Comandante Guélas
Série Colégio Militar
O dia da Restauração aproximava-se, o capote do graduado mais novo já
esvoaçava por cima dos claustros abraçado a uma Cruz, e acima dele uma
Barretina que tapava a cabecinha do pára-raios. Não muito longe o professor Grijó,
ou melhor, o Semita, distraíra-se, mais uma vez, a jogar xadrez na sala de
professores e quando se apercebeu já só encontrou meia turma à porta do
pavilhão de química. Por isso, quando iniciou a experiência com o Sódio e o
Potássio calculou mal as doses, e o estrondo assustou o ajudante, mais
conhecido como Ruca, não estivéssemos nós no reino dos números e das alcunhas.
Como já era tradição, a responsabilidade caiu no subalterno:
- Ó Morais, és um bronco, disse-te para cortar mais fininho o produto!
A turma riu em uníssono, mas foi por pouco tempo.
- Tenho aqui as vossas notas, que são uma miséria, - disse o Semita olhando
para o Zacarias (666). – Moço, levas para casa uma bengala (sete valores). E tu,
número 384 (Leitão) uma bicicleta (oito valores), e tu 463 (Banhadas) outra
Bengala -, e assim sucessivamente.
Noutro pavilhão um tenente-coronel armado em peru, o Galo, dava início ao
teste, e avisava os Meninos da Luz de que não queria ninguém a cabular, pois
como ex-aluno sabia todos os truques. Permaneceu em movimento o tempo todo, com
as botas de cano alto a marcar u ritmo no soalho, como se estivesse numa
marcha marcial, enquanto o Vaca (320), o Peidão (191), o Peida-Gorda (668), o Macaca
(136), o Vinasse (305), o Six (607) e muitos outros, copiavam à fartazana, com
o material de apoio debaixo dos tampos transparentes. A aula de Trabalhos
Manuais mais parecia um campo de tiro ao alvo, tal era a quantidade de barro
que forrava a parede branca da sala. O trabalho consistia em fazer uma rosa,
mas ninguém conseguia chegar ao fim, era humanamente impossível, que o diga o
69 (“o número mais vergonhoso do Colégio Militar”, segundo o Horrível), o único
a marchar com os “braços à altura do ombro” e a “bater os calcanhares”, mesmo a
levar biqueiros no cú, e dos raros que não cabulava, pois sempre que colocava a
última pétala, o Gordini (601) distraia-o e o Peidão (191), um aluno com uma
vasta ficha na Direção, ou outro que estivesse mais a jeito, enfiava um abrunho
na flor, reduzindo-a novamente a uma amálgama de barro. Do outro lado da sala o
professor Clarence (Cross-Eyed Lion da série Daktari), conseguia ver com um dos
olhos, pois o outro apontava para o teto, a rebaldaria da aula do colega, mas
não arriscava ajudar. Estava a classificar os trabalhos em cartolina, e acabara
de dar vinte valores à Torre Eiffel feita pelo “número mais vergonhoso do
Colégio Militar”(sic), que não iria durar muito, pois dois dias depois foi
vítima de um incêndio de origem criminosa, depois do Horrível (125), o Peidão
(191) e o Cabedo (120) terem entrado clandestinamente nas instalações para
fumar um cigarrito, e ensaiado uma tocha com o símbolo da cidade luz, para
relembrar o ainda distante “Spell e King”. A festa que se aproximava era o 1º de
Dezembro e, antes do Batalhão marchar para a população, iria haver um confronto
final entre portugueses (graduados) e espanhóis (os do 6º ano), armados com
mocas, toalhas encharcadas na véspera, ensaboadas, enroladas e secas, que
ficavam com a dureza do cajado alentejano, com os restantes a assistirem à cena
no primeiro andar dos claustros, depois de terem atirado pela varanda o boneco
do traidor Miguel de Vasconcelos. Mas havia mais. De um momento para o outro os
inimigos transformavam-se em lusitanos ressabiados, formavam duas colunas a
perder de vista e obrigavam os castelhanos, a arraia miúda da assistência, a
passar pelo meio, ao mesmo tempo que lhes serviam mocada, e da grossa. Umas horas depois estava tudo engalanado a marchar!


