após recolher o produto o cliente ia sempre para a estação de Paço de Arcos renovar o passe. Já no fim da vida da loja, com os clientes a dar a volta à praceta, o Bigornas resolveu comprar a máquina de fotocópias mais moderna da Península Ibérica, começando de imediato a dar desconto aos estudantes. Mas foi sol de pouca dura. Ao fim de uma resma de papel estava de rastos e cheio de saudades dos seus “Major Alvega”.

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 30 - O Primo do João da Quinta



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Comandante Guélas

Série Paço de Arcos

O João da Quinta tinha um primo com menos habilitações académicas, ou seja, nunca fora à Escola. E para agravar a situação, era surdo-mudo. À conta destas deficiências todas era o único a passar a ponte sobre o Tejo com o “peidociclo”, e de borla, porque quando a funcionária o tentava informar de que as motas de cinquenta centímetros cúbicos eram proibidas naquele local, a cabeça do primo inchava de raiva, ficando vincada na testa a placa que lhe tinham posto após o último desastre, em que marrara contra uma árvore depois de ter descido um barranco com a sua Zundapp. Para se safar daquele bajoulo vestido de preto e a cheirar a estrume, mesmo depois dos ventos da ponte lhe terem feito uma limpeza a seco, abriam-lhe a cancela e ele lá ia à sua vida. Por isso para este surdo-mudo de um só neurónio não havia barreiras para o seu “peidociclo”. E como era um homem livre às vezes aparecia de surpresa na casa do João da Quinta e abancava durante algum tempo. Não dava muita despesa, porque água nem para beber e se fosse preciso dormia aconchegado com as ovelhas. Quando aparecia significava que estava de boas relações com a sua Zundapp 50, porque quando ela resolvia não pegar atirava-a por um barranco e lá ficava durante uns dias, até as saudades apertarem e o mecânico lhe explicar que sem gasolina a sua querida não funcionava. Durante a estadia na quinta onde a família do primo vivia e trabalhava, tinha uma casa-de-banho particular: o terreno baldio junto à casa onde vivia o adolescente mais responsável da zona, o menino Peidão, que assistiu, impávido e sereno, a este ritual do primo do seu amigo, que nem para cagar tirava o chapéu. Parecia um urubu, todo vestido de preto. A sorte do primo, surdo-mudo e com um só neurónio, do João da Quinta mudou na altura em que o Peidão ganhou uma espingarda “porção-de-ar” Diana 38, tornando-se um snipper. Logo na primeira “chumbada” saltou o chapéu do cagador, que ia caindo, com o impacto, para cima do produto, pois tentara agarrar o penico que estava na cabeça e que fugira, vá-se lá saber porquê. Ajeitou-se e voltou à posição de cócoras, sinal de que ainda tinha a tripa com favas. Na segunda chumbada desequilibrou-se e desceu o morro com as calças arreadas, desaparecendo no meio das alcachofras. O Peidão empoleirou-se na varanda mas não o viu. O tiro parecia ter sido fatal. Quando o adolescente se preparava para guardar a “Diana 38” viu um vulto a erguer-se furioso com o fato pintado de picos, chapéu na cabeça e a gesticular, correndo em direcção à quinta. Nunca mais usou o exterior da quinta para largar os feijões, tendo optado pelo conforto e segurança do cercado das ovelhas.

