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Saturday, January 30, 2010

Comandante Guélas - Série ISEF 1 - O Regresso da Turma 2


Comandante Guélas
Série ISEF 1
O Instituto era Superior e situava-se numa das zonas vermelhas da capital, a Cruz Quebrada, atravessada pelo inebriante Jamor. No ano de 1981 apresentaram-se na Turma 2 vinte e seis indomáveis estudantes, vindos dos quatro cantos do país, tendo sido atribuído o número 1 a um careca traficante de fotocópias e o número 26 a um avatar que gostava mais de ir treinar abdominais com a Marreca de Monsanto, do que exercitar a cambalhota nos colchões do stor Palmada.

No dia 9 de Janeiro do Ano da Graça de Nosso Senhor de 2010 tornaram-se a encontrar num restaurante da Capital com decoração alentejana. Quando flanquearam a porta a alma do velho Xarope não aguentou dar de caras com uma vara de alentejanos em cima de um palco, todos coladinhos a grunhir em voz alta e a roçarem-se uns nos outros num movimento balanceado ora para a direita ora para a esquerda e gritou:
- Morte aos panilas, - ao mesmo tempo que era vítima de uma convulsão traiçoeira, que o obrigou a placar, tal como o tinha feito no século passado ao seu colega Bruxedo, o grupo de reformados da apanha da bolota.
Os gerontes nem tiveram tempo de guardar as dentaduras e acabaram por cair em cima do assessor Anselmo, que se tinha escondido atrás das cortinas para que não fosse confundido com aquela trupe de trapezistas capaz de lhe arruinar a sua carreira política, construída à sombra da Lurdes e do Valter, obrigando-o a voltar para a escola, de que fugia como o Diabo da Cruz. O homem das Caldas aproveitou o caos e tomou conta do palco, aproveitando o momento para mostrar aos clientes a sua já lendária queda para a dança, tão bem classificada na já longínqua cadeira temática. O proletário Pedreta já ressonava a sono solto e só acordou quando um jarro de tinto e cinco dentaduras se despedaçaram na zona do seu córtex occipital direito, lançando de imediato uma série de impropérios , em chinês, sinal de que a queda sofrida há vários anos das Torres Gémeas da Fonte da Telha não estava suficientemente cicatrizada. O Chaparro, devido ao seu porte atlético estilo “Damatta”, nem a perna esquerda conseguiu mexer e assim permaneceu entalado na cadeira ao lado do Lopes, agora tão careca como o número 1 da Turma 2. Em frente destes estava o eclético Bezerra, recordista absoluto de e-mails, que agora só conseguia exprimir-se numa linguagem Itálico-Australiana, à mistura com o velho “Carago”, responsável pela sua comissão de serviço forçada nos Açores. O Barroso nem queria acreditar onde se tinha metido, agora que era o presidente dos espadachins da Cova da Moura e por isso fingiu que estava incontinente, aproveitando-se da idade como desculpa, e escondeu-se na casa de banho das senhoras, mais propriamente junto da sua colega Carocha. Quanto ao Catedrático de serviço, o Gil, não do Parque das Nações, mas do Jamor, aproveitou a pausa do jantar para elaborar mais um teste, com que iria lixar os alunos no dia seguinte. O Renato e o Roxo já tinham acabado a observação daquele estranho jantar de confraternização do Batalhão de Pinos e Cambalhotas e esperavam agora pela confirmação da nota dada pelo Quim, que deu finalmente um “Excelente” ao dançarino das Caldas, que lhe permitiu acabar a Licenciatura e ainda ter tempo para telefonar para o seu gerente da conta nas Caldas, para acrescentar o título de “Doutor” nos cheques que iriam ser emitidos no dia seguinte. As meninas, agora umas belas velhotas, especulavam sobre o paradeiro da amiga Valverde, tendo a stora Matos informado o Conselho de Anciões, que de imediato registou em acta, que a colega fora vista numa traineira lá para os lados da Mauritânea pelo Chico, agora dono e senhor de um veleiro atracado na marina de Oeiras. As storas Nascimento, Loureiro e Amado fizeram tricô a noite toda, sinal de que já tinham entregue os papéis para a reforma. Foi notada a ausência do stor Bruxedo, vítima de uma estranha troca de e-mails entre o Chaparrão, dono e senhor de Beja, e o proletário laranja de nome Pedreta, de Palmela. Este pedira ao outro a morada electrónica do stor-monga, mas fizera-o já depois do suíno da torre da Igreja ter tocado as badaladas da meia-noite, altura em que o Chaparrão, apesar de estar num Conselho Pedagógico, já se encontrar encharcado em sumo de uva, acabando por trocar o endereço e dar-lhe o do Aníbal, que compareceu no jantar com a Maria e os batedores, pensando ir encontrar-se com o Zézito para ambos discutirem o Orçamento de Estado. Quando o Anselmo o viu foi a correr ao seu encontro, chamando-lhe “colega”, mas escorregou numa dentadura tresmalhada e teve de agarrar-se à primeira dama, acabando ambos por cair no chão, um por cima do outro, como nas aulas do professor Palmada, onde o stor das Caldas brilhava com o seu cinturão azul e com o barulho das suas cambalhotas, que impressionavam sempre a Glorinha da cantina. A festa acabou com o Chaparro a ser levado para casa pelos verdadeiros colegas, numa carrinha de caixa aberta, com o Xarope a correr atrás e a gritar:
- No meu Algarve não entram panilas!
O judoca mais graduado deste gang, que ostentava um soberbo cinturão negro comprado no chinês, acabou a noite rodeado por moldavas, contando-lhes a sua comissão na Cruz Quebrada, onde se destacava a graciosidade como jogador de Rugby, a leveza de dançarino, a invencibilidade no judo, a flutuabilidade na Natação, a potência no Andebol, a impulsão no Basquetebol e outras características mais íntimas que só contaria àquela que o acompanhasse no Mercedes até à serra da Malveira, altura em que a obrigaria a pagar a gasolina, tal como o tinha feito à professora que ousara chumbá-lo na cadeira de dança do 2º ano. Foi notada a ausência da gestora Oliveira, presa no trânsito em Tóquio.

