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307 estórias

Tuesday, October 17, 2006

Dias de Mérito

                           Camarada Choco


                                            Aventura 42

À porta da Escola para Desaparafusados & Afins, dez pirilampos de cor azul e com o tamanho do Arrasta-a-perna…perdão….Supervisor de Manutenção, intimidavam os trabalhadores, que iam lentamente chegando para mais um dia de trabalho.
- Hoje é o Grande Dia da entrega das estatuetas com os “Dias de Mérito”, - informava a afilhada da Dra. Sem Canudo, trajando o fato do casamento, já realizado.
Os critérios de selecção eram rigorosos, não fosse essa a imagem da gestão do Estabelecimento de Reeducação. O tapete vermelho estendia-se em direcção ao novo Espaço Desportivo, local de distribuição das comendas. O povo estava nervoso ! Na parede destacava-se um aviso: “é obrigatório o uso de identificação. Não é autorizada a presença de elementos estranhos neste “estaminé”. A segurança actuará em caso de desobediência”. E a força bruta não olhava a meios para estancar os intrusos: o Pato Donald barrava a entrada aos prevaricadores. De vez enquanto, tal qual um alarme de supermercado, lá se ouvia o barulho de uma corneta de feira, alertando para a passagem de um infractor. Entrava então en cena o Supervisor de Manutenção, que tentava deter o indocumentado, caso a perna permitisse a perseguição, o que não se passava a maior parte das vezes. Mas nem tudo eram espinhos ! A cultura tinha chegado aos desaparafusados: estava agora a descoberto uma zona pré-histórica, constituída por um conjunto giríssimo de calhaus. Teriam vivido nesta zona homens das cavernas ? Mongas cavernosos ? Porres e Virgulinos com uma tanguinha e um osso na cabeça ? Todos olhavam desconfiados para o primo do Choco.
- Parece um “crómanhôn”, - disse o Vira-Bicos, escrevendo a ideia no caderninho de planeamento de espectáculos. – Vou pô-lo no palco neste Natal, junto aos manos.
No bar a Dona Piulia explicava às colegas as razões para a sua esperada vitória.
- Vejam bem, “mérito” vem do latim, que significa “médico”. Ora a que tem mais “curriculum” para os “Dias de Médico”, sou eu. E já me doem as costas. Espero que não atrasem a festa, porque senão ainda meto a centésima baixa do ano.
Nos Serviços Administrativos o Porres esclarecia os seus assalariados que as suas ausências permanentes aos fins-de-semana, apesar de ganhar um extra para estar presente, não entravam nos critérios de selecção para o “mérito da Venteira”.
- Um homem com estas qualidades todas, Supervisor de Manutenção, Motorista Semanal e de Fim-de-Semana e Presidente, será sempre um vencedor, - dizia, com o peito inchado e a pata torta.
O Cabo ultimava a saída dos “Chips”, tentando que não se repetisse a cena das célebres “Folhas de Pagamento”.
- Ou eles saem depressa, ou o Pato Donald vai passar o dia a tocar a corneta.
O programa não era informático, tinha-se optado pelo modelo tradicional, mas muito mais fiável: o Pintor e o seu Bando ! Os B.I.P.R.I (Bilhete de Identificação Para Reeducadores de Inadaptados) silenciaram o pato e trouxeram um pouco de calma à zona da entrada.
- Estava a ver que tinha de ir a casa buscar a caçadeira e apagar o pato, - desabafou o Pintor. – Depois dava-o ao Stror Rico que o transformaria no melhor arroz da Península Ibérica.
Tirando o Choco, que congelara junto a uma das estátuas da entrada, tudo estava nos conformes. Tudo ?! Tudo não ! O Kodac tinha atribuído ao Pintor a profissão de Pintor e ele queria mais.
- Pintor, só Pintor ?! O meu grau académico é Pintor Formador Cobridor……enganei-me, foi a emoção….escreve só Formador, e enquanto o cargo não estiver oficializado no Cartão de Utente da Escola, não pincelo. Palavra de Escultor !
- Escultor ? – Interrompeu a Dra. Sem Canudo, agora convertida em Directora Geral de Mongas & Acompanhantes (D.G.M.A.).
- Escultor?! Eu disse Escultor ?! Queria dizer Formador, - emendou o senhor Pintor, de nome próprio igual ao do pai do Pitrongas, o que causava uma certa confusão na cabeça do pobre do Cliente-Monga (Climongas), levando-o muitas vezes a chamar pai ao Pintor e a dar-lhe os bons-dias em grego.
- Na minha LEI (Lei Geral Acanucada) não há lugar para “Formadores”, excepto se a minha afilhada o necessitar. O senhor mantém-se exclusivamente “Pintor”, e daí não sai, - ordenou a Dona do Espaço, conhecida entre os Mongas (Educativa) e Clientes (CAO) como a Dra. Sem Canudo.
Mas o Pintor era um homem feito com barro do século passado, tinha genes do Viriato e ripostou:
- Aqui , na Lei da República, eu sou “Pintor- Formador”.
- “Lei da República” ?! Essa eu também já comprei e não diz respeito aos mongas.
- Então, diz respeito a quem ?
- Amanhã, amanhã respondo….Kodac põe lá o “Formador”….”Lei da República”….disparate….a Lei sou EU. Tenho rapidamente de alterar os Estatutos, porque senão perco o tacho para sempre e vou ser obrigada a trabalhar na profissão que já deixei há vinte anos.
A monotonia foi interrompida por algo transcendental. O Porres entrou a andar normalmente no corredor de acesso ao novo Pavilhão Desportivo.
- Então agora já não mancas, ó coxo ? – Perguntou o Betão, a nova “cocluxe” da Cerci, com um volume de voz igual à da sua alma gémea, o Stor Pobre. Tinha entrado como Cliente, era mano da Piulia, mas muito melhor que a irmã, que ocupava um cargo de Supervisora de pegas e tapetes de Arraiolos inacabados, e sem data marcada, porque no turno da manhã começavam a montá-los e no turno da tarde era precisamente o inverso, tudo isto tendo como base filosófica o “Grande Livro Pedagógico da Doutora Sem Canudo”.
- Esqueceu-se que é coxo, - disse a Dona Gillete à sua colega mais nova.
- Eu bem te dizia que ele era coxo da cabeça – retorquiu a Dona Tosta, erguendo os braços em sinal de triunfo.
Seria este um segredo que se escondia atrás de muitos outros ? A passagem repentina de Condutor de Mulas para Supervisor de Manutenção, após a vitória numas eleições, introduzira na Cooperativa de Solidariedade o fantástico e trouxera o género lúdico contagiante que era apanágio de todas as outras “Escolas Para Desaparafusados”, o célebre “fui o primeiro a chegar, só saio dentro de uma caixa e deixo cá a família”. Entretanto, a proprietária massacrava, mais uma vez, a cabeça da Chefe Bélinha.
- Os teus subordinados andam a fazer as coisas fora do penico. À roda do cesto de papéis, que comprei a peso de ouro com o célebre subsídio para o ar condicionado, está cheio de papéis acastanhados com grainhas de uvas e caroços de azeitonas. Na minha secção isto é impensável, pois registo tudo em vídeo.
A conversa é interrompida por um sonoro flato, seguido de uma tosse forçada.
- Este deixou rasto ! – Gritou a Lolita, saindo detrás duma coluna.
- O que é que fazes aqui, Lolita ? – Perguntou exaltada a Directora auto-eleita, virando-se para a cliente.
A folga nas válvulas do Supervisor de Manutenção já era tema de conversa entre os mongas, agora chamados clientes com a Reforma da Segurança Social, e incluía também os que não falavam.
- Espero que a culpa agora não seja minha, não fui eu que o contratei – disse a Chefe Bélinha.
- Todos somos responsáveis pelo Supervisor. Por este andar qualquer dia passa para Cliente.
No andar em baixo ouviu-se de novo o som de uma corneta. Era o Stor Rico, vindo directamente do “Café Central”, a coxear. Nova corneta, novo coxo, desta vez a Terapeuta Zézé:
- Esqueci-me da identificação no “Condor”. O senhor Segurança Pato Donald pode esperar um pouco, porque eu vou perguntar ao Nélinho se já trouxe as malas da nossa magnífica excursão ao Algarve com os Mongas. Ficava naquele barco para sempre, depois de atirar pela borda fora todos os clientes.
- Mas para a próxima vez não tentes imitar a cena do “Titanic”, e ir abrir os braços para a proa. Tive de trazer mais um deficiente, desta vez uma coxa, - disse o Nélinho.
- Este Nélinho é tão insinuante que me faz acreditar no improvável, e desejar que seja real. Vou já meter uma baixa !
Na parede junto à Sala dos Têxteis, um cartaz do Departamento do Saco-Azul, situado na área do Treino Social, anunciava uma novidade:

