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Wednesday, March 21, 2012

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 53 - A Dentada

Comandante Guélas
Série Paço de Arcos


A proprietária da Adega Camponesa em Alcabideche nunca mais se iria esquecer do encontro imediato do quinto grau que estava prestes a acontecer, pois trinta anos após relatou o sucedido ao cinquentão Carlos Ponta, como se de uma lenda se tratasse. Tinha estado toda a manhã a montar a mesa para uma refeição de luxo com clientes especiais, onde se destacava à entrada um soberbo peru real vindo directamente de uma quinta nobre da zona do Douro, após emborcar involuntariamente um meio-gordo com a idade de um rei. O bicho envergava o melhor traje para a ocasião e preparava-se para a “noite de núpcias”, onde iria ser trinchado, tal qual uma virgem, pela filha do financiador da real refeição. Contou então que num dia de calor entrou, com o Sol pelas costas, na sua casa de pasto, um demónio com a cara de anjinho.
- Vinha com a boca toda aberta, enorme, parecia o lobo do Capuchinho Vermelho, - disse a senhora, aproximando a cara do velho Carlos Ponta, que lhe sentiu o cheiro a alho e o toque do monstruoso buço. 
- Consegui ver-lhe as amígdalas, - reforçou a outra idosa que estava escondida atrás do balcão, deixando sair restos de tremoços que se desencravaram da prótese.
- Pareciam os tomates do meu falecido Júlio, - insistiu a proprietária.
Na cabeça do paçoarcoense Carlos Ponta as memórias já tinham soltado a alucinação da idade, e a cara do Focas com menos trinta e tal anos ocupava agora a porta da entrada do restaurante “Adega Camponesa” em Alcabideche. Mas como os neurónios já estavam com folgas, deu de caras com o Glorinha à janela a varrer a praceta em linha reta até ao café “Iolanda”, e do lado esquerdo até à esquina do Grilo, que estava naquele momento a vender uns charros ao Alice e ao Taka Takata. Porque ainda não tinha idade para poder andar em roda livre com o gangue, o irmão do Ginja só estava autorizado a estar à janela, tal qual a personagem da “Gabriela Cravo e Canela”, que dominava o panorama televisivo da altura. Ali fez tudo o que a adolescência pedia e assistiu a muito mais do que devia. O senhor Carlos Ponta esfregou os olhos e mudou para o sul, mais propriamente Lagos, e deu de caras com uma multidão de peidociclos estacionada à porta de um restaurante. Lá dentro uma dezena de adolescentes seus conhecidos, incluindo ele próprio, comiam marisco à descrição, mesmo tendo as carteiras vazias. Nova convulsão, de novo o Focas, agora quase em cima da ave.
- O peru nunca mais foi o mesmo depois daquela dentada, - exclamou a proprietária, pondo a mão no ombro esquerdo do cliente, carimbando-o com quatro impressões digitais de banha no blaiser, que ele comprara nos indianos do Martim Moniz, mas que insistia ser do Massimo Duti.
Foi de novo levado para o passado que o atormentava, e agora a alucinação também tinha som, um batalhão de peidociclos com o escape livre fugia a todo o gás do restaurante algarvio, deixando para trás uma mesa atestada de cascas de todo o tipo de mariscos e de garrafas vazias dos melhores carrascões da zona e arredores.
- O bicho mesmo depois de assado ainda deu um grito alucinante, - exclamou a outra, deixando agora sair restos de azeitonas, que acertaram no Pontas como cachos de caspa preta.
Foi uma dentada célere, eficaz e previsível. E o velho Pontas sentiu-a, como se fosse ele a ter estado enfeitado para o casamento, em cima de uma mesa, rodeado de rodelas de laranja. O atacante ferrou os dentes com tal força, que levou atrás de si parte das costelas do prato principal, deixando à vista de todos um buraco onde se podia ver claramente ao longe o imponente palácio real no topo da Serra de Sintra. A imagem do Focas ficou gravada como um demónio interior na alma da proprietária, e nunca mais lhe deu sossego, como se podia ver agora, várias décadas depois!