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 22 - Visita de Cortesia à Mercearia “Aveirense”





Comandante Guélas
Série Paço de Arcos
  
A Visita de Cortesia à Mercearia “Aveirense” de Silva & Sousa Lda.
Rua dos Fornos, nº 17ª/17B e 17 (números em metal) ou 17/17ª e 18 (números a tinta)
Em 1975, devido à crise de pretos (com a abolição da escravatura fugiram para África), os gangs em Paço de Arcos eram constituídos por brancos. Numa noite, já de madrugada, a Padaria “Aveirense” foi visitada por uma destas turmas, constituída por gente muito importante do Portugal actual. Recuemos umas horas, para tentarmos perceber o que levou aqueles “meninos de bem” a fazerem uma visita de cortesia à célebre Padaria. A noite ainda era uma menina, e a festa na sede velha do Clube Desportivo de Paço de Arcos ia de vento em popa. O irmão mais velho do primeiro marido da Tita-dos- Pés-Sujos, controlava a música, e debitava freneticamente os vinis gamados aos amigos, fazendo abanar o edifício. Até já um “Paçoarquiano” tinha dado um golo numa cerveja de litro, que estava escondida debaixo de uma mesa, mas em vez de cerveja bebera mijo, e do rijo, procurando desesperado os autores de tão alegre acto. Dois pigmeus de blusões negros, vindos de Porto Salvo, estavam parados junto ao Salão de Dança e tinham colocado os seus capacetes no chão, um em cima do outro, num local de passagem.
- Quem se atrever a tocar-lhes, morrerá – ameaçaram, coçando os tomates.
Nem dito nem feito! O nosso querido Milhas já se tornara no convidado mais chato da festa, pois ultrapassara a fasquia das cinco “bejecas” e andava perdido na dança, à procura duma vítima. Quando se cruzou com os capacetes deu-lhes um chuto à Eusébio, atirando-os para o meio da multidão. O anão mais próximo nem teve tempo para o homicídio, pois o Milhas agarrou-se de imediato a ele e levou-o para a dança, talvez confundindo-o com a “Huga Huga Lagosta”. Entretanto, o Velhinho conseguira deitar a mão a uma caderneta com senhas de produtos que estavam junto ao homem da caixa, e estava a distribui-las pelos amigos. A azáfama no Bar era enorme, os produtos esgotaram-se num instante.
- Isto é que foi um grande negócio, vendemos tudo! – Disseram os responsáveis, fazendo um sinal com o polegar para o colega que estava na outra ponta da sala, mais propriamente na caixa.
Mas festa em Paço de Arcos não era festa, sem uma carga de Litopol (Ácido Muriático+Litopol). E, como sempre, foi fatal! A noite já ia longa quando o Gang foi arejar para o exterior, encostando-se à “Padaria Aveirense”. O pior foi quando as bexigas começaram a apertar e a vontade para mijar atingiu a “redline”. A pouco e pouco os membros do Gang viraram-se para a parede do estabelecimento comercial e começaram a verter águas. Os que tinham só parede, para a parede olharam, mas os que ficaram com as janelas à frente da cara, depressa descobriram que a loja estava recheada de guloseimas, que davam muito jeito aos estômagos vazios. Cinco minutos depois, o Gang de brancos estava ao balcão da “Aveirense”. Mais cinco e já todos corriam em várias direcções da vila, levando nos bolsos rebuçados do Doutor Bayard, Sugus, Chocolates “Sombrinhas”, queques, amendoins, favas fritas, Vinho Rosal, Rebuçados “Bola de Neve”, Tabaco, e tudo o mais que viesse à rede. A única pista foi dada por uma testemunha anónima que viu um indivíduo, às três horas e dez minutos, com um caixote de produtos à cabeça, junto à linha do comboio. Consta que era o célebre Focas das Docas!

Tuesday, January 19, 2010

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 21 - A Lenda do “General sem Medo”


 Comandante Guélas
Série Paço de Arcos


Esta é uma estória que trabalha de orelha em orelha, por isso de cada vez que o Peidão pedia ao Graise para o ir buscar a casa, este fazia sempre a mesma pergunta:
- O teu avô está preso?
O ano de 1975 foi pródigo em brincadeiras militares e Paço de Arcos não foi exceção.O avô do Peidão e o pai do Bajoulo eram generais da “brigada do reumático” e estiveram durante todo este ano de prevenção contra quaisquer movimentações de indivíduos suspeitos, que incluía mulheres de bigode farto, sovacões eufémicos e pintelheiras dinossáuricas, sinais revolucionários, que se aproveitavam dos calhaus com olhos para dizer que os representavam, ou melhor, para gamarem e ocuparem em seu nome. Quando se soube que um grupinho de artistas vestidos com narizes vermelhos estava a preparar-se para fazer uma visita de “cortesia” aos burgueses do alto da vila, uma vez que a Comissão de Moradores de Paço de Arcos chumbara a proposta dos meninos ricos de alargar o conceito de “chalé” às barracas da Pedreira, onde vivia o Ratinho Blanco, estes dois militares da velha guarda prepararam-se para os receber condignamente. Houve trocas de armas, capturadas uns anos antes aos turras, eletrificaram-se as janelas, ou melhor, pintou-se o sinal de “Alta Tensão”, que bastava para assustar aqueles portadores de neurónio único, as agulhetas das mangueiras foram mudadas para melhorar o banho anual, e assim causar a confusão nas linhas inimigas quando eles regressassem a casa com cheiro a burguês, os informadores da PIDE, Polícia de Investigação e Defesa da Esquerda, o guarda noturno, o talhante, o jardineiro e o vendedor de fruta, todos Josés, começaram a dar de caras com os canhangulos dos militares da velha guarda. O primeiro era uma espécie de profissional liberal, que só assaltava as casas dos que não lhe pagavam a dízima, e não passava recibo. O segundo foi vítima de uma emboscada quando ia a meio da escadaria e o militar de cachimbo o saudou com um revólver que mais parecia um canhão, obrigando-o a abandonar os bifes e a só parar no colo do patrão, o pai do João Gordo. O nascimento da lenda estava reservado para uma tarde de Verão, quando o Zé jardineiro informou o avô do Peidão de que estavam a assaltar a casa das duas alemãs, que só tinham pastores alemães com uma mancha ariana na língua. O herói agarrou no pistolão, acendeu o cachimbo e rumou em direção ao teatro de guerra. Deu de caras com um puto de fraldas  a tentar arrombar, com uma enxada, um armário cheio de caramelos, contrariando as ordens  do pai, que queria ouro e dinheiro. Ao avistar o cowboy da terceira idade o puto molhou as calças à frente e rendeu-se de imediato, não se tendo nunca sabido se a pintura rupestre traseira tinha sido causada pelos caramelos espanhóis fora de prazo, ou pelos efeitos fisiológicos fora de controle. Foi visto por todos com os braços no ar, indo atrás de si o agora“General sem Medo”. A notícia depressa se espalhou pela vila, e até o guarda noturno deixou de ser visto por aquelas bandas, havendo quem dissesse que se tinha reformado. Mas a história não ficou por aqui. O petiz ficou detido na casa do militar enquanto este entregou à Palmira uma ordem de serviço para que ela telefonasse ao Chefe Bigodes, enquanto fazia guarda ao perigoso malfeitor. A uma certa altura o general, para ganhar mais pontos para a sua fama tenebrosa disse, em voz alta, que pretendia dar um tiro na perna do petiz, para que ele aprendesse a lição mais consistentemente. Nova mija, mas desta vez no sofá da casa, obrigando à intervenção imediata da autoridade máxima do rés-do-chão, a Milu, que deu ordem de marcha ao marido, porque caso o não fizesse o rapazito ainda lhe sujaria a sala toda. Após isto ofereceu um lanche ao Zézinho do Telhado e deixou-o voltar para casa, ainda a tempo de ver mais um episódio do “Kimba”. Mas a estória não fica por aqui! O grande fornecedor de canhangulos era o pai do Bajoulo, um guerreiro com a voz metálica, que num dos treinos diários transformara um humilde pombo caseiro, que ousara descansar no seu telhado, num monte de penas voadoras, cuja anilha bateu com violência no alcatrão da rua, só parando aos pés do dono que o treinava para o campeonato nacional.
- O que vai ser de mim sem o meu “Barão Vermelho”? – Gritou o proprietário.
- Toma lá esta nota e compra um no Zé da Antónia, que ele tem lá muitos iguais a esse! – Respondeu o general, descansando a arma no ombro esquerdo, e tirando as penas que lhe sujavam o blusão de aviador.
O Pacheco, o Focas, o Pontas e o Pilas gravaram para sempre nas suas almas o encontro do 4º grau com esta lenda paçoarcoense. Foi numa noite escura e chuvosa, quando tentavam desmontar um extintor na oficina da garagem do chalé da família do amigo Peidão. Saído, nunca se soube de onde, no meio de um nevoeiro cerrado feito de fumo de cigarros, apareceu-lhes a figura imponente do “General sem Medo” de pistolão em riste, apontado aos corpos rijos dos amigos do neto, que faziam as delícias do Capitão Porão, um oficial revolucionário que vivia na parte de baixo de Paço de Arcos, que jogava noutro campeonato. Os braços foram levantados tão depressa em sinal de rendição, que o Focas não conseguiu esconder a crueza da violência sofrida deixando sair intempestivamente um valente flato, que o Pacheco interpretou como um tiro, caindo assim desamparado sobre um armário, de onde caiu uma caixa cheia de parafusos, tendo ainda tempo para um último pensamento:
- O velho vai-me por solas novas na alma!
 Houve um instante eterno!
- Ah, és tu! – Exclamou o colega do pai do Bajoulo olhando para o neto, e guardando o pistolão nas calças, manifestando assim a sua efetiva presença na comunidade.



