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Friday, February 08, 2013

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 32 - “Miolos no Teto”


Comandante Guélas
Série Colégio Militar


Falar dos Meninos da Luz é recordar fragmentos, ficções, fantasmas, encontros afetivos de acasos partilhados. Forçam-se os limites das verdades adquiridas, porque estas estórias deixaram sempre resíduos no local.
- “Miolos no teto, miolos no teto, miolos no teto, oeh, oeh, oeh, oeh, ooh” – gritava-se algures numa sala, cujo som, de contornos primitivos, invadia o Zimbório sem pedir licença.
E alguns segundos após o silêncio que se lhe seguia, o novo barulho dava a sensação de algo a bater violentamente contra uma parede. Recuemos um pouco.
Há uma linha que divide os Meninos da Luz dos Meninos que luzem, e essa linha chama-se Conforlimpa. A partir do momento em que para dar brilho a este espaço tornou-se obrigatório o uso de luvas de borracha e de credenciais, o trabalho, que antes estava entregue ao Abílio, ao Aires, ao Sabino, ao Artur Carpinteiro, à Menina Cacilda, ao Carranço, ao Francisco Barbacena, ao Germano, ao Jaime Godinho, ao José Luís, ao Marinho, ao Patronilha, à Menina Lisete, ao Manuel Ribeiro, ao Manuel Seia, ao Manuel Sousa, ao Marcelino, ao Mário Bernardo, ao Zé Miranda, ao Nunes, ao Zé Ramalho, ao Ramos, ao Sabino, ao Saragoça, ao Sebastião, ao Vilela, à Dona Teresa, ao Moca e ao Xavier, passou a depender de penetras que não faziam a mínima ideia das regras colegiais, deixando tudo muito mais vulnerável. E quando o 263 (Chula) apareceu com a chave do gabinete do Diretor, mal sabia a implicação deste gesto no futuro do Colégio Militar:
- Vamos fazer-lhe uma visita de cortesia, - propôs o Rato (432), nesse quente mês de Junho de 1994.
Quando a porta se abriu todos tiveram uma sensação de absorção, respiravam agora no mesmo espaço do chefe máximo do colégio da Luz, faziam parte da atmosfera escura da divisão. Acenderam o candeeiro e deram de caras com os galões de domingo. Um a um registaram para a posteridade o momento em que foram generais durante uns breves segundos. Após a sessão de fotografias seguiram-se as assinaturas da praxe que, para resistirem o maior tempo possível, foram feitas na parte de baixo da secretária. Uma mobília que até esta data não passara de um acessório comum em todas as salas, tornou-se assim num tesouro semelhante aos calhaus grafitados de Foz Côa, com os rabiscos de um provável gang, começando pelo À Nora e acabando no Rato, sem esquecer o Mosca, o Pencas e o 324, que neste caso assinou Mathos, tal qual pronunciava, devido ao nó na língua e à tensão do momento. Para que a visita deixasse para sempre “resíduos” no local, como foi referido acima, o 432 abriu as hostilidades com a retrete: meio quilo de material biológico!
- Parece uma moca, - gritou o 4.
- E deixou rasto, - admirou-se o 202.
E como o lema era “Um por Todos, Todos por Um”, seguiu-se o 354, ficando no fim todo o conteúdo intestinal do pelotão ocasional, pois bastavam cinco para formar um, feito do material desviado do bar dos oficiais umas horas antes, local de passagem obrigatória nestas procissões de verão. Voltemos então à atividade na sala dos Claustros
- “Miolos no teto, miolos no teto, miolos no teto, oeh, oeh, oeh, oeh, ooh”, seguido de um curto silêncio e de um “BUM” com letras maiúsculas.
O Pencas (354) trouxe duas mantas, que foram agarradas pelo 263 (Chula), 324 (Mathos), 432 (Rato) e 4 (À Nora), enquanto o 202 (Mosca) se voluntariou para ser arremessado contra o teto, uns cinco metros acima e, se o esticar do pano desta vez fosse eficaz, deixar parte dos miolos agarrados ao estuque. Esta brincadeira inocente, exclusiva deste espaço pedagógico, começara com uma só manta e com o 151 (Bola), mas o atleta voou baixinho e teve problemas na fase de aterragem, quando uma das pegas se rasgou, obrigando-o a usar o pandeiro como airbag. Com o segundo piloto, o 475 (Chaminha) a catapulta foi reforçada, assim como limitada a tara do pássaro. Desta vez não deixou os miolos por pouco, faltou-lhe um “Suissinho”. Quem conseguiu deixar a marca da bota no teto, tal como o Armstrong na Lua foi, como a própria alcunha mostra, o Mosca . E esta assinatura tem mais valor do que todas as placas que existem nas paredes do Zimbório. Pertence ao pessoal que entrou em 1986, o da transição!