“Aforro – Monga, se ainda acreditas que tens futuro aqui, investe numa poupança feita à imagem deste local, com garantias de retorno em mini-tijolos para barragens e tubos de ensaio para casamentos. E caso haja funerais, os nossos mongas estão aptos para tudo, são uma autêntica mina de ouro. Não há petróleo no Beato, mas em compensação a Venteira está cheia dele. A qualidade do produto é garantida pelo trabalho escravo dos funcionários e o descanso permanente das pepitas. Com os seus investimentos estão a garantir a Família e os seus Descendentes”.

Um pouco mais à frente outra novidade!

“Vá ao Parque Aventura da Bolacha, junto ao Bar Azul. Veja a magestosa videira do Virgulino; toque no pinheiro do Vira Bicos; sinta a frescura da erva daninha do Porres; prove um croquete da Duna; e muitas outras surpresas”.

Na porta de entrada o Choco continuava entregue às delícias da Santinha, que se apresentava, como de costume, em trajes menores, ou melhor, completamente pelada, influenciando assim os humores da cabecinha. Estes encontros libidinosos tinham sempre acontecido no balneário da piscina, quando ele tentava calçar as meias, que teimavam em entrar pelas orelhas; queria vestir as cuecas, amarelas à frente e castanhas atrás, como mandava a tradição, mas o nariz não deixava. A Santinha toldava-lhe a razão, ou melhor, os vestígios dela, e arremessava-o contra os prazeres da carne, neste caso um chouriço mal amanhado, com bolor, e torto, muito torto. A única parte do corpo mumificado que se movia eram os olhos, que seguiam o “show” da Santa, deixando-o numa posição convidativa: de cu para o ar ! Os glóbulos oculares estavam agora na nuca, porque a atrevida fugira para a pala, e acenava ao Choco com algo da Noruega. Estas cenas tinham sempre hora marcada quando estava no balneário, que coincidia com a presença de um velhote dotado de um fabuloso par de tomates. O reformado bem tentava chegar à roupa, mas o fato de treino estava sempre mais perto do nosso herói e ele temia ser atacado. Das poucas vezes que conseguiu alcançar as cuecas, vesti-as rapidamente, mas era tarde quando se apercebia que eram as do Choco, as pretas do Benfica. Nestas alturas já a carrinha ia longe.
Noutro canto o Pintor fazia contas ao prejuízo. De todos os “Noddys” e “Autoretratos” encomendados, foram poucos os que lhe tinham pago o serviço, sendo a mais caloteira a Patinho. Mas o sucesso era tanto, que houve quem quisesse uma pintura recatada, ou pelo menos era o que o artista tinha pensado. Felizmente que não tinha caído no conto do vigário dos pôr-do-sol africanos !
A afilhada tentava mostrar serviço, vendo nisto uma hipótese de promoção.
- É obrigatório o uso do Cartão do Cliente.
- Cliente ?! –Interveio a madrinha, - de Trabalhador da Doutora !
- Era o que eu queria dizer, de Trabalhador da Doutora.
No WC mais perto o Stor Rico olhava desesperado para o nascimento da sua careca.
- Não, não, logo agora que estou um tubarão-martelo. Se fosse há meio século atrás ninguém me agarrava, o cabelo estava pelos ombros, o bigode batia-me na testa, ia e vinha às Berlengas a nado, e ainda trazia um carapau com 30 Kg entre os dentes, depois de ter subido a Serra da Estrela dez vezes com a bicicleta do João da Fruta, e ter martelado várias suecas pelo caminho. Agora o meu ritmo é igual ao da Vespa.
Enquanto isso o Stor Pobre tinha acabado de levar com um cartão amarelo da Chefe Bélinha, por ter chamado coxo ao Porres.
- Eu não quero faltas de respeito para com o Arasta-a-Pata, - disse com autoridade.
Entretanto, as reclamações chegavam à mesa do Cabo Pilas. A afilhada da tarde, que só aceitava a Dra. Sem Canudo como madrinha quando todos saiam, reclamava:
- Então elas não são Especializadas e no cartão diz que sim. Eu não andei dois anos a comprar a Farinha “Pensal”, para agora estar ao mesmo nível das oxigenadas. Gastei um dinheirão até me sair o diploma.
- A mim saiu-me na “Cerelac”, - picou a Abelha Maia. – Ontem fui pela milésima vez ao Ministério e elas fazem poucas horas. Vou massacrar a Chefe.
O dia da Chefe Bélinha tinha nascido torto. Ela bem tentava atirar água em todas as direcções, mas os focos de incêndio iam reacendendo: o Stor Rico tinha um cano roto, a Abelha Maia mongas a mais e as colegas minutos a menos e o Stor Pobre tinha acordado com a carga toda e não largava os calcanhares ao Coxo….ao Arrasta-a-Pata…ao Deixa-que-eu-Chuto….
Finalmente ouviu-se uma corneta a sério, era o Castanheira a anunciar o início da festa de entrega dos “Dias de Mérito”. No vasto Recinto Desportivo, com capacidade para sete Mongas de 50 centímetros e dois Clientes de 1 metro e trinta centímetros e não mais do que 45 quilos e trezentos gramas, coube toda a Escola. No espaldar, a Dra. Sem Canudo anunciou os contemplados: Dona Piulia, o Supervisor de Manutenção e ela própria. Quanto aos restantes, aconselhou-os a esforçarem-se mais e a verem neles um exemplo a seguir.