Wednesday, March 24, 2010

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 29 - Simplesmente Ginja


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Comandante Guélas

Série Paço de Arcos
Desde aquela tarde em que o Ginja subiu ao interior da roulote dos santos gémeos de Paço de Arcos, o Pierre Pomme-de-Terre e o Mocho, o primeiro fast-food da Costa do Estoril, imitado mais tarde pelo Mac Donald’s, rapazes de uma vida tão variada e ocupada, a vila nunca mais foi a mesma, tudo se alterou. Como cliente número um tinha direito a um prémio, ideia mais tarde copiada pelo IKEA, que consistiu num cachorro duplo, com salsichas adquiridas na Casa do Adro, e registadas no “Livro de Fiados” em nome do Palitó, o barbeiro que uns dias antes tinha adquirido ao Pierre Pomme-de-Terre uma soberba caçadeira com os canos dobrados, que o vendedor garantira servirem para “caçar coelhos nas curvas”. As consequências desta salsicha extra estão ainda por contabilizar, mas é um facto que o senhor Ginja nunca mais deixou o serviço da causa pública, mantendo inalterada a sua aparência física. O tamanho do enchido depressa chegou aos ouvidos do único capitão de Abril da vila, que pensava que não existia nada mais poético do que ter um gostinho com um imberbe ao pôr-do-sol. E este adolescente multifacetado, com uma linha melódica no andar e uma percepção global da vila, tinha todas as qualidades para ser o “elo perdido” da fonte de que sempre bebera. Dentro deste militar frágil, brando, meditativo, de tempos lentos, noites mal pisadas e cuecas rendilhadas, estava atravessada na garganta uma enorme espinha chamada Estalinho, que o obrigara a passar uma noite solitária em plena serra da Malveira. Tudo se precipitou quando o velho militar soube que a trufa em forma de adolescente tinha os dias contados no continente, e um bilhete de regresso ao quartel nos Açores. Era agora ou nunca! Mas onde raio se metera o filho do tio Chico? O Peidão, um rapaz com queda para as causas humanitárias, soube do desespero do amigo e prontificou-se a levar o convite ao Estalinho, que estava a banhos na piscina do Forte de São Julião da Barra, local de acesso restrito, que obrigava sempre o Ginja a ir no porta bagagens do mini da mãe do Peidão. Quando o Estalinho, um macho lusitano, recebeu a carta secreta do militar teve um ataque de caspa e quis rasgá-la, acto prontamente impedido pelo amigo, o mais sensato adolescente alguma vez nascido e criado na Costa do Estoril. Se o Estalinho não respondia à proposta veloz do amigo de meia-idade ele, Peidão, responderia em nome do Estalinho. Dito e feito:
Aceito
Local: “Farta Pão”
Horas: 20H35
Quando o militar recebeu de volta o papel entrou num transe dedicado à satisfação desenfreada dos vícios da luxúria e da gula, antevendo já o Estalinho a explodir-lhe nas mãos. O dia seguinte foi longo, muito longo, prolongou-se para lá das 23 horas na serra da Malveira, esperando e desesperando em vão pela sua bombinha de Carnaval que nunca chegou, atitude esta que levou a um corte de relações abrupto. Foi nesta altura que o Ginja apareceu, tal qual um D. Sebastião, envolto em prazeres interditos pela moral puritana da Paróquia, praticando uma panóplia de actividades clandestinas, que atraíram de imediato o militar, esquecendo, como que por milagre, o maldito Estalinho. Mas este adolescente era diferente, muito diferente, curioso, muito curioso. A cena seguinte desenrolou-se na Régua após uma atribulada descida do rio Douro. Os guerreiros instalaram-se num bar de apoio da piscina do Clube de vela, graças à excepcional diplomacia do militar, que também fazia parte da tripulação, e desfrutaram de umas merecidas férias. O Ginja deu logo nas vistas com os seus ousados mergulhos, pondo as fêmeas da fauna local em delírio. E uma delas destacou-se da matilha. Apaixonou-se de imediato pelo Apolo de Paço de Arcos, que a convidou para uma saída nocturna, mas logo ali surgiram dois constrangimentos: o irredutível pai da noiva e o ciumento militar. O segundo contentou-se com umas irresistíveis massagens dadas pelo nosso herói, que usou como creme repelente de mosquitos, e o primeiro foi ultrapassado com uma visita inesperada do pretendente à casa do sogro. Vestiu a melhor roupa disponível, usou o mesmo creme como brilhantina e o resto ficou a dever-se à sua já famosa prosa, capaz de arrasar com qualquer um. O velho caiu na lábia e a noite foi passada à borda da piscina, com promessas de uma vida futura numa mansão na paradisíaca Terrugem. A compra do vestido para o casamento foi logo ali marcada para a tarde do dia seguinte, sabendo já o artista que iria embarcar na carreira da manhã rumo a Lisboa.