Thursday, March 15, 2012

Camarada Choco 86 - Merdolândia

Camarada Choco
Aventura 85


- Acudam, acudam, - gritava a Pirosa junto à porta dos “Pastéis da Venteira”, o local de maior concentração de croquetes por metro quadrado da charmosa cidade da Amadora, onde também se lavavam os dentes após o almoço.
A Dona Pilca encolheu-se na  secretária e puxou a Lolita para a sua frente.
- Credo mulher, parece que viste o Diabo, - exclamou a Desaparafusada mais famosa da Venteira, a seguir ao charmoso Choco.
- Cala-te, ou torço-te o pipo, - resmungou a artista das fraldas e babétes, dando uma alfinetada no Gonorreias, um boneco de trapo oferecido pela Kalálá e benzido pelo bruxo da aldeia onde nascera, que tinha uma influência demoníaca sobre o Cabo Pilas. – Bem podes gritar por socorro que, de mim, nem um bombom já te dou, ingrata.
- Acudam, acudam, - tornou a gritar a Pirosa, - tenho um Desaparafusado quase tapado de merda.
- Até te podes afogar nela, - tornou a resmungar a Dona Pilca, puxando ainda mais a Lolita para cima de si. – Andas armada em Doutora Sem Canudo desde que mudaste de sala, pois agora limpas os cus dos teus Desaparafusados sozinha, - e deu com desprezo um ponto-cruz no Gonorreias.
Mas o Cabo Pilas já se tinha prevenido com a outra Kalálá, e protegera o seu espaço com cascas de amendoins e bananas. O feitiço agora iria para local indeterminado! A primeira vítima foi a Dona Espatinha, futura Dra. Espatinha, que ficou incrédula quando, em vez de tirar uma bica, saiu um chá de croquete, com aroma do Trancão. Mas também a Fininha dos Serviços Administrativos estava atónita com o líquido negro que saia da fotocopiadora:
- A Folha de Pagamentos está a desbotar. Salvem-se quem puder, vem aí a Troika! – E saiu a correr com um cigarro entre os dentes, desaparecendo no meio das ervas do campo dos gatos.
 E do último quadro chinês do Pintor escorria um cinzento com cheiro a metano, que parecia vir directamente do decote da Gioconda de Monsanto, levando-o a expulsar todos os discentes, com medo de que lhe contaminassem as obras destinadas à Feira da Brandoa.
- Eu bem ando a avisá-los que o Cara de Cavalo já morreu há uns dias, e teima em vir para a Escola, - disse o Stor Pobre. – Agora entrou em decomposição ativa e ninguém o pára.
Esta era a única explicação, até agora lógica, para o cheiro nauseabundo que se abatera sobre a Escola para Desaparafusados e Afins da Venteira, que fazia com que a aragem quotidiana do cagatório dos mais velhos se assemelhasse à de um campo de mimosas em plena época alta.
- Eu confirmo o óbito do Cara de Cavalo, - retorquiu o Chefe Porres, abrindo a tampa de esgoto descoberta debaixo da secretária do segurança. – E eu a pensar que o empreiteiro não me tinha conseguido enganar.
O morto ameaçava fazer queixa ao pai, mas era aconselhado a estar calado, pois se houvesse alguma consequência seria só para ele, uma vez que era o único com o estatuto de Desaparafusado.
- Acudam, acudam, - desesperava a Pirosa, entrando de rompante na sala da ingénua Menina Tatrícia. – O Peixe Espada já está com merda na careca.
Na outra ponta das instalações do edifício de reeducação e reabilitação, a Terapeuta Julieta recebia a notícia de mais uma gentileza da GNR, uma soberba fotografia do seu bebé, desta vez a 180 numa localidade da Região Centro, tendo como pano de fundo uma procissão em debandada e uma santa empoleirada no capô, tipo estrela da Mercedes.
O Castanheira estava desesperado a abrir todas as tampas que encontrava, mas cada vez eram mais, apesar do projecto só mencionar quatro. Até que:
- Bingo, descobri a origem!
Aos seus pés estava uma fossa recheada com croquetes por camadas de todos os tamanhos e feitios, uns vestidos a rigor dentro de luvas azuis e outros embrulhados em charmosas fraldas descartáveis, ostentando várias datas desde a inauguração. Rapidamente começaram os boatos!   