Thursday, September 14, 2006

Director’s Cut

                        


Camarada Choco

                      (parte 3 da triologia "O Cabo das Tormentas" - O regresso do Cabo)
                                                     Que foi censurada na Europa

                                      Aventura 41

- Mas não era com isto que contávamos ? – Perguntava indignada a Menina Tatrícia à sua própria sombra, ao tomar conhecimento de que o Cabo pilas se tinha apresentado ao trabalho. – O homem, além de não ter dado o berro, mudou a cor para roxo. Tenho de ir avisar a Pilca.
A entrada na Sala das Roscas foi tão repentina, que passou por cima da educadora, dando-lhe uma panada no penico onde borbulhava a cera, que foi aterrar na cabeça do novo elemento, o Canivete Suíço 2, que ameaçou ir chamar o pai e o seu Mercedes, comprado com o saco azul que faz parte do fardamento dos fiscais de obras da Câmara Municipal. Um dos pingos continuou viagem e aterrou nas calças do primo do Choco, o motorista militar, que ameaçou de imediato o culpado com o pau que tinha dentro do carro:
- Deve ter sido um dos doutores ou doutoras, invejosos da minha grande afinidade com o camarada.
Aquele de quem o primo do Choco desconfiava estava longe, muito longe, a tomar o pequeno almoço, desde as oito da manhã, altura em que abriu a porta da Cerci à Dona Pilca, no sítio mais recatado da Venteira, o “Café Central”, na companhia da sua misteriosa companheira.
- O que é que queres ò mulher ? – Perguntou a Dona Pilca, assustada com a entrada intempestiva da colega.
- Nem imaginas quem é que voltou?
- Desembucha, que eu ainda tenho de pintar vinte azulejos para a Cremesse da Doutora e quinze tubos de ensaio para o Casamento Real da Afilhada.
- O Crómio!
- O dos “Morangos com Açúcar”?
- Qual “Morangos com Açúcar”, o Cabo, o Pilas, o maldito.
- O Pilas?
- Sim, o Sapo!
- Não te assustes, tenho tudo controlado e pronto para caso ele sobrevivesse, - disse calmamente a Senhora das Roscas, levantando-se e abrindo o armário, de onde tirou um boneco. – Preparei-me para este dia com o “Curso Intensivo de Magia”. – E mostrou um boneco de palha. – Apresento-te o Gonorreias!
- Bruxaria? Vê lá o que é que vais fazer.
A Dona Pilca afastou as revistas, deitou de barriga para baixo (decúbito ventral) o Gonorreias e enfiou-lhe, com todo o prazer estampado no rosto, uma agulha pelo “olho” dentro.
- AIIIIIIIIIIIIII – gritou o convalescente, lançando uma mão desesperada ao cagueiro, passando a coçar-se sofregamente.
- O que é que se passa, Kodac? – Perguntou a Psicóloga morena, aparecendo pelas costas do Cabo.
- São as cruzes, são as cruzes – respondeu a vítima, voltando-se para a colega.
- Chico?? Enganas-me sempre de cada vez que te vejo de costas. Mas estás com dores aí? O Coração é lá em cima.
- Se substituíres o “o” pelo “u”, vais ver que em mim não notas as diferenças, - tentou acalmar a colega.

Entretanto na Sala das Roscas.
- Mas isso funciona! – Exclamou sorridente a Menina Tatrícia, tirando da caixinha outro alfinete, espetando-o de imediato na parte frontal da bacia do Gonorreias.
O Pilas tirou as mãos do cagueiro e lançou-as sofregamente à fruta, dando uma cabeçada no vidro da secretaria, que assustou o Pato Donald, que foi a correr em pânico para o colo da assistente da Dona Sãozinha, obrigando-a a ficar com o telemóvel colada à vista esquerda.
- Digam-lhe que eu não estou cá, e só volto amanhã – gritou o Porres escondendo-se debaixo da secretária. - Assim, talvez ele se vá embora e só volte para a semana.
- Quando ele se misturar com os utentes nem vão notar, -exclamou a pupila da Dona Sãozinha, atirando o Pato para dentro do armário. – O Porres por arrastar uma perna e a cabeça foi logo para motorista. Isto está a ficar lindo! E não nos podemos esquecer que a Sem-Canudo está agora ao leme principal.
- Não tarda nada o barco encalha – respondeu o Porres, espreitando pelo vidro.
O Pilas estava parado, sem convulsões, e preparava-se para bater à porta.
- Vocês são indecentes – protestou a Pirosa. – Eu não quero meter-me nas vossas jogadas, mas o que estão a fazer ao senhor Cabo Pilas é desumano. A natureza já lhe deu aquele ar sapudo, o Coração atraiçoou-o, tiraram-lhe a sala, e agora vocês querem o quê?
- Sete palmos abaixo da terra – respondeu firme e com convicção a Senhora das roscas, tirando o Gonorreias das mãos da protestante e cravando-lhe uma tesoura na barriga.
A reacção do visado foi dada pelos intestinos, que soltaram um sonoro flato, que fez estremecer a porta dos serviços administrativos. O Pato Donald, que saia calmamente dos arquivos, deu um sonoro berro tipo corneta e foi enfiar-se na trincheira do Porres. Mas houve mais consequências. A orquestra sinfónica dos “Mongas com Açúcar” deixou de tocar o “Milho Verde”, a Doutora Sem Canudo riscou o cheque azul e a psicóloga morena ficou com o cabelo estilo carapinha, que levou o Gorila da Educativa a chamar-lhe “mana”.
- Epá, temos aqui um cavalo ! – Zurrou o primo do Choco, coçando a fruta.
