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Wednesday, May 16, 2012

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 2 - O dia em que a Luz parou



Comandante Guélas
Série Colégio Militar


Estávamos num domingo à noite e por isso de regresso a casa, o Colégio Militar, onde iríamos permanecer até sábado à tarde, altura em que alguns iriam visitar os pais, enquanto outros permaneceriam meses e meses à guarda da instituição, uns com os pais longe nas Províncias Ultramarinas e outros já sem pais por terem tombado na sua defesa. A Porta de Armas esperava-nos até às onze da noite, hora a partir da qual teria de haver uma explicação plausível para o atraso, senão arriscavamo-nos a ficar “detidos” no fim-de-semana seguinte. Na zona da enfermaria havia sempre uma emboscada, da responsabilidade daqueles que os comandavam, os graduados, que os aliviavam dos chocolates e afins, a célebre “Bolama”, denotando já terem uma preocupação no combate à obesidade dos seus subordinados. Um gordo tinha sempre mais dificuldade em cumprir uma “Apresentação à Alvorada” (vestir-se a rigor com a farda de pano e mostrar-se com sensualidade ao seu superior alguns segundos depois do toque da alvorada, fazer o mesmo mas vestido de cotim e novamente de pano), e ter ainda tempo para fazer a cama, sem vincos no lençol, fardar-se de cotim e chegar a tempo à formatura, cujo toque era vinte minutos depois. Caso o não fizesse teria de passar pelo Comandante de Companhia aluno que, de uma maneira geral, lhe enfiava um par de abrunhos, uma espécie de pequeno-almoço adiantado. Mas houve um dia em que todas as taras e manias ficaram em banho-maria! O almoço decorria com normalidade, de tempos a tempos ouvia-se um copo a despedaçar-se de encontro ao chão, seguido de um grito em uníssono de metade do batalhão, “Paga já”, que obrigava o funcionário de nome Zé Pereira a deslocar-se em passo de corrida com um bloco de notas na mão até ao prevaricador, obrigando-o a assinar uma nota de pagamento, que seria depois entregue ao encarregado de educação. Mas de uma maneira geral eram precisas mais notas de pagamento porque o lema do Colégio Militar, “um por todos, todos por um” tinha sempre um sentido prático, e desta vez foi levado ao extremo: 180 alunos estavam dispostos a suportar o prejuízo (“1/180 avos de um copo” - sic). De repente ouviu-se um grito do Leitão (384), que se pôs de pé a apontar para a Segunda Circular. Duas Panhard faziam pisca para o Colégio Militar. De um momento para o outro deu-se um levantamento, não de rancho, porque era dia de bifes de cavalo e mousse de chocolate, mas de todo o batalhão, que correu à carga para o exterior, e nem o Moca conseguiu parar a turba, apesar de ter acertado em vários com o pau (no Escalope, 307, no Coiote, 95, no Macaca, 136, no Peida-Gorda, 668, no Elefante, 300, no Gordini, 601, no Peidão, 191, no 485, Micróbio, ….) com que costumava abrir as janelas após o Toque da Alvorada, ao mesmo tempo que gritava ordens numa língua que só ele compreendia. E aconteceu a primeira mudança: correram para a porta de armas com dois dedos levantados em sinal de “vitória”, e não formados como habitualmente.