Sunday, January 10, 2010

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 20 - O Voo do Cisne


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Comandante Guélas

Série Paço de Arcos
O motivo era forte porque no dia seguinte o Rui B tinha de apresentar-se, não na tropa, mas no altar. E sem falta! A despedida tinha de ser inesquecível, para que décadas depois ainda fosse relembrada, numa altura em que os membros do Gang dos Meninos Ricos e Caucasianos de Paço de Arcos (G.M.R.C.P.A.) fugissem destas recordações como o Diabo da Cruz, não fossem perder a autoridade sobre os filhos que eles querem agora que sejam doutores e engenheiros. Em vez de um bolo com velas, porque não se tratava de um aniversário, alugaram um soberbo Mini-Metro com 400 Km e foram testá-lo para a Quinta do Loureiro em Cascais, onde actualmente se ergue o “Cascais Vila”, em homenagem a estes seis aventureiros. Mas antes da acção os seis magníficos foram abastecer as barrigas, que ainda não mostravam sinais de gravidez, para o bar “O Cisne”. E eis que, depois de várias “loirinhas”, o Rui B desafiou os amigos com a pergunta que iria ficar para sempre nas suas memórias:
- Quem é que quer voar ?
- Voar?? – Interveio o único do gang com vocação jornalística.
- Voar num Mini-Metro, - respondeu o noivo.
E pegou de imediato numa caneta desenhando o plano de voo no tampo da mesa. Assim, explicou Tintim por Tintim aos cinco candidatos a aviador o que lhe ia na alma. Na Quinta do Loureiro havia um terreno baldio com três socalcos e a ideia consistia em acelerar a fundo o bólide, levantar voo no primeiro e aterrar para lá do terceiro. Simples, de fácil execução e sem riscos, pois a máquina não pertencia a nenhum deles. O desafio era tentador. Para co-piloto ofereceu-se o Bigornas, o Escoto levantou o braço para escrever a peça jornalística e como fotógrafo ficou o Zé. O Nuno M responsabilizou-se pela logística do “ground force” e pelo controle do “take-off” e o Miguel R pela confirmação do “landing”. A deslocação até ao local da acção foi feita em câmara lenta, não por se tratar de um filme, mas porque a cerveja já circulava em grandes quantidades por aqueles corpos ainda roliços. A máquina, que não tinha sido feita para voar, segundo constava no manual de instruções, foi colocada na linha de partida e todos se prepararam para o lançamento, não do “Vai e Vém”, mas só do “Vai”. O Escoto entrou para a rectaguarda, atrás do banco do piloto-noivo, mas teve de ficar dobrado, pois o carro não tinha sido desenhado para jovens arraçados de girafa. Ao seu lado estava o Zé Fotógrafo, resvés com o tejadilho, e com a máquina fotográfica pronta a registar para memória futura toda esta epopeia, não dos irmãos Wright pioneiros da aviação, mas dos futuros, e já célebres pelas secas que davam aos clientes no balcão da Jomarte, irmãos Cruz. À frente, no lugar do morto, sentou-se o Bigornas, cuja cabeça ocupava grande parte do tablier e tapava o ângulo de visão do mano. O Rui B rodou a chave e o motor começou a roncar. Mas ainda houve tempo para um brinde. O Bigornas atestou os “flutes” da Atlantis com Dom Perignom e todos rezaram para aterrarem em segurança e continuarem a beber na boda do dia seguinte. O Nuno M ergueu o copo e brindaram:
- À nossa saúde, que está garantida, e à vossa que está periclitante, - desejou o Miguel R.
- Vamos a isto, - gritou o jovem girafa. – Nem consigo mexer o pescoço.
Cada um ocupou o seu posto, o Rui B carregou com raiva no acelerador, o Nuno M ergueu o “flute” e de imediato baixou o braço com violência, dando início à grande aventura paço arcoense a seguir aos Descobrimentos. O Mini-Metro de propriedade indefinida, mas alugado a uma empresa com nome na praça, começou a rodar, de início com velocidade mais baixa que o triciclo do senhor João da Fruta, mas depois lá se aproximou da velocidade supersónica da “Deusa”, o soberbo Dyane do Mac Macléu Ferreira, mas nessa altura já estava junto à rampa de lançamento. O Escoto já tinha o pescoço a 180 graus, o Bigornas comprimia com a cabeça o mano no vidro de trás, e o dedo indicador da mão esquerda do Zé colara-se ao botão de disparo, inundando o interior com flashes ininterruptos, o que levou o piloto a gritar:
- Entrámos numa zona de turbulência.
As rodas largaram o chão, o segundo socalco foi sobrevoado, mas já o mesmo não aconteceu ao seguinte, pois o Mini-Metro “bateu inteirinho a meio” (palavras do noivo) e só parou quando deu de caras com um muro, que impediu que o voo se prolongasse para a Marginal. O embate foi tão violento que a mistura de cerveja e Dom Perignom dos passageiros saiu-lhes pelas orelhas e estatelou-se nos vidros da viatura, tornando ainda mais turva a visão do piloto, que teve dificuldades em parquear a viatura, deixando a incumbência entregue ao piloto automático. Deu-se um apagão em toda a tripulação. O primeiro a chegar ao local da colisão, não foi o que estava mais perto, o Miguel R, pois encontrava-se em estado de choque com a razia que o aeroplano lhe fizera, mas sim o mais afastado, o Nuno M, que no início conseguira chegar mais depressa ao primeiro socalco, conseguindo ainda ver o Escoto a dar uma volta de 360 graus com a cabeça. A caixa e a direcção do Mini-Metro alugado com 400 Km morreram ali mesmo, e a carcaça foi abandonada com a caixa do Dom Perignom e os flutes da Atlantis como testemunhas.