- Devem ser os efeitos secundários dos remédios. Eles falavam em pequena flatulência.
- Pequena flatulência, Kodac ….Pilas, Pilas? – Perguntou indignada a Psicóloga Africana. – Penso que o colega não está nas melhores condições para se apresentar ao trabalho. Isso que o Cabo largou já está ao nível de um atentado suicida.
- Pôs-me em frangalhos as cuecas, - queixou-se o Pilas, desapertando o primeiro botão da braguilha.
- Eu não quero saber das suas intimidades – protestou a Psicóloga Morena Africana.
Mas nisto entra, sem aviso, a Psicóloga Loira e o Virabicos e acende um isqueiro….
- Não…….não……- ainda alertou a Assistente Social ,-cuidado com o Metano…..
A explosão foi tremenda!
No átrio só ficou de pé o Pilas, rijo que nem um chouriço nervoso. Façamos a descrição dos restantes elementos presentes:
- O cabelo da Psicóloga Loira foi parar à cabeça do Vira-Bicos, que passou a Cozinheiro – Sueco.
- A Psicóloga Morena, que já tinha sido vítima do primeiro flato do Cabo pilas, que a transformara em Psicóloga africana, herdou o bigode do Porres e passou à condição de Identidade Indefinida.
- Uma das tias que passava naquele momento, vinda directamente de um cabeleireiro, com um penteado tipo abajour, levou com as ondas de choque e ficou estilo hippie.
- A Senhora dos Têxteis saiu do estado letárgico e disse: “pode entrar”!
O Porres levantou-se e tomou uma atitude:
- Tirem o anãozinho mágico daqui antes que ele destrua o edifício.
Na Sala das roscas a Pirosa tentava separar as colegas e alcançar o Gonorreias.
- Parem, parem com essas maldades, coitado do Sapudo.
- Coitado? – Gritou indignada a Dona Pilca. – Coitada é de mim que sou uma vítima desse maldito sapo.
E novo ataque, agora um prego de aço, que penetrou no boneco de palha e furou-o de lado a lado. Parecia a partida de um Grande Prémio. O Pilas arrancou com o rabo a arrastar pelo chão, em direcção às entranhas da Cerci, deixando rasto no chão como o caracol. Quando o Porres se levantou já o Cabo não constava.
- Respeitinho é muito bonito. Eu sou o Presidente!
Pelo caminho atropelou a Dona Piulia, que meteu de imediato baixa.
- Não, não, não, - tornou a gritar a Pirosa, tirando de novo o Gonorreias das mãos das piranhas. – Vocês ainda o vão matar. Não viram que o pigmeu já ia a deitar fumo negro do escape?
- Cala-te ó mulher, não venhas para a minha sala dar-me lições de moral – impôs-se a Senhora das Roscas tirando o boneco de palha das mãos da beata, e arremessando-o contra a parede.
O arroto que o Cabo Pilas deu no bar foi tão grande, que atirou ao chão todos os noddys da sala do Pintor. Até o Lampreia enfiou vários murros na perna esquerda, preparando-se para um remate.
- Ouviste o urro do pequenote ? – Perguntou em desespero a Pirosa, agarrando no Gonorreias e atirando-o para fora da sala. – Eu não quero ter como amigas duas assassinas. É meu dever tirar-vos do caminho do Mal.
O anãozinho mágico de palha aterrou aos pés da Dona Piulia, que olhou para ele e disse:
- Olha uma pega. O que é que ela faz aqui no corredor? – Pegou nele e guardou-o na Bata.
A um bolso de uma bata chegam sempre os odores de quem a usa.
- Eu queria um pastelinho de bacalhau ? – Pediu o Cabo Pilas à Dona Espatinha.
- Um pastel de bacalhau?!
- Cheira a bacalhau. Como é daqui que se enche o maior saco azul da Doutora, pensei que tivessem aumentado a oferta.
- Francamente senhor Cabo, isto aqui ainda não é uma taberna. Tem de ir ao médico ver o que é que se passa com o seu olfacto.
Mas o Pilas estava noutra! Tinha o nariz apontado para o ar, à procura de um novo odor. Na outra ponta do corredor a Dona Piulia tinha-se escapulido, com o sinal de emergência ligado, para um canto do exterior.
- Mas aposto que está a cozinhar couves e feijão preto ? – Insistiu o Cabo Pilas.
- Couves e Feijão?! Francamente senhor Cabo, eu penso que o senhor deveria continuar com a baixa.
- Onde está o Gonorreias, Pirosa? – Perguntava desesperada a Dona Pilca, removendo todos os caixotes do lixo.
- Não sei, mas mesmo que soubesse não te dizia, bruxa malvada.
- Se não vai a bem vai a mal – gritou a Senhora das Roscas agarrando numa tesoura e correndo para a porta da sala. – Onde é que pára o Cabo Maldito?
Por vezes os céus estão atentos. Quem parou a marcha da Dona Pilca foi a ex-loiraça do Castanheira, que levou um encontrão tão grande, que foi projectada contra um dos móveis que a Doutora mandou trazer dum contentor junto à Azinhaga dos Besouros, para o Pintor o transformar à imagem desta Cooperativa de (in)sucesso.
- Vou tratar de ti, minha pequenina, - gritou a Pirosa, arrastando a Dona Pilca para a sala.
Entretanto…
- Trá-lá-la, trá-lá-lá – cantava o Nélinho no momento em que passava ingenuamente junto ao pesado amarelado que se encontrava tombado a obstruir a entrada da Sala das Roscas.
Mas nesse momento a ex do Castanheira acordou e fixou o açoriano.
- Ah então foste tu que me abalroas-te, meu bombom das ilhas. É agora que te vou encher a boca toda!
O resto são cenas íntimas, que nada têm a ver com o nosso querido Cabo Pilas.

