miguelbmiranda@sapo.pt

Saturday, July 07, 2012

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 11 - O dia em que o Colégio Militar mudou


Comandante Guélas

Série Colégio Militar




O Semita, senhor de um belo nariz, voz rouca e cabelo amarelado, jogava tranquilamente uma partida de xadrez na sala de professores, quando:
- Senhor engenheiro, não jogue assim, porque senão ganha-me, - disse, já um pouco exaltado.
- Mas eu jogo mesmo para ganhar! – Retorquiu o engenheiro Casanova.
Não era esta a resposta que o professor de Física e Química, que obrigava os alunos a decorarem a Tabela Periódica e as Leis de Kirchoff, nem que fosse com a ajuda pedagógica do ponteiro, desejava ouvir. O seu pensamento estava agora a caminho do centro da noite, rodeado por um nevoeiro espesso, tentando encontrar um interruptor que acendesse uma luz. Mas a jogada do adversário precipitou as coisas:
- Xeque ao rei!
Com a mão esquerda o engenheiro Grijó, que era senhor de um grande livro de exercícios resolvidos que nunca ninguém conseguira deitar a mão, virou as peças do tabuleiro e retaliou:
- Ainda se lembra da jogada?
Não muito longe dali o padre Miguel dava largas à imaginação, contando uma história surreal, quando reparou que toda a turma acabara de arregaçar as calças, sinal de que  estava a “meter água”. Resolveu a situação com várias chapadas nos da fila da frente. Mas a atenção de todos foi desviada com o barulho ensurdecedor de vários chutos na porta, e alguém a gritar do lado de fora:
- Ó Carioca tira a mão da minhoca!
A risota foi geral, e a aula ficou por ali, porque o professor precipitou-se para a porta e desapareceu em sprint lá para os lados das companhias.
A semana tinha sido difícil, a cerimónia oficial no campo de futebol de 11 fora de loucos, o batalhão permanecera várias horas formado debaixo de um sol abrasador, e recebia ordens – “firme – siope (sentido) – ombro arma – apresentar arma (e engatava o cão no cinto para aliviar o peso) – descansar arma – à vontade” - de cada vez que aparecia um general ou brigadeiro, uma autêntica praga de estrelas que parecia não ter fim.
- Vou desmaiar, - disse a uma dada altura o Horrível (125), já farto de estar na formatura.
Caiu controlado, pois à sua frente estava o punhal, e foi imediatamente auxiliado pelos colegas (“Um por todos, todos por um”), que largaram as Manelican e aproveitaram a boleia para irem beber água debaixo das sombras dos eucaliptos. A moda pegou e só o Paleta (413) conseguiu estancar a hemorragia, ameaçando com vários meses de “apresentações à alvorada” e uma “firmeza” digna de registo.
Mas em 1977 deu-se um acontecimento que teve maior impacto na vida do colégio do que a revolução três anos antes, altura em que o padre Vladimiro disse à turma do Pláni, “cuidado jovens, cuidado pois estão uns homens maus a atacar Lisboa”. O inimigo chegou sobre a forma de um telefone vermelho no Corpo de Alunos, e acabou com o mítico internato de domingo à noite até sábado à tarde, acrescentado para uns com fins-de-semana de detenção. Estava aberta uma brecha nos muros altos! Os Meninos da Luz passaram a ter acesso a um telefone que os punha diretamente em contacto com o exterior. Logo ali se formou uma estranha movimentação. Os melhores clientes eram os “ratas” (alunos mais novos), ou melhor, aqueles que conseguiam meter as moedas antes de serem emboscados pelos mais velhos. Eram detentores de carteiras recheadas, e obrigados pelas mães a fazerem o relatório diário da estadia no colégio com que as progenitoras tentavam impressionar as amigas como sendo “só para a elite”, mas de quem iam logo fazer queixa, caso os seus bebes comessem um calduço, em vez de um “danoninho”! Quem detinha o poder de falar eram os graduados, os do topo da hierarquia, que ficavam horas ao telefone com moedas alheias. E foi numa destas ocasiões que, com a língua a arrastar pelo chão, um artista anunciou que ia ligar à “namorada”, e a conversa libidinosa prolongou-se para além do recolher. Já no fim virou o telefone ao contrário, para ver se conseguia recuperar alguma moeda que lhe desse acesso a mais uns minutos de prazer. Mas um dia o telefone vermelho serviu para pôr o Colégio Militar em alerta máximo, depois de alguém ter telefonado para a avó do Boinga a ameaçar raptar o seu bambizinho. O pânico da senhora foi tal, que esteve todo o dia a ligar para o Diretor e o Subdiretor.
 E como a necessidade faz o engenho, alguém descobriu que, enfiando uma faca na ranhura, o crédito tornava-se ilimitado. Mas num colégio de excessos que formava homens para a vida toda, um dia um aluno enterrou tão fundo o seu instrumento, que ele ficou lá colado, só tendo sido solto com a ajuda dum técnico dos TLP. 