Tuesday, February 21, 2012

Camarada Choco 85 - O Santo e as Pecadoras


Camarada Choco
Aventura 84

Esta história escreve-se devagarinho, umas linhas aqui, outras ali, por vezes volta-se, porque é o resultado de uma estranha e intensa relação entre Aparafusados e Desaparafusados. Mesmo quando a descrição da relação é cruel no retrato, acaba sempre por vir à procura do outro lado, capaz de justificar as decisões que os levaram para sítios inesperados, porque para eles o tempo é para ser vivido e não desperdiçado. Comecemos por uma ponta: a mudança do Choco! Cedendo aos estranhos instintos da pedagogia, deslocaram-no para a sala do Nélinho, mais propriamente para uma mesa junto à porta, pondo assim em jogo um dos princípios sagrados da Teoria do Caos, que diz que uma bufa na Venteira  pode ter sido a causa do Tsunami no Japão.  A Prima da Prima, filha da maior cuspideira da Venteira, que costumava deixar rasto como o caracol, neste caso em forma de soberbas escarretas, gritava como uma desalmada no Boeing da Kidzania, porque não estava nos seus planos escolares ir para o México. E os berros foram tantos e tão altos, que acordou a auxiliar Mosca Morta, que tinha acabado de tomar um Vomidrin para não enjoar durante o voo.  Berros também era o que mais se ouvia na Escola para Desaparafusados da Venteira, pois a Madrinha Sem Caneco aparecera da baixa, de surpresa, a frio e sem preliminares, e verificara que uma das Afilhadas da Tarde lhe tinha mudado a decoração do estaminé, incluindo mongas e tudo. E foi no meio deste momento de enorme tensão, com gente irrequieta a espreitar pelas portas, que a entrada da Menina Tatrícia na sua própria sala foi barrada pela Russa da sala da Dona Gilete, uma sumidade em matéria fiscal na Caixa de Previdência.
- Esta sala já não é toda sua.
- Não é minha? – Perguntou a humilde Tatrícia, reparando pelo canto do olho que a Dona Pilca se escapulia sorrateiramente para a sala antes da outra dar a resposta.
- Fui destacada para a sala junto ao refeitório, mas a dona do espaço barrou-me a entrada entupindo a porta com um chinês monstruoso de bata azul, alegando que já estava servida com a  Barrote Croquetes. Sugeriu-me que ocupasse esta, que está quase sempre vazia desde que a Pirosa mudou de apartamento. E já sinto que tenho o perfil indicado para a missão.
De repente a distância entre a Russa e a Menina Tatrícia foi forçadamente aumentada com a entrada repentina da Pirosa, que as empurrou à bruta.
- Com licença, tenho que ir ao armário buscar umas luvas!
- Também tu Pirosa? – Gritou a vítima. – Mas ninguém me pede para entrar na minha sala?
O olhar da Pirosa enquanto abria o armário foi dado com tanto desprezo, que a Menina Tatrícia julgou estar num sonho, e por isso afastou-se para ir fumar um cigarro com a Transmontana, que acabara de atirar, por brincadeira, um vaso à cabeça do Nélinho, que pensou ser a Brasileira do Minho a responsável pela agressão, estando agora numa convulsão  de abuso.  Pelo caminho, a agora Gata Borralheira da Venteira, tentou fazer uma necessidade fisiológica mas foi impedida pela Kalélé que tinha acabado de barrar o acesso ao local.
- Se queres mijar, vais ao terreno dos gatos, - gritou-lhe a prima, pelo lado da espécie, do Obama, dando-lhe uma ajuda técnica violenta, que a atirou para cima do Manelinho, que ia com o Cabo Pilas ao colo, num jogo de empurrões e ternuras,  perseguido por duas fêmeas, uma cor de baunilha e outra cor de chocolate.
- Não dês cabo do nosso Tenente Cafetão, precisamos dele para mais uma reunião no primeiro andar - gritaram, puxando uma perna ao Cabo Pilas.
- Vou parti-lo todo, - prometeu o Nélinho, revirando os olhos e dando uma passa no seu charuto.
Não longe dali tocou o telefone nos serviços administrativos:
- Escola para Desaparafusados da Venteira, fala o Porres.
- Venho informá-lo que a vossa Tremelga anda a costurar para fora com o meu Joaquim, e por causa dela fiquei sem Televisão Digital Terrestre, - disse alguém de rajada.
Na Escola para Desaparafusados da Venteira já não havia fé, nem crença, apenas actividade, e da grossa. E tudo porque tinham ousado mexer no que de mais sagrado havia!