Thursday, August 03, 2006

I Have a Dream!

                          Camarada Choco
                                                              Aventura 40

O primeiro sinal chegou pela manhã e fez-se silêncio absoluto na sala principal da Cooperativa: a impressora oferecida por um benemérito que fizera uma limpeza ao sótão de sua casa (e pensava que assim iria ter um lugar aprazível lá em cima ), mas que fora paga, e bem paga, por um projecto de apoio aos marrecos sem marrecas da câmara, debitava as célebres folhas de pagamentos, que durante muitos anos tinham sido feitas pelas saudosas mãos da sempre presente Dona Sãozinha, sem erros, e que foram depois substituídas, após a entrada da Doutora Sem Canudo, por um programa informático para traineiras da Somália.
Rostos ansiosos e corpos inquietos pelo sufoco da constante mongalhice contabilística, davam o tom a um ambiente de drama anunciado, criado pela necessidade absoluta de suprir dificuldades na atribuição de subsídios africanos: 10% do ordenado para não vir passear ao fim de semana com os mongas; 80% para quando se atingir a coordenação da própria coordenação descoordenada.
E finalmente a Folha de Pagamento debitou a categoria da funcionária contemplada: Paquete, com farda e tudo!
A notícia depressa se espalhou, a função passava a ser despejar os cinzeiros, os cheios e os vazios, e entregar bicas nas salas, com um horário de cinquenta horas semanais.
A ditadura acabara, a revolução dos cravos finalmente chegara à Cooperativa, 30 anos depois da outra. A contemplada tentava, desesperada e usando os mesmos modos de expressão da Papoila, a careca da sala do Milho Verde, voltar à posição anterior, mas a situação fugia-lhe ao controle. A máquina oferecida, mas comprada com um chorudo subsídio, que sustentava os 10% e os 80%, confirmava o veredicto.
- E ainda vou ter que comprar a farda, porque aqui as manias da Direcção são pagas pelos funcionários.
Tentou ainda uma última manobra:
- Eu é que mando, eu sou a proprietária deste espaço, a super-coordenadora de mim própria e dona de vocês todos - e ameaçou dar ordem à máquina para mudar a categoria de todos os insubordinados.
Mas o poder estava nos corredores e a contra-revolução não tinha apoios. Tentou fazer um apelo ao Presidente, mas este estava a tentar desentalar o filho da retrete e a meditar sobre a sua nova categoria: de Super-Intendente passara a apanha-croquetes. Lá se iam os 10% para não fazer nada ao fim-de-semana.
- Decreto que tudo o que aquela máquina debitar é ilegal, - tentou, mas o povo não deixou. – Isto é tudo culpa daquela contabilista que fui buscar de borla à Mitra, mas é ela a única que consegue manter o meu subsídio de super-dotada para descoordenar. Não posso mandá-la embora porque senão ainda acabo no Tarrafal.
Tentou reagrupar as tropas no Bar, mas a situação piorou quando deu de caras com 4 Noddys e uma Musa Pelada num sofá de pele de zebra, na sala do Pintor.
- Pornografia na minha quinta?
- Mas com que direito é que uma simples paquete ousa entrar por este espaço cultural, sem pedir licença? - Levantou-se o senhor Pintor, um ex-candidato ao Festival da Canção da Casa do Gaiato, agora promovido a Maioral da Roque Gameiro pela máquina marada. – Finalmente a justiça aos cinquenta anos, não andei todos estes anos a estudar e a pincelar damas para ganhar menos que o analfabeto do Presidente & Companhia. Vá imediatamente despejar os cinzeiros, sua pirosa armada em galo, os cheios e os vazios, senão apanha com um processo disciplinar por desobediência ao Maioral, senhora ex-doutora Sem Canudo, actual funcionária da categoria Paquete com Farda!
A Lei era a Lei, mesma para quem pensava que estava acima dela. A nova trabalhadora não teve outro remédio senão ir limpar as conchas e as tampas dos frascos de compota. Quanto ao ex-Pintor, escoltou-a até ao contentor, montado no cavalo da sala 4 da Educativa. Ainda pôde ver a contabilista estrábica a entrar de rompante na Secretaria, para tentar substituir o software africano por um chinês, ambos pagos a peso de ouro por um projecto para dar ar condicionado aos mongas.
- Depressa, restaure-me a categoria – gritou desesperada a Paquete com Farda mas Sem Canudo, enquanto abria a tampa verde e se cruzava com o Apanha Croquetes. – Temos de reconquistar o Poder.
- A culpa é sua, está sempre com esquemas marados.
- Não se esqueça que foi com “esquemas marados” que passou de “Instrutor de Mulas Coxas” a “Supervisor de Mongas e de Tudo o que Não Mexe”. Veja lá se quer retornar à profissão que deveria ser de toda uma vida, mas que graças a mim, e à minha astúcia, se transformou numa Lotaria.
- Acalme-se, acalme-se, estava só a brincar – acautelou-se o “apanha croquetes”, pensando no futuro. – Para condutor de mulas não volto!
Entretanto noutro canto da Escola o Cabo Pilas acabara de saber que tinha sido promovido a ajudante da cabeleireira na Sala das Roscas.
- Vais começar por derreter a cera com o bafo, ouviste anãozinho reformado, - ordenou-lhe a agora Madre Superior, a implacável Dona Pilca.
- Mas eu já não tenho bafo para apagar as velas, sou um deficiente das Forças Armadas, - lamentou-se o ex-militar, apoiando-se no ombro da Senhora dos Pincéis.
- Tira daqui o coto, ó meia-leca, e toca a trabalhar. Nesta sala és igual aos teus colegas das roscas. Tens dez minutos para preparar a cera. Já há clientes na sala de espera.
- Mas como é que isto aconteceu, ainda ontem era o Doutor Cabo Pilas e hoje sou o Chico da Cera?
- Cala-te pigmeu e toca a trabalhar!
Por cima deles, a funcionária da lavandaria, a Dona Tremelga, acabava de saber que estava aos comandos do barco e tinha rapidamente de dar um rumo à Instituição de pouca Solidariedade e de muitas cunhas.
- Eu? Porra, mas a P_ _ A da Dra. Agora é paquete e eu é que tenho de tomar conta desta M _ _ _ A ? F _ _ _ - SE o raio do azar. Ao menos vou deixar de lavar as cuecas do P _ _ _ _ _ _ _ O do Porres !
A anarquia instalava-se lentamente, até os têxteis tinham mudado de mãos. Agora era o Vira-Bicos que fazia rendas para fora e pegas para dentro e o Nelinho estava aos comandos da máquina de cozer. Quando à Dona Piúlia era a única que continuava mais para lá do que para cá, mas agora nos Serviços Administrativos a tirar fotocópias em branco.

TRIM, TRIM, TRIM,
tocou o despertador na casa da Doutora!
- Que pesadelo, chiça. Ter tantos tachos está a dar cabo de mim!

Friday, April 28, 2006

O Cabo das Tormentas (Triologia) - III



                                                   Camarada Choco
                          Triologia - O Cabo das Tormentas
Parte 3 - O regresso do cabo 
                                                    

