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Tuesday, March 01, 2011

Camarada Choco 74 - A Batata Quente (versão nova do Desenvolvimento Pessoal e Social)


Camarada Choco
(nova versão do Desenvolvimento Pessoal e Social)


Tinha-se chegado a um ponto sem retorno, o abismo estava cada vez mais perto, a ponte para a outra cueca...perdão...para o outro desejo, tinha de abrir caminho a todas as aventuras e sonhos, e as almas brutas dos Desaparafusados estavam carregadinhas de emoções intensas, irresistíveis, de gestos, de rituais interditos, de quem os Aparafusados fugiam como o Diabo da Cruz. A Natureza andava a brincar com os Desaparafusados, negava-lhes muitos dos direitos dos Aparafusados, mas em relação a este aspecto punha-os ao rubro, e aí os Aparafusados empunham a ditadura da teoria que lhes negava a socialização da prática. E foi assim que, mais uma vez, o tema “sexo” ficou a cargo da Doutora das Almas, uma expert em secas, que decidiu que os Desaparafusados adolescentes iriam fazer uma visita de cortesia aos Desaparafusados com idade de voto, mas sem esse direito, apesar de muitos deles terem mais capacidades do que muito dos Aparafusados que iam às urnas. A excitação estava dentro dos parâmetros normais, incluindo várias borras, mijas e convulsões de última hora. Na sala a formadora esperava pacientemente os utentes, entretendo-se a desenhar no quadro um objecto constituído por dois círculos pequenos e uma linha recta avantajada. Os assistentes foram-se acomodando à medida que chegavam e algum tempo depois o local já fervilhava de mongas teenagers inconsequentes.
- Bem, podemos começar, – avisou a oradora, apontando para o desenho. – Isto é um Pénis! Alguém sabe o que é um Pénis?
- Énis...Énis, – levantou-se de imediato alguém da assistência com o braço no ar. – Énis, Énis.
- Diz lá, Palmira Melga, o que é um Pénis?
- Énis...Énis, – gritou em estado convulsivo, sendo acompanhada pela multidão em histerismo. – Énis, Énis.
- Vá lá, explica aos teus colegas, – insistiu a Doutora de Almas.
E como um gesto vale mais do que mil palavras, a adolescente puxou de imediato o Choco, que estava ao seu lado, e prontificou-se para mostrar o que era o “Énis”. O macho não cabia em si de contente por ter sido ele o eleito e deixou escapar a sua enorme língua de encontro ao chão. Abriu os braços e avançou a bacia em sinal de cooperação.
- Énis, Énis.
Puxou pelo indicador da mão direita e colou-o de imediato nos ténis vermelhos número 50 do seu querido e respeitado Choco. A decepção foi geral, mas não evitou que a turba exibisse sem pudor os seus ténis. O retorno à calma só foi possível porque o stock de drunfos estava sempre por perto, e até a doutora tomou um dos vermelhos, pois o tema também a enlouquecia.
- Énis, Énis, – repetia sem descanso a Palmira Melga, alheia ao caos em que se transformara o “Desenvolvimento Pessoal e Social”.
- Quem sabe o que é um “pénis”? – Insistiu a oradora.
De imediato o Choco tomou a iniciativa e, saltando para o palco, tal qual um felino, gritou bem alto para quem o quisesse ouvir:
- Áálho, áalho, áalho, – rosnou o herói do cinema mudo, ao mesmo tempo que baixava furiosamente os calções...perdão, os cinco calções multicolores vestidos dois meses antes. Nem as vozes contra o demoveram da exibição e num piscar de olhos ficou com a cintura pélvica ao léu, mostrando ao público o apêndice, agora avantajado devido ao calor da discussão, torto e com um nó, graças a Deus. E no meio disto tudo ainda se ouviram dois gritos alucinados, um da Doutora das Almas e o outro da Madame Amorim, que desmaiaram com a emoção. O Choco permaneceu em sentido exibindo o seu fabuloso Chevrolet com os pneus furados, também graças a Deus, uma precaução da Natureza, não fosse ele querer seguir as pisadas dos progenitores e manter indefinidamente a inscrição da família Choco na Caixa Nacional de Pensões. E ficou ali, congelado, debaixo da luminosidade certa, único e insubstituível, coquete e apaixonado, com uma plateia ao rubro, que cheirava a sexo. Foi necessário esperar algum tempo para fazer sentar a Papoila que, devido à sua fraca visão, insistia em ver o Chevrolet, tendo-se para isso deslocado para junto do colega e colado os olhos no descomunal pepino. Quanto aos outros machos presentes, todos eles também exibiam os seus dotes às colegas interessadas...todos? Todos não, dois deles, o Ambrósio Caspa e o Monga Macaco, por mais que procurassem, não conseguiam vislumbrar os seus cacetes, ausentes devido às contingências genéticas.
- Amigos, tenho outra pergunta para vos fazer, – avisou a Formadora, conseguindo captar a pouca atenção dos presentes.
O próximo tema era difícil e por isso a Doutora das Almas avançou com muito medo:
- Alguém sabe o que é uma “Vagina”?
Foi demais! Com esta o Choco não se aguentou e atirou-se sofregamente à Zobaida, que permanecia no seu normal estado letárgico rodeada de moscas, mas foi traído pela sua visão estereoscópica, indo cravar os dentes na roda traseira esquerda, que apresentava um piso careca, despedaçando-a com estrondo, facto este que provocou um súbito desequilíbrio na pré-histórica cadeira de rodas, que não aguentou a traição da força da gravidade, arremessando, de imediato, o seu pesado conteúdo de encontro ao chão frio. Mas como o destino é muitas vezes madrasto, nesse preciso momento ia a passar a apressada Lolita que apanhou com os quilos da colega, mais os quilos da fralda, ficando espalmada, tendo tido ainda tempo de gritar:
- Organizem-se!
Foi com muito esforço que o Camarada Choco organizou os poucos neurónios, tendo o Conselho Pedagógico, que reuniu de emergência, deliberado amarrá-lo a uma cadeira com um saco de gelo entre as pernas. Decidiu-se também avançar com a projecção do pequeno, mas muito elucidativo, filme “A Actividade Sexual dos Caracóis, das Lentilhas e dos Percebes” da autoria do Alto Comissariado Europeu para a Inclusão do Sexo dos Desaparafusados (A.C.E.I.S.D.), responsável por muitas viagens transatlânticas das doutoras, com e sem canudo, dos ministérios, que estava previsto para o final da sessão. Entretanto, os organizadores desta educativa e pedagógica Acção de (Des)Informação acharam por bem também eles recorrerem à ajuda dos milhares de drunfos postos à disposição dos presuntos....perdão...dos presentes. O Fangio Espástico protestou porque queria que pusessem no ar a cassete com a gravação da sessão do canal 18 da TV Cabo do dia anterior. As lentilhas acabaram por ser mais eficazes do que os caracóis, pois conseguiram adormecer o impetuoso Choco, que encostou a cabecinha no regaço da sua amada Floribela. Quanto aos responsáveis pela organização, optaram pela fuga em frente:
- Vamos falar outra vez sobre “Vagina”, – continuou a titubeante oradora, lançando um olhar medroso para as suas colegas, ao mesmo tempo que ligava o projector de slides que atirou para o ecrã a imagem de uma rosa com a respectiva legenda: “Sexo Seguro”.O nome da Rosa abanou as profundezas da alma e das....cuecas, do nobre e altivo Choco, obrigando-o a dar um pulo majestoso, tal como um cobridor, mergulhando de cabeça no retrato...
- Ele vai dar cabo do ecrã – alertou a Doutora das Almas, conseguindo afastar-se a tempo do predador.
Não se sabe a causa, nem o truque utilizado, mas todos foram testemunhas juramentadas de que o herói saiu do local com uma rosa vermelha entre os dentes. Quanto à do ecrã, desapareceu misteriosamente sem deixar rasto.
- Lá vão as lentilhas outra vez, – gritou o projectista, rodando o manípulo do aparelho.
A doutora estava sozinha, fechada, tal como a sua mala escura, pousada na mesa. Encontravam-se na sala dois mundos separados, os Aparafusados e os Desaparafusados, pensando os primeiros que dominavam os desejos dos segundos.
O despertador tocou e a Doutora das Almas acordou sobressaltada. Olhou assustada para todos os lados, mas viu que estava só. Correu para uma mesa, agarrou nos papéis do projecto com que pretendia impressionar a Madrinha e aumentar o currículo virtual, e reduziu-os a pó. Deu um gole na garrafa de água, deitou-se, mas já não quis dormir mais!