Sunday, January 08, 2012

Camarada Choco 84 - Os Desvitaminados


Camarada Choco 

Aventura 83

 
Na reunião jogava-se entre a urgência da ternura e as asperezas de uma realidade  dura, que misturava Desaparafusados com e sem cor, e tudo devido à ausência de legumes cozidos e de salada, respectivamente à segunda-feira e durante todo o ano, lectivo para os estudantes, e civil para os operários.
- Podiam oferecer umas couves da Brandoa, - protestou a fisio Vitaminas que passara a última semana com imagens rarefeitas dos Desaparafusados.
- Uns Bróculos da Venteira, - interveio a Dona Espatinha recorrendo à naftalina da memória.
- Esparregado da Sala da Gilete, - disse o Virabicos.
- Mas os Desaparafusados transpiram saúde, estão uns soberbos leitões, - esclareceu a Madrinha.
- O problema deles é a falta de vitaminas, - reforçou a Fisio, de dedo em riste.
- Muitos deles já estão brancos como a cal, – atirou a Transmontana, dando uma palmada na cabeça do Nélinho, que estava a adormecer, e que agora revirava freneticamente os olhos.
- Pálidos e com os cabelos cor de bronze! – Exclamou a Terapeuta Julieta, limpando os olhos marejados por uma alegria aguda. – O Twilight já chegou à Venteira? – E continuou. - O meu bebé também é branquinho, e está muito bem de saúde, - e mostrou orgulhosa uma fotografia do petiz, uma gentileza da GNR, a 200 Km/H na A1
- Vitaminas?? Mas todos eles pesam para cima dos 80 Kg, - respondeu a chefe.
- O Fangio Espástico parece um fantasma, basta ver a cadeira a andar sozinha todas as tardes, - insistiu a fisio Vitaminas.
- Aqui está outra foto do meu menino, - continuou a terapeuta Julieta mostrando outra foto, também gentileza da GNR, mas desta vez a 190 Km/H na A2.
- Este tema está a dar-me uma fome, - disse a Afilhada Principal tirando o telemóvel do bolso. – Vou encomendar um almoço para as treze.
Estava a acontecer algo na Escola Para Desaparafusados da Venteira. Uma mutação.
- O Monga mais Velho está a ficar engelhado e seco. Alguém lhe anda a chupar o tutano, - disse alguém tapando a cara, não fosse o da carapinha com alcatrão lançar mais um mito urbano para o ar.
De repente um telemóvel tocou com barulho, lançando para o ar a música da “garagem da Vizinha”. Fez-se um silêncio sepulcral, o presidente pediu desculpa pelo incómodo e atendeu:
- ….o quê, a senhora quer encomendar três frangos assados para as treze??? Mas isto não é um restaurante! – E desligou com fúria.
- Tarado, é um tarado, - gritou a Terapeuta Julieta, que tinha acordado novamente, vindo directamente de Veneza onde se preparara para tirar uma fotografia para enviar como recordação ao padre, quando um mascarado se aproximou.
O ganido de um dos órgãos gastrointestinais dum dos presentes foi o motivo para a Madrinha dar por encerrado o tema, e prosseguir a reunião:
- Vou mandar tirar as couves da ementa antes que destruam o meu estabelecimento comercial…perdão, educacional!