Tuesday, July 03, 2012

Camarada Choco 89 - Tubarões do Seixo


Camarada Choco

Aventura 88

O Choco já era uma lenda no desporto quando o padrinho, o Stor Pobre, resolveu dar continuidade aos êxitos da Escola para Desaparafusados da Venteira, e passar a dizer sempre “sim” a todos os convites, em todas as modalidades, recusando assim a parte da “recreação” destinada aos “Desaparafusados ao Quadrado” nos encontros  da “Elite dos Desaparafusados”, que só os queriam para a estatística. E tudo começou quando inscreveu os únicos atletas existentes na corrida do ”El Coxo”, uma prova de velocidade extrema à porta da Câmara Municipal, enquadrada na Semana dos Amigos dos Desaparafusados da Amadora. Como só se inscreveu a Venteira, que na altura tinha tenda montada na Brandoa, as medalhas já eram favas contadas. Foi o início da carreira fulgurante da mítica equipa dos “Tubarões do Seixo”, que tem como lema “O “i” cai sempre à entrada do clube”. Na linha de partida cinquenta metros acima da porta principal da câmara, onde se encontravam as entidades oficiais de fato e gravata, alinharam o Peixe Espada, o Saltitão, O Choco, a Zumira Destravada, a Mercedes Esgoto e a Papoila. O tiro de partida iria ser dado pelo vereador, dando assim início à “Semana Desportiva para Todos”, um vasto conjunto de eventos dedicados à saúde, e que iriam mobilizar esta meia dúzia de Desaparafusados, a que se juntariam outros tantos Aparafusados em cadeiras de rodas de competição, dois anões e um marreco. No final a estatística referiria, como já era tradição, centenas de participantes, contando com as pessoas que tinham corrido para apanhar o comboio na estação. Até ser dada ordem para o arranque, o Castanheira agarrava no Peixe Espada para não cair, e servia de encosto à Mercedes Esgoto, enquanto que a Papoila estava de olhos vendados e amordaçada; o Saltitão mexia-se na vertical e o Choco preparava-se para uma partida baixa, estando por isso de gatas. Quando o político juiz levantou o braço para o tiro, sentiu-se uma inquietação, a polícia bloqueou os cidadãos, não se sabe se para os proteger ou para proteger os atletas. Ainda o tiro não tinha sido dado e já os velocistas da atual Venteira, ex-Brandoa, desciam vertiginosamente a avenida, com a Papoila e a Zulmira Destravada a gritarem a plenos pulmões, e o Peixe Espada a ameaçar trincar os paralelepípedos. O Saltitão ficara no mesmo sítio, tendo só aumentado o ritmo dos saltos e a colega Zulmira Destravada optara por uma chiquérrima feijoada, que lhe escorria pelas pernas. Duas horas depois a meta teve de ser encurtada, apesar dos concorrentes estarem sempre à vista,  o almoço do vereador e companhia ameaçava não se concretizar, e um político com hipoglicémia aos comandos dum município, não era aconselhável. O primeiro a chegar foi o Castanheira, que não estava inscrito, arrastava o Peixe Espada, mas mesmo assim levou a taça. E foi assim que começaram os “Tubarões do Seixo”, em competições individuais, mas rapidamente saltaram para os desportos colectivos, atingindo o clímax no futebol, onde todos os golos lhes pertencem, não têm limite de jogadores, dependendo da tática do mister. E foi nestas condições que um dia defrontaram uma equipa maravilha, com adjunto e estatística na hora, que acabou com o adversário à beira de um ataque de nervos, e os pseudo-Desaparafusados a pedirem explicações ao seu treinador acerca dos festejos dos “Tubarões do Seixo”, que saíram a correr do recinto de jogo logo após o apito final e com o resultado de trinta a zero. No último encontro a surpresa foi total, os jogadores da Venteira requisitaram todos os Desaparafusados disponíveis na altura, incluindo um guarda-redes extra, e o embate foi de vinte contra cinco, que deixou o árbitro à beira do suicídio!