Tuesday, March 23, 2010

Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 28 - O Burro da Pradaria



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Comandante Guélas

Série Quitéria Barbuda

O João era um adolescente que só admitia no seu quintal cães com pergaminho e quando resolveu que tinha chegado a altura de cruzar a sua pastora alemã, escolheu o cão que era praticamente do Peidão, o Bugio, um soberbo macho da mesma raça, inimigo juramentado do Torpedo, o maior rafeiro do Alto de Paço de Arcos, propriedade do célebre gang dos dez manos, que tinha uma raiva compulsiva ao Pitrongas, um flamingo da raça humana. No dia D o João tapou o ganha pão da sua pastora com uma perícia lenta de artífice, pois desde que ela entrara no cio ele via pesadelos no horizonte com rafeiros sinistros, que roubavam virgindades num latir , e dirigiu-se para a toca do Bugio, pronto a enfrentar o desafio dos limites. A cadela foi à trela, com disciplina severa de prisioneira. Já se via dono e senhor de uma soberba ninhada de arianos, subversivos no melhor sentido, abafadores de gatos, de rafeiros e de carteiros. Mas a vida sempre fora mais imprecisa do que parecia. Resolveu passar pela praceta para também ele desfilar os seus genes, desta feita castelhanos. A zona borbulhava, alguém tinha gamado o cachimbo da mota de um inimigo de Caxias, e estavam todos frente a frente para o combate, um já se encontrava na fase do “agarra-me se não eu mordo”, mesmo estando solto, e as meninas iam-se sentando para assistir à luta de galos…galitos cocós! A namorada do Graise distraiu-o com a sua sensualidade e a cadela entrou no jardim para se aliviar. Ao fundo, muito ao fundo, o Fiorde, um rafeiro aristocrata, dormia a sono solto, até que as contingências da fisiologia canina chegaram ao seu olfacto de cão de rua e o despertaram para a realidade. Havia uma fêmea a chama-lo para a perdição e ainda por cima no seu território. Ainda mal se levantara e já uma precoce encharcava o pano de cozinha que fazia a vez do lençol. Quando a pastora alemã o viu nem queria acreditar que o semelhante se dirigia para si em cinco patas, com a extra a arranhar o chão. Fez de imediato uma inversão de marcha e preparou-se gulosa para o embate. O cacete do Fiorde dobrou quando deu de caras com o saiote e o rafeiro arregalou os olhos. Tentou todas as manhas do Kamasutra, mas o chouriço teimava em dobrar, para desespero da fêmea. E quanto mais tentava mais desesperava, as meditações viscerais toldavam-lhe a razão. Mudou então de estratégia. Lembrou-se da máxima do seu avô, o Piloto, que dizia que enquanto tivesse língua e dedo não havia cadela que lhe metesse medo. Afocinhou de imediato, e com tanta força que acabou por esfrangalhar o cinto de castidade, ficando com o caminho livre para o pecado. A pastora até uivou ao sentir o Fiorde todo dentro de si, pois a galga era tanta que ele parecia que tinha entrado sem despir o fato. Foi nesse momento que o dono deu pela falta da sua preciosa cadela e no estado em que os dois já estavam nem sabia quem era um e quem era o outro. Teve de ser agarrado pelos amigos, porque o que lhe ia na alma não era benéfico para a saúde do experimentado Fiorde. Entretanto, no alto de Paço de Arcos o Bugio já substituíra a dama pelo vagabundo do Bóbi, o cão do Zé dos Porquinhos, senhor de uma soberba cauda encaracolada, que lhe facilitava sempre o caminho para a luxúria. E a cena passava-se, como já era hábito, na relva e perante o olhar reprovador do avô do Peidão, um general que vociferava sempre quando se deparava com estas cenas de sexo explícito. O Bóbi reclamava sempre quando o Bugio não o respeitava, mas não tinha outro remédio senão aceitar as contingências da natureza, que fizera um pequenino e o outro um matulão, com um rosnar que o mantinha em sentido e sem hipóteses de fuga. Quanto ao João, que estava imobilizado, não teve outro remédio senão esperar que o Fiorde soltasse a sua pastora alemã, acabando o dia a rezar para que a traição não vingasse. Mas vingou. Algum tempo depois uma nova ninhada deu os primeiros passos à luz do dia e depois de distribuídos pelos novos donos, dois canídeos se destacaram desta improvável união, o do Milhas, o Sinai, o único com um tufo a meio dum olho, que iria ter um conflito permanente com o gang dos dez irmãos, seus vizinhos, e o cão do Zé Pincel, cujo nome não ficou para a história, a não ser as suas enormes orelhas que o baptizaram para sempre como o Burro da Pradaria.