Wednesday, January 04, 2012

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 52 - O Bolo de Burro

Comandante Guélas

Série Paço de Arcos

O Matos acostava sempre ao cais por volta das três da manha, com a chata recheada de peixe-bobó, uma iguaria exclusiva de Paço de Arcos, servida nas melhores casas da região, “Tino”, “Papagaio” e “Manuel da Leitaria”, acompanhada com “Meio-Gordo à Taça”, para se engolir com estilo. Mantem-se a fama, mas a publicidade refinou, e de “Há Peixe-Bobó” os cardápios agora apregoam “Poisson Bobone com champignons”, porque os proprietários passaram da quarta classe para o 12º ano enquanto o “Peixe-Bobó dava um salto “ graças às várias Independentes, incluindo as finas. Mas voltemos  à época de ouro do Matos! Nestas alturas o nosso paçoarcoense atracava com uma galga que lhe dava vontade de comer tudo o que aparecesse à frente, incluindo as sobras dos pastéis-de-bacalhau, feitos com os restos de petinga da praça, que permaneciam colados às mesas da esplanada do Marmelada, que por esta altura estava a ser transferida, pelo Gang da Avenida, para a praia Velha, outrora a preferida do rei. Um pouco mais acima a pastelaria com nome de continente frequentada pela elite da vila a cheirar a naflalina e a laca, apresentava um quadro de actividade psicótica, onde predominavam as Duchese, cujas dez primeiras seriam mais tarde engolidas de uma vez só pelo Laranjina C, e outras iguarias exclusivas do senhor Serafas. E era nestas alturas em que o proprietário labutava sozinho na preparação do dia seguinte, que o Matos pescava bolos que arrefeciam calmamente ao balcão. E o Serafim só se apercebia do delito quando ouvia o arroto estrondoso na rua, seguido do grito do Todo Boneco, escondido algures num canto a namorar com uma sopeira:

- Espera aí que já cospes!
 E foram tantas as vezes, que o Serafim jurou vingança. Quando a bosta de burro, “colheita portosalvense”, caiu no óleo, que iria fritar os bolos do dia seguinte, sinal de que o país vivia em liberdade, sem a ASAE, gritou de alegria com a promoção inesperada a bolo elitista, o equivalente na Marinha a mudar de marujo para almirante. A transformação de merda em bolo-rei só foi possível nesta extraordinária pastelaria com nome de continente. Quando chegou ao balcão, o Bolo de Burro tornou-se de imediato um adversário de peso da Bola da Leitaria, do Queque da Sesaltina, do Pastel de Nata da Maria das Bicicletas, da Torta do Cabrita e de muitas outras iguarias da vila, e esperou ansioso pelas goelas do Matos. A espera valeu a pena! Às três da manhã, pontualidade britânica, o paçoarcoense mais esfomeado da região entrou no estabelecimento, pé ante pé, mas desta vez o Serafim estava com as regiões dos lobos temporais a ferver, fazendo com que os olhos se mantivessem colados aos cantos superiores esquerdos. O predador levou, não uma, mas as três apetitosas bostas de burro fritas, transformadas em elegantes obras de arte de alta cozinha, como acontecia no estabelecimento abaixo às Tainhas de Esgoto, vendidas como fabulosas Trutas de Paris. A primeira dentada do Matos no Bolo de Burro seguiu de imediato para a garganta e daqui para o estomago, sem dar tempo a que a informação das papilas gustativas pudesse ser processada. Mas com a segunda dentada a história não foi a mesma! A actividade eléctrica cerebral aumentou tanto que as traças largaram o lusco-fusco do candeeiro da rua e precipitaram-se sobre a intensa luz vermelha que saiu dos olhos do Matos, ficando muitos delas espetadas nos pêlos eriçados pela raiva.
- Isto é merda, - gritou, desaparecendo na noite muito escura.
A partir desta data histórica o Matos nunca mais ousou trincar alguma coisa do Serafim, mas a pastelaria ganhou fama, porque com aquele óleo especial os bolos ganharam um sabor único que a tornaram famosa além fronteiras, e ainda mantém a fama e o segredo, guardado a sete chaves pela meia-leca ruiva!