- Cuidado jovens, cuidado pois estão uns homens maus a atacar Lisboa – avisou o padre Vladimiro.
 A segunda mudança aconteceu nos Claustros. Não se formaram pelotões de ocasião (mínimo de cinco, quatro a marchar e um a comandar), como era obrigatório, cada um correu como pode escadas acima. As janelas trancadas não foram abertas, optou-se por partir os vidros. E lá fora em cima duma Panhard um ex-aluno (1920-1928) saudava todos os militarzinhos em transe. Finda a festa, deu-se a terceira mudança. Os alunos regressaram todos com os chapéus na posição de “farra”, inclinados para trás, o equivalente ao “sou bué radical” de agora. A primeira vítima do novo dia dava pelo nome de Capitão Caetano, e tudo aconteceu quando um Che Guevara de ocasião entrou pelo seu gabinete e, em vez de seguir o protocolo e pedir “Sua Excelência meu capitão dá licença que entre”, trocou o verbo e gritou, “Sua Excelência meu capitão dá licença que penetre”, e penetrou de imediato, a frio. O Capitão Caetano começou a espumar e a tiritar, e quando se preparava para responder ao inabitual pedido com um abrunho entre os olhos do indisciplinado, este desatou a correr para as camaratas, levando colado ao seu traseiro um capitão à beira de um ataque de nervos, que nunca o conseguiu alcançar. Noutra ponta do colégio a fava calhara ao Didi, professor de inglês, que se encontrava numa situação invulgar, ao verificar que no fim da aula, e já no exterior, os alunos tinham formado duas fileiras, para ele passar pelo meio. Seria uma nova forma de festejar a liberdade? E porque é que os militarzinhos tinham nas mãos dicionários da disciplina? Puxou a franja para o lado e avançou, primeiro cautelosamente, mas quando sentiu um livro a tocar-lhe nas costas, acelerou escadaria abaixo, com a biblioteca no seu encalço. A partir daqui o Colégio Militar entrou em autogestão, formaturas nem vê-las, as “apresentações à alvorada” eram coisas dos “dias negros do fascismo”, o Cara de Cavalo vendia charros, e os graduados eram somente aqueles que tinham umas estrelas amaricadas nos ombros. E um dia apareceu, numa das raras formaturas da Terceira Companhia, um oficial com uma monstruosa tabuleta ao peito a dizer “COPCON”. Trazia nos sacos várias calças, blusões e uma colecção de sapatos. Informou então os presentes de que, devido à restauração da balda…perdão, da liberdade, o povo da Luz iria ter direito a decidir o seu próprio destino, a começar por aquilo que queria vestir. A decisão foi tomada por unanimidade: calças à boca de sino, blusão justinho e sapatos de tacão alto! O militar do Otelo olhou demoradamente para a escolha do povo, e imaginou-o a marchar para o seu chefe em estilo Parada Gay. Arrumou apressadamente a tralha e foi-se embora, gritando:
- Estão a brincar com a Democracia.