Wednesday, February 16, 2011

Camarada Choco 73 - O Cunhado do Choco (versão modificada)


Camarada Choco
O cunhado do Choco
 (versão modificada)
 Aventura 73
 
- Ôu er um é, é, - confidenciou a irmã do Choco, a Bélinha, no momento em que a mãe se preparava para apanhar um croquete que o Jardel, o único membro da família com os carretos no lugar, tinha largado à entrada do prédio.
A notícia desconcentrou a Dona Native, dadora dos genes riscados que os filhos ostentavam, e ela deixou fugir o guardanapo, enterrando os dedos no conteúdo intestinal do rafeiro.
- U ê? – Perguntou, reparando que a filha acariciava com ternura a barriga.
- Ôu ávrida do Árlos, - respondeu a Bélinha com um enorme sorriso.
- Tas ávrida do Senhor Pintor?
- Im!
A gravidez da Bélinha significava a perpetuação do reinado do cromossoma-coxo-dominante, herdeiro dum vasto império da Venteira, melhorado agora com um pincel de boa marca, que daria com toda a certeza lugar a uma brocha de cabeça larga. A emoção era tanta que depressa espalhou a notícia pelas redondezas.
- Ôu ser avó e sogra, e tudo graças ao Senhor Pintor, – confidenciou à Dona Palmira, proprietária do café mais chique da zona, cuja especialidade era o meio-gordo servido numa taça, ao mesmo tempo que o canídeo  forrava o tapete do estabelecimento com um brigadeiro.
- Ôu ávrida do Árlos, – repetiu a Bélinha.
A Dona Native era uma mãe orgulhosa, o seu filho tornara-se um violinista genial, sem coordenadas, depois do pai lhe ter oferecido uma guitarra sem cordas; e quando já desconfiava que a sua Bélinha tinha mais riscos na alma do que o irmão, eis que ela a surpreende com um netinho, e ainda por cima de um pintor libertino, em permanente crise existencial, senhor duma performance lendária, mas que ainda não tinha acertado contas com os seus próprios fantasmas.
Ao final da tarde rumou ao Centro de Saúde para dar a novidade:
- Dótóra, a minha filha está à espera de uma brocha de cabeça larga, – e apontou para a barriga da adolescente.
A médica já conhecia de ginjeira esta família governada por um pai com mão de alumínio, material com que fechava todas as varandas da região e arredores, que deixara a carreira escolar dos filhos se submeter à negligência e vontade da mulher. Foi por isso que o Camarada Choco conseguiu emancipar-se de maneira progressiva da sombra tutelar da mãe, e entrar em roda livre.
- A Bélinha está grávida?
- Im, im, tem o bucho eio com uma brocha de cabeça larga.
- E como é que sabe?
- Foi ela que disse! – Respondeu a Dona Native olhando para a médica com um ar de superioridade.
- E quem é o pai?
- O SENHOR PINTOR – respondeu, orgulhosa, em maiúsculas e a negrito.
Disse então à “Dótóra” que de início tinha ficado um pouco desconfiada pois não encontrara nas cuecas a cola pegajosa, a que chamou “mento”, produto exclusivamente masculino, mas a insistência da filha acabara por convencê-la de que ia ser avó. Contou então o sonho que tivera à tarde, ou talvez alucinação, fruto de alguma travadinha de que também sofria, onde via o Senhor Pintor a andar de baloiço com a sua Bélinha, enquanto ela segurava, toda babosa, um Choco de caracóis.
- A menina não está grávida, - disse a médica, abrindo a porta.
Cruzou-se na rua com um caniche, e foi esta a última lembrança que teve do netinho

Wednesday, February 09, 2011

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 48 - Restaurante "O Tino"


Comandante Guélas

Série Paço de Arcos

Quando o Tino transformou a taberna, situada num daqueles sítios onde iam aqueles que não podiam ir a outro sítio, e onde o frio de fora juntava-se ao frio de dentro, numa casa de pasto, tinha como missão destronar o seu vizinho galego, dono do restaurante “Os Arcos”. E não era o único, porque o Senhor Xantola já andava na estrada, com o mesmo objectivo. O ex-sargento dos Comandos entrou a matar, oferecendo soberbos peixes amarelados, gostosas carnes esverdeadas, mergulhadas em molhos brilhantes, uma precursão do actual Sushi, onde o freguês podia optar por batatas cozidas cruas ou batatas fritas encharcadas no óleo do próprio cozinheiro, pratos estes decorados com saladas mornas e gordurosas, enfim, um serviço de primeira cuja conta vinha sempre num prato de alumínio amolgado, onde muitas vezes abundavam pequenos pêlos encaracolados, para dar um toque chic. As sobremesas eram feitas numa cave clandestina, tradição que se mantém actualmente na restauração da vila, e constavam de uma panóplia de gostosos sabores: “Bolo de Bolacha” da Sesaltina, feito com os restos das bolachas que o Zé dos Porquinhos comprava para o Bóbi, na drogaria do Zé da Antónia, e que tinham sempre a decorar as penas da última galinha abatida; “Baba de Camelo”, produzida na Terrugem de Cima pela mãe do Ánhuca ao fim de semana, altura em que ele tomava banho e mudava de meias, peças estas com que a senhora aproveitava para fazer massa de pasteleiro, usando só farinha, porque o molho já lá estava; “Doce da Avó”, receita exclusiva da Maria das Bicicletas, cujo ingrediente principal era o óleo que o Cabrita lá ia mudar todas as quintas-feiras; “Delícia de Amêndoa”, feita com as crostas que o Pingalim gamava à tia. O Carlos Ponta cresceu com os amigos neste ambiente cultural e, segundo o senhor Mac Macléu Ferreira, “a restauração ficou para sempre hibernada no In deste jovem cabeçudo”, pronta a despertar ao menor sinal, o que aconteceu durante o fogo de artifício na viragem do século. Manteve os pratos, mas trocou-lhes os nomes, “Treco Lameco”, “Creme Brulée”, “Pistôn de Foie Grás”, “Cracker Cake”. Mas voltemos ao sargento: estava imparável, pois em frente a este formoso restaurante abriu também um “Salão de Jogos”, com a última novidade em máquinas da terceira geração, vindas directamente do fornecedor oficial, o senhor Zé de Porto Salvo, nome de todos os desvarios e de todas as errâncias, de todas as grandezas e de todas as decadências, uma espécie de Vale de Azevedo autóctone. Mas o “Manuel da Leitaria” também dava cartas a todos, juntamente com o snob “Papagaio”, cuja especialidade era meio-gordo à taça, que o Pontas mudou para “White Express”, enquanto que o “Bachil” arrasava com as célebres “Bifanas à Casa”, que gritavam mergulhadas num molho borbulhante castanho amarelado, que hoje dá pelo nome de “Steaks plongé dans punhétê”, para já não falar do tão afamado “Kitanda”, especialista em “Pombo Abafado” ( ), um produto do campo exclusivo da Avenida que os filhos do Manelinho do Estrume, um autodidacta amante deste tipo de aves, que engravidou a filha depois da mulher ter fugido após o décimo quinto parto, alimentavam diariamente com sementes desviadas da Gaiola do Ligóia. Mas o Tino sobrepôs-se, porque conseguiu juntar o princípio da realidade ao princípio do prazer, e por isso havia zangas, despiques, rixas, litígios, zaragatas, amizades que se reconstituíam no fim da noite, com as garrafas a voltarem a esvaziar-se. “Tradição que se perdeu com as modernísses do senhor Carlos Ponta”, confidenciou um dia o empresário Mac Macléu Ferreira, “onde os Pierre-Pomme-de-Terre de agora se apresentam de fato e gravata, e cujos dissídios são em voz baixa e não ultrapassam as fronteiras das mesas, apesar das cóleras serem as mesmas”. No Tino não havia pausas, enquanto que agora elas eram enormes, os clientes por vezes caiam, levantavam-se e regressavam. Antes bebiam e estavam contentes, agora bebem para afogar o medo, porque sabem que vão ter de pagar com o dinheiro que não têm, pois fazer carreira agora é encher de graxa o chefe libidinoso. E se por acaso não fosse no Tino, bastava um dos adolescentes do Gang dos Meninos Ricos, Caucasianos e de Boas Famílias de Paço de Arcos, pôr os peidociclos a trabalhar, para que os outros saíssem logo a correr, ficando a conta por conta da casa!