Thursday, December 08, 2011

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 51 - Feira da Ladra


                        Comandante Guélas

                                        Série Paço de Arcos



A peregrinação não era a Meca, porque a figura mais parecida com Maomé era o Milhas, e dele todos fugiam como o Diabo da Cruz desde que ganhara a lotaria e que qualquer conversa mais demorada significava que estavam a querer comer por conta da cautela comprada à dona Belandina, irmã do Frederico dos Jornais, mas a um lugar também ele mítico, e mais rentável, a Feira da Ladra. Esta era a “Geração em Branco”, como disse o Pontas trinta e sete anos depois, embrenhada na cultura do Cine-Teatro de Paço de Arcos que presenteava os espectadores com soberbos filmes do Bruce Lee e efeitos 3D, na forma do Todo Boneco, que só atuava quando havia cenas de marmelada, atirando então, não o grito do Ipiranga, mas sim o “espera aí que já cospes”, e não a “Geração Sem Rumo”, que era agora obrigada a gramar com o Centro Cultural de Belém e a sua exposição permanente de ferro-velho, paga a peso de ouro, propriedade de um sapateiro viúvo com sotaque da madeira e aspecto de menino queque de Leião, onde ficava a quinta do pai do Zé dos Porquinhos. E quando se atingiu o número mínimo de tarecos que justificava a viagem e garantia mais uns dias de bejecas, marcou-se no calendário o dia D.
O bólide já estava repleto de quinquilharia quando o senhor Américo colocou o gang na rua, como era habitual, à meia-noite, deixando estes anjinhos à mercê das influências nocturnas, que os transformavam sempre em demónios. Mas tinham de esperar pelas cinco da manhã, altura em que o “Dois Cavalos” do Pláni fazia questão de rumar ao Campo de Santa Clara. O Pontas viu ao longe o seu amigo Zé do Fotógrafo sentado num dos bancos do jardim, olhando para o chão, para o espaço entre os seus pés. Ficou a saber que tudo aquilo se devia a ter sido abandonado, novamente, pela sua Rosa do Ártico, e de novo achincalhado pelo Serapito e o Tonzinho, que desta vez tinham decorado a montra da Jomarte com uma foto sua embelezada com uma armação do tamanho das renas do Pai Natal.
- Vou mas é viver para Cascais, já não aguento mais este peso permanente na cabeça, - disse o irmão do Bigornas quando viu que o amigo se sentara ao seu lado, e lhe pusera um braço pelos ombros.
Criou-se um silêncio insuportável, o Zé do Fotógrafo sussurrava abusos e traumas por sarar. A um dado momento o amigo Pontas, um adolescente elegante e cordial, guardador de muitos segredos e escravo dos bons sentimentos, ofereceu-lhe as palavras adequadas, como era seu costume:
- Não desesperes, na praça há mais!
Quando chegaram a Santa Clara os compradores eram tantos que se atiraram ávidos aos tenrinhos do Capitão Porão, mas não esperavam pela reacção do condutor que continuou a marcha. A turpe não desistiu e foi no encalço do “Dois Cavalos”, de nome Dumbo, uma homenagem às orelhas do proprietário. Por pouco não foram engolidos devido à subida acentuada e ao peso excessivo de quinquilharia.
- Não venda que eu roubo…perdão, eu compro, - gritavam os fregueses do Outlet mais famoso de Lisboa.
Graças a Deus que a seguir a uma subida havia sempre uma descida, e foi isso que o Pláni aproveitou.
- Temos de dar duas voltas para cansar o pessoal, este é o segredo do negócio de Santa Clara, - explicou o ex-menino da Luz.