 

Saturday, February 02, 2013

Camarada Choco 91 - Mixórdias


Camarada Choco
Aventura 90

Ainda só havia um dia de praia, e já as queixas caiam em catadupa em cima da secretária da Afilhada Principal da Tarde, agora no ex-papel da Doutora sem Caneco, que tentava a todo o custo transformar a Escola para Desaparafusados da Venteira num espaço de Novas Oportunidades:

- Dei várias lambidelas no calção de banho do meu filho, e só senti o sabor a mijo, - gritou a mãe do Tornezol, e continuou. – Sal, nem saboreá-lo, a Dona Pilca distraiu-se a comer ameixas quentes e esqueceu-se de o levar à água!
- A minha filha veio para casa com areia nas meias, - gritava noutra linha a progenitora da Olhos Tortos. – Não é para isso que eu a mando à praia! A Dona Pilca deve-se ter distraído com as bolas de Berlim.
E havia mais. Em cima da mesa estava para despacho a queixa apresentada por um Aparafusado contra o barulho infernal dos dois periquitos que a Dona Espatinha tinha à entrada do bar do Codeca.
- Já não aguento o ladrar dos pintos, e exijo medidas drásticas, senão eu… - ameaçara na Direção, revirando os olhos e mordendo os lábios, ao mesmo tempo que corava abundantemente, como se o mundo lhe devesse alguma coisa,  uns dias antes dos ovos dos ditos terem desaparecido misteriosamente do ninho.
- Estou farta destes mongas todos, - desabafou uma das Afilhadas da Tarde,  pondo uma folha de alface na orelha esquerda tentando assim aliviar a pressão, conforme indicação do livro de fisiologia do Dr. Kovac’Olhões, o chinês da loja dos “Trez-Entos” da rua paralela ao Babilónia.
 O Nélinho tinha uma cenoura enfiada no…nariz, a Brazuca Transmontana equilibrava uma couve lombarda no cima da cabeça, a Minhota arrastava um molho de coentros pelo chão, que mais parecia um véu de casamento, e tirava apontamentos. De repente algo caiu com estrondo numa das salas. Tinha sido o Peixe Espada, arremessara com raiva um frasco de “Compota de Baba” da sala da Pirosa, cheio de lápis, e ameaçava agora com a mesa:
- Se não te portas bem vais de castigo para a sala do Pilha-Periquitos, - gritou a madame Luci, ultrapassando em decibéis o volume do Desaparafusado mais antigo da Venteira.
- Mas esta planta é minha, - gritou o Cabo Pilas ao bater com a cabeça num vaso castanho junto aos serviços administrativos. – Quem é que ousou tirá-lo do primeiro andar?
Mas ninguém lhe respondeu, a Fininha da secretaria tinha-se antecipado e escondera-se debaixo da mesa, enquanto a sua colega Maga Patalógica encontrava-se no estado alienado habitual com a cara colada ao monitor. Lá em cima a Chefe Bélinha encontrava-se à beira de um ataque de nervos, pois o seu já habitual período de chefia máxima, motivado pela ausência para férias da Madrinha Sem Caneco, ainda ia a meio e já tinha um presunto no currículo e o voo da Cigana Destravada do primeiro andar. Estava na ressaca da medicação, por isso a alucinação trouxera para o páteo o seu Samecas todo nu, a convidá-la para o pecado:
- Atira-te amor que eu agarro-te !
A salvação foi o telheiro de plástico e as tampinhas da Menina Tatrícia, mas não a safaram de uma perna empenada e de uma ameaça de ir saltar para outra freguesia, pois a Venteira já estava farta destes mongas abandonados pelos pais, depois de terem acabado os subsídios à preguiça para quem ficasse com eles em casa. Já que tinham de ir trabalhar, a Segurança Social que tomasse conta deles.