Saturday, January 29, 2011

Camarada Choco 72 - O Senhor das Imperiais


Camarada Choco
Aventura 72


O Kodac era o mais fiel empregado da Dona Espatinha, revendedora do famoso Bolo de Baba da Venteira, da autoria da Terapeuta Zézé, que já tinha entregue um projecto ambiental para o fabrico de Queijadas de Quiabos, aproveitando o molho das fraldas, estando à espera do veredicto da Doutora Com Caneco. Quando o monga barman entrou na casa de banho fechou a porta com gentileza, baixou as calças com elegância e sentou-se confortavelmente na retrete, que já estava com a boca aberta à espera do seu formoso cagalhão. O Kodac sentia-se esquisito desde que começara a chupar os comprimidos receitados pelo médico, a pedido da mãe que estava desesperada com os seus inúmeros vícios, e que neste caso dizia respeito ao tabaco. Mas agora o fiel empregado da Dona Espatinha chupava e fumava uns a seguir aos outros, e por isso a mãe retirara a queixa do álcool, não fosse ele chupar, fumar, chupar e beber. E como o filho se recusava a vir na carrinha escolar com os “malucos” (sic), pois isso impossibilitava-o de passar por todas as capelinhas do caminho, onde se aproveitava do estatuto de Desaparafusado para pedir, não “pão por Deus”, mas sim “bejecas e garrés por malucos”, chegava assim todos os dias carregadinhos de cevada e de nicotina à escola, e no hospital, onde trabalhava no café dos médicos, passara de “trabalhador monga exemplar” para “trabalhador normal”, devido a todos estes vícios que deveriam ser exclusivos dos Aparafusados. A Doutora Com Caneco não teve outro remédio senão tomar medidas drásticas para tentar salvar o posto de trabalho do seu aluno, obrigando-o a vir na carrinha com os “malucos” (sic). A intensidade emocional e a honestidade sem mácula eram a imagem de marca deste Desaparafusado, e era por isso que fazia questão de mostrar sempre ao Stor Pobre as novidades no telemóvel, os novos filmes pornos que os amigos Aparafusados insistiam em presenteá-lo, a cada fim-de-semana, onde o tema principal estava relacionado com o”fumo”, não de “garrés”, mas sim de charutos estilo “habanos”. Os conselhos do mestre para só usar aqueles conteúdos, muito comuns nas escolas dos Aparafusados, e que agora chegavam em força aos Desaparafusados, sinal de que a célebre “Inclusão” estava a fazer o seu efeito, em casa, de nada serviram. O telemóvel do Kodac parecia o cinema Olímpia nos seus anos de ouro, estava em permanentes sessões contínuas. Por isso foi com raiva e lágrimas nos olhos que fez força na tripa para expulsar o conteúdo endurecido pelo excesso de nicotina que lhe forrava o corpo anafado. E foi no meio desta percepção difusa, em que a realidade e a alucinação se embaraçam, que entrou, sem pedir licença, o sempre inconveniente Pitrongas, que foi confundido com a namorada, a Barrote. Sem floreados, nem rodriguinhos, o Kodac foi directo ao assunto, conseguindo mergulhar o Pitrongas numa espécie de Barrote, como se um pingo de amor lhes houvesse tocado a pele e transmutasse a realidade numa coisa a um palmo acima da do comum dos Desaparafusados, obrigando o colega a fazer um gesto ousado daquele que não se deve aconselhar, um faz de conta de um movimento de conjugação de diversas formas de um mesmo amor, que teve no sacrifício do Pitrongas o seu limite. Este foi assim obrigado a fazer movimentos insidiosos e persistentes com a mão, e segundo a lenda também usou a ponta da língua, que levaram o Kodac a sentir um desejo inconfessado, perdendo ambos a noção de que não podiam continuar onde estavam. Mas, quando o Kodac convidou o colega para o jogo, quis fazer uma ínfima variação no seu quotidiano de desamparo extremo, mitigar as dores, ir ao encontro de Freud. E foi mais longe!
Quando a Afilhada da Tarde Número Um tomou conhecimento dos factos teve uma semi-paralisia facial, que a obrigou a cuspir fininho…perdão, a debitar discurso com uma voz mais esganiçada do que a habitual, convocando de imediato todos os possíveis responsáveis pelo encontro imediato, tentando descobrir o número exacto de imperiais que o Pitrongas tinha tirado, tendo uma assessora como testemunha. E foi a partir desta projecção numa história alheia reduzida ao mínimo dos mínimos, que nasceu toda esta ficção, transformada num caso clínico de compulsões obscuras, que usurpou toda a realidade, salientando, mais uma vez, as neuroses sistémicas dos Aparafusados.

Sunday, January 09, 2011

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 47 - Transformer


Comandante Guélas

Série Paço de Arcos


O Gang dos Meninos Ricos, Caucasianos e de Boas Famílias de Paço de Arcos (GMRCBFPA – homologado pela paróquia), tinha no seu seio um capitão, vindo directamente da 5ª Divisão, depois de duas gostosas comissões em Cabinda com um pelotão de pretos, a pedido do próprio, e de que tanto se orgulhava. Para este militar de Abril o gang de tenrinhos equivalia às 60 virgens dos árabes, ou seja, estava no Paraíso mesmo sem ter morrido. Todos o viam como uma espécie de “tio” que fazia as vontades dos sobrinhos, e nunca ninguém as dele, apesar de haver sempre dúvidas em relação a alguns. Como vivia dos rendimentos, mesmo tendo no apartamento uma imagem do Che com a sua cara, o capitão era senhor de muitos hobbies, como por exemplo ver de binóculos o Chico Sá na casa do Pimenta, tentando adivinhar o tamanho da sua piroca. O Capitão Porão tinha um mini-branco que estava constantemente carregadinho de conguitos caucasianos, de onde se destacava o Marreco. A inveja das teenageres ia crescendo dia após dia, pois para fêmea já lá estava o proprietário, um garanhão de pêra e bigode. O carro passava a vida a subir passeios, a maior parte das vezes por vontade própria do condutor imberbe, acto este que fazia as delícias do instrutor, que aproveitava sempre a ocasião para o corrigir, correcção esta que começava com um apalpão na coxa. Como os adolescentes já sabiam que a seguir ele iria tentar tirar-lhes “ranho à cobra”, deitavam de imediato a mão ao travão, obrigando o capitão de Abril a bater com os cornos no vidro. Mas mesmo assim o seu riso denunciava que levar pancada da miudagem com pelugem também era o seu forte. E era precisamente ao volante, mas fora destes momentos “Ferrero Rocher”, que o Capitão Porão se transformava, não numa super-mulher de pêra e bigode, mas sim num macho estilo Rambo (com “m”). Uma das situações passou-se na ponte sobre o Tejo, quando se colou à viatura da frente, na faixa de ultrapassagem, e buzinou toda a travessia, porque ao volante do carro da frente ia um velho que, perante tal algazarra, não conseguiu mudar de faixa e teve de gramar com o “cobridor” durante largos minutos. O capitão ficou com as calças encharcadas de baba e o ego do tamanho do Tarzoon, pois mostrara à canalha que a sua fama não passava de boatos. Após esta cena simulou uma quarta na perna do Ginja, seguida de uma quinta virtual na maçaroca do Marreco. O dia ia ser longo, pois a sua casa estava ocupada pelo amor da sua vida, o adolescente mais asiático da vila e a nova amiga, uma cabrita fugida de Lisboa, e só quando o pano branco estivesse na janela é que ele poderia subir, pois era sinal de casa vazia. Rumou então para o café do senhor Américo, antevendo já uma refeição de “pipis”. O tema foi “Política”, e mais uma vez o Capitão Porão mudou de sexo, mostrando a sua força telúrica que o transformou num impiedoso revolucionário da Sierra Maestra, capaz de abafar de uma só vez vários capitalistas sem escrúpulos, deixando-os com os escrotos vazios…perdão, feitos em fanicos. O anticlimax de timbre dantesco aconteceu quando o questionaram sobre o porquê do seu voluntarismo para uma segunda comissão em Cabinda, digna de um herói de Hollywood, visto estar sempre a ridicularizar a guerra.
- Por causa do meu pelotão de pretos, - respondeu de prontidão com voz grossa, mostrando já uma queda para as causas humanitárias, ao mesmo tempo que procurava com sofreguidão a culatra do Estalinho, que antecipou rapidamente o regresso a casa.
Quando teve autorização para regressar a casa já de madrugada, o Capitão teve de gramar ainda com um role de queixas do amigo chinês, desde a Estátua da Deusa Diana colocada por cima da cama que caía sempre na cabeça da cabrita nos momentos mais intensos da relação, até ao penico cheio de mijo que o militar insistia em deixar trancado na mesa de cabeceira, porque verter águas a meio da noite numa casa-de-banho a dois metros de distancia era muito cansativo, mesmo para um revolucionário habituado ao tamanho dos ditos dos gorilas de Cabinda, acabando a reclamação nos lençóis onde a amiga de Lisboa se recusava a brincar, porque desconfiava estarem minados de restos de festas de aniversários do capitão de Abril.

Friday, December 31, 2010

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 46 - O Dia em que Paço de Arcos parou