Friday, December 25, 2009

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 19 - Queques com cheiro a merda





Comandante Guélas

Série Paço de Arcos

A excursão tinha como destino, para variar, a Estalagem do Farol, mas desta vez com uma variante, Litopone. Tudo iria depender do comportamento do Max. Mais uma vez não teve o bom senso de deixar entrar aqueles meninos de “boas famílias” paço-arcoenses. Fez mal, muito mal. Transformar alcoólicos…perdão…acólitos, em diabinhos não era muito aconselhável. Com o acesso ao espaço de dança barrado, tiveram de ficar pelo bar, que estava cheio de queques que debitavam “você” a torto e a direito. O Pontas e o Peidão não queriam, mas a culpa foi toda do Max. Entraram na casa de banho individual, um abriu o saco com o pó de nome Litopone e o outro despejou o Ácido Muriático. Como de costume o conteúdo começou em efervescência, o saco foi colocado atrás da retrete e o duo saiu calmamente. Sabiam que o efeito só começaria a sentir-se cinco minutos depois. Sentaram-se junto ao Rodrigues, o dono daquilo tudo. Ainda tiveram tempo de ver o Espiga e o Miguel, meninos do Coro, a entrar no bar, super-queques e à procura de uma mesa. Mas tudo se precipitou como o habitual. Um cheiro a merda repentino abateu-se sobre o espaço e todos olhavam com preocupação uns para os outros. Ninguém ousou levantar-se pois tornava-se de imediato suspeito. E ter fama de bufar-se como um elefante não caia nada bem naqueles queques de Cascais. O cheiro crescia e o Miguel, um dos fundadores do Futebol P.A., olhava para todos os lados com um ar indignado. Até que não aguentou mais o cheiro a queque e a merda misturados:
- Peidaram-se, algum de vocês peidou-se à grande e à francesa, - e olhou de cima para baixo para os meninos e meninas de bem. - Seus porcos, vocês andam a comer feijões e favas o dia todo.
- Quem deu este peido com toda a certeza que deixou molho e está colado à cadeira, é por isso que não se levanta, - reforçou o Espiga.
A debandada foi geral, a sala ficou vazia num instante, o Litopone fazia jus à sua tradição. O Max já tinha sentido o cheiro e tentava disfarçar com “Haze” que foi substituído por “Xeltox” quando o outro acabou. A mistura tornou-se irrespirável, o Pontas teve de mostrar solidariedade ao Rodrigues:
- Selvagens, são uns selvagens, - revelando uma promissora carreira política.
- Isto é inadmissível, mas eu já sei quem eles são, - disse-lhe o astuto Rodrigues.
- Sabe?
- Eram aqueles que estavam ali em pé a caluniar os meus clientes. O cheiro só apareceu quando eles entraram.
- No hotel do meu pai eram tomadas medidas drásticas, - disse o Pontas.
- Hotel?
Então o Pontas contou-lhe ser filho do proprietário de quase todos os hotéis de cinco estrelas da capital, incluindo a típica "Pensão Moreira", e à conta desta fábula tornou-se convidado VIP do Rodrigues, com bar aberto em todos os recantos da Estalagem. A partir daqui passaria a ter direito a continência do Max, que lhe abriria a porta para ele não sujar as mãos e a mesa reservada junto à janela panorâmica, para assim poder abri-la e facultar acesso aos seu gang de caucasianos de boas famílias. Ainda houve tempo para ver um casal de gringos a chegar à estalagem cheio de malas e a fugir em pânico quando se aperceberam do cheiro estonteante a merda, no mesmo táxi.




Saturday, December 12, 2009

O Comandante Guélas - Série Educação 2 - Os "Bocas de Palhaço"





                        Comandante Guélas
                                         Série Educação
 
Na Taberna da Milú - II
A insistência fundamentalista da importância dos números no futuro, coloca muitos assuntos nas margens da escola, que praticamente não os vê, a não ser a certas horas mortas. E quando os encontramos temos agradáveis surpresas. Faltavam cinco minutos de um último tempo lectivo de uma tarde de Inverno. A Sara estava encostada à rede, num sítio onde a luz do projector tinha dificuldade em chegar. Chorava baixinho porque estava com medo.
- Medo? – Perguntou-lhe o Stor Miguel.
Medo do que o Trinca-Espinhas, uma raridade num mundo de gordos, lhe contara debaixo duma das tabelas de basquetebol.
- É por causa do “Gang dos Palhaços”, - respondeu com timidez.
O Stor teve um “Flash Back”. O dia que agora chegava ao fim fora pródigo em acontecimentos. O colega Jorge tinha sido confrontado, pela primeira vez, com uma “travadinha” do seu aluno monga, que incluíra babas, bufas, mijas e ruídos do além, que o obrigaram a dar colinho fofinho a um africano com cheiro a tudo o que as moscas mais gostavam, e de quem os colegas fugiam. Era a estranha política desta “inclusão” que não apresentava uma ideia, um desígnio, uma estratégia, uma ambição, uma esperança. Quando a colega da equipa especial chegou, com o “SOS” na mão, um tubo para enfiar directamente no buraco do olho caso o abanão ultrapasse o tempo de validade, o Peixe Espada Preto já tinha retomado os estudos e o stor Jorge tentava livrar-se de alguma da baba pegajosa e enxotava as moscas que agora também não o largavam.
- Anda um gajo a dar aulas para isto, - desabafou.
No dia anterior, também já lá para o fim, o stor Miguel, depois de uma observação rápida à turma de “currículos alternativos” do colega Rui descobrira que a todos aqueles alunos escolhidos a dedo faltavam carradas de neurónios, e havia uns que desconfiava terem só areia, mas para isso teria de lhes fazer um furo na cabaça. Ficava-se pelos comportamentos, como girar os olhos compulsivamente, lamber o chão com apetite, estar sentado sem qualquer movimento, ou seja, características que numa Cerci os recambiavam para a sala dos “quiabos”, com apoio extra de todos os técnicos disponíveis, e com passagem obrigatória pela sala de Snoezelen. Mas voltemos ao assunto dos palhaços. Como a Sara insistia no perigoso gang, o Trinca-Espinhas foi convocado e confirmou a história, um amigo, de uma amiga, da vizinha, prima de uma tia tinha sido vítima destes perigosos colegas do Batatoon, e ele pedira satisfações à familiar, que lhe confirmara a tragédia. E disto isto desatou a chorar, fazendo com que o stor abanasse os ombros:
- E os meus mongas é que são os malucos! – Desabafou desaparecendo na escuridão.
O dia tinha sido pesado, até o chefe com tendências centrípetas tinha tido uma convulsão no início da reunião, quando anteviu, estilo “2012”, uma catástrofe para a zona:
- O que vai ser desta escola quando eu sair?
Esta visão talmúdica do mundo contrastava com os pensamentos dos presentes que, caso tivessem sido tornados públicos, mostrariam uma “Mega Festa”, tão ao gosto do chefe, mas desta vez não com carácter de frete, mas sim como manifestação de um desejo colectivo já há muito prometido, mas ainda não concretizado. O dia findou com a resolução de um mistério que andava a tornar-se um caso obsessivo para a menina Rosa: tinha sido apanhado em flagrante um dos membros do Gang dos Mijões, que insistiam em mijar contra a parede dos chuveiros, em vez verterem águas na retrete. O stor Miguel sugerira substituir o cheiro por lixívia da pura e dura, para lhes apagar o rasto, mas fora informado de que a ASAE proibira tal produto no recinto escolar. Enfim, modernísses.