Sunday, May 13, 2012

O Comandante Guélas - Série Colégio Militar 1 - O brinquedo blindado

Comandante Guélas

Série Colégio Militar



O Peidão (191), o Azias (369), o Pani (103), o Teta (332), o Madiura (556), o Zacarias (666), eram por altura do 25 de Abril de 1974 Meninos da Luz e como tal estavam a ser preparados para a defesa da pátria, que estava em debandada das Províncias Ultramarinas. À entrada do edifício das Companhias, que eram quatro, havia vestígios de outras guerras, dois canhões do primeiro conflito mundial, que serviam para o senhor Delgado tirar as fotografias da praxe, enviando depois a conta exorbitante diretamente para os encarregados de educação, por isso era mais conhecido como o Chulógrafo, um tanque da Segunda Grande Guerra, por baixo do qual todos os ratas eram obrigados a passar e, acabada de chegar, vinda diretamente de África, uma soberba Panhard. O batalhão estava formado no pátio quando o brinquedo e o oficial que o trazia o estacionou. Depressa a auto metralhadora ligeira foi despojada de todos os acessórios, sofreu mais nas mãos destes meninos do que nos vários anos em combate contra os turras. Numa bela noite de verão uma mão cheia de adolescentes danados para a brincadeira, e com insónias, e um oficial malandro, foram protagonistas de uma aventura digna do Major Alvega, o herói desta geração. O tenente era pequenino mas a tabuleta que usava no braço esquerdo, com a inscrição de “COMANDOS” dava-lhe um ar cruel e implacável. O Bico (220), o Galinha (492), o Cavalo (8), o Coiote (95), o Pitosga (485), o Gordini (601), o Cão (328), o Morena (398), o Peixinho (591), o Xicaca (544), o Mijón (534), o Horrível (125), o Vinesse (305), o Escalope (307), o Cabedo (120), o Pejó (121), o Judi (136), o Minhoca (280), o Sorridente (288), o Peida Gorda (668), o Loira (667), o Cu-de-Senhora (122), o Barrada (664), o Bétis (653), o Xoxo (652), o Six (607), o Bicuda (157), o Elefante (300), o Vaca (320), o Leitão (384), o Camélia (299), o Pencas (33), o Bina (19), o China (338), o Peugeot (403), o Brumi (418), o Barbas (362), o Labras (104), o Fiasco (562), o Jóia (491), o Picanço (612) e mais os outros artistas do início, pegaram no brinquedo blindado e empurraram-no até ao ginásio, no topo do colégio. Por essa altura o tenente estava a entrar no seu Mini branco estacionado junto às bombas de gasolina, dando início à ronda. O blindado já estava pronto para a partida mas faltava ainda arranjar lugar para uma mão cheia de soldadinhos, que não faziam questão de vir a pé. O 125 (Horrível) era o motorista e avisou os passageiros de que não era aconselhável permanecerem parados durante muito tempo, pois o Xavier, o Celestino, o Moca, e outros vigilantes poderiam andar pela zona. Avisou também de que o checklist tinha detetado a ausência do travão de pé.
- O travão de mão basta, - disse o 191 (Peidão).
Quando o monte de meninos se pôs em movimento, o pequeno “COMANDO” já vinha a entrar no pátio em marcha lenta, não fosse estar alguém a evadir-se por alguma das janelas da sala de leitura da quarta companhia. O blindado, tapado com uma mão cheia de garotinhos fardados de cotim cruzou-se com o funcionário careca da cozinha, o Meia-Lua, e a deslocação de ar quase o atirou para o chão. Só faltava uma reta seguida de uma curva para a esquerda, que se abria depois num vasto pátio onde o batalhão costumava desfilar antes do almoço, caso o oficial de dia fosse daqueles que adorava ter 600 meninos, desde tenrinhos a peludos, a marchar só para ele. Quando o tenente pequenino com uma tabuleta no braço direito a dizer “COMANDOS” em letras maiúsculas e a bolt fez a curva que o levava para os lados do ginásio, deu de caras com um blindado a transbordar de alunos. Um reflexo inesperado fê-lo galgar o passeio e salvou-lhe a vida, uma vez que o Horrível (125) não fazia questão de puxar pelo travão-de-mão, mas sim passar a ferro o Mini branco. A Auto Metralhadora entrou pelo pátio a alta velocidade e acabou a viagem sozinha, pois os garotinhos evaporaram-se como éter, cada um para a sua caminha.