Comandante Guélas
Série Paço de Arcos
Quem se encontrava perto do Bigornas estranhou, os seus olhos estavam diferentes, até os óculos pareciam desbotados, o olhar já não era meticuloso, estava desleixado, enquanto que o dedo médio da mão direita, que apontava com frequência para o teclado do telemóvel, estava murcho. E gaguejava! Mas o primeiro sinal de inquietação dos amigos foi o grandiloquente devaneio teórico, acompanhado de salamaleques, que os informou que o próximo jantar seria no Salão Nobre da Jomarte, extinta há mais de vinte anos, o local onde todos os paçoarcoenses costumavam mudar o óleo…das motas. A ocasião serviria também para apresentar a nova fotocopiadora, a mais avançada da Península Ibérica, que iria fazer descontos para estudantes e militares. E tudo isto foi dito em registo telegráfico. Notaram também uma estranha tendência para a rarefação, enquanto que o seu apurado sentido gráfico tinha desaparecido.
O Bigornas era um paçoarcoense de quem quase tudo se sabia sobre a sua educação, desde a colecção completa da “Gina”, até ao “Curso de Gestão” (114 volumes), passando pelo “Major Alvega”. A Jomarte tinha-o iniciado na leitura e no amor, fora um estabelecimento estonteante, efervescente, cultural e socialmente, conservado pela força poderosa das imagens, e tudo mudou quando um dia uma misteriosa Kika lhe entrou pelo estabelecimento comercial “adentro”, não para tirar a fotografia da praxe para o passe da Linha do Estoril, mas para o engatar no transporte de uma bilha de gás, desde a “Leitaria Vitória”, que vendia meio-gordo à taça, até casa. Tornaram-se companheiros, almas gémeas, amigos e irmãos, até que o gás acabou e a amante se evaporou. A sofisticada loja “Jomarte”, cujo lema era “traz que eu compro”, entranhou-se nas memórias da vila, onde só um museu a poderá agora transformar em arte. Todas queriam ter um tal vizinho à distância de uma braçada, porque os horizontes culturais deste ícone de Paço de Arcos eram cultivados… Casa-Jomarte-Pica.
O anticlimax de timbre dantesco aconteceu quando um som intenso saiu pelas calças e causou uma tensão dramática entre aqueles que compunham a mesa, e o Bigornas gritou com escárnio, em tom de desafio, indo por isso passar a noite ao Hospital da CUF. Durante a madrugada, que deveria ser de repouso, a luz vermelha do gabinete da enfermeira acendeu com estrondo, indicando que o Bigornas estava com alguma necessidade.
- Desculpe estar a incomoda-la, – disse o paciente da Jomarte, usando uma voz sensual, e continuou. – Importa-se de levantar-me o coiso?
- O “coiso”??? – Pensou a mocinha, ao mesmo tempo que sentiu um arrepio por debaixo da bata, que lhe eriçou todos os pêlos adormecidos. – Seria que o paciente de meia-idade, anafado e caixa de óculos, estaria a convida-la para o deboche, a pedir-lhe que lhe tirasse o ranho à cobra?
- Vá lá senhora enfermeira, estou aqui às voltas e não consigo adormecer.
- O “coiso”, senhor Cruz? – Perguntou a senhora, já com a voz um pouco alterada.
- Carregue lá no botão para me subir a cabeceira, “faxfavor”.
Após satisfeita a necessidade nocturna, o Bigornas voltou à carga:
- E agora, já posso fumar um cigarro?
O que se pode dizer de mais seguro sobre o que se passou, é que a feijoada atingira o seu mais alto grau de condimentos, não sendo por isso ousado concluir que um “gigler” da bomba do Bigornas entupira, fazendo lembrar os velhos “rátés” dos peidociclos da Praceta. Mas bastou uma assopradela, bem colocada, no “coiso” do Bigornas, feita por pessoal experiente, para pôr de novo na estrada, sem restrições, este James Dean de Paço de Arcos. A “travadinha” do senhor Bigornas convidou a vila a retrospetivar a sua obra, tentando descobrir o lado poeta e metafísico desta personagem de culto da vila de Paço de Arcos, sem referências espaciotemporais precisas. E a sua Jomarte representou a força telúrica de um grupo, o seu potente folclore, visto como algo exótico e novelesco, que a prendeu a um circulo vicioso, a uma realidade que girou à volta do seu proprietário e que só teve um fim no horizonte: o trespasse compulsivo!

Saturday, December 25, 2010

Camarada Choco 71 - A Lamparina do Além


Camarada Choco
Aventura 71

Nenhum poder na Venteira, nem acima nem abaixo dele, pode desviar a vontade da Madrinha, quando ela aponta numa direcção. A tradição era para se cumprir, assim obrigava a Dra. Sem Canudo: o ofício com a data do jantar de Natal já tinha sido afixado no vidro dos Serviços Administrativos pela Fininha e as eternas zangas estavam suspensas, até à próxima convulsão da chefe…perdão, até ordens superiores! O Cabo Pilas ficou liso, imóvel e transparente quando soube que a festa tinha sido marcada para o dia vinte e dois, onde sete anos antes o destino o ia levando de encontro ao S. Pedro, tal como o George Clooney, mas fora devolvido com os caramelos espanhóis e tudo. E mais traumatizado ficara quando algum tempo antes o grilo do despertador tocara a anunciar a entrada na casa dos quarenta, precisamente quando estava na intimidade do lar a tentar tirar ranho-à-cobra …perdão…a fazer o TPC de Ráqui, tendo-se recusado de imediato a aceitar mais esta partida do destino. Por isso de cada vez que mandava a mensagem diária à musa inspiradora dos seus TPCs, assinava sempre no fim: “do seu admirador secreto, o 39 mais 1”. Mas esta história não diz respeito directamente a este fenómeno da Venteira, mas indirectamente, porque tem a haver com o seu irmão gémeo clandestino, o Petit Patapon, o único motorista da zona que guia em pé. E isto tudo devido à sua cara-metade, a Maga Patalógica, que resolveu comprar uma peça original para a sessão de “Troca de Prendas”, uma iniciativa da já lendária Dona Pilca, autora dos “Abafo Palhacinhos”, um sucesso comercial do século passado, que levara a Doutora sem canudo a trocar de carro…perdão…a comprar uma nova carrinha para os coitadinhos dos Desaparafusados. Os tempos eram de paz, de tolerância e por isso foi com ternura que a Dona Pilca recebeu o embrulho das mãos do Petit Patapon, carimbou-o e colocou-o no cesto das roscas, à espera da tão desejada meia-noite onde acontecia sempre um fenómeno igual ao da Cinderela.
- Que coisa tão pesada, - refilou, mudando logo para um sorriso Pepsodent, como mandava a ocasião. – Parece ser um sapatão.
- A minha dimensão não é proporcional às surpresas que dou, - exclamou o caga-tacos, irmão gémeo não oficial do mais famoso Cabo da Venteira, piscando o olho.
A prenda saiu a frio à Doutora Yogurte: uma soberba Lamparina!
- Meu Deus, uma “Lamparina dos Desejos”, - gritou com satisfação. – É desta que mando às urtigas a Dra. Sem…
- Não diga isso que hoje é pecado, - avisou a Dona Pilca, ao mesmo tempo que recebia de braços abertos mais um presunto…perdão, presente, desta feita da sua saudosa colega de trabalho, a Dona Piulia, continuando com voz delicodoce. – Estás maravilhosa, a “reforma compulsiva” está a fazer-te muito bem.
- Tenho três desejos, é só esgalhar a Lamparina, - disse a Dra. Yogurte à sua colega Raquete.
Deu um apertão tão forte, que de dentro do objecto saiu um som intenso, cheio de espíritos sem céu e sem terra, com muitos corpos e muitas almas, vindos de uma região povoada de sonhos, devaneios e ecos distantes.
- Epá, a feijoada que comeste estava com muito feijão, Yogurte, - retorquiu, escorreito, o Dr. Fininho, o senhor das verdades inconvenientes, que tinha vindo substituir a psicóloga sueca, vítima do Bicho da Fruta, balanceando com graça a taça de meio-gordo.
- Meu Deus, isto é um aviso dos céus, ontem sonhei que vários dos meus Desaparafusados tinham batido a bota, depois de lhes ter dado uma fatia de um dos semanais “Bolo de Baba” da Terapeuta Zézé, - gritou a Dra. Yogurte atirando a prenda do Petit Patapon para cima do colo da Piúlia, que já estava mais para lá do que para cá, depois de uma dança alucinada com o Padrinho do Choco.
Quando a “reformada compulsiva” tocou na lamparina esta acendeu-se como um isqueiro e o Nélinho aproveitou a chama para acender o dito cujo, acto considerado como de claríssimo pendor romântico pela ex-Senhora dos Bordados e das Pegas, que tirou a língua da boca e pousou-a com cuidado em cima da prenda da Dra. Yogurte, que estava a segurar a cabeça com as mãos. Mas como não podia dançar com a lamparina na mão, o açoriano poisou-a na mesa mais próxima, e ela ali ficou, mesmo quando a festa acabou. Já no exterior o que restava dos convidados foi confrontado pela dona do estabelecimento, que se recusava a ficar com aquela “Lanterna do Além”, acessório muito em voga nos cemitérios.
- Eu fico com a lamparina, pois já tenho cliente para ela, - disse o Senhor Pintor, pondo fim ao Jantar de Natal da Doutora Sem Canudo