 

Saturday, January 19, 2013

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 31 - O Apagão


Comandante Guélas

Série Colégio Militar


As histórias vêm dos fragmentos da memória coletiva, e na memória coletiva se consomem, porque só assim se pode ir mais longe e mais fundo nesta vida. Por isso a tradicional “Falca” não poderia passar despercebida. Quando o Cebola soube que o Crocodilo estava de baixa na Enfermaria, e por isso iria safar-se das marchas e do teste do Semita, jurou ir fazer-lhe companhia:
- Como é que o 318 conseguiu arranjar Papeira?
Já tentara os métodos tradicionais, esfregara toda a pasta de dentes do Texugo (175) nos sovacos, mas o termómetro não passara dos 38,5, e isso só dera para uma misera aspirina; simulara uma fratura na ginástica, quando viu o osso do Trabuco (400) a espreitar na perna, mas o Tadeu deu a ambos o mesmo tratamento:
- Esfreguem com água fria que isso passa!
  Abanara freneticamente o termómetro de pernas para o ar, mas só conseguiu uma alucinação:
- Moço sabes o que é um Jericoacéfalo? É o que tu és…um burro sem cérebro! – Gritou-lhe o engenheiro Grijó do éter!
Recorrera aos alhos dos bifes da testa do almoço, mas só conseguira uma apresentação à alvorada por falta de higiene. Estava desesperado, por isso corria agora com capote à volta do campo de futebol, debaixo de um sol abrasador.
- 42?!! – Disse o sargento Valentim, olhando para o jovem com cor de tomate e para as aspirinas que estavam empilhadas como Legos. – Vais ter que passar aqui a noite.
Menos sorte teve o Gordini (601) quando apareceu com o garfo do Becas (157) enterrado na mão, depois de um assalto de esgrima durante a hora de jantar:
- Toma estes Sais de Fruto que amanhã o buraco está tapado !
Quando o Cebola chegou ao quarto, já o Crocodilo estava aconchegado às pantufas e à revista “Gina”, cujas suecas o mantinham a ele e aos outros dois em “ponto-de-rebuçado”. Estavam agora todos num quarto virado para a Estrada da Luz, cujas janelas estremeciam de cada vez que passava um eléctrico, condições inaceitáveis para que pudessem recuperar condignamente do frágil estado de saúde. Por isso resolveram atacar o problema de frente, não fossem eles uns soberbos Meninos da Luz. Juntaram duas vassouras, escancararam as janelas e, depois de várias tentativas, conseguiram pôr os traillers dos eléctricos fora da calha. Naquela noite não houve amarelos para ninguém, e as queixas caíram em catadupa na secretária do Oficial de Dia, que não conseguiu pregar olho, como era habitual. No Colégio Militar não se desperdiçava o tempo, porque todos desfrutavam de uma invejável liberdade selvagem, com a errância limitada à distância entre o Picadeiro e a Porta de Armas, onde se construiu durante longos anos uma ética e uma moral exclusivas daquele espaço educativo. E qualquer contradição entre ambas era de imediato resolvida com uma “Firmeza”, ou com uma “Apresentação à Alvorada”, ou uma “Sessão de Abrunhos” em frente à Companhia. Foi por isso que finda a comissão de serviço na “Falca” estes quatro artistas foram contemplados com dois magníficos dias de detenção, que hoje em dia só de pensar já é crime para a Associação de Pais.  

Monday, January 14, 2013

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 30 - O dia em que o Rei foi ao Colégio