Saturday, April 28, 2012

Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 54 - Prevenção Rodoviária

Comandante Guélas
Série Paço de Arcos

Quando o Cabeça de Ananás, nickname posto pelo próprio pai da criança, que durante algum tempo também lhe chamou “Dois Cus”, nasceu, o avô Mene tornou-se no bisavô mais babado da Costa do Estoril, e depressa tomou em mãos a responsabilidade de, finalmente, conseguir educar com bons princípios morais este novo neto, uma vez que em relação aos outros tinha sido uma desgraça. Vivia sem esperança de continuidade, o “Quadro das Lamentações” , onde dava explicações de matemática e física aos netos, que acabavam sempre aos gritos e insultos, e com a intervenção musculada da Milu, estava ameaçado de extinção porque os neurónios do Peidão tinham atingido a redline. A esperança residia agora no Cabeça de Ananás, ou Dois Cus, como preferirem, que era um puto dotado de mais neurónios que os pais e os tios todos juntos, que passava o dia todo na garagem a brincar com o bisavô. Mas houve um dia, no meio de muitos outros, que o tempo ia parando! O avô Mene estava equipado a rigor, um soberbo penico da segunda guerra cobria-lhe a cabeça, apito colado aos beiços, com uma corrente de tampa de bidé a dar a volta ao pescoço, botas cardadas com solas esfomeadas e uma raquete de ping-pong pintada de vermelho e azul, as únicas cores existentes na moradia de dois andares, em cujo rés-do-chão ele era o cabeça de casal, enquanto que no de cima reinava a filha, e o “Dois Cús” em todo o logradouro. A cor vermelha forrava metade das torneiras do jardim, indicando que toda a água que por aí saísse debitava no contador do avô Mene. Por isso usava mais as azuis, da responsabilidade do genro!
- Aiiiii, - gritou pela centésima vez, indicando que o Cabeça de Ananás lhe passara novamente com os rodados por cima dos calos.
Estava tudo ainda muito fresco, na semana anterior ameaçara esganar o petiz que, seguindo a tradição familiar, aproveitara uma distracção e trancara-o no quarto das ferramentas, perdendo a chave logo de seguida. A Milu só deu pela falta dele quando o chamou pela enésima vez para o almoço, onde só se apresentara o Dois Cús, que comia alegremente um ovo estrelado, exclusivo desta bisavó, que só era atirado para a frigideira quando a manteiga atingia o ponto de rebuçado, ameaçando aevaporar-se, tendo ainda ousado comentar:
- Que irresponsabilidade, pedi-lhe para tomar conta do menino e nem para isso serve!
O avô Mene já espumava, mas de nada lhe valia. Pediu que lhe trouxessem o petiz junto à porta, e deu-se início às negociações:
- Se tu disseres onde escondeste a chave, dou-te um chocolate, - prometeu, com uma voz suave.
O Dois Cus deu umas coordenadas e a Milu correu para o andar de cima, e espreitou por detrás do sofá. Falso alarme. Chave, nem vê-la!
- Pensa bem, o avô não se zanga, até te dá um Lego, - tornou a prometer, mas desta vez com um canino de fora, que o Dois Cus não conseguiu ver.
Novas coordenadas, e a bisavó escada acima outra vez. Falso alarme, na casa de banho com o tampo transparente para baixo, uma modernice da Milu, só havia restos de uma mija descuidada.
- Se eu te apanho meto-te os dentes para dentro, - berrou o avô Mene, cravando as unhas na porta. – Isto já se tornou um hábito.
Tinha razão, trancá-lo era já um comportamento inscrito nos genes dos seus descendentes, que o dissessem o Peidão e as irmãs, que um dia o tinham encurralado no torreão da casa da Base das Lages, onde permanecera parte do dia a gritar por socorro para o exterior, enquanto a Milu se ausentara com os petizes para fazer compras no “BX” dos americanos, loja conhecida como “BIEX” pelos autóctones. A única chave que conseguiu abrir a porta cinzenta de pinho maciço foi um machado, a segunda ferramenta preferida do avô Mene, a seguir ao martelo. O almoço decorreu dentro da normalidade, com o Cabeça de Ananás, ou Dois Cus, nicknames da responsabilidade do pai, que se tinha atrasado nos estudos devido a uma “pneumonia dupla”, como se costumava justificar, que se transformara em tripla devido ao estado em que lhe tinha deixado o Cérebro, a correr de um lado para o outro, incluindo várias passagens por cima da mesa. Nos dias de hoje teria levado com várias doses de Ritalina, destinada aos irrequietos de antigamente, classificados nos dias de hoje com o pomposo nome de “hiperativos”. Após a refeição as duas crianças, uma de cinco e outra de setenta, rumaram para a garagem e foram acabar a brincadeira do polícia sinaleiro. Avô Mene a rigor no seu papel de autoridade e o Cabeça de Ananás a pedalar freneticamente no carro.
- Aiiiii, - gritou o polícia sinaleiro após a passagem dos rodados por cima dos calos.
E continuaram! Até que os “ais” do avô Mene foram substituídos pelos gritos alucinantes do Dois Cus, que obrigaram a uma descida fulminante da Milu à cave. O petiz tinha um galo do tamanho dum capão, e o avô Mene segurava em pânico numa lata de tinta vermelha que, segundo ele, lhe tinha caído da mão e, azar dos azares, acertado nos cornos do pequenito. A versão do Dois Cus era diferente, o polícia sinaleiro tinha-lhe atirado deliberadamente com o objecto à tola, após mais uma passagem por cima dos seus calos. A brincadeira ficou por ali, a verdadeira autoridade mostrou um cartão vermelho ao polícia sinaleiro!  