Thursday, December 03, 2009

Camarada Choco 66 - “Levanta-te e Anda”




Camarada Choco
Aventura 66

Esta é a estória que nunca vos contei porque a ligação entre a memória onde estava guardada e o exterior, esteve durante muitos anos bloqueada, como uma espinha na garganta, sinal de que a minha tola por vezes pensa direito, mas por sinapses tortas. E tudo isto devido à conjugação de dois acontecimentos raríssimos, tal como o meu síndrome: o regresso do meu Padrinho e o retrocesso, do também meu, conteúdo encefálico micro. Vamos por partes. A Lurdes, uma ministra raríssima, trouxe consigo uma ainda maior raridade, o Valter, que nem para colega nós queríamos, e passaram para lei uma verborreia avassaladora e demagógica, que prometia a nossa ida para a escola dita regular e um canudo de “engenheiro” alguns meses depois, tal como o outro. E devido a isto o meu Padrinho acabou enrolado, como os surfistas nas ondas, e teve de nos abandonar abruptamente, a frio. Ficámos órfãos, entregues à nossa sorte, ninguém do ministério nos quis continuar a treinar. Mas eu sabia que o meu herói não nos iria abandonar. Telefonou, escreveu, refilou, massacrou, ameaçou, até que as tias, antevendo irem ter um ano letivo pior que o da Lurdes, enviaram-no de regresso, sem remetente. A chegada do meu Padrinho coincidiu com mais um retrocesso da minha tola. E o milagre aconteceu! Antes que tudo se apague com uma “santinha”, resolvi partilhar mais esta aventura. O herói dá pelo nome de Tarzoon, apesar de ser macho, é um bronzeado compulsivo, e quando chegou à nossa querida casinha, vindo diretamente de um dos muitos condomínios fechados africanos da Amadora , trazia preso ao cagueiro uma cadeira de rodas do fim da monarquia. Ainda tinha passado pelo Centro das Tias junto a Alvalade, mas mal se aperceberam que o sagui de tenra idade iria transformar-se num gorilão com mau aspeto e cheiro a catinga permanente, capaz de denegrir a imagem impoluta daquela instituição para mongas caucasianos com futuro e responsáveis por muitos tachos, depressa arranjaram um motivo para o pôr a milhas dali. E o local para casos raros que davam muito trabalho, era sempre o mesmo, a nossa querida escolinha. Uma semana após a chegada do Tarzoon, entalado numa cadeira de rodas, estilo sardinhas em conserva, apareceu uma equipa de tias para impressionar o meu Padrinho e a Chefe Bélinha, e assim lavarem as mãos como Pilatos. Depois de muitas palmadas técnicas, abanões pedagógicos e medições futuristas veio o veredito estilo Professor Karamba:
- O Tarzoon nunca irá andar.

Dito isto arrumaram a tralha, depois de se aperceberem que já estava na hora do almoço, razão principal para a visita de cortesia, e fugiram dali como o Diabo da Cruz, não fossem ficar impregnadas com o cheiro de babas e borras, não sem antes prometerem ir enviando na volta do correio o material indispensável ao desenvolvimento harmonioso do Tarzoon. Como já era tradição tudo chegaria fora de horas, a forma já não era para aquela perna, só serviria para fazer tortas de laranja, e o meu Padrinho, que já sabia disso, não perdia tempo com ninharias, optando sempre por improvisar e adaptar, tudo em benefício do Tarzoon que lá ia crescendo e evoluindo a olhos vistos. Todos os Aparafusados participavam, o atleta parecia ser de alta competição: arrastava-se pelos corredores, mergulhava no tanque e na piscina, andava nos cavalos das tias de Cascais, acelerava numa bicicleta construída pelo Stor Pobre e pelo Castanheira, com peças encontradas num ferro velho, que encheram o corpinho do Tarzoon com milhares de quilómetros, percorridos nos corredores da nossa querida escola, preso ao bólide com fita de embrulho, muito mais segura do que as faixas, utilizando os curtos movimentos que fazia. O Tarzoon mais parecia que estava nas tropas especiais, como os Comandos seus vizinhos.
-Hás-de andar, a bem ou a mal, - prometia-lhe o meu Padrinho, que também era dele, ou melhor, de nós todos. – As p… das tias não hão-de ficar a rir-se. Ficam só com os mongas brancos de boas famílias que não lhes dão trabalho e ajudam na estatística do Centro, que à conta disso ganha os subsídios todos e mais alguns, permitindo assim manter a quota de tachos e mordomias.
Para o Stor Pobre e todos os outros era uma questão de orgulho, a sua escola que recebia sempre o lixo das tias, iria ser pioneira na reciclagem. E o milagre aconteceu, não se sabe se por obra do meu Padrinho ou pela breve passagem de um homem barbudo com uma túnica branca: o Tarzoon um dia levantou-se e nunca mais parou. Passa agora todos os dias por mim, sorridente e com um speed proporcional ao seu andar balanceado, já próximo da idade adulta. E como a lei da Lurdes se mantem, nunca mais os futuros Tarzoons tirarão o cu das cadeiras, porque na outra escola só interessa o Português e a Matemática. Continuarão a ser lixo!