Sunday, December 05, 2010

Camarada Choco 70 - O Comendador Rendas


Camarada Choco

Aventura 70

A Sobrinha-da-Tarde-Número-Dois nem queria acreditar no que via quando entrou na sua sala: tinha pendurado na parede o retrato de um velho que parecia estar a convida-la para a luxúria. E a causa da morte da fotografia estava no canto superior esquerdo sob a forma de uma marca de pneus.
- Quem é que ousou pôr aqui este velho com ar duvidoso? – Perguntou a Sobrinha-da-Tarde- Número-Dois, sentindo um vento a puxa-la, e tendo uma visão imperfeita que lhe revelou um segredo de algo que poderia acontecer. – Velho tarado.
Resolveu investigar.
- “Comendador Rendas” - Leu em voz alta a legenda escrita à mão – e continuou. - Letra feminina…hummm.
- Letra feminina??? – Entrou de rompante o Nélinho com um arrebatamento eléctrico, revirando os olhos e engolindo as smarties que a irmã do Choco se preparava para comer. – Tropecei neste senhor hoje de manhã e resolvi trazer esta obra de arte para a sala mais indicada. É assim que a menina me paga os distúrbios que causo com frequência no seu espaço?
E para fazer jus à fama da sala que já era tão famosa como o Entroncamento, devido aos fenómenos para-normais, o novo inquilino também revirou os olhos.
- Já sei porque é que o Nélinho não pendurou o retrato na sua sala, - exclamou a Sobrinha-da-Tarde-Número-Dois.
- Então diga lá, – gritou o açoriano, ao mesmo tempo que apertava o gasganete à colega Minhota, tornando a revirar os olhos e a uivar, ao mesmo tempo que arrastou a bacia pelo chão, deixando rasto como o caracol.
- Porque passavam a ser dois a revirar os olhos!
O mistério estava lançado, seria o Nélinho a encarnação do Comendador Rendas? O acaso nunca poderia ter reunido na mesma rua dois artistas destes, era demais. Com tantos Aparafusados e Desaparafusados a cruzarem a rua do Gameiro, porque é que o velho tarado teria ido logo ter com um autóctone de uma ilha açoriana, perdida algures no meio do Atlântico? Não, só poderia ter sido por uma questão de afinidades, o Nélinho e o Comendador Rendas tinham sido atirados um ao encontro do outro, e quando o primeiro viu um rasto de pneus na testa do antepassado, apercebeu-se de que era um aviso de que se não o levasse para dentro poderia acontecer-lhe o mesmo, ou seja, os céus darem ordem ao Cabo Pilas para levar o carro para a Escola, e como ele só conseguia ver a estrada se guiasse em pé, era sempre um risco acrescido para os peões daquela zona, que o dissesse a Dona Pilca, a primeira vítima de um atropelamento do micro-machine da Venteira. Quando o Nélinho olhou para o retrato do Comendador Rendas ficou com a cabeça intermitente, cheia de intervalos e metamorfoses, que o colocaram num estado de expectativa, suspenso e inconclusivo. Teve uma visão do futuro e viu-se reduzido a algo espalmado na estrada, com um charuto fumegante a sair de um buraco indefinido. Acordou do transe, agarrou na foto e correu para a Escola de Desaparafusados da Venteira. Mas ficarem os dois na mesma sala não era aconselhável para a saúde mental da Brazuca. Haveria com toda a certeza uma corrida diária às smarties dos Desaparafusados, e isso não seria bom para as finanças da escola.
- Tarado, – gritou a Minhota ao aperceber-se que o Comendador Rendas também lhe estava a fazer gestos obscenos.
- Já não tenho idade para isto, – queixou-se a Sobrinha-da-Tarde-Número-Dois, ao mesmo tempo que era encostada à parede pela Cataró, agora em plena travadinha com os punhos cerrados em direcção à Obelix e a bexiga a largar a gasosa toda para cima das almofadinhas-para-coquilhas, a nova colecção de Natal da célebre Sala das Prendas e dos Fetiches.
O retrato a sepsia, devido às incontáveis mijas dos gatos da região, de um velho desconhecido, pendurado pelo Nélinho na sala da Sobrinha-da-Tarde-Número-Dois estava a causar alucinações visuais aos elementos femininos da “Escola para Desaparafusados & Afins da Venteira” e a provocar rotações oculares incontroláveis no rapaz açoriano. Preparava-se uma manifestação à porta da sala, a Dona Gilette erguia um cartaz a apelar ao regresso dos “Bons Costumes” e ameaçava apresentar queixa, por escrito, à Sobrinha-da-Tarde-Número-Um. Mas quando se aproximou do retrato sentiu também ela um vento a puxa-la, teve uma visão imperfeita que lhe revelou um segredo de algo que aconteceria, suspenso na geografia intemporal das convulsões. Piscou o olho ao Rendas!
- Saiam daqui, – gritou desesperada a Sobrinha-da-Tarde-Número-Dois. – Eu não faço mal a ninguém, estou aqui sossegadinha mais a Transmontana e só me aparecem é malucos.
O mal foi cortado pela raiz, o Comendador Rendas foi directo para o contentor, e o Nélinho suspenso três dias para casa.

Thursday, November 25, 2010

Camarada Choco 69 - A Rena


Camarada Choco
Aventura 69
O Samecas estava inconsolável porque a sua noiva, a Beta Cigana, acabara com a relação de quase um século, trocando-o pelo Tóni, o filho do novo chefe máximo da Escola, que sucedera ao hilariante Torres. E tudo por causa de uma inofensiva carícia mal calculada, que se transformara num abrunho estilo Rocky que pôs a cigana a ouvir frangos a assar durante uma semana. O ponta de lança da equipa líder do Campeonato Nacional de Futebol para Destravados, os célebres e consagrados “Tubarões do Seixo”, no qual o “i” caía sempre que regressavam ao clube, estava a ser traído pela visão, naturalmente com falhas, mas que agora se aproximava da red line porque já não conseguia distinguir um elefante duma mosca. Mas ele sabia que podia contar com o apoio incondicional do mister, o Stor Pobre, que o convocava sempre que havia jogo, mesmo com o risco de deixar lá metade da dentadura, devido aos problemas de navegação que o faziam sair sempre do campo em alta velocidade e parar só quando algum objecto mais traiçoeiro se interpusesse no seu caminho. E todos estavam lembrados de que o Samecas já tinha um dia, na altura do pico de forma e de visão, deixado metade dum Incisivo no Colégio Vasco da Gama. E o Stor Pobre só era mister dele por afinidade, porque oficialmente este Tubarão tinha mudado de mãos e estava agora dependente da autorização da Rakette, uma stora com os carretos todos no lugar que, para o proteger, o queria inscrever na Federação Nacional de Matrecos. O argumento do Stor Pobre era infalível, enquanto o Mantorras jogasse no Benfica, o Samecas continuava nos “Tubarões do Seixo”. Ou saíam os dois ou não saía ninguém. E assim os “Tubarões do Seixo” podiam ainda contar com o ponta de lança toupeira durante o aquecimento e o intervalo…apesar dele sempre pensar estar no jogo. E os treinos tornaram-se rigorosos: de Técnico e de Físico, que já não precisava passara para…psicológico! E tudo isto veio mesmo a calhar nesta fase existencial do Samecas sem a Beta Cigana.
- Tens de aguentar todos os insultos, - gritava-lhe diariamente o mister no seu quotidiano encontro matinal, - meu pa…cornudo…gay!
O Samecas tremia, mas nem pestanejava.
- Quero-te preparar para aguentares toda a pressão do adversário durante um jogo, – berrou o Stor Pobre, enchendo o atleta de baba, - percebeste meu panas…com cara de cara… e maluco?
Mas havia quem não concordasse com estes métodos pedagógicos:
- Lembrar ao miúdo a sua condição de rena, não está nos manuais das “Boas Práticas com Grogues”, – avisou a Dra. Yogurte.
- Mas já que o Samecas está em estado de rena, aproveitamos a época natalícia que se aproxima e fazemos com que ele tire proveito da armação que já risca o tecto da sala do seu reeducador, o Senhor Pintor. O desporto de alta competição cura tudo, até Desaparafusados, - exclamou o Stor Pobre mostrando os guizos que ia oferecer ao Samecas para pôr nas hastes.
- Os guizos ainda vão traumatiza-lo mais, - retorquiu a Dra. do primeiro andar.
- Estes sininhos vão torná-lo famoso, pois quando os ouvirem todos gritarão: “Vem aí a rena da Venteira
O Desaparafusado estava diferente, o treino intensivo tornara-o outro homem, já não havia abrunhos para ninguém.
- A Beta Cigana, eu quero a Beta Cigana, - mas tinha por vezes recaídas.
Para o mister não havia segredos e a solução do problema chegou num abrir e fechar de olhos:
- A partir de agora o teu nome oficial será…
- Samecas Cristiano Ronaldo, - antecipou-se o jogador.
- Cristiano?? Mas que nome tão foleiro, – gritou o Stor Pobre colando-se à cara do atleta. – Tens de ter um nome artístico inesquecível que te faça cair ao colo, não uma cigana que só funciona pela metade, mas sim uma sueca monga que te mostre onde fica o teu clímax.
- Mas Cristiano Ronaldo é um nome bonito, - insistiu o Samecas.
- Passas a ser o Samuel Atum, o ponta-de-lança mais famoso dos Tubarões do Sexo, capaz de furar uma bola de futebol à dentada, caso esteja com disposição para tal, percebeste ó meu panas…da Venteira (sinal de que o treino psicológico era uma constante).
O mister explicou então que já tinha encomendado ao Senhor Pintor uma carrada de posters, onde a figura esbelta da toupeira da Porcalhota aparecia em posição de remate, mas em vez de uma bola da Fifa, preparava-se para chutar num fabuloso croquete, feito em parceria pela Nina e pela Duna, as holliwdescas cadelas de reabilitação, estando na baliza o seu eterno rival Tóni, o ladrão da Beta Cigana.