Sunday, March 14, 2010

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos - 27 - Rocky Vargas


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 Comandante Guélas
Série Paço de Arcos 
Após o fim da comissão de serviço nas tropas especiais dos Pára-quedistas, onde foi ajudante de cozinha, o Conan Vargas fez uma entrada de leão em Paço de Arcos, tentando assim impressionar todas as fêmeas que tivessem a sorte de se cruzar com ele. Ainda tentou fazer os exames nacionais do 2º ano do Curso Complementar dos Liceus, mas não conseguiu, mesmo depois do Pontas lhe ter dado as provas, que tinham sido gamadas uns dias antes e andavam a circular por todo o país. Mas o treino de Rambo que circulava nas suas veias levou-o para outras paragens, o Circuito Nacional de Boxe da décima divisão, onde valia tudo, até tirar olhos com as luvas calçadas. Pediu ajuda aos amigos para os treinos e montou um ringue na garagem da casa da mãe. O primeiro a enfrentá-lo foi o Graise. Em cima de um escadote o árbitro Chico Sá deu o sinal para o primeiro “round”, através do som estridente de um despertador. O Conan tinha soletrado um livro técnico da modalidade na véspera e aplicava agora os gestos técnicos aprendidos, através de abanões malandros da cabeça, enquanto que o adversário não conseguia parar de rir. Reclamou com o árbitro a atitude anti-desportiva do Graise e distraiu-se. Levou dois directos e três ganchos, todos a seco, e o despertador tocou. Quis repetir o combate, mas não foi autorizado. Limitou-se a esperar pelo próximo cliente, que tinha acabado de descer do escadote e estava a calçar as luvas. Em altura encontrava-se agora o árbitro Peidão a dar corda ao relógio, que teve o cuidado de perguntar ao Conan se queria descansar um pouco, ao que ele respondeu “não”, porque aquilo não era para meninas. Não disse mais nada, o apito tocou e o Chico Sá enfiou-lhe a mesma dose que o mano, dois directos e três ganchos, mas com uma pequena variante, os últimos foram todos molhados. E nem teve tempo para abanar o capacete. Quis a desforra, mas os amigos recusaram-se, com receio de lhe porem em risco o futuro no Circuito Nacional de Boxe da décima divisão.
Noutro canto da vila de Paço de Arcos, o Focas das Docas treinava afincadamente a mesma modalidade, para entrar no mesmo campeonato. Mas os treinos de combate eram feitos com membros de outros gangs. E foi numa dessas ocasiões que deu tudo para o torto. Era noite, e alguns membros do Gang de Paço de Arcos estavam em ronda pelas capelinhas habituais, quando resolveram ir verter águas numa discoteca de rabichotes, cujo nome era “Finalmente”. Estavam descontraidamente nos urinóis a despejar as cervejas, quando deram de caras com um desconhecido que estava a tirar-lhes as medidas aos cacetes:
- Ó boneca, se continuas a olhar para o que não é teu, mijo-te para as pernas, – avisou o Focas, tentando acertar-lhe de longe.
A Fofinha ficou tão ofendida que saiu a correr e foi fazer queixa ao segurança. Quando o Ganguinho ia a sair do estabelecimento comercial, foi barrado por um calmeirão, que se identificou como o Rui Nazi, e lhes pediu explicações sobre o sucedido com a Fofinha. Não teve tempo para mais nada, pois o Focas presenteou-o com um gancho tão colocado, e na máxima potência, que o atirou, em voo, de encontro a uma montra, que não resistiu ao embate e se desfez em mil pedacinhos, tendo o Rui ficado a dormir no seu interior. O Focas estava agora apto para subir ao ringue e trazer muitas alegrias e taças para o Comandante Guélas.
Foi numa noite fria e chuvosa que os dois tubarões iniciaram a sua participação no Circuito Nacional de Boxe da décima divisão. Local do ringue, Talaíde ! A claque era numerosa e a sala um pouco apertada. O aspecto era de cortar à faca, todos temeram pela vida do Conan Vargas, o ex-Pára-Cozinheiro. Quanto ao Focas, o azar estava do lado de quem o iria enfrentar. Aviou todos os que se atravessaram no seu caminho e levou a taça para casa. Do Conan não se pode dizer o mesmo. Logo no primeiro combate resolveu abanar o capacete e comeu inúmeros secos e molhados, até ser raptado pelos amigos, que o levaram directamente para casa. Na manhã seguinte lá apareceu no café e quando estava suficientemente rodeado de fêmeas, presenteou-as com o filme de uma formidável noite em que conseguiu vencer todos os concorrentes por K.O.

Thursday, March 11, 2010

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 26 - De Cascais a Paço de Arcos na Deusa


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 Comandante Guélas
Série Paço de Arcos
 
