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Friday, June 08, 2012

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 6 - Zona com Restrições


Comandante Guélas
Série Colégio Militar


A vida no Colégio Militar dos anos 70 era dura, desprovida de sentimentos éticos, com uma justiça sumária que causava duas sensações, o que a aplicava estremecia de prazer, o que a sofria estremecia de dor. E havia muitas interdições! Passar pelos claustros, era uma delas, só em formatura, excepto para os senhores graduados, os alunos do 7º ano. E nunca pelo corredor junto à bomba de gasolina. Por isso o contigente mínimo para se poder passar pelos claustros era de cinco elementos, quatro a marchar e um a comandar. De manhã tinha havido problemas com o professor de matemática, o Gunga, que não respeitava a ética do limite. Chegara à formatura junto à sala de aula, de óculos escuros, impossibilitando o chefe de turma, o Peidão (191), de dar as ordens necessárias à formatura: “firme”e “siope” (voltado para os colegas), “direita volver” (duas vezes sozinho), ficar de frente para o professor em sentido, continência, autorização, mais dois “direito-volver” sozinho, “esquerda volver” para todos, passo de corrida para a frente da primeira fila e ordem “em frente marche”, ao mesmo tempo que se deslocava lateralmente para a fila do meio, que recebia a mesma ordem quando o último da primeira entrasse na sala, seguido de passagem para a terceira fila, sendo depois o último a entrar, seguido do Gunga. Todos ficariam em sentido junto às carteiras, até receberem ordem para se sentarem. Mas o ”firme” não saía, o chefe de turma não conseguia dar a ordem, à sua frente os colegas riam, atrás de si o Gunga mirava-o do seu metro e noventa, com um ar imperial.
- Estou a ver que temos festa, - ameaçou o único professor de matemática que entregava os testes 10 minutos depois de os recolher.
Tudo correu na perfeição exceto a entrada. A turma, num ato de suicídio coletivo, continuou a marchar dentro da sala de aula, fazendo um barulho infernal com as botas. Não tiveram autorização para se sentarem, ou melhor, a ordem só foi dada depois de o Gunga ter distribuído abrunhos duplos a toda a turma, que permaneceu sempre em sentido durante o ato pedagógico.
Nesse dia, durante a hora de almoço, o funcionário Zé Pereira andou numa azáfama com o bloco de notas na mão, os copos caiam que nem tordos, e de cada vez que se ouvia o barulho do vidro a quebrar todo o pessoal gritava em uníssono “P.J.”, ou seja, “Paga já”, obrigando o funcionário a deslocar-se em passo de corrida com o bloco de notas na mão, até ao local da ocorrência. E como o lema do Colégio Militar era “Um por todos e todos por um”, arriscava-se sempre a ter de arranjar vários papelinhos para que a despesa fosse repartida. E a repartição neste dia chegou aos “1/90 avos” do copo do Barrada (664), ou para ajudar a Loira (667) quando um dia durante uma fuga ao Moca, depois de lhe ter acertado com uma escova de sapatos, conseguiu uma “camaradagem” até “1/180 avos de uma sanita”. Umas horas depois, na outra ponta do colégio, o Peidão (191), o Escalope (307), o Gordini (601) e o Horrível (125) encontravam-se encurralados no pavilhão com acesso único pela zona interdita. Precisavam de mais um elemento, mas não havia ninguém para aqueles lados. Arriscavam-se a ter de dormir no local! Tiveram de arranjar uma solução de recurso: o Horrível (125) desmaiou, e os outros iniciaram uma travessia dos claustros com o corpo imóvel nos braços, e em passo de urgência. Tinham tido tanto sucesso noutras ocasiões, em que o doente voltava a si miraculosamente após o atravessamento da zona vermelha, e todos corriam em debandada, só parando nas companhias, que não hesitaram em simular uma nova maleita num deles. Desmaio concretizado, um agarrou nas pernas e os outros dois distribuíram-se pelos braços, iniciando de imediato a travessia. Quando iam sensivelmente a meio caminho, apareceu à porta da sala dos professores o oficial de dia, e todos gelaram quando deram de caras com o tenente Aparício, o oficial mais pequeno da zona, mas o mais malandro, que ostentava num dos ombros uma placa para gigantes, que tinha escrito “COMANDOS”. O Horrível agravou o desmaio, enquanto os outros iam quase largando o desmaiado. O pequenote pôs-se no meio da via e deu ordens para entrarem com a vítima na sala, e poisarem-na num sofá. A ordem foi cumprida tão depressa, que o Horrível  acabou sendo literalmente arremessado para o local indicado, e deixado á sua sorte. Os socorristas só pararam na camarata, e rezaram pela alma do número 125, do ano lectivo 1971 / 1972. Entretanto, algures numa sala da zona interdita dos Claustros o tenente Aparício conseguira ressuscitar o desmaiado depois de vários abrunhos e outros miminhos.