Thursday, October 28, 2010

Camarada Choco 68 - O Bê à Bá do Filete


Camarada Choco 
Aventura 68
 
Além de ter nascido um Desaparafusado bronzeado, o Filete herdou do pai Filipe o “Fil” e da mãe Arlete o “ete”. Depressa a Escola de Aparafusados classificou o novo aluno como “Indigente”e enviou-o via “Correio Azul”, com aviso de recepção, não fosse o carteiro enganar-se e devolve-lo de novo às “Doutoras”. O novo aluno foi recebido com entusiasmo pelos semelhantes, também eles bronzeados, e sujeito de imediato a um conjunto de “praxes académicas tribais”, que também serviram aos técnicos para uma recolha de informações mais aprofundada. E houve um dado que se destacou em relação aos outros: de cada vez que o Filete levava com algum estímulo (palmada, bolada, pedrada, etc.) na cabeça, ouvia-se um eco! A Terapeuta da Fala, a Prima da Afilhada da Doutora Sem Canudo, uma mocinha do Entroncamento habituada a todo o tipo de fenómenos, nem queria acreditar no que ouvia:
- É um barulho a espaço vazio, o Filete parece ter uma cabeça oca, – disse, com um ar desanimado.
- O Filete é um “Calhau com Olhos”, - retorquiu o Stor Pobre, especialista em Pinos e Cambalhotas, com muitos anos de Desaparafusados no lombo, e também ele já com folgas nos carretos. – A técnica mais apropriada, caso tu pretendas tentar pôr o aluno a ler, passa pelo uso intensivo da “Banheira do Porres”.
- “Banheira do Porres”?
- É exclusiva aqui desta escola, e muito mais eficaz que a “Sala de Snozelan”, – explicou o Stor Pobre fazendo o exame final ao Filete, um soberbo “Toque Pedagógico” que teve como resposta “cinco ecos e um baralhar de olhos sem Jackpot” (parágrafo 2, ponto C, alínea A, da Escala Pedagógica Universal de Granitos e Afins - EPUGA).
- Estranho, - disse a Prima da Afilhada da Doutora Sem Canudo. – Numa me ensinaram isso na Faculdade.
- Nós estamos sempre à frente dos “Doutores” pelo menos vinte anos, – atirou de rajada o Stor Pobre, empunhando o panfleto de apresentação da famosa “Escola para Desaparafusados da Venteira”, com o Porres, actual Presidente Honorário, ainda de fraldas, e a brincar ao Lego com o Choco, ao mesmo tempo que reconfirmava tudo com um novo “Toque Pedagógico”, cujo eco acordou o colega do Filete de nome Paulo Bento.
A Prima da Afilhada da Doutora Sem Canudo não se convenceu dos novos métodos Pedodesaparafusados e recorreu aos clássicos. Agarrou numa bola azul de plástico e perguntou ao Filete:
- Querido aluno, que cor é esta?
O “Indigente” (classificação do Ministério), “Calhau com Olhos” (classificação EPUGA), olhou demoradamente para o esférico, rodou os glóbulos oculares dezenas de vezes, coçou a cabeça e por fim abriu a boca…mas não saiu nada.
- Que cor é esta, Filete? – Perguntou de novo a Prima da Afilhada da Doutora Sem Canudo, aumentando o volume da voz e colando a bola azul entre os olhos do “Indigente” (classificação do Ministério) ou “Calhau com Olhos” (classificação EPUGA).
O comportamento recorrente do Filete não alterou nem uma vírgula, encarou demoradamente o esférico, como um boi para um palácio, rodou os olhos, arranhou o coco, abriu a boca e respondeu com um ar triunfante:
- Verde!
- O que é que se passa aqui? – Perguntou o Cabo Pilas aparecendo por detrás de uns cabides.
- Ainda bem que estás aqui, Chiquinho, - disse a Prima da Afilhada da Doutora Sem Canudo, tocando-lhe no ombro. – Podes-me dar a tua opinião acerca das capacidades deste aluno?
Por momentos fez-se um silêncio ensurdecedor. O Cabo Pilas olhava para a mão da pequena com um ar ameaçador, e também ele rodou os olhos e coçou, não o coco, mas o baixo-ventre. Por fim falou:
- Desde quando é que uma Terapeuta da Fala estagiária se dirige nesse tom a um Pedopedagogo do meu tamanho. “Chiquinho”?!!
A Prima da Afilhada da Doutora Sem Canudo tirou a mão tão depressa, que todos pensaram que se tinha queimado. Se desejava um parecer do Dr. Cabo Pilas teria de se dirigir à secretaria e pedir por escrito. Optou por acompanhar o Stor Pobre na “Banheira do Porres”. Quando entrou no espaço pedagógico o nevoeiro era tanto que nem se apercebeu que o colega do Filete, o Buda, acabara de fazer uma portentosa mija que acertara em cheio nas calças de ganga da Mosca Morta, a mais antiga funcionária da Escola de Desaparafusados. A boiar estavam inúmeras bolas de várias cores, o Filete sentado na rampa, o Coxo Mais Rápido da Brandoa no fundo à caça de um dinossauro e um bacalhau de molho dentro de uma bóia chinesa, rodeado de chouriços. Como técnica apurada começou de novo a intervenção, mostrando ao Filete uma bola vermelha:
- Que cor é esta?
O mesmo do mesmo: rodou os olhos, arranhou o coco, abriu a boca e respondeu com um ar triunfante:
- Azul!
E assim continuou para desespero da Prima da Afilhada da Doutora Sem Canudo, que julgava que a água a entrar pelos ouvidos do Filete iria transformar o caroço de azeitona, que fazia a vez de Cérebro, numa abóbora do Entroncamento, permitindo ao “Indigente” (classificação do Ministério), “Calhau com Olhos” (classificação EPUGA) debitar todas as cores do Arco-Íris e mais algumas. Quando o Stor Pobre se apercebeu do desespero da colega, aproximou-se do Filete e teve uma humilde conversa junto à sua orelha. Passados alguns segundos o sucesso educativo concretizou-se:
- VERMELHA!



Wednesday, October 20, 2010

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 45 - Cabos à Solta


Comandante Guélas
Série Paço de Arcos



Quando a pátria os chamou gritaram “presunto”…perdão…”presente”, e cada um se apresentou na sua unidade: o senhor Carlos Ponta recebeu a boina preta da Cavalaria e o senhor Bigornas uma boina castanha dos “caga-e-tosse”, e porque tinham sido muito aplicados no Liceu de Oeiras foram ambos graduados em soberbos cabos. Por esta altura o Conan Vargas era boina verde, e passava os dias a tentar impressionar todas as fêmeas da Costa do Estoril contando as suas arriscadas missões, que na verdade estavam reduzidas a descascar batatas, às rodelas, em Tancos, uma vez que tinha ido para a especialidade de pára-cozinheiro; noutro canto do país o Zé Fotógrafo ostentava uma invejosa boina vermelha e, na praceta, para impressionar a Mula do Ártico, gritava bem alto “MAMA SUMAE”de cada vez que tinha sede, pois para ele o lema queria dizer “Mamã dá-me um sumo”. Mas também este estava ligado à gastronomia, mais propriamente às batatas em palito, na Amadora.
O Cabo Carlos Ponta foi colocado aos comandos da gloriosa PE, mais propriamente no Esquadrão Vermelho, de código “Tigre”. Este indomável paçoarcoense era o felino nº 28, senhor todo poderoso de um jipe Land Rover com motorista e dois ordenanças, uns Cro-Magnon vindos directamente de Tábua. E a juntar a tudo isto, e por uma questão de prestígio, o “Tigre 28” fazia sempre questão de montar em pêlo todas as éguas que lhe aparecessem pelo caminho, não fosse ele um grande senhor da Cavalaria paçoarcoense. E foi numa das incursões pelas zonas mais nobres de Lisboa, o Intendente, ao som de uma sonora “ópera-bufa”, porque o rádio a bordo não debitava música, que se deu o encontro de dois titãs de Paço de Arcos.
- Alto e pára o baile, vamos recolher um VIP.
No passeio estava o cabo Bigornas.
- Vai lá para trás, dá lugar ao teu superior hierárquico, - ordenou o “Tigre 28” ao ordenança que ia ao seu lado.
- Mas, meu comandante Pontas, ele não passa de um “caga-e-tosse”, enquanto nós somos uns boinas pretas, - refilou o soldado.
- “Caladinhos que o pessoal de Paço de Arcos está acima de todas as raças, um soldado cassanho de Paço de Arcos vale mais do que qualquer um boina preta ou mesmo do que um general de Cavalaria” (sic).
Os tempos não eram para brincadeiras, a noite anterior tinha sido longa, o PRP-BR da ex-terrorista Carmo e agora amiga dos gordos, andava à solta, uns dias antes a embaixada da Turquia fora visitada por uns arrebentas, e os “Tigres” tinham dado de caras, lá para os lados de Camarate, com um paiol abandonado, G-3 encostadas à parede, e as portas de acesso ao material escancaradas, talvez para sair a humidade. E quando os valentes guardas apareceram, em tronco nu, com franguinhos e cervejolas debaixo dos braços, adquiridos na zona fina da Musgueira, explicaram ao superior hierárquico Cabo Carlos Ponta que devido a estarem famintos, e para evitarem baixar o nível de atenção na defesa intransigente da pátria amada, tinham decidido em RGS (Reunião Geral de Soldados) adquirir umas buchas.
Assim,o glorioso Cabo Bigornas dos “caga-e-tosse” entrou para o banco da frente, sentou-se junto do seu colega Cabo Carlos Ponta de Cavalaria e, com motorista ao volante e seguranças atrás, passearam alegremente, sentindo com prazer o cheiro a maresia do local.