A bonança tinha regressado e a Dona Pilca deitara a beatice para trás das costas e entregava-se agora à luxúria dos parafusos; a sua colega de martírio, a Menina Tatrícia, enterrara para sempre os remorsos e dedicava-se agora ao fabrico e exportação de sabonetes. A vida corria calma, para trás ficaram os dias loucos dos remorsos.
Mas a sorte ia mudar!
Algures na Escola de Reeducação de Desaparafusados, a psicóloga da área educativa estava ao telefone com uma encarregada de educação desaparafusada de um desaparafusado, tentando convencê-la que o cabelo do filho já não cabia na carrinha e que o cheiro atingira a redline, enquanto a mãe esclarecia que o marido, enquanto estava sóbrio, era um pai muito atento à educação do filho, tal como ela, que fora incomodada só para lhe dizerem isso. Ameaçou deixar de receber os subsídios se tornassem a acorda-la às onze da manhã.
Trim, trim…
Levantou os olhos do telefone e procurou a assistente da dona Sãozinha. Não estava.
- Que maçada, vou ter que ser eu a abrir a porta – refilou, arrastando-se até ao visor.
- Kodac? A esta hora da manhã? – Pensou, - que grande balda, entra às horas que quer – e carregou no botão.
Pouco depois um pequeno vulto compacto espreitou pelo vidro.
- Kodac, isto são horas de chegar à escola? – Perguntou de rajada a assistente da assistente da dona Sãozinha, levantando os olhos para o recém-chegado.
Ficou muda, abriu os olhos, recuou, deixou cair o telefone e, após um longo silêncio, cumprimentou:
- Bom dia Cabo Pilas, bem-vindo ao lar, doce lar.
O regresso do Cabo foi efusivamente recebido pelos alunos profundos da Educativa, e por dois coices da Papoila no armário da Dona Gillete, que deu um berro tão acústico que fez abanar as roscas da Dona Pilca e derreter os sabonetes da Menina Tatrícia.
- Meus Deus, senti um frio a subir-me pela espinha – resmungou a ex-beata Pilca.
- Epá, que grande arrepio – exclamou a ex-beata Tatrícia, rasgando a folha da revista “Maria”.
- …on…ia – respondeu, finalmente, o ex-ausente.
- Então, estás melhor?
- …elhor…que…unca!
- Estou a ver, estou a ver. Se me permites, Kodac…perdão…Pilas, vou continuar a falar com esta mãe.
- …ou…umprimentar..o…essoal.
Ao longe a Dona Pilca começou a pincelar a mesa e a coçar freneticamente a cabeça.
- Pilca, acalma-te – gritou a própria. – Que estranho, mas o que é que se está a passar? Estava tão bem.
Noutra sala..
- Estás a comer o sabonete, Tatrícia – avisou a assistente.
Toc, Toc,Toc – bateu o cabo na primeira porta do CAO.
Nada!
Resolveu abrir a porta e…
- …on…ia – cumprimentou.
- Bom-dia, bom-dia, bom-dia – respondeu uma das destravadas, abanando o corpo e trincando os dedos.
A Dona Gilette levantou a cabeça e avisou:
- Kodac, o que é que fazes aqui? Devias estar a pintar um Noddy.
Quando as lentes do bazar chinês finalmente conseguiram focar-se na cara do intruso, a senhora deu um pulo:
- Cabo Pilas? O senhor por aqui?
- …á…tou…om, ….do….melhor. Só….eria…dar os…ons….dias.
- Bom-dia também para si.
- Bom-dia, bom-dia, bom-dia, repetiu novamente a destravada.
Não houve tempo para outros cumprimentos, porque o Cabo seguiu viagem para a porta ao lado.
- Hoje não acerto com nenhum sabonete – queixou-se a Menina Tatrícia. – Não sei o que é que se passou comigo. Estava tão bem, se calhar é a “síndrome da santinha”, do Choco.
Quando o Cabo chegou aos têxteis, ouviu o berro da Dona Pilca.
- Mas o que é que se passa comigo? Nem consigo pôr uma rosca…e estes calores…este tremor – barafustava
- …on…ia – saudou os desaparafusados dos Arraiolos.
Ninguém se mexeu. Estavam todos mais para lá do que para cá, como do costume.
- …mas..o…que é que se passa? Estão…odos…alucos?
Seguiu viagem. O berro da Dona Pilca fez com que a Menina Tatrícia se precipitasse em ajuda à sua amiga de martírio. Assim, quando chegou à sala dos sabonetes, a assistente, que estava tão absorvida nos novos sapatos de pele de sapo desaparafusado, nem levantou os olhos, e limitou-se a responder-lhe ao cumprimento:
- Bom-dia Kodac.
Entretanto…
- Então, o que é que te aconteceu ó mulher? - Perguntou a Menina Tatrícia, entrando de rompante na Sala dos Parafusos.
- Estou com calores, muitos calores.
- Menopausa?
- Devo estar a ficar mais desaparafusada. Isto pega-se!
- Eu hoje também não ando a bater bem. – Confessou a Menina Tatrícia, sentando-se ao colo da Tininha.
Faltavam três metros para o Pilas atingir a porta da Sala dos Parafusos!
- Há qualquer coisa que não bate certo. Eu pressinto algo!
Toc, Toc, Toc, ouviu-se na Sala das Roscas. Ninguém ligou. Os comportamentos da Dona Pilca tinham-se agravado. De gatas no chão, coçava a orelha com a perna esquerda.
- Ó mulher, comporta-te, - gritava desesperada a Menina Tatrícia, tentando trazer à realidade a colega de infortúnio. – Eu já te tinha dito para não abusares das tintas chinesas. Agora deu nisto, o que é que te irá acontecer mais?
O destino por vezes é “madrasto”, e quando no passado há uma mancha negra, neste caso um Cabo, a vingança dos céus poderá ser terrível. Nem várias idas a Fátima atenuarão a ira celestial.
TOC, TOC, TOC, insistiu o ex-militar, não de Abril, mas de outro mês qualquer.
A orelha da Dona Pilca já deitava fumo, e um bigode republicano cobria-lhe a face.
- Outra vez esse sinal – gritou agora a Menina Tatrícia, um pouco assustada. – O “mustache” só aparece quando…
- Ele anda aí, ele anda aí – berrou a senhora da Sala das Porcas, pondo-se em pé em cima de uma das mesas e dando um biqueiro num dos alguidares, que continha o trabalho matinal das operárias.
- Ele anda aí, o fantasma do pequenote regressou para nos atormentar.
A Menina Tatrícia tinha-se sentado e, com a mão na testa, lamentava-se:
- O bigode republicano da Pilca não deixa dúvidas, é um sinal dos céus. É como o algodão, não engana. O Cabo regressou!
Lembrou-se então que, na Zambujeira do Mar, durante a peregrinação a Fátima, uma voz, vinda de um bode, lhe dissera:
“Se à Pilca um “Mustache” republicano lhe aparecer, é sinal do retorno do meia-leca.”
TOC, TOC, TOC, insistiu o retornado e prosseguiu:
- …ão …sur…dos…
- Entre – autorizou a Dona Pilca, já recomposta.
- …on…ia..
- Kodec? O que fazes aqui? – Perguntou a educadora.
- É ele, é o Belzebu Minorca! – Gritou a Dona Pilca, agarrando-se à Menina Tatrícia que, com o encosto, engoliu um sabonete de canela.
Quanto ao Cabo, desistiu de cumprimentar os colegas, e foi-se apresentar à proprietária do espaço, a especialista das especialistas, que o colocou no primeiro andar, longe dos pecados terrenos do rés-do-chão!