Ainda a noite era uma menina e já cinco paço-arcoenses, de boas famílias, tentavam entrar na boite “O Farol”, pelo lado do mar. E tudo por culpa do Max (o porteiro), que não os tinha deixado entrar pelo lado legal. Mas (e as epopeias começam sempre por um “mas”), nessa noite o Rodrigues (o proprietário) resolvera ir descansar a bebedeira para o lado errado (costumava estar no Bar, ao cantinho, junto ao Escalar, o maior peixe do aquário, que o Pacheco costumava aprisionar num copo em cima da mesa – um peixe muito rijo), e deitara-se junto ao sofá da janela panorâmica de entrada da malta paço-arcoense. Caso tivesse fechado, o Pacheco entraria pela porta legal e puxaria os ferrolhos. Mas nessa noite estava tudo ao contrário! E foi por causa disso que o nosso muito estimado Mac Macléu Ferreira acabou a noite à beira de um ataque de nervos (ao contrário do rally da TAP, nas célebres noites da Penina, onde fora dormir para o Hospital de Cascais). De cada vez que um dos artistas tentava entrar, dava de caras com a focinheira do tio Rodrigues, que estava mais para lá, do que para cá. Era indecente!
- Olha, uma luz aqui em baixo, – alertou o estudante Focas, descobrindo uma pequena porta de madeira.
Durante tantos anos, tantos paço-arcoenses tinham subido pela janela panorâmica nº 1 e nunca haviam reparado naquela humilde portinha. E como a rotina é sempre a grande inimiga da segurança, tinham-se esquecido de apagar a luz (talvez com a pressa ou com a mudança de empregado, para pagarem menos).
- É o armazém e está cheio de bejecas, – informou à rapaziada o estudante Pontas.
Esqueceram-se do Rodrigues e passaram a atenção para o armazém. Cinco minutos depois, já o estudante Focas forçava a entrada com uma humilde barra de ferro.
Crash – Crash
Um mundo de loirinhas passou a sorrir para aqueles devotos estudantes. Mac Macléu Ferreira ficou estático de prazer, antevendo já outra passagem pelo Hospital de Cascais, para receber mais uma dose de glicose. Mas depressa voltou à realidade e anunciou:
- Vou buscar a Deusa (um fantástico e robusto Citroen Dyane – que saudades!).
Antes da Deusa foi atestado um Peugeot que acabara de chegar com mais paço-arcoenses. Dava para todos, respiravam os ares da Liberdade, e o Rodrigues não passava de um porco fascista, explorador de estudantes do povo trabalhador, mesmo que fosse filiado no PCP. Deusa atestada e aí foram, rumo à Pátria do Comandante Guélas.
Dentro do bólide nem se respirava, devido à Tara. Estavam no Verão e, por isso, o tecto ia escancarado. Faziam-se contas! Mac Macléu Ferreira queria 50%, alegando ser o proprietário do veículo de transporte. Deu-se início a um grave problema laboral. Depois do 25 de Abril, todas as profissões tinham sido legalizadas, incluindo a de Estudante-Ladrão. O patrão tinha direito a 20%, igual a todos os outros. E a gasolina, quem a iria pagar?
- A tua mãe, – informou o Pontas.
O barulho da mesa redonda foi interrompido pelo estilhaçar de uma “bejeca”, de encontro à estação do Tamariz. Mac Macléu Ferreira nem queria acreditar no que ouvira.
- Quem é que atirou a garrafa? – Perguntou, largando as mãos do volante, voltando-se para trás, e reduzindo para terceira, a 110Km/hora.
A Deusa abriu a boca, gritou desesperada, mas continuou, implacável e severa.
- Garrafa!? Qual garrafa? – Questionou o Bajoulo, mostrando uma grade cheiinha, enquanto escondia a outra atrás do Peidão.
- Pareceu-me ouvir o barulho de uma garrafa a partir-se, – respondeu Mac Macléu Ferreira, pondo de novo a quarta, desta feita a 112Km/hora.
- Além de míope, estás a ficar surdo – informou o estudante Focas, ao mesmo tempo que arremessava a segunda “bejeca” para os pés de um casal de “camones”, que apreciava as noites de verão de S. João do Estoril. Ainda o Mac Macléu Ferreira se preparava para tirar, novamente, as mãos do volante, reduzir para terceira a 114Km/hora e virar-se para trás, e uma granizada de “bejecas” se precipitava de encontro ao castelo, que aparecia sempre depois de S. João. Os óculos do Mac, os olhos e a barba eriçaram-se e tentaram comer vivos os autores de tão vil acto.
- Para a próxima paro o carro e saem todos, – ameaçou Mac Macléu Ferreira, antevendo uma noite de luxúria com a última grade de loirinhas. Mas as suecas queriam mesmo sair! A última abandonou a Deusa à entrada de Paço de Arcos, indo no seu encalço a grade vazia. Quanto ao Mac Macléu Ferreira, estava em estado de choque, devido ao barulho ritmado de “bejecas” de encontro ao passeio, a partir de S. Pedro. A curva foi feita à velocidade do costume, 120 Km/hora, com o pessoal de fora e a ajudar à inclinação. Que grande Deusa! Outros tempos, outra geração, com muita sorte ao volante.