 

Tuesday, June 26, 2012

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 10 - As rotinas da Luz



Comandante Guélas

Série Colégio Militar




- Ó Carioca, tira a mão da minhoca, - gritou o Teta quando viu o padre Miguel a entrar para a sala de aula.
Aliás, o professor de música e canto-coral nem entrou, largou tudo e saiu a correr atrás do 332, decidido a enfiar-lhe, como era costume, uma dose de estaladas bem aviadas. Mas, não teve sorte nenhuma! 
No Laboratório de Línguas o Tabi preparava-se para dar início ao “American Language Course”, mas alguém se antecipou e gritou no microfone:
- Óó Tabiii, chupa aquiiii”.
Apesar de ser um docente já com alguma idade, os reflexos foram tão rápidos que conseguiu tirar os auscultadores numa fracção de segundos, com os olhos arregalados e os cabelos brancos no ar. E quem chupou foi o autor da brincadeira, o Peidão (191), várias murraças na carcaça, ao mesmo tempo que sentia o vibrar dos gritos do professor, uma mistura incompreensível entre português e inglês, neste caso “amaricano”!
Na aula do Menau, um professor com sotaque do Porto, calças apertadas a meio da barriga e um contínuo mascar de tabaco, alternado com soberbas cuspidelas para dentro da gaveta da secretária, a maior parte dos alunos estava com os tampos das carteiras levantadas, evitando assim serem sorteados para a avaliação oral habitual. A sua filosofia de vida assentava em três princípios, Deus, Pátria e Rei, e fora por isso que a nota mais alta que dera, um dezoito, ultrapassara em quatro valores o teto da arraia-miúda, e fora direitinha para o jovem D. Duarte Pio, o Fru-Fru (97).
- Rapaz, - e apontou para o Cascão (435). – Quantos cantos tem os Lusíadas?
- Cento e quarenta!
- Ó Pá, tu assassinas-me o Camões! Bai-te lá sentar com um sete…Se o meu conterrâneo os ouvisse…o Bitorino Nmésio pois está claro.
- Rapaz – chamou, apontando para o Pitosga (485). – Mostra-me o teu TPC.
- Não fiz.
Furioso, o Menau bateu com o livro de ponto na mesa, e atirou-o, mas a força foi tanta que ele deslizou e saiu pela janela.
- Eu cá não sou bingatibo, mas quem mas faz pagas-mas!
O livro passou uma razia ao Semita, que nem se apercebeu, tal era o estado desorientado com que tinha vindo do fim-de-semana, em que o seu Futebol Clube do Porto perdera com o Sporting, facto comentado na sala de professores entre o Pereirinha e o tenente-coronel Sant’ana, que levara o professor Grijó aos arames:
- Senhor tenente-coronel, vá para o cara… (o mesmo sítio para onde o povo mandou o Oliveira depois do desastre de Seul) – gritou, saindo da sala.
Voltava agora para tentar remediar a situação:
- Senhor tenente-coronel, - chamou, - olhe que é facultativo!
Noutro canto do Colégio Militar o professor Perdigão, cuja frase preferida era “quanto mais sei, mais sei que nada sei”, e que todos os dias desafiava as leis da física com o seu Datsun 120Y cheio de mossas, ia aos arames com a ignorância do Pencas (33):
- És um calhau com olhos!
Para este tipo de alunos o Semita também tinha outro tipo de classificação:
- Moçooo, sabes o que é um Jericoacéfalo? É o que tu és….um burro sem cérebro, - e deixou cair o ponteiro no coco do Peixinho (591), – ao mesmo tempo que se virava para a turma. – Nesta aula uns dormem de olhos fechados, outros de olhos abertos.
Mas havia um assunto tabu para o professor Grijó, que tinha a ver com as minas da Panasqueira. Por isso é que ele reagia sempre mal quando algum aluno exagerava nas doses de sódio e potássio, e fazia abanar o laboratório de química. Contava a lenda que a sua vinda para a Luz se devia ao facto de um dia ter feito um erro nos cálculos da dinamite e rebentado com uma galeria. Por isso, nos dias de trovoada a aula acabava com o primeiro relâmpago.



 

Friday, June 22, 2012

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 9 - Cavaleiros da Luz



Comandante Guélas

Série Colégio Militar



Um número, uma alcunha e uma arma, eram estas as três peças fundamentais do enxoval do Colégio Militar. As duas primeiras ficavam para sempre tatuadas na alma do aluno, mas a última era efémera, mais ano menos ano iria ser esgalhada por outras mãos. Mas para que fossem eternamente Meninos da Luz teriam de ser armados cavaleiros, tal como fizera D. Filipa de Vilhena uns aninhos antes na noite de 30 de Novembro para 1 de Dezembro de 1640 aos seus dois filhos, dando-lhes as espadas do pai e do avô. Os alunos mais novos, os ratas, iriam assim receber, segundo a descrição oficial, “os saberes dos mais velhos”, numa cerimónia a realizar na zona mais nobre do colégio, o Zimbório, mais conhecido por claustros. Era um local de rituais, uma espécie de Stonehenge, onde também já se cumprira o apertão do mais minorca, dado pelo Comandante de Batalhão ao aluno mais pequeno, conhecido como o “batalhãozinho”, que na nossa altura ostentava o número 121 (Pejó), e conseguia ser mais baixo que a sua Manelican, e assim permaneceu durante um longo reinado, sendo depois ultrapassado pelo Cuecas de Buda (45), nunca se sabendo se foi porque comprou sapatos com tacão, ou se os bifes de cavalo o fizeram aumentar uns milímetros.