Mas a turpe já estava habituada a estas andanças, e mal o carro parou foram invadidos por um enxame de velhos compradores batidos nestas andanças, tendo um deles proposto a compra imediata do carro. Indignação! E como é que estes meninos de boas famílias de Paço de Arcos regressariam a casa? De combóio, no meio do povo malcheiroso?
- Nem pensar, - respondeu o maior expert de Paço de Arcos, o Proveta, o primeiro a ter prejuízo, pois no meio da confusão desaparecera a sua máquina de barbear que cortava um pelo de cada vez e metade da cara só numa passagem, tendo ficado com a caixa como recordação.
O grupo interveio, e empurrou a molhada, aproveitando a confusão para fazer uma troca de prendas. Quando o sol acordou o produto do Proveta estava na banca do Coxo da Brandoa, o cinzeiro de latão do Anão do Bairro Alto na loja do Pláni e o saca-rolhas do Meia-Lua da Porcalhota era vendido como peça rara pelo Peidão.
Foi neste dia que a aptidão do Proveta para as vendas se revelou, quando conseguiu vender o biquíni da prima americana a uma velha com umas mamas do tamanho das abóboras da Dona Rosa, mãe do João da Quinta, que um dia teimou com o Pontas que tinha mais lógica pôr uma moeda de 10 escudos nos carrinhos de choque da feira de Paço de Arcos, do que comprar fichas a 5 escudos.
- Caiem-lhe que nem ginjas - disse, com os olhos fixos e elevados, colados no bigode da mulher de olhos pequenos e afundados.
- Acha? – Perguntou a cliente ao ver que nem os pipos conseguia tapar.
O vendedor passou a mão sobre as sobrancelhas, esfregou a testa e respondeu com sapiência:
- Não importa o tamanho do seu decote, desde que olhem para o biquíni.
Estas palavras fizeram-na perder as memórias das palavras e impressionaram-lhe os sentidos, imaginando-se deslumbrante no vasto areal da Cruz Quebrada, e tudo isto devido às circunvoluções cerebrais que batiam furiosamente no crânio, que se deformava com o impacto. Após esta venda lendária o Proveta passou de imediato para um produto arrasador: um aspirador!
- Trabalha? – Perguntou o primeiro e único cliente.
- Um mimo, - respondeu de imediato o precursor da Remax.
- Quero ver, - exigiu o comprador.
- Acompanhe-me.
Dirigiram-se ao café mais próximo e o vendedor encostou a ficha à primeira tomada que viu. O som que saiu da máquina causou uma tensão dramática e um pânico miudinho, e foi por isso que o Proveta puxou de imediato o fio, não fosse tornar-se vítima do seu próprio produto. Vendido!
Não muito longe dali o Pierre Pomme-de-Terre, amigo do seu amigo, tentava vender a Sachs do Bajoulo, que se tinha ausentado para ir compensar a ausência do pequeno almoço com uma soberba Imperial, entregando ao Mocho a parte promocional e aos amigos Ginja, Drenos, Orelhas e Fice o papel de figurantes:
- Amigos, senhores, esta motorizada tem incluído um Kit Sexual, que faz com que acima dos 100 Km / hora o condutor entre em transmissão direta com o cinema Olímpia.
A venda quase foi consumada, o regresso do dono estragou tudo, mas antes tivesse sido, pois nesse verão o Bajoulo deu boleia ao Ginja no Algarve, e à chegada à praia da Oura derrapou na areia, obrigando o pendura a entrar de rastos no parque de estacionamento, deixando parte do calção de banho, a totalidade das sandálias e uma porção do bronzeado, no asfalto.