Thursday, November 26, 2009

O Comandante Guélas - Série Educação 1 - “Piolhos Crónicos”





Comandante Guélas
Série Educação 
Na Taberna da Milú - I

Será isto Educação? Educação não é certamente e a Escola não deveria bater assim.
O espaço abundava em clichés, frases feitas, repetições sem conta, incongruências e contradições, vómitos de banalidades, pessoas que acreditavam ter mais conhecimentos do que outros e por estarem num posto hierárquico superior achavam-se no direito de subestimar os subordinados, apesar da vida exigir muito a compreensão, ou seja, manigâncias de uma Lurdes ressabiada, que um dia fora ministra e quando aluna usufruíra das “passagens administrativas” da Revolução dos Cravos, que incluíra saneamentos de professores que ousavam ensinar, quando na altura a política era a da farra. Foi no meio deste cataclismo pedagógico, agravado por stors com tendências centrípetas, que a dona Tulipa alertou para o facto dos bichinhos serem “enormes”, “assombrosos”, “opulentos”, transformados em “elegantes”, “espectaculares” pela pedagogia do quinto grau do Valter e da Lulu. A escola era assim obrigada a matriculá-los para que a mãe não sofresse mais um trauma, como o do ano anterior, e proibisse a filhinha de pôr os pés no espaço, que de “educação” tinha muito pouco, obrigando os “stores” a reuniões intermináveis e à destruição de várias florestas da região para as transformar em resmas de papel, que dariam lugar a relatórios sem fim, incluindo aquele que descrevia a cerimónia do hastear da bandeira verde, que declarava a escola “amiga do ambiente”. Os “pediculus humanus capitis” unidimensionais redemoinhavam como palhas, sinal de que também sofriam da doença da moda, a PHDA, Hiperactividade com Défice de Atenção, antigamente chamada FA, “Falta de Educação”, que se curava com umas boas EGA, “Estaladas Grátis Apropriadas”, substituídas nestes tempos modernos pela célebre Ritalina, uma droga cara, paga, como sempre, com os impostos do povo e comprada aos amigos pelos decisores. E como a Florzinha não parava, os bichinhos mais dotados seguiam-na, enquanto que os com mais dificuldades despenhavam-se contra o solo, sinal de insucesso garantido. E para resolver esta injustiça social, a menina apresentava-se muitas vezes de chapéu, fizesse sol ou chuva, fosse de dia ou de noite, para assim segurar o fluxo incessante da bicharada, aumentando-lhe o “sucesso escolar”, tão desejado na “estatística a martelo”. Diziam as crónicas que a família fundira-se há muito com o emaranhado de “pediculus humanus capitis”, que se projectava à sua volta, tornando-se no elemento ordenador daquele núcleo, cujas formas enchiam todos de energia. Aumentava assim o valor do Rendimento Mínimo da família da Florzinha, porque com toda esta política de face oculta os seus piolhos tinham adquirido o estatuto de estudantes e como tal mereciam ter direito a uns “cosques”. Pertenciam assim à iconografia do ministério que tinha atingido o cúmulo do ridículo com a insistência fundamentalista da importância dos números na cabeça dos petizes. Com estas metas traçadas, a Florzinha merecia o nome no “Quadro de Honra”, porque os “pediculus humanus capitis” eram aos milhares!

Friday, September 25, 2009

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 18 - Marginal de Dia







Comandante Guélas

Série Paço de Arcos


Eram poucos os momentos de glória, mas valiam a pena. Durante o Rali de Portugal havia uma altura em que os participantes tinham de fazer a ligação entre Lisboa e Cascais, via Marginal. O povo esperava-os e eles distinguiam-se no meio do trânsito normal porque traziam os faróis acessos e ambos tinham capacete na cabeça. Na face do Conan Vargas cintilavam os olhos a anunciar uma tarde de fama. Havia na Marginal uma atmosfera luminosa, um brilho. O condutor do Ford Escort branco já tinha o filme dentro de si, via-se de penico branco na cabeça, comprado na Dona Maria das Bicicletas, com os máximos ligados, o grupo sanguíneo na porta, “O - RH menos” (“Ó” de Óscar, “RH” não sabia o que era e “menos” era a nota que tinha apanhado a comportamento no Liceu de Oeiras), e o barulho das fêmeas a sobrepor-se ao seu tubo de escape e, acima de tudo, a gritarem pelo nome artístico: Óscar! Conan Vargas era uma criatura nocturna que dava “oito seguidas sem ver a luz do Sol” (citação). Quando o nosso herói se sentou ao volante do carro, lembrou-se que na noite anterior tinha sido o co-piloto do Pilas, que batera o recorde da vila ao entrar “prego a fundo” pelo lado do bar “Marginalíssimo” e ter passado pelo “Manuel da Leitaria” a 140. Desta vez tinha ao seu lado o jovem adolescente com o cognome de Peidão, uma jóia de menino, que reparou que o piloto estava com a mesma cara, o mesmo cabelo e um olhar alucinado só reservado para estes breves momentos de fama.
- Quando o Conan se despistou em Carcavelos, na curva do sanatório, estava com este olhar, - foram estas as palavras de incentivo do Bigornas ao mesmo tempo que entregava os capacetes à equipa paço-arcoense número dois, uma vez que o Pilas já tinha arrancado com o Velhinho.
Se estava ou não alucinado quando desfez o carro da mãe, o Peidão não sabia, mas o relato do desastre feito pelo irmão do Zé do Fotógrafo era muito completo. O Conan tinha acabado de tirar a carta e queria impressionar as fêmeas lá para os lados do “Santini”. Como o seu “chaço” de certeza que causaria má impressão nas meninas queques de Cascais, inventou uma desculpa da falta de gasolina e de um exame da quarta classe imprevisto, e a mãe emprestou-lhe o carrinho que ainda estava em rodagem:
- Guia com cuidado, - avisou-o.
- Eu não sou burro! – Rugiu o Conan Vargas.
Encheu o carro de amigos e partiu a todo o gás. O Bólide ia com a língua de fora quando fizeram a curva, começaram a rodopiar e a bater em tudo o que era obstáculo. O Bigornas meteu as mãos na cabeça, segundo contou, e preparou-se para o mergulho no esgoto. Como é que iria safar-se no oceano se, como dizia o teórico Focas, “quando alguma vez cair numa parte funda só poderá pedir socorro com os pés, pois a cabeça funcionará como uma poita”. Não era por acaso que tinha o cognome de “Bigornas”. Tiveram sorte, Deus ainda não os queria lá em cima. O carro não foi cortado ao meio, porque bateram no poste junto ao motor, já depois da bagageira ter ficado desfeita quando atacara o muro do Sanatório.
Este pensamento varreu-se da cabeça do Peidão na altura em que o carro partiu, a fazer muito barulho, mas em passo de caracol. As fêmeas não estavam longe, encontravam-se distribuídas por toda a Marginal e o Conan queria sentir o cheiro de todas elas. Foi a sua consagração, já se via o agente secreto Óscar, à medida que o carro avançava com os faróis acesos, os pilotos de penicos na cabeça e o povo a aplaudir em êxtase uma das equipas do rali mais famoso do mundo. Mas nem Holliwood, nem Bolliwood, pois a única vez que Conan Vargas apareceu na televisão foi no anúncio ao “WC Pato”, em que se levantava da posição de cagador, abanava a mão junto ao nariz e era salvo por um perfume inebriante saído do autoclismo.