Monday, June 04, 2012

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 5 - Pinturas



Comandante Guélas

Série  Colégio Militar 



A vocação de todas estas estórias é tornar o Colégio Militar imortal, através das experiências dos seus protagonistas. O orgulho não advém da consumação do erro, mas da coragem que é necessária para admitir esse erro. Era um lugar de extremos, por isso dois estereótipos evidenciaram-se: o medalhado e o cabulão! E quando os limites eram transgredidos, por causa da loucura comprimida de alguns alunos, havia consequências. Estava o velho Peidão (191) a passear tranquilamente no Colombo, quando começou a ouvir um ritmo há muito esquecido, emprenhado nas suas memórias mais antigas: “Esquerdo direito, op dois, op dois, esquerdo”! Parou assustado e pôs a mão no coração. Teria chegado a sua vez, uma travadinha inesperada que lhe chocalhara o coco e ativara as memórias da Luz? Foi de imediato ultrapassado por uma carrada de meninos equipados a rigor, com as letras “CM” cravadas no peito, que se dirigiam para o átrio central, ornamentado com vários tapetes e as célebres “Mesas Alemãs”. O colégio que antes tinha excesso de candidatos, e muitos só entravam com cunha, como foi o caso do Stratopel, porque não havia Cercis na altura, andava agora a suplicar alunos em todas as montras da capital. Num dos cantos vários placards faziam uma breve apresentação da instituição, dos seus costumes e tradições. Num deles apareciam dois “ratas” (alunos mais novos) em sono profundo, com riscas tricolores na cara:
- Foram pintados pelos mais velhos com tintas aquecidas, para não acordarem. Amanhã à alvorada vão ter uma surpresa, - explicava um alferes, estilo vendedor.
Tintas aquecidas? Continuavam a dormir? E havia mais novidades! As mães, que antes não passavam da Porta de Armas, participavam agora na festa, não sem antes analisarem os produtos que iriam decorar as suas crias. O Peidão estava incrédulo! Seria o mesmo colégio, o Militar, ali para os lados da Luz? Sentiu um abanão forte e um grito, e viu-se transportado para os anos setenta do século passado, numa noite fria de um inverno muito escuro.
- Põe-te em pé e tira o pijama, - gritou o graduado para o Leitão.
O 384 sentiu a trincha percorrer-lhe o corpo, e contraiu-se com a tinta preta fria que se colava ao corpo, ardendo nos tomates, sinal de que alguma "Colgate" tinha ido parar à lata do produto.
- Vira-te, - gritou-lhe outro que acabara de chegar com um balde cheio de um líquido vermelho.
Nova trincha, nova pintura. Hora para mudar de camarata. O Elefante (300) aproveitou a pausa e tirou rapidamente a toalha molhada que tinha escondido debaixo da cama, e conseguiu tirar parte da tinta que ainda não secara. Os lençóis pareciam as telas de uma pintura gigante, havia cores por todo o lado, e caso o Miró tivesse sido Menino da Luz, bastava assinar, transformando assim um velho lençol com manchas amarelas saídas de um pincél imberbe, e cores acrescentadas numa festa tradicional, numa obra de arte da Fundação Gulbenkian.
- As tintas são inofensivas, saem com a água quando os aluno lavam a cara, - garantia o oficial do Colombo, trazendo o velho Peidão de regresso ao século XXI.
Já não havia ratas como antigamente, agora os meninos só podiam ter no máximo três riscas, feitas com um pincel guache nº 175. As tintas plásticas com que o vigilante Patronilha, proprietário de uma soberba Java 125, pintava as paredes, e que demoravam várias semanas a sair, já não eram permitidas, mais uma tradição acabava.
- Ainda não foste pintado? Levanta-te e tira o pijama, - gritou o graduado de três estrelas tirando os lençóis ao Escalope (307).
Pintado ele já tinha sido, mas limpara-se com a toalha molhada. E a presença do pintor era sinal de que a segunda vaga tinha chegado. De novo a trincha a percorrer-lhe o corpo, e os tomates a arderem, e como tudo o que era costume no colégio, a “brincadeira” um dia foi longe de mais, e alguém pintou a tripa a um dos netos do diretor!
- Esta tradição aqui é muito engraçada, e é para comemorar o final das aulas. Chama-se "Spellig King"! Os graduados vão para o campo de futebol de onze, e seguindo um ritual pagão fazem uma grande fogueira com os cadernos, - continuou o alferes, agora virado para uma família de três leitões, - e andam à volta dela cantando e segurando tochas…..
Aqui o velho Peidão (191), sentiu-se a levantar voo dentro da cama. Era uma inofensiva "Chaminé de Fada"!