Friday, October 15, 2010

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 44 - Fangiovargas


Comandante Guélas

Série Paço de Arcos

 
Há certas histórias que devem repetidas, repisadas, analisadas com mais pormenor, para assim compreendermos as motivações psicológicas dos elementos deste original gang caucasiano de Paço de Arcos. E uma delas passou-se com um monstro da cultura paçoarcoense, o hilariante Conan Vargas.Quando o ex-cozinheiro pára-comando recebeu a cartolina vermelha com o símbolo da DGV nem queria acreditar que era verdade.
- Já posso guiar em tudo o que mexe, desde o triciclo do João da Fruta até ao Fórmula 1 do Niki Lauda ….incluindo as mulheres deles, - disse, tirando o documento oficial da República de Portugal de dentro do livro da tabuada dos dois, e mostrando ao seu colega de carteira, o Ánhuca, que estava mais entretido a esmagar os piolhos que trouxera da capoeira do Manelinho do Estrume, depois de uma noite bem passada com uma das ovelhas.
Estava decidido, à noite iria impressionar as queques lá para os lados do Santtini, não com o velho Ford Escort LA-91-40, mas sim com muito mais estilo, o novinho Renault 16 BU-13-78, que a mãe acabara de adquirir. E a desculpa foi fácil, tinha um exame de Química Iónica à noite no Liceu de S. João do Estoril e esquecera-se de pôr gasolina no seu bólide, e o comboio estava parado porque o primo surdo-mudo do João da Quinta tinha decidido atravessar a linha no momento em que passava o rápido vindo de Lisboa e olhado para o lado do pára em todas de Cascais, acabando dividido em dois, o surdo para um lado e o mudo para o outro. Mas antes passou pelo Picadili, o café do senhor Américo, e convidou os amigos mais parecidos com estrangeiros, estilo suecos, ou seja, o Bigornas, o Bajoulo e o Escoto. Assim, as queques olhariam logo para o Renault e, parafraseando o irmão com cara de papagaio do Bajoulo, “ia ser phoder à cagão”! A entrada na praceta foi feita em estilo “todo boneco”, com o braço de fora, cigarrito na ponta da boca e o agora saudoso cabelo ao vento, tudo isto acompanhado com um chiar de pneus estilo Charles Bronson. O Conan Vargas já quisera ser pastor, depois bombeiro, tropa especial, mas nesta altura estava bastante baralhado. O Bigornas assistiu a toda a cena, porque insistia em tomar o café na esplanada, onde uns dias antes fora detido pelo Chefe Bigodes, depois de se ter recusado a fugir para dentro do café após o Focas ter gritado “ó chui” quando o carro patrulha passou. O Bajoulo nem se mexeu, porque mesmo que quisesse o porte atlético já não lhe permitia grandes aventuras. O Escoto, o adolescente mais parecido com uma girafa, gritou um “temos Fangio”, não se apercebendo que o que dissera entrara como uma seta no Super-Ego do Conan Vargas, mesmo que a resposta tenha sido uma aceleração em seco, cujo fumo acertou em cheio na cara do Trovão, que ia a passar. Antes de descolar, porque era de um voo que se tratava, passou a mão pela cabeça para verificar se ainda tinha cabelo. Sentiu então um impulso, um ímpeto, um incitamento, e o Renault16 de cor branca, BU–13-78, saiu a guinchar. O Bigornas, que ia no banco de trás, ouviu o barulho da mioleira do condutor a ferver, estilo fumarola e teve um pressentimento terrível: no dia seguinte poderia não haver a fila interminável à porta da Jomarte. E ainda por cima tinha uma surpresa para os clientes: não um novo livro de quadradinhos que demorava sempre meio-dia a ler, mas sim um Curso Completo de Gestão. Quem fosse para a fila no primeiro dia do mês seria atendido no dia 31 às 14H00! Antes de rumar definitivamente, e pela última vez, a Cascais, o Renault 16 de cor branca, BU-13-78, guiado pelo Fangiovargas, cruzou-se com o Opel 1200 Caravan do Fangiocoelho, Menino Élinho para os amigos, que o tinha gamado pela centésima vez, e atingira agora os 120 junto ao Manuel da Leitaria. Quando entrou na marginal, na cabeça de Conan Vargas já rodava outro filme, imaginava-se no circuito do Mónaco ao volante de um Mc Laren, e quando ultrapassou o senhor Manuel da Fruta, que ia calmamente para casa no seu triciclo com caixa à frente, viu o Emerson Fitipaldi no seu Lótus, a seguir apareceu o Velinho e o Mini Clubman FF-62-88, que tinha ido às boxes para beber um sumo de cevada , como habitualmente, e que fazia a vez do Niki Lauda e do seu Ferrari. Na recta da praia de Carcavelos, já com fumo a sair das orelhas, ultrapassou o Serapito e o seu Opel Kadett EU-13-12, e avistou o Peugeot 304 paçoarcoense BM–18-35 a fazer a vez do James Hunt, mas ultrapassar o Pilas era uma tarefa quase impossível. O Renault 16 de cor branca, Bu-13-78, guiado pelo ex pára-cozinheiro de nome Conan Vargas, agora travestido de Fangiovargas, entrou a ganir e a rodopiar na curva do sanatório, completamente desequilibrado devido ao facto do Bigornas e a sua volumosa cabeça, que lhe dava o nome, estarem colados a um extremo do banco traseiro. Quando a lateral do motor bateu no poste, o Escoto amolgou o tecto com a cabeça e dos olhos do Zé do Fotógrafo saíram vários flash multicolores, enquanto que o Conan Vargas gritava a tabuada dos 3 (3x1=4, 3x2=8, 3x3=15…), acompanhada de ratés de origem indeterminada. Mais uma volta e nova porrada, desta vez no muro e com o poste no encalço do carro. Aqui o Bigornas deixou de ter dúvidas e preparou-se para o mergulho final no mar, agarrando com sofreguidão a pesada tola, que o iria arrastar, com toda a certeza, para o fundo escuro do oceano, tal como uma poita. Seria o fim da Jomarte e de tudo o que ela significava para a Praceta. Mas contra todas as leis da física, o Renault 16 de cor branca e matrícula BU-13-78 ficou colado à parede, perpendicular, e apanhou com o pesado lampião na zona do motor. Nem um arranhão sofreram estes garbosos paçoarcoenses, que acabaram a noite a chupar no Santini!




Monday, October 11, 2010

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 43 - Fangiocoelho



Comandante Guélas
Série Paço de Arcos
O Menino Élinho nasceu com um sonho entranhado, em que se via sentado ao volante dum Porsche Carrera, tendo acrescentado mais tarde à lista um soberbo Opel Manta 1900. Assim, acelerava em tudo onde se metia, desde o carro a pedais até às máquinas de flippers do Manuel da Leitaria, tendo gripado várias. Muitas foram as vezes em que o que o Professor Coelho deu de caras, não com a tabuada, mas sim com desenhos de Ferraris. O seu corredor favorito era da terra e dava pelo nome de Pinguim. O irmão do Pingalim corria em duas rodas, “no autódromo do Estoril, e por convite” explicava, e para não deixar dúvidas mostrava sempre as cartas que lhe eram enviadas, com selos nacionais e remetentes estrangeiros, pormenores que só um chato como o Carlos Ponta ousava denunciar. Assim, para o Menino Élinho o Pinguim era um modelo, estilo Elvis Presley, que era impossível igualar, a não ser que a modalidade competitiva fosse outra: as 4 rodas! Já se via na Feira Popular em parceria com o Pinguim numa dupla imbatível e famosa, um numa mota e outro num Ferrari, dentro do Poço da Morte, ambos vestidos com fatos de leopardo e máscaras do Zorro. E foi numa destas ocasiões que as aulas da Escola do Coelhinho tiveram de ser interrompidas: o Menino Élinho fizera um desenho, em vez da tabuada dos 3, de dois artistas vestidos de tigre à porta do Café do Papagaio! O Professor Coelho fora obrigado a ausentar-se do estabelecimento de ensino para ir falar com o padre, alegando que o jovem paçoarcoense deveria estar possuído pelo demo, pois o desenho, além de pornográfico, atentava contra a moral e os bons costumes da vila, pois mostrava dois meninos muito amigos com vestidos femininos. Mas, contra tudo o que era de esperar, o clérigo mostrou um interesse guloso em conhecer os jovens, e o Professor Coelho fugiu assustado para a toca, que já estava num rebuliço tão grande, que o tecto da Papelaria Dani ameaçava ruir a qualquer momento. O tempo passou e o Menino Élinho cresceu, muito à conta das batatas fritas da Dona Rosa, vendidas em saquinhos compridos de papel encerado, produzidas na fábrica “Pim Pam Pum” na Avenida, e das “Bolas de Berlim” transaccionadas pelo Senhor José na praia, e guardadas com carinho na sua caixinha branca de duas gavetas. Mas o sonho nunca esmoreceu, e já crescido andava sempre a acelerar no Opel 1204 Caravan do pai, pensando estar no seu eterno Porsche Carrera, muitas vezes substituído por um Opel Manta 1900, conforme a alucinação do momento. Mas para ter acesso ao Opel Caravan teve de fazer uma cópia das chaves e ia busca-lo sempre à noite quando os pais já estavam recolhidos e convencidos de que o seu Menino Élinho tinha obedecido ao “Vamos Dormir” da RTP. Nem tudo foram favas contadas, pois muitas foram as ocasiões em que ao regressar a casa o Fangiocoelho deu de caras com o lugar ocupado por outro carro. Nestas ocasiões a manhã do pai nunca era pacífica, pois o senhor jurava que tinha estacionado o carro ali e ele estava acolá. “Estás a fazer confusão”, explicava de imediato o filhote, todo preocupado. O ponto alto desta preciosa carreira atingiu-o numa certa noite no Largo do Jardim, às 4 horas da manhã, na companhia do Maia e da Tina. Andava a mostrar aos amigos o seu próprio bólide, quando o casal de pombinhos que o acompanhava lhe pediu para os deixar dar uma volta sozinhos, um possível ensaio para a vida futura de casados. O menino Élinho saiu do carro, puxou de um cigarrito, e foi logo encadeado pela figura mítica do neto do Bruce Lee, o Kovac’ Olhões, trazendo-lhe à memória a visita de cortesia que anos antes fizera com guerreiros amigos à barraca dos gelados ali tão perto. Nem ouviu o chiar dos pneus, sinal de que o Maia tinha colado o acelerador ao chão do bólide e a sua Tina às costas do banco. Quando o carro passou por ele a deslocação do ar apagou-lhe o cigarro, mas o Kovac’ Olhões era mais forte do que o vento, e por isso o Menino Élinho nem se apercebeu dos pedidos de socorro do seu querido pópó. Mas um barulho infernal trouxe-o de novo à realidade. Foi quando o Maia se despistou e entrou pelos caixotes de lixo que estavam em frente da Sede do Real Clube de Paço de Arcos.
- Até a traseira do carro empinou, - explicou a Tina, ao mesmo tempo que tentava endireitar o vinco do pára-choques frontal.