 

Tuesday, April 10, 2012

Camarada Choco 88 - Projeto Golfinho

Camarada Choco
Aventura 87

O nome do projecto metia respeito, mas nada indicava que se destinava a Desaparafusados. E a mítica equipa dos “Tubarões do Seixo”, cujo “i” era de uso obrigatório de cada vez que saíam para o exterior, não fosse alguma tia considerar tal nome uma afronta aos grogues de todo o mundo, há muito que já estavam a preparar-se para o derby. A fama era tal, que até jogadores de outros estabelecimentos para desaparafusados tinham abdicado das suas equipas de coxos, e preparavam-se agora para dar o seu contributo aos “Tubarões do Sexo”, perdão, falta o “i”, “Tubarões do Seixo”. O pai do Samecas não o queria deixar ir, porque da última vez regressara a casa sem parte substancial dos dentes da frente após um sprint fabuloso, que lhe deu entrada direta na “Caderneta dos Grogues”, que só terminou no poste da baliza adversária. A visão traíra-o! Mas o Samecas insistia em mostrar ao seleccionador a sua excelente forma física, com constantes flexões e acelerações, que passavam razias aos cantos e aos colegas.
- Se perdes peças outra vez, o teu pai inscreve-te no Grupo de Zombies do Vira-Bicos, e penduras as botas para sempre, - avisou-o o Stor Pobre, dando-lhe um majestoso empurrão, para testar o equilíbrio, argumento a que o progenitor se agarrava agora para não o deixar ir.
Mas como tudo era tática, estes apertões eram feitos na presença de todos, para assim servirem de apoio ao campeão, que nunca se estatelava. E a opinião de todos acabou por ser diferente da do pai, e assim o mítico “69” teve autorização para fazer parte da selecção da Escola Para Desaparafusados da Venteira, e rumar em direcção ao colégio com nome de descobridor. Mas um problema grave estava a afetar a moral da equipa: o estado lastimoso do Cristiano Ranhocas, o fabuloso Choco, cuja mãe se tinha enganado na medicação, e passara o mês a dar-lhe dois comprimidos SOS por dia.
- Um de vez enquanto, e só se ele lhe atirar um móvel mexicano para cima. É dose de elefante, - advertira o médico dois meses antes. – E se for tomado em excesso queima-lhe o resto dos fusíveis, e depois nem a Proteção Civil lhe vale!
O ponta-de-lança, que iniciara a carreira futebolística no século anterior, e fora inteiramente moldado pelo seu padrinho Stor Pobre, arrastava-se agora pelos corredores, com a língua a deixar rasto no chão como o caracol, e um olhar sensual.
- Vai, e ponto final, - disse o treinador, contrariando a opinião generalizada de que ele estaria possivelmente mais para lá do que para cá.
A novidade na selecção era o regresso do velho Kodac, agora um trabalhador incansável no bar dos médicos do hospital da zona, responsável pela limpeza dos cinzeiros clandestinos, que ele também ajudava a encher, e pelo esvaziamento dos restos das bejecas que forravam os fundos das garrafas que tinham de ir vazias para o vidrão. A justificação encontrada para a ausência ao trabalho da quarta-feira seguinte, foi a excecionalidade do evento, e uma forma de compensar tão empenhado trabalhador. E tudo isto saiu da cabeça da Dona Espatinha, após uma insistência permanente do padrinho de todos eles. A frente de ataque estava decidida: um Leitão que só carburava com doses maciças de nicotina, um Míope com queda para a travadinha e um Zombie! O meio-campo também era de sonho. Decidiu-se por um atleta em formato de Buldózer, o Gorilão, que só costumava parar quando o adversário ficava reduzido a um grafitti ou o mister ameaçava cortar no empadão do almoço. Na ala esquerda estava o coxo-mais-rápido-da-Brandoa, o Ládi Manquê, poeta nas horas vagas, e carregador oficial da mochila do velho Stor Pobre. A baliza estava entregue a um estrangeiro, o Moreira, um ex-rival do clube de Oeiras.
- O tamanho da equipa dos “Tubarões do Seixo” é decidido pelo treinador, pois todos sabem que é a única que possui regras próprias de funcionamento.
Foram escolhidos dois para a defesa, o Castelinho, que tinha mais perfil para rendas e bordados, e preferiu ficar no banco no papel de enfermeira, e a Chinesa Queque, cuja experiência em jogos viris se reduzia à tentativa diária de violação do Ládi Manquê.
O dia D chegou, e quando a primeira equipa adversária apareceu, o Stor Pobre apercebeu-se que eles eram aqueles chicos espertos que sabiam qual a baliza onde deveriam marcar golos, e eram exímios em passar a bola. Alteração de tática, tudo o que era Desaparafusado na assistência foi mobilizado, e obrigado a dar o seu contributo para a vitória dos “Tubarões do Seixo”, o único team que condensava em si todos os golos do encontro. Iniciou-se assim a partida com vinte contra cinco! A primeira interrupção do encontro aconteceu quando o Choco resolveu estacionar-se dentro da baliza adversária, impossibilitando o guarda-redes de defender essa metade.
- É a zona indicada no plano de jogo, - esclareceu o seu treinador, lembrando que “fora” era só para os outros, e quando ele indicasse ao árbitro, que também podia marcar golos pelos “Tubarões do Seixo”.
E quem não quisesse jogar nestas condições que fosse esgalhar para outra freguesia! A selecção de Futebol da Escola para Desaparafusados da Venteira, os míticos “Tubarões do Seixo”, regressou à base com uma taça nas mãos e a sensação de dever cumprido.