Friday, October 21, 2011

Camarada Choco 83 - Espera aí que já cospes

Camarada Choco

Aventura 82

- Dona Pilca, temos um problema, - informou a senhora da fábrica de componentes elétricas.
- Um problema? Mas não lhe entregaram o produto do trabalho dos meus Desaparafusados? Não me digam que o Primo do Cabo Pilas se perdeu, como o Capuchinho Vermelho?
- Não Dona Pilca, a encomenda já chegou, os parafusos vêm com as anilhas e as porcas enfiadas....mas do avesso.
- Do avesso? - Gritou a Dona Pilca, riscando com os nervos um babete forrado de anjinhos, uma encomenda da funerária "Sempre a Abrir", da rua de baixo.
- O trabalho que dei aos seus Desaparafusados vem com defeito. Já não são só os trabalhadores, mas também o produto.
Do outro lado só se ouviu um ranger de dentes.
- Dona Pilca?....a senhora está aí?
- Ainda estou...mas não sei por quanto tempo, - respondeu a velha empresária da Venteira, ao mesmo tempo que simulava com a mão uma degolação geral. - Vou resolver o problema imediatamente e mais tarde entrarei em contacto consigo.
Quando a tecla vermelha do telemóvel foi premida, saiu um grito de raiva tão profundo, que o preto que estava a pintar o prédio deixou cair o pincél em cima do Primo do Cabo Pilas, que com o peso caiu do passeio e fez um entorse. Todos estavam receosos, a Dona Pilca não aceitava a falhas dos seus subordinados, e agora era vista a falar sózinha em todos os cantos da Escola para Desaparafusados da Venteira.
- Só pode ter sido ela, - gritou pela centésima vez para a imagem do espelho, que já não conhecia. ~A fazer-se de amiguinha e por detrás a trocar-me as roscas. Vou tratar~lhe da saúde, enquanto o Diabo esfreganha um olho, - e fez novamente o sinal de degolação.
A Instituição estava insegura. Pela frente entrara a Natali, uma gorila das montanhas prenhe, que tinha vindo pedir satisfações à Chefe Bélinha, por ter de acordar muito cedo todas as manhãs para entregar a irmã na carrinha que ia buscá-la à barraca, um luxo exclusivo dos melhores colégios privados, cujos pais pagavam caro estas mordomias, mas que para os Desaparafusados da Cova da Moura e afins era de borla, porque a conta ia sempre parar à caixa do correio dos portugueses caucasianos. Mas a ameaça também vinha do interior, e tinha a forma de uma distinta senhora de meia idade, que atingira o estatuto da Madrinha Sem caneco, e que já não aceitava "desaparafusices" dos seus Desaparafusados.
- Tenho uma mancha no meu curriculo, e a culpa é vossa, - gritou ao entrar na sala, não sem antes deixar o recado para a vizinha. - Gente como tu como eu ao pequeno-almoço.
- Coitada da Pilca, a mudança de idade está a afetar-lhe os carretos, - desabafou a ingénua Menina Tatrícia para a sua colega Pirosa. - Tenho de dar-lhe a minha solidariedade.
- Não sei se devas, - aconselhou a colega.
- Ai vou, não posso abandonar uma colega de peregrinação numa hora destas, - e encaminhou-se para a porta.
- Isso já foi há muito tempo, a Pilca já se esqueceu, - exclamou a Pirosa, sem tirar os olhos duma revista. - Não vás, é melhor!
Mas a humilde Menina Tatrícia estava decidida a ser solidária com a velha Pilca.Os segundos seguintes foram de silêncio, mas breves, muito breves, porque o grito que se ouviu foi tão alucinante, que até o Rui Monga, que já estava muito mais para lá do que para cá acordou:
- Silêncio, já não se pode dormir eternamente!
As janelas da Sala das Roscas abriram-se com estrondo, levadas por um vento e por uma tempestade inesperada, brilhante, veloz e aterradora, como se fosse, não do domínio do ar, mas do interior obscuro do espaço. O ferimento que a Menina Tatrícia trazia na mão era de guerra, e da atómica. A única testemunha juramentada do ataque foi a Desaparafusada Vaisnessa, que contou que a Dona Pilca se atirou com tanta raiva à vítima, que despejou toda a pistola de cola, ao mesmo tempo que gritava:
- era aí quele já ospes (tradução: "espera aí que já cospes")!