Sunday, October 10, 2010

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 42 - O Submarino III


O Comandante Guélas
Série Paço de Arcos
 
A Regata da Açorda

 
O quotidiano da tripulação do “Submarino” não é assim tão normal como pensamos. O comandante da embarcação ficara toda a noite a preparar a estratégia para a regata, empunhando um candelabro com velas, de olhos fixos no retrato do Patrão Lopes, a porta de entrada do seu espírito sonhador. Boacara sempre tivera uma paixão bela, simples e frágil por aquele lobo-do-mar com estátua em Paço de Arcos. Estava agora num trapézio sem rede, assinava a sangue e na primeira pessoa, porque pretendia uma sublime transformação dos seus homens, exigindo-lhes agora o quarto lugar, a contar de cima, numa regata de vinte e sete, em vez do habitual primeiro, a contar da cave. Naquela noite viu universos inteiros de regatas, e foi com convicção que na manhã seguinte se dirigiu à tripulação alinhada no convés, comunicando-lhes mais por gestos do que por palavras. Discursou com uma fúria tão feroz, que nem reparou nas grades de sumo de cevada que entravam clandestinamente no saco do soro do velho Saul, directamente para o beliche do Mac Macléu Ferreira , uma espécie de Poppey, que comia lulas recheadas em vez de espinafres. No momento da largada a voz subiu-lhe com insistência, persistência e resistência, chegando a ameaçar encerrar a tripulação no convés com as cuecas do Bajoulo, caso não trouxessem para a Marina de Oeiras um certificado a atestar o quarto lugar, não tendo no entanto reparado no riso fininho da tripulação, e no ar embasbacado do velho Saul, que tinha acabado de engolir uma carica, arrancada apressadamente com a dentadura.
- Hoje as nossa preferências não são o habitual convívio no convés, mas sim o quarto lugar, - disse, ao mesmo tempo que alguém dava início ao esquentamento duma açorda que entrara clandestinamente no Submarino.
- Comandante Boacara, hoje trouxe uma surpresa, uma refeição energética que não vai deixar a tripulação adormecer, quebrando-se assim a tradição destes lobos-do-mar.
- As minis estão proibidas a bordo, e tudo com elas relacionado, como “Galinha com Cerveja”, “Pato Bock”, “Cadelinhas embebidas em Tinto”, “Gelado de Rum”, alimentos anti-regata. – Gritou o proprietário do Submarino, espreitando com raiva para as mochilas dos amigos.
- Calma patrão, isto é uma simples açorda feita com pão, - explicou o Velho Saul, ao mesmo tempo que tomava uma pílula energética.
- E o pão foi embebido em quê?
- Água, só água!
- E açorda é condimentada com quê?
- Piripiri.
- Piripiri, um afrodisíaco? Nem pensar. Para mastro basta-me o do barco, não preciso de canas da índia, - gritou, colando a boca aberta na testa do Velho Saul, deixando sair uma tempestade inesperada, brilhante, veloz e aterradora, como se fosse, não do domínio do ar, mas do seu interior obscuro.
O grito apanhou o marujo Mac Macléu Ferreira a meio do sono, na precisa altura em que enchia com a boca uma “Sereia Acompanhante”, da marca “Use e Abuse”, tendo-se precipitado do beliche para anões a ele destinado, onde dormia com tudo dobrado, batendo com estrondo no fundo do Submarino, que fez uma volta de 180º. Foi por isso que o Chefe Máximo do Submarino achou estranho cortar a meta três horas antes e em primeiro lugar, com a tripulação a festejar o feito heróico, só comparável à chegada do Pedro Álvares Cabral ao Brazil, também ele vítima de uma açorda traiçoeira. Mas do Submarino espera-se tudo, e a atracagem foi diferente de todas as outras. Mac Macléu Ferreira foi incumbido de saltar para a doca com um cabo na mão, mal a proa do navio passa-se à vertical da primeira madeira, evitando assim que o mesmo fosse marrar mais à frente. Ao nosso herói das lulas recheadas faltava um pormenor: as lunetas com 5 dioptrias cada e uma barriga atestada de açorda e minis clandestinas. Saltou antes, muito antes, logo à entrada da Marina de Oeiras, que estava atestada de tios e de tias, e ficou preso na corda, pendurado com a cabeça a roçar na água e uma catrefada de Robalos no seu encalço.


Monday, September 27, 2010

Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 41 - Campeonato de Futebol de 5


 Comandante Guélas
Série Paço de Arcos


Para o Milhas a responsabilidade era enorme: o “sogro” tinha financiado a inscrição, após o seu pedido, no Torneio de Futebol de 5 do Pimenta, que iria decorrer no pavilhão do Clube Desportivo de Paço de Arcos e para ele só havia um objectivo, oferecer a taça ao Galego. Passaria a comer lagosta ao pequeno-almoço, santola a meio do dia e camarão ao deitar. A primeira medida que tomou foi auto-nomear-se capitão da equipa e contratar o Capitão para adjunto. O treino inaugural foi marcado para as 8 horas de uma segunda-feira num campo lavrado e inclinado, no Alto de Paço de Arcos. Por volta das 12 horas iniciou-se a sessão com o número mínimo de atletas, os madrugadores, e incluiu o João Gordo que ia a passar, vindo directamente de um bar de Cascais. O Milhas começou por transmitir o seu desagrado quanto à assiduidade e ameaçou despedir todos os presentes se tornassem a não cumprir o horário imposto.
- Já pagaste a inscrição, – disse o Chico Sá, o ponta-de-lança mais dorminhoco da região que mantinha uma estranha dieta desportiva, borrachas escolares.
Foi assim retirada a ameaça de despedimento colectivo, pois o Milhas arriscava-se a não ter equipa para representar o estabelecimento do “sogro”. Deu início à actividade, entregando a tarefa ao adjunto, que nem teve tempo para dar a apitadela, pois a equipa do Estudante Focas já ia a meio da ladeira, em situação de contra-ataque, enquanto que a bola tinha acabado de entrar na aldeia da Terrugem e os filhos do Manelinho do estrume, assessorados pelo Ánhuca, preparavam-se para gamá-la. Só desistiram da ideia quando viram uma chuva de calhaus a aproximar-se das suas cabeças. O treino acabou, as equipas estavam na parte debaixo do campo, no vale, e recusavam-se a subir. Aliás, já não havia quórum, o João Gordo tinha aproveitado o balanço da descida e fugira para casa da tia.
Quando o torneio começou a equipa estava na máxima força, o Charlot tinha sido o guarda-redes seleccionado, devido às suas 10 diopetrias, a Becas era a enfermeira e o Capitão estava sentado com a braçadeira de Treinador. O resto estava ao balcão do bar a atestar-se de bejecas. O Milhas nem queria acreditar quando o árbitro deu inicio ao jogo. Estava ele e o guarda-redes!
- O que é que o meu sogro vai pensar, – gritou, dando ordens ao adjunto para ir buscar o resto da equipa.
Quando a equipa adversária já estava a ganhar doze a zero, o árbitro interrompeu o jogo e advertiu o Charlot de que não podia estar de costas, mesmo estando a ser muito mais eficaz nessa posição. O guarda-redes ainda tentou explicar que era uma forma de protesto por os colegas estarem a render pouco, mas a ameaça de expulsão fê-lo mudar de atitude. Entraram mais seis golos sem resposta. Quanto ao Milhas, saiu do pavilhão à beira de um ataque de nervos e marcou um treino para as oito horas do dia seguinte. Nem o Capitão apareceu. Com as estrondosas derrotas seguintes, a equipa foi ganhando fama e enchendo o pavilhão, até que o Chinoca num dos jogos tropeçou na bola e enfiou-a na baliza da equipa adversária. Foi a apoteose final, todos se levantaram. A fama da equipa de Futebol de 5 do galego ultrapassou as fronteiras da vila e a Taça de Bom Comportamento, a maior, foi levada em braços pela equipa do capitão Milhas, que continuou a protestar e a marcar treinos punitivos para as oito da manhã. Mas o azar continuou a bater-lhe à porta: ganhou a Lotaria!