 PS.: O Samecas mal entrou em jogo desequilibrou-se e caiu, conseguindo in extremis dar uma pirueta e cair de costas!

Tuesday, March 27, 2012

Camarada Choco 87 - O Nadador Salvador

Camarada Choco
Aventura 86

A Fisio Vitaminas era muito minuciosa no que fazia…minuciosa a mais! Por isso quando viu a caixa colorida em cima da secretária da Doutora Sem Caneco resolveu espreitar. Não era a de Pandora, mas andava lá perto. A praga de estagiários que saiu nunca mais deu descanso à Escola Para Desaparafusados da Venteira. E foi numa dessas ocasiões que apareceu perante o Desaparafusado Castelinho o seu príncipe encantado, com quem há muito sonhava, principalmente durante as convulsões nocturnas: um Nadador Salvador! Mas como é que era possível aparecer um indivíduo desses tão longe da costa?
- Meu Deus, isto não é convulsão, é o meu prometido Serjão, - rimou o Desaparafusado, revirando os olhos para a direita, e não para a esquerda como o Nélinho.
A verdade é que estava ali alguém dotado do “boca-a-boca” e da “massagem cardíaca”, e por isso o Castelinho ajeitou os peitos, e acariciou a retaguarda, mesmo sendo um Desaparafusado macho. O desconhecido era real e vinha da Atlântica. Nessa noite a convulsão misturou-se com o sonho, e o Castelinho viu-se a entrar de biquíni no Tanque de Recuperação do Porres, o único lugar do país onde ainda se podia nadar com Borgalhotas, Cutrilhos e Alcagoitas. À sua espera, sentado na nova cadeira aquática, com a cor característica de conguito, apito provocador na boca, chapéu do Benfica, óculos espelhados, calções até aos joelhos e a bóia torpedo entalada entre as coxas, estava o novo estagiário da Fisio Vitaminas. Quando iniciou a descida da rampa o Castelinho teve uma convulsão odorífica, e sentiu o cheiro do David – Hasselhoff. O abanão também excitou as áreas visuais e apareceu, de repente, junto ao seu garanhão, a tarada da Pamela Anderson Lee, que rapidamente se transformou na Barrote Croquetes, e partiu para a sedução. Mas o despertador tocou e o Castelinho viu-se reduzido à sua condição de Desaparafusado, com um coelhinho branco deitado ao seu lado. Apercebeu-se de que não podia perder muito tempo, os estágios tinham um prazo de validade, e as probabilidades de aparecer mais um homem ligado ao mar, eram muito reduzidas. A sedução e o abuso tinham de ser rápidos. Mas havia mais pretendentes! A Lolita já reduzira a sua relação com o velho Castanheira até ao meio-dia, e estava agora de beicinho pelo estagiário e a Leal até o olho maroto arrebitara. Alheio a toda esta convulsão generalizada, e habituado a cenas destas, estava o maior sedutor de todos os tempos, o Choco, que passou com desprezo pela “Fila da Sedução”, com a língua, e não a dita como antigamente, a arrastar pelo chão, e a deixar rasto como o caracol no corredor da Kalélé, porque a mãe resolvera substituir o diário Seroquel pelo Lagartil, um drunfo, não do Sporting, mas sim um SOS de elefante só para ocasiões festivas, que lhe dava um olhar sensual, irresistível para as fêmeas da Venteira.
 