Saturday, July 25, 2009

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 17 - Carjacking



Comandante Guélas

Série Paço de Arcos


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O primeiro carjacking do país teve a assinatura de um paço-arcoense, o Pacheco do talho, um loirinho com caracóis de caniche, e tudo isto coincidiu com o aparecimento do primeiro Multibanco da zona, lá para os lados do “Ronda 99”, um “bar de tudo”, na terra das “queques”, que começavam a ser substituídas pelas “tias”, fêmeas sem raça definida. Neste sub–gang de Jovens adultos caucasianos de boas – famílias de Paço de Arcos ia o Orlando, a testemunha viva e juramentada desta cena digna de Hollywood que, apesar da idade, da careca avançada e da barriga dilatada, ainda mantém intactos os registos que viabilizaram o relato de mais esta imemorável aventura.
Era uma vez…
um velho acompanhado de uma dama, ao volante de um Mercedes topo de gama que parou junto à única caixa de Multibanco do país, para impressionar a oxigenada tipo Lili.
- Querida, vou levantar dinheiro.
- Levantar dinheiro?! A esta hora da noite? Mas os bancos já estão fechados.
- Agora já há esta caixa, que dá dinheiro e eu já sou sócio, – disse o velho com cara de leitão mostrando orgulhoso o cartão.
Foi o acto do levantar do braço para mostrar à múmia o glorioso que dava acesso à caixa, que chamou à atenção do Pacheco, que estava pacatamente no passeio do outro lado, a conversar com os amigos. E para agravar a situação o velho deixara a porta do seu lado aberta para que a namorada visse melhor o seu acto, e o motor a roncar. O cérebro do paço-arcoense com cabelo loiro estilo caniche começou a fervilhar e não mais parou. Correu de imediato para o bólide, sentou-se ao volante, e arrancou com os pneus a chiar e a debitarem nevoeiro para cima da única caixa de Multibanco da Costa do Estoril, onde ainda só tinham acesso colegas do Pierre Pomme-de-Terre, futuro engenheiro da construção civil, Licenciado em Tijolos e Tuvnan Chinês pela Universidade das Ilhas do Seixal. O velho ficou imóvel com o glorioso na mão a ver desaparecer no horizonte os seus dois topo de gama, o Mercedes e a Lili,, assim como os amigos do Pacheco. Felizmente no fim da recta havia uma rotunda e foi aí que o Fangio da Praceta fez um pião digno dos melhores James Bond e voltou ao ponto de partida, estancando com estrondo e elogiando a performance do bólide com uma palmada nas costas do proprietário, que só teve tempo de correr para o seu Mercedes e desaparecer na escuridão da noite.





Sunday, July 12, 2009

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 16 - Marginal à Noite


Comandante GuélasSérie Paço de Arcos



O calor apertava, estava uma noite de Verão magnífica e a praia de Carcavelos estava escura, muito escura, com maré-cheia e ondas grandes. O Gang regressava a casa de mais uma noite louca na discoteca do Farol, ainda por cima com uma vitória estrondosa do Milhas no concurso de dança que, no estado etilizado em que se encontrava, nem se apercebeu e ninguém se arriscava a dar-lhe a boa notícia, porque com este adolescente de genes incertos tudo funcionava ao contrário. Fora o único membro de todos os gangs da Costa do Estoril, que eram numerosos, a sair a Lotaria, mas para ele isso significou a sua desgraça. Quando os excursionistas de “boas famílias”, incluindo o Charlot que pertencia a todas, iam a passar junto do “Narciso”, não aguentaram a pressão do calor e resolveram ir refrescar-se. A água do mar estava quentinha, não se sabe se por força da Natureza, se por influência do esgoto que costumava despejar os cagalhões do dia à noite. O Gang entrou todo nu, tudo balançava ao sabor do oceano. Se o Capitão da Quinta Divisão soubesse! Estas ocasiões geralmente não acabavam aqui, tinha de haver algo mais radical. O que aconteceu a seguir ao banho foi único e irrepetível. - Quem é que consegue ir pedir boleia para a Marginal, todo nu? A pergunta desafiadora da praxe, a questão que levava ao acto. Só o Gang dos Meninos Ricos e Caucasianos de Paço de Arcos (G.M.R.C.P.A.) teve lugar na História, porque caso todas estas aventuras não tivessem acontecido, ter-se-iam reduzido a uma simples Associação dos Queques Cristãos de Paço de Arcos. Mas, continuemos! - Um por todos, todos por um! Um grupo de meninos adolescentes correu apressadamente para a estrada, que estava com o trânsito intenso, e por isso lento, com as pilas a chicotearem as pernas. Todos pediram boleia para Lisboa. O vencedor foi aquele que ocupou o traço contínuo e tentou acertar, não nas beatas que forravam os fundos dos urinóis, mas nos carros que passavam. A rotina de uma noite quente de Verão foi quebrada por um show erótico, que nos dias de hoje os chefes de família de Paço de Arcos se recusam a comentar: - Não, não me lembro, nunca me dei com malta dessa! Havia algo a favor daquela gente abençoada, os telemóveis não existiam e por isso a GNR só actuou no dia seguinte, e deu de caras com meninos já avisados e muito bem comportados.

Sunday, June 21, 2009

Camarada Choco 65 - Codex 632


 Camarada Choco
 Aventura 65 


A camisola que vestia tinha as mangas cavas, expondo às fêmeas umas peles brancas cor de Maizena, cobertas com vegetação mais apropriada às zonas baixas do corpo. Fechou os alunos na sala, aproximou-se do espelho chinês, com muitos anos de Feira Popular, e desabafou:
- Ah Silvestre Stalonas, está na altura de ires procurar a fêmea que te dará a próxima geração de anõezinhos.
Meteu sofregamente a mão nas calças e tirou uma fita-métrica do Aki. Aproximou-se de um calendário com Desaparafusados da Michellin e definiu as medidas obrigatórias da sortuda:
- …mais baixa do que eu, ou do mesmo calibre, - pôs o dedo nos 120 centímetros e continuou. – Ser obediente, ganhar menos, abaixo dos 40…
Mas algo o distraiu quando trancou a porta da sala, onde antes trabalhava e agora pouco tempo permanecia, perdido na sua incessante busca da Fêmea perdida:
- A Tareca está com a mania que é doutora, até tem um dossier e tudo, e está cheio de papéis, - lamentava-se a outro espelho a Faísca. – Só quer é reuniões.
Ao espreitar na curva do corredor, o garanhão tocou inadvertidamente num quadro e detrás dele caiu um papel.
- “Codex 632”?!!
O título estava a negrito e no canto superior direito destacava-se a vermelho a palavra “Top Secret”.
- Um documento sigiloso? Escondido atrás do quadro com a cara da Madrinha? Que interessante.
Olhou para todos os lados. O andar estava vazio, excepto a Faísca que continuava a fazer queixas ao espelho. Regressou pé ante pé ao espaço onde antes trabalhava e agora fingia que o fazia, e trancou-se.
Nomina Sunt Odiosa
Aquí el informe de los restos de la farra ocorrida en mi presencia entre el Codex 632 y el Voz de Bagazo, el 3 de junio del año de Gracia de Mi Querida Madrina, que en el futuro yo la sustituirei de acuerdo con la voluntad de Mi Madrina . Esa tarde cuando el conductor viejo ay detenido la Nau los dos acusados corrió y you fui detrás de les , ya la previsión de un farrobadó, prohibida por Su legislación, que aquí también es mía, y quiero cumplir, por escrito, si Su humor no nudar, diciendo que no dijo lo que todos escuchamos. Madrina, lo que vi fue una visión del Infierno. La Voz de Bagazo está por encima de la del Codex 632 y él trató de molde la serpiente, que ya estaba moribunda. Gracias a Dios todavía tive tiempo para ver las bolas que batiam a los demás como unas castañuelas, cada vez que corresponde a golpear en la parte superior de la serpiente, tratando en vano de poner en juego, como en las películas para adultos Noddy que no vejo por qué tapo los ojos con las manos y los dedos abiertos, como la Madrina. Señaló inmediatamente después de la ocurrencia, la hora, los minutos y los segundos, quem inmediatamente tiene la culpa, no a mí y no al delegado sindical, como aprendí de la Madrinha, a pesar de ser parte del grupo. Sálvese quien pueda. Y para no resolver la situación inmediata, como dice el bon senso, télefonei inmediatamente a la Señora para incendiar más y declarar una posible pandemia sexual. Sugiero a toma de la píldora del día siguiente para todos, incluidos los hombres, porque el azoreano ya tienne enjoos tuta las maganas y el tamaño de su vientre no es un buen pronóstico.