Sunday, April 23, 2006

Enchia-te a Boca

                                                     Camarada Choco
                                           Aventura 38

De tempos a tempos o tema vem à superfície: o conceito de “normalidade”!
Quem estiver mais de cinco anos nesta actividade de tentar “reeducar” um destravado, irá aperceber-se, durante as muitas visitas ao shopping local, que há mais gente com os carretos gripados do que com as válvulas no sítio. Isto quer dizer que o Partido dos Desaparafusados tem maioria absoluta, e o direito constitucional à “normalidade”, passando nós, a minoria, a "totós". Sendo assim, porque é que um “desaparafusado” quererá ser um “tótó”? Só se for parvo! E parvo é coisa que os desaparafusados não são. Prova disso é estarem sempre na mesma, graças à parvoíce dos totós: a interrupção oficial nas férias, que faz com que ele recuperem o estado anterior!
Concluindo, os “normais” de ontem são os “mongas” de hoje, e assim se atingem os célebres Objectivos Gerais do Ensino, sem se ter mexido uma palha. A “reeducação” é mútua!
No meio de toda esta onda filosófica está de novo o nosso Nélinho, que ainda não encontrou o seu caminho e, por tentativa e erro, lá vai conseguindo sobreviver. Safou-se dos têxteis para ir cair direitinho nas garras da madame Castafiore, uma leoa de circo reformada, já com pouco pêlo nas costas e uns caninos em falta, mas com uma fome demolidora. Tudo começou assim:
Vinha o Nélinho aos pulinhos, na sua ingenuidade açoriana, a pedir colinho a todas as fêmeas que encontrava, excepto nos têxteis, quando foi localizado, ao longe, muito ao longe, pela ex-felina brazileira, que um dia quis ser domada pelo Castanheira.
- Oh meus Deus, um tenrinho no meu dia de anos? – E escondeu-se atrás de um dos vasos da terapeuta Zézé. – Ainda bem que trouxe uma camisola verde, o tenrinho vai pensar que sou uma palmeira e engulo-o de uma só vez, - e acariciou a planta.
- Trá-lá-lá, um cogumelo, trá-lá-la, - cantarolava, na sua inocência, à medida que se aproximava da panela.
- Ui, ui, ui, até já pingo – gritava baixinho a felina, ao mesmo tempo que fazia ao tronco da planta o mesmo que os cães fazem com as pernas dos donos. – Vem, vem aqui ter com a mamã, meu “mon chérri”.
Nisto!
- Nélinho – chamou uma voz com sinais de “alta monguice”.
Voltou-se e…
- Senhora Doutora Sem Canudo ??? O que é que eu fiz?
- Porra, tenho concorrência – barafustou baixinho a tigreza. – Mas ela nem pensa que vai mordiscar este pedaço de picanha, e ainda por cima açoriana, alimentada a erva.
- Não se assuste Nélinho, eu só quero dar-lhe os “bons-dias”. Pode continuar.
- Obrigado.
- Ai vem ele, é agora, é agora que lhe vou encher a boca toda.
E ajeitou as prateleiras para o poder receber condignamente.
- Nélinho – tornou a chamar a Doutora Sem Canudo. – Eu acompanho-o, também vou ao bar, mas encher o saco azul.
- Bolas – gritou baixinho a ex-brasileira de cabeça oxigenada. – Bolas queria eu, é porra, grande porra, eles vêm para aqui, tenho de me esconder.
E mergulhou para o vaso, que ficou estilo “Torre de Pisa”, com os fundilhos a apontarem para o tecto. Mas o volume era tal e a vegetação tão rasa, que o “bumbum” não coube. Quem safou a situação foram as calças verdes do Bazar Chinês.
O par aproximava-se e a pulsação da felina já era sentida nas bordas do olho. Teve sorte, porque a doutora topou algo, mas deixou o assunto para mais tarde, porque o problema agora era a conta do gás, e precisava do dinheiro das bicas. Ao passar pelo vaso, a “proprietária” do espaço só disse “olha uma abóbora, a terapeuta Zézé vai ter que me explicar este método de estimular mongas, porque de vegetais também eu percebo. Na minha altura usávamos paus de gelados para criar rabanetes”.
- A mim parece-me mais um cagueiro…perdão…a parte traseira de uma daquelas vacas que tenho no quintal, lá na ilha – disse timidamente o Nélinho.
- O quê? Se eu digo que é uma abóbora é uma abóbora e não se discute.
E seguiram viagem.
- Abóbora? – Resmungou a dona Castafiore. – Um miminho destes uma abóbora? Mas ela pensa o quê? Ganhaste uma batalha, mas não ganhaste a guerra. O Nélinho vai ser meu, custe o que custar, nem que seja à força.
E saiu de traseira, visto ser impossível fazer inversão de marcha.
- Olé – gritou o Castanheira, desviando – se do pesado, - por pouco a madame atracava como o Pitrongas, de popa.
- Contigo atraco de qualquer maneira, meu motorista maroto. Até arrotavas.
- Cuidado com a língua, que eu agora tenho responsabilidades – avisou o Castanheira, desviando – se de mais uma marcha atrás.
- Ainda te puxo o travão-de-mão, tigrão – rosnou a sex(o)genária, mostrando os dentes, os que tinha e os que não tinha.
- Mas afinal o que é que a senhora está aqui a fazer, atrás do vaso e de cócoras?
- Estou à caça de um pitéuzinho que circula por aí. Se ele passar junto a mim dou-lhe uma dentada na maçaroca.
Foi o instinto que fez com que o Castanheira protegesse com as mãos as partes baixas.
- Tem calma meu motorista maroto, que eu agora já não quero chouriço rançoso. Quero é salpicão rijo.
- Oh minha senhora, estamos num local público cheio de desaparafusados e esses comportamentos não são dignos de uma idosa como a senhora. Se a sua filha a vê nestes preparos, o que é que irá pensar?
- Nada, ela é das mais desaparafusadas e é por isso que ouve o milho rei o dia todo.
- Já vi que não lhe posso dar um pouco de juízo. Vem aí o Porres.
- O Porres? Não gosto de cacete velho, é só côdea.
O Castanheira não queria encontrar-se com o chefe, porque senão cravava-lhe logo para fazer a outra volta, e por isso abandonou o local. Preferia a companhia dos desaparafusados genuínos.
O Porres vinha mais inclinado do que era habitual e em excesso de velocidade (talvez duas vezes a barreira do caracol). A posição dava-lhe uma panorâmica do chão e toldava-lhe a visão frontal. O choque foi inevitável. Deu-se um encontro de titãs!
- Ui,ui,uiiiiiiiiii – gritou a matrafona, agarrando-se freneticamente ao presidente. – Se não consigo petiscar um açor, sirvo-me de um torresmo.
- Porres – gritou a Doutora Sem Canudo, que estava de regresso com os bolsos cheios e com o Nélinho. – O que é faz aqui deitado? Deu-lhe um treco?
No meio da confusão que se seguiu à colisão, a tigresa tinha-se escapulido de novo para o vaso, e permanecia agora quietinha, tentando passar despercebida. E conseguira! No chão estava o homem que se intitulava o mais poderoso da Roque Gameiro, com o bigode colado ao chão e a perna marota no ar.
- Caiu uma das pedras, o muro está a colapsar, fujam – gritou.
- Nélinho, ajude o seu chefe que eu tenho de ir esconder o dinheiro na gaveta. Se o veêm exigem-me o dinheiro das refeições. Depois diga à terapeuta Zézé para me explicar a razão desta abóbora, - e tocou no enchumaço – e ainda por cima está podre. Ela precisa da aprovação de uma especialista em arranjos de vasos para desaparafusados, ou seja, EU.
- Canalha, outra vez a chamar abóbora a este bem-bom – resmungou baixinho a felina do “Circo Xunga”, tentando encolher a cintura pélvica.
Mas a uma acção há sempre uma reacção, e ao recolher a bunda, os músculos abdominais contraíram-se, apertaram os intestinos salientes e um som seco ecoou pelo corredor. O Porres, que já estava na vertical, atirou-se ao chão e gritou:
- Vêm aí mais calhaus.
- Nélinho, francamente, eu sei que lá nas ilhas vocês ainda vão atrás das vacas, mas aqui há muitas casas de banho – gritou a Doutora Sem Canudo.
- Mas eu…
- Nem “eu”, nem “mas”, recolha imediatamente ao refeitório e sente-se junto aos seus colegas, até nova ordem.
Num instante tudo voltou ao normal e o silêncio voltou ao corredor do tanque, excepto ao vaso, que abanava freneticamente. E não era por acaso. A predadora estava entalada entre os ramos e estava com dificuldade em meter a marcha-para-trás. Não foi graças a Deus mas sim ao Pitrogas, que estava de passagem, e deu-lhe uma ajuda, tendo ainda tempo para transmitir um “bons-dias” em grego.
- Cumprimentas mais uma vez e o prometido passa a ser devido.
Mas não houve tempo! A matrafona acelerou para o refeitório e, sem perder tempo, atirou-se ao Nélinho, gritando:
- Vou-te ENCHER A BOCA TODA!
Do Nélinho só se ouvia "haêga, haêga". Só dois baldes de água é que conseguiram acabar com a refeição.