Comandante Guélas

Série Colégio Militar

Estas histórias são escritas por memórias pessoais e memórias em segunda mão. O tradicional Colégio Militar estava definitivamente a mudar, esperava-se agora a visita de um conterrâneo do Sissé, mas que falava uma espécie de tupi e não crioulo, que iria ter, em exclusivo, o batalhão colegial com as armas em riste no campo de futebol. O pequeno-almoço, como já era habitual nos dias em que havia desfile, foi reforçado, para assim evitarem desmaios de ocasião durante a espera. A limusine com o convidado especial parou junto à sala de esgrima e o primo afastado do 361 saiu vestido com um soberbo blaiser vermelho, com o símbolo da Pepsi bordado no bolso. Umas horas antes uma camioneta estacionada no piso por debaixo do refeitório da primeira e segunda companhias, não tinha passado despercebido ao trio maravilha: Cão (328), Camélia (299) e Six (607). 
- Estão a guardar grades com garrafas, - informou o 601 (Gordini).
Junto ao ginásio a festa estava rija, os Meninos da Luz marchavam orgulhosos para o Rei Pélé, que iria de seguida dar o pontapé de saída para um encontro de futebol entre duas equipas do colégio. No guião da Pepsi constava um penalti, cuja baliza seria defendida pelo 661.
- Vou atirar a bola para o lado direito, - disse o ilustre visitante quando cumprimentou o adversário.
Dito e feito, o Dáni fez uma soberba defesa, escrevendo assim nas estrelas mais um feito do magnífico Colégio da Luz, que foi de imediato aproveitado pela imaginação: “Com Pepsi os Meninos da Luz ficam invioláveis”, dizia com orgulho um soberbo militarzinho, o Escalope (307), apresentando arma, mas em vez da Manlicker, tinha na mão uma garrafa da bebida que o primo do Sissé dizia ser a sua preferida.
Antes do jogo as equipas tiraram fotografias com o rei, e numa delas, tal como o quadro da Mona Lisa, os sorrisos dos que estavam de pé, contrastavam com os esgares dos que se tinham agachado: o 200 ficou firme e hirto como uma barra de ferro; o Morena susteve a respiração; o Tofa ainda sentiu a brisa passar-lhe junto à orelha esquerda; o Rita ficou atordoado; o Becas gritou baixinho, “foi com molho King”; o Pélé desculpou-se com o fuso horário, e pediu calma à rapaziada; o Six pensou, “fuso horário?? Tu estás é podre ó brasuca”; o Cebola olhou maravilhado para o convidado e exclamou, “quando chegar à sua idade quero ter as válvulas de escape como as suas”; o Dáni deu-lhe os parabéns, e chamou-o de Rei Leão. Na fila de baixo, e da esquerda para a direita, o 27 acusou o Cavalo de ter largado uma cavilha maior dos que as  da Nônô; o 466 exclamou, “o rei deu uma salva de boas vindas; o Lory ficou atordoado; o Cascão sentiu a brisa por inteiro; o 574 disse que o barulho se assemelhava a uma bazuca; o Esperma ameaçou que na outra ficava afastado do rei, e de pé.
Mas como neste espaço abençoado pela luz tudo era inigualável, um pouco mais abaixo estavam a decorrer outras atividades culturais, na cave junto aos balneários. Aproveitavam as janelas abertas da cozinha e enchiam a sopa Juliana com todas as proteínas disponíveis, minhocas, bichos de conta, caracóis, e muitos, muitos outros “mariscos” exclusivos da zona. Este foi o segredo para toda uma geração saudável que o colégio produziu. Enquanto isso o “Arroz Generalíssimo” já gritava nos tabuleiros de alumínio XXL, tostado pelo forno que estava na redline, tendo à sua espera recipientes com beterraba e cenoura ralada, que lhe iriam dar um aspeto grumete. No mesmo local, ouvia-se o bater ritmado de botas contra a porta que dava acesso às bebidas milagrosas.
- Acertem o passo comigo, - ordenou o 601 (Gordini), com uma voz de chefe, ao Cão (328), ao Camélia (299) e ao Six (607).
 Mas estavam cansados, a semana tinha sido muito agitada, iniciara-se com um assalto aos bolos do Miranda nos claustros, e várias molhadas aos papos-secos com marmelada, e outros miminhos, uma atividade diária após o segundo tempo da manhã, cujo risco era tão elevado que os funcionários, por uma questão de segurança, punham os cestos à porta das salas de aula uns minutos antes de tocar, e fugiam em debandada. A corneta berrava, as portas abriam-se de rompante e uma turba de Meninos da Luz alucinados mergulhava sobre o recipiente, reduzindo parte do conteúdo a “migas à alentejana”, destinadas aos mais obesos. Mas tudo tinha o seu lado positivo, foi destas molhadas que saíram alguns dos melhores jogadores de rugby do país. E para agravar o panorama o Semita tinha dado uma bengala (7 valores) ao Six na oral de Física:
- Moço, - explicou-lhe o docente, - esta disciplina não é uma cadeira, é uma “chaise long” onde o aluno se estende à vontade.
Pum, CRRR….
A porta foi-se, dando lugar ao tradicional mergulho, um reflexo condicionado que todos os Meninos da Luz adquiriam, apesar de serem só quatro. Estava-lhes no sangue, eram personagens que se elevavam acima das suas circunstâncias. E foi por isto que a promessa do primo do Sissé de dar uma garrafa a cada Menino da Luz não se concretizou, estando este lapso entranhado na memória, como um trauma, do Monstro (493/74), que ainda hoje só bebe Coca-Cola. Nada do que se conta e se vive é ficção, mas usa-se o olhar, a profundidade e a linguagem dum romance, para trazer à luz do dia memórias fantasmas de um outro mundo, porque é disso que o Colégio Militar se trata. E o flato monstruoso do Rei Pelé ficou para sempre guardado nas memórias dos Meninos da Luz, e na foto oficial do evento, não se sabe se como uma fake new, ou um meteorismo intestinal exclusivo do evento!