Su doctora también sin paja



Sunday, June 07, 2009

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos - Cavalos & Cavaleiros


Comandante Guélas
Série Paço de Arcos


O menino queque, mas mesmo queque, só montava a cavalo no Guincho. O Gang era constituído por meninos de uma “Geração de Oiro”, irrepetível. Mas chamar “Geração Rasca” à dos seus filhos, porque estudavam e recusavam-se a fazer cábulas, era um exagero. Numa característica os papás estavam em vantagem, eram geneticamente dotados de uma capacidade de adaptação a novas situações. E foi numa dessas alturas que a Becas entrou no café “Iolanda” e perguntou quem é que queria ir montar. Dito e feito, quatro levantaram os braços:
- Mas tu já alguma vez andaste a cavalo? – Perguntou o “Menino da Luz”, de nome Peidão, quando viu que o Xinoca estava de braço no ar.
- Eu tenho uma “Maxi Push”.
Mas havia um obstáculo a ultrapassar. O amigo da Becas, desconhecido do Gang, estava dentro do Renault 5 todo bonito, com chibata, botas de montar e cara de cu.
- Eles podem vir connosco?
O matador olhou para os quatro meninos de “boas famílias” e percebeu que, ou iriam todos, ou arriscava-se a ter de mudar um pneu. Teve bom senso. A excursão rumou para a aldeia de nome “Areias”, onde seriam alugados os animais. Quando os bichinhos foram entregues o Xinoca quase que saiu à carga, porque pensava que “Cavalo” e “Peidociclo” era tudo da mesma família, e por isso acelerou a fundo.

- Têm a certeza que o vosso amigo sabe andar de cavalo? – Perguntou o dono do picadeiro ao ver que o rapaz com cara de oriental não tinha qualquer vestígio de técnica de acompanhamento do trote, indo por isso a bater violentamente com o traseiro na sela e a enredar as rédeas nas pernas.

- Ele está habituado a montar as éguas em pêlo, - explicou o jovem Peidão, um ás na equitação.
O trombudo tomou a dianteira passando com um ar de desprezo por todos os amigos da Becas. A sorte devia-se ao facto de os cavalos estarem habituados a andar uns atrás dos outros e assim o do Xinoca teria poucas hipóteses de fugir. Atravessaram a rua e embrenharam-se nas dunas. Alguns metros mais adiante tiveram de reduzir para passo, pois era necessário poupar o rabo do chinês. Mas aconteceu o primeiro dos “previstos”, quando um ramo baixo lhes apareceu pela frente. Todos puxaram pela rédea esquerda e contornaram o arbusto, excepto o Xinoca que seguiu em frente e chocou contra o obstáculo. Passou o bicho e quase ia ficando o cavaleiro, caso não se tivesse deitado sobre a cabecinha do cavalo, folgando as rédeas e soltando os chinelos de quarto dos estribos. Ainda houve tempo para apostas, ganhando a opção “queda”. Valeu o sangue frio do trombudo que encostou a sua montada e segurou o animal. Pausa, o chinês estava mais inclinado do que a Torre de Pisa, e à medida que ia descaindo puxava as rédeas, arriscando-se a sentar o alazão no colo. Quando o líder o informou dessa hipótese, tirou as mãos e caiu na areia fofinha. Pôs-se logo ali uma dúvida: como é que ele iria montar, uma vez que não havia a escada do picadeiro? Veio-lhe à memória o paço-arcoense da Quinta Divisão e da falta que ele lhe fazia naquele momento. Caso fosse um dos presentes, manda-lo-ia agachar e ele obedeceria. Depois bastaria saltar-lhe para a espinha e montar. Mas a realidade era outra! O Xinoca teria de se desenrascar, nenhum dos presentes queria fazer de militar de Abril. Foi o que fez, meteu o bichano na parte baixa de uma duna e saltou-lhe para cima. Como o tempo já estava a escassear, foi necessário recorrer ao galope, porque senão nunca chegariam à Praia Grande. Ao chegarem ao Guincho cada um escolheu o seu ritmo e, de uma maneira geral, a carga foi a velocidade que imperou. Quanto ao Xinoca, optou por parar, largar o volante, enrolar um cigarrinho, ao mesmo tempo que dava folga ao rabo. Só que este tipo de cenas não eram as mais aconselháveis no momento, porque o animal cheirou o chão deitou-se de imediato, atirando o adolescente com cara de oriental de pantanas, tendo no entanto ainda conseguido dar a última “passa” antes de aterrar. O trombudo, que estava na outra ponta da praia, nem queria acreditar no que via. O cavalo do Xinoca parecia um cão a coçar-se no chão e quando a festa acabasse de certeza que iria a Cascais tomar um copo. E quem tinha deixado o Bilhete de Identidade, aliás o único a leva-lo, tinha sido ele, como prova que eram todos “meninos de boas famílias”. E o seu Renault 5 não valia nem metade de um burro sarnento, quanto mais um cavalo inteiro. Ficaria de certeza a lavar cavalariças o resto do ano e estragaria as suas botinhas com brilhantina. Meteu “prego a fundo” e conseguiu chegar a tempo. Quanto ao Xinoca, queria era regressar a pé, alegando já ter o traseiro em chamas e não querer ser confundido com algum revolucionário tresmalhado. Conseguiram convence-lo a dormir nessa noite de barriga para baixo, para que as marcas no mealheiro desaparecessem.