Wednesday, March 22, 2006

O Retorno do Camarão

                                                   


   Camarada Choco
                                                                      
                                                                 Aventura 37

Portugal, vinte e um de Dezembro do Ano da Graça de Dois Mil e cinco. Algures a meio de uma manhã cinzenta um lamento corta a rotina da escola de mongas:

- Estou na miséria, vou ficar sem o último milhão – dizia a vítima, encostando a cabeça no ombro esquerdo do senhor Pintor, que pincelava num Noddy com a mão direita.
-Calma Camarão Reformado, calma, - dizia o artista dando um jeito com o ombro, tentando sacudir a cabeça do crustáceo para o lado do Bibi.
- Isso são gases – interrompeu a Lolita, passando em alta velocidade atrás do seu Castanheira.
- Calma ?? Então vou passar de uma vivenda para um T-10 com vista para o mar e tu dizes para ter calma, - chorou o ex -Stor Rico, agora monetariamente muito abaixo do Stor-Pobre, agarrando os colarinhos do pintor, obrigando-o a desenhar, involuntariamente, um cacete de elefante ao pobre do Noddy. – Não vou poder trocar de Mercedes…sou um pobretanas, vou ficar a ser conhecido como o Chixarro. Acabou-se o Camarão Reformado.
- Calma, calma ò Petinga….Camarão reformado….
- Viste, viste, até tu já olhas para mim e vês uma Petinga. Já todos se aperceberam do meu estado de miséria absoluta – queixou-se, puxando o bigode, que já se colara à testa. – A isto chama-se azar, sou um pobretanas azarento, sem futuro e já sem carteira da “Cartier”. Para o próximo ano só poderei ser cliente dos chineses, a minha alimentação vai ficar reduzida a arroz. Acabaram-se as lagostas, vou só poder comer ao pequeno-almoço um pratinho de torresmos e um penalty.
- Não exageres Petin…Camarão, vai ver que tudo se há-de resolver.
Ficou a Escola a saber que a ausência do ex-Camarão Reformado ao jantar de Natal se deveu ao facto de não ter dinheiro para comprar a prenda para a troca final.


Três de Janeiro do Ano da Graça de Dois Mil e Seis

Um potentoso Mercedes entrou a chiar no parque da escola e saiu de lá, tal qual um felino, um Casanova de bigode, já temperado, com um bigode digno de um Camarinha e uma cor a roçar o beduíno. Os olhos de lince escondiam-se por detrás de uns charmosos óculos de Sol “Lacoste” e os pêlos do peito esvoaçavam ao sabor do vento matinal.
- Camarão Reformado, Camarão reformado – gritou o Pintor de uma janela do primeiro andar, onde tentava secar um Noddy de cócoras a aliviar-se junto a uma azinheira. – veste a camisola, estás no trabalho e não no Passeio Atlântico.
- Na escola ?? – Perguntou assustado o ex-miserável, olhando para todos os lados.
Tal qual um golfinho, regressou ao bólide , conseguindo ser mais rápido do que o próprio bigode, que ficou à espera junto a uma das colunas.
- Assim sim, Camarão Reformado, - disse o pintor, e continuou. – Espera aí, tu estás diferente.
- Achas?
- Estás diferente do ano passado? Já não és Reformado!
- Correcto, agora sou de novo o Camarão dos anos vinte, passei a tomar o pequeno-almoço às 8H30 e não às 10H30 como antigamente.
O Stor Rico tinha recuperado de novo o estatuto e mais, muito mais, deitara para trás das costas o título de crustáceo reformado e enfrentava de novo as ondas do prazer, com o seu mastro em riste e a bandeira do Benfica na ponta. Tinha vencido a miséria e estava agora mais novo e atrevido, disposto a voltar ao século passado e aos seus ânus de glória. Até lá teria de palmilhar, em marcha atrás, o Passeio Atlântico, para assim tentar reduzir a idade dos 500 mil quilómetros para os 30 mil. Sem camisola e com os pêlos ao vento e os olhos a cortar as fêmeas, que antes não passavam de fantasmas.

Thursday, March 16, 2006

A Queda de um Anjo

                                                     Camarada Choco

                                                                 Aventura 36

As dores eram insuportáveis, as hemorróidas invadiam o cérebro, indo por-se às cavalitas das artroses, da caspa e dos caracóis. Os pastorinhos não eram nada em comparação com esta mártir da Roque Gameiro, que tinha iniciado o calvário na Pedro Álvares Cabral e feito o estágio na Brandoa.
- Meu Deus, dá-me um anjo, envia-me um sinal qualquer, que me apague este fogo. Aceito qualquer coisa, até um anão, desde que tenha uma tromba funcional.
Entretanto junto à secretaria.
- Dino Meira? O senhor é o Dino Meira? – Perguntou a subordinada da dona Sãozinha, indo a correr para o vidro da secretaria.
- Mas que histerismos são estes aqui nas minhas instalações? – Impôs-se a D. Sãozinha, levantando os olhos das folhas de pagamentos.
- Mas é o Dino, chefe! – Justificou-se a moça.
- Dino? O meu nome é Nélinho e venho apresentar-me directamente das ilhas. – Interrompeu o desconhecido, agora com identidade.
Na Venteira todas as conversas chegam aos têxteis, mais cedo ou mais tarde. A mártir levantou-se, a custo, equilibrou-se nos tamancos, com muita dificuldade, pôs uma mão nas cruzes e dirigiu-se para a porta, pondo a cabeça de fora.
- Milagre, milagre, os céus ouviram-me e enviaram-me um Anjo, com mistura de Açor e Marco Paulo.
As dores passaram, a face coloriu-se e dançou um tango com o tição que estava dormindo, que acabou também por ter um gostinho e cantar um fado.
A emoção aumentou quando a Dra. Sem Canudo, como é tradição, tomou conta da situação, mesmo sem saber nada do assunto, e encaminhou o noviço para a sala de Arraiolos.
- É meu, é meu, o anjinho é todo meu, - gritou a mártir, dando uma palmada numa aluna, que executou de imediato três pontos cruz seguidos, sem convulsões. – Este ninguém mo tira, foi-me enviado pelos céus, como dizia o horóscopo do “Borda d’Água”.
Dito e feito.
Se o Nélinho se ausentava, tinha de justificar o tempo, segundo a segundo. E a situação agravou-se quando interceptou o anjinho a falar para as ilhas:
- É uma quarentona com cara de uma …monga…de vinte!
Só ouviu “quarentona” e “cara de vinte”. Foi de mais!
- Com cara de vinte, eu?? E que mais coisas eu tenho com 20 anos ? – Interrogou-se baixinho, dando cinco pontos cruz seguidos, também sem convulsões, quebrando o recorde da sala.
Findo o telefonema, o Nélinho aproximou-se da porta.
- Aonde pensa que vai? – Levantou-se de imediato a “guarda do anjo”.
- Vou à sala ao lado pedir um lápis.
- Eu também vou! Maria, toma conta da sala.
E a cena repetiu-se o mês inteiro. Onde o Nélinho fosse, a Mancha ia atrás. Só parava á porta da casa de banho, porque o Anjo se trancava antecipadamente. Por vontade dela fazia tudo nas retretes exteriores. Dessas vezes o Nélinho ouvia, além das arranhadelas na porta, o desabafo:
- Adorava sacudi-la!
E foi numa dessas procissões que deu de caras com o Ambrósio caspa encravado na retrete.
- Só me faltava esta, - queixou-se, - assim o Nélinho tranca-se outra vez.
E foi o que fez. A mancha ficou de novo à porta. Nisto entrou uma das madrinhas do choco, e não ganhou para o susto quando um roteweiler saiu de trás duma retrete e lhe barrou o caminho.
- Onde é que pensas que vais, piranha?
- Eu vou lavar as mãos!
- vais, vais. O que tu queres sei eu, mas fica sabendo que o Nélinho é meu, TODO MEU E SÓ MEU. EU VI-O PRIMEIRO.
- Tu