Wednesday, March 21, 2012

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 53 - A Dentada

Comandante Guélas
Série Paço de Arcos


A proprietária da Adega Camponesa em Alcabideche nunca mais se iria esquecer do encontro imediato do quinto grau que estava prestes a acontecer, pois trinta anos após relatou o sucedido ao cinquentão Carlos Ponta, como se de uma lenda se tratasse. Tinha estado toda a manhã a montar a mesa para uma refeição de luxo com clientes especiais, onde se destacava à entrada um soberbo peru real vindo directamente de uma quinta nobre da zona do Douro, após emborcar involuntariamente um meio-gordo com a idade de um rei. O bicho envergava o melhor traje para a ocasião e preparava-se para a “noite de núpcias”, onde iria ser trinchado, tal qual uma virgem, pela filha do financiador da real refeição. Contou então que num dia de calor entrou, com o Sol pelas costas, na sua casa de pasto, um demónio com a cara de anjinho.
- Vinha com a boca toda aberta, enorme, parecia o lobo do Capuchinho Vermelho, - disse a senhora, aproximando a cara do velho Carlos Ponta, que lhe sentiu o cheiro a alho e o toque do monstruoso buço. 
- Consegui ver-lhe as amígdalas, - reforçou a outra idosa que estava escondida atrás do balcão, deixando sair restos de tremoços que se desencravaram da prótese.
- Pareciam os tomates do meu falecido Júlio, - insistiu a proprietária.
Na cabeça do paçoarcoense Carlos Ponta as memórias já tinham soltado a alucinação da idade, e a cara do Focas com menos trinta e tal anos ocupava agora a porta da entrada do restaurante “Adega Camponesa” em Alcabideche. Mas como os neurónios já estavam com folgas, deu de caras com o Glorinha à janela a varrer a praceta em linha reta até ao café “Iolanda”, e do lado esquerdo até à esquina do Grilo, que estava naquele momento a vender uns charros ao Alice e ao Taka Takata. Porque ainda não tinha idade para poder andar em roda livre com o gangue, o irmão do Ginja só estava autorizado a estar à janela, tal qual a personagem da “Gabriela Cravo e Canela”, que dominava o panorama televisivo da altura. Ali fez tudo o que a adolescência pedia e assistiu a muito mais do que devia. O senhor Carlos Ponta esfregou os olhos e mudou para o sul, mais propriamente Lagos, e deu de caras com uma multidão de peidociclos estacionada à porta de um restaurante. Lá dentro uma dezena de adolescentes seus conhecidos, incluindo ele próprio, comiam marisco à descrição, mesmo tendo as carteiras vazias. Nova convulsão, de novo o Focas, agora quase em cima da ave.
- O peru nunca mais foi o mesmo depois daquela dentada, - exclamou a proprietária, pondo a mão no ombro esquerdo do cliente, carimbando-o com quatro impressões digitais de banha no blaiser, que ele comprara nos indianos do Martim Moniz, mas que insistia ser do Massimo Duti.
Foi de novo levado para o passado que o atormentava, e agora a alucinação também tinha som, um batalhão de peidociclos com o escape livre fugia a todo o gás do restaurante algarvio, deixando para trás uma mesa atestada de cascas de todo o tipo de mariscos e de garrafas vazias dos melhores carrascões da zona e arredores.
- O bicho mesmo depois de assado ainda deu um grito alucinante, - exclamou a outra, deixando agora sair restos de azeitonas, que acertaram no Pontas como cachos de caspa preta.
Foi uma dentada célere, eficaz e previsível. E o velho Pontas sentiu-a, como se fosse ele a ter estado enfeitado para o casamento, em cima de uma mesa, rodeado de rodelas de laranja. O atacante ferrou os dentes com tal força, que levou atrás de si parte das costelas do prato principal, deixando à vista de todos um buraco onde se podia ver claramente ao longe o imponente palácio real no topo da Serra de Sintra. A imagem do Focas ficou gravada como um demónio interior na alma da proprietária, e nunca mais lhe deu sossego, como se podia ver agora, várias décadas depois!