E foi precisamente aí, na véspera do 1º de Dezembro, que o Leitão (384) gritou “Feio”, quando viu o professor careca de história e geografia a passar nos claustros, tendo apanhado desprevenidos os colegas que tentavam arrombar a porta onde o funcionário guardava as bolas de Berlim que iam ser distribuídas no reforço da manhã. A fúria do docente foi tal, que desatou a correr pelas escadas acima e deitou a mão ao primeiro estudante que viu, neste caso o Elefante (300), que estava sentadinho a fazer as cábulas para o teste do Semita, que ostentava o nome Grijó no B.I., e que costumava contar aos seus alunos que quando tinha a idade deles cuspia no pão que levava para a escola, para que os colegas não o comessem. Os claustros eram grandes, muito grandes, e em cada ponta gritava-se “Feio”, “Feio” e mais “Feio”, e o mais sensato era o “Feio” sair dali enquanto podia, pois o cerco aproximava-se, e o professor careca arriscava-se a um “ramalho”, um ritual reservado para os dias de anos, mas que na prática servia para todas as ocasiões festivas. Seria agarrado pela cabeça, obrigado a curvar-se, enquanto os outros lhe dariam toques nas costas com os cotovelos, ao mesmo tempo que cantariam, “ramalho, ramalho, ramalho és tu, vai chamar ramalho ao olho do cu”. Mas o Feio teve bom senso e fugiu!
A vítima seguinte foi o professor Pequito. Quando se preparava para ditar o sumário foi amassado por um coro de gritos estridentes, não tendo conseguido descobrir os autores, porque toda a turma estava com os tampos levantados. Acabou por acusar o único aluno interessado em aprender francês, e cuja intenção foi mesmo ir buscar o livro às entranhas da carteira: o 69 (“o número mais vergonhoso do Colégio Militar”, segundo dizia o 125, o Horrível)! Caso não provasse a sua inocência, arriscava-se a descer uns pontinhos na “Escala de Comportamentos”, uma modernice introduzida pela revolução, que tinha substituído a “obsoleta” pena de detenção de fim-de-semana, cuja duração foi curta porque insistiam em deixar os pioneses ao alcance dos rapazes, fazendo apelo ao seu sentido democrático, o que levou a que o Peidão (191), o Zécarias (666), o Gordini (601), o Coiote (95), o Peixinho (591) e outros bons rapazes, passassem da red line para o verde vivo, enquanto o exemplar 69 (que mantinha os braços à altura dos ombros durante todas as inúmeras marchas diárias, mesmo levando biqueiros consecutivos no traseiro, e foi dos raros que levaram para casa todas as medalhas disponíveis) estava sempre com o pionés no zero, e o tenente Cuequinha à beira de um ataque de nervos!
Noutro canto do colégio o professor Grijó, que já há muito tempo tinha estacionado o  Volvo 130 azul junto ao pavilhão de Desenho e Trabalhos Manuais, dava por encerrada a oral de Química:
- Moçoo, sabes andar de bicicleta? – Perguntou, ajeitando com a mão o cabelo amarelado.
- Sei, - respondeu o Peida-Gorda (668), já antevendo os oito valores.
- Então vais levar uma bicicleta – disse, com a voz rouca que o caracterizava, e continuou. – Ó moço, tu não tens memória, tu tens uma vaga ideia.
Mas muito iria acontecer antes de passarem a ser, para todo o sempre, os “Cavaleiros da Luz”. Como de costume as armas foram distribuídas na véspera, e cada um levou a sua para a camarata. À noite havia combates corpo a corpo com baioneta,  Manelicans a fazer a vez de espadas e almofadas transformadas em escudos. Brincava-se à séria, com gosto, nunca ninguém se magoou, mas se alguma coisa acontecesse havia sempre a Enfermaria e a eterna aspirina de prevenção. À noite houve “Pinturas”, e muitos nem dormiram com a emoção. Não havia tempo nem para traumas, nem para esgotamentos.
O pico das comemorações deu-se quando os graduados se aproximaram dos “ratas” (o equivalente aos noviços nos conventos) e, sacando-lhes para fora as baionetas, tocaram alternadamente nos ombros, ao mesmo tempo que diziam, segundo as fontes oficiais, "armo-te cavaleiro para que, com este sabre, sejas sempre vencedor e nunca vencido", mas que na prática tinha sido um pouco alterado para “armo-te cavaleiro, puto e paneleiro”!