Friday, May 25, 2012

Comandante Guélas - Série Colégio Militar 4 - Inverno Quente


Comandante Guélas

Série  Colégio Militar 



 
Em 1966 o padre Castelão Gonçalves que lecionava Educação Moral e Cívica escreveu no Anuário:
“É alarmante o descalabro moral da juventude…Não importa dissecar o fenómeno em si, mas sem dúvida que tal alastramento da amoralidade e obsessão do prazer e vício tem na base um adormecimento dos responsáveis, uma desproporção abissal entre os conhecimentos técnico-científicos com que se apetrecha a juventude e as bases religioso-morais a que não se dá nenhuma ou pouca importância.” pág. 89


No ano de 1975 houve um verão quente, mas também um inverno escaldante, num colégio cheio de rapazes com marcas individuais específicas, em confronto permanente entre pulsões e restrições. O padre Castelão de certeza que diria que estes Meninos da Luz tinham deixado de escutar o batimento cardíaco de Deus, o compasso do mundo. Com as saídas aos sábados à tarde e as entradas obrigatórias até às onze horas da noite do dia seguinte, o batalhão de adolescentes e imberbes só via um rabo de saia quando a mítica filha do senhor Nunes, responsável pelo curral e pelo aviário, resolvia ir fazer uma visita ao papá, uma vez que a sempre presente esposa do Justino funcionava como inibidora:
- Ó Patronilha, a tua mulher nem com uma almofada na cabeça, - dizia-lhe sempre o Horrível, o maior cobridor da Luz, segundo dizia.
- Mas fode bem, - respondia-lhe o vigilante.
Por isso as camas só rangiam após o toque do recolher nos dias em que a Rosa era avistada. Esta estória tem como protagonista, não a Marlin Monroe da Luz, mas uma administrativa, que um dia cometeu a imprudência de ir atestar o Fiat na bomba de gasolina do colégio. A saia que levava e o decote gostoso revelaram-se impróprios para o local, e foi a ignição para um impulso linguístico, que fez convergir as energias dos cinco adolescentes em três janelas do primeiro andar:
- “Senhor soldado, não se engane no buraco, olhe que é o do carro”
- “Não queres segurar antes na minha mangueira?” 
- “Abre as pernas que eu vou de cabeça”
O capitão Oscaralinho, um pequenote careca com a mania que era malandro, ainda tentou intervir, mas não teve tempo, pois a mania que tinha de pentear o cabelo a partir da orelha atrasou-o, e quando se apercebeu já a chinesa estava no gabinete do Diretor. O relatório com o acontecimento caiu a seco na secretária do comandante da Terceira Companhia,  um oficial hostil e paranóico, com uma pulsão maneirista, que não tinha o controle de nada e que via todos os dias a sua autoridade fugir-lhe debaixo dos pés:
- Meu capitão, dá licença que penetre? – Perguntou-lhe um dia o Bomba H.
E penetrou, mas depressa saiu a correr quando sentiu o vento de um punho raivoso dum capitão envolto numa tempestade existencial inesperada, brilhante, veloz e aterradora, como se fosse, não do domínio do ar, mas do interior obscuro da alma.
A investigação iniciou-se e rapidamente terminou, iniciando de seguida reuniões individuais com os encarregados de educação onde, em termos formais, foi lido em voz alta o relato dos acontecimentos. Se a mítica Rosa resolvesse tomar atitudes destas de cada vez que ia ao colégio, não havia tempo para mais nada.

Ofício Circular
“Encarrega-me Sua Exa. O Brigadeiro Director de transcrever a V. Exa. O nº 1 do artº 10º da Ordem de Serviço Militar, nº 47, que é do teor o seguinte: punições com 2 dias de suspensão, cada um dos alunos da 3ª Companhia e do 4º Ano nºs: 157, 601 e 653, por no dia 30 de Janeiro de 1975 terem dito “palavras insultuosas para com um funcionário deste colégio, que foram ouvidas por elementos militares e civis, que se encontravam no local de abastecimento de gasolina”.

26 de Fevereiro de 1975

Mas houve mais dois ofícios circulares personalizados, um para o Horrível, com três dias de suspensão, e outro para o Peidão, quatro dias, por ser reincidente (já tinha ficado detido uns dias durante umas férias da Páscoa). Entraram de férias mais cedo, e safaram-se do desfile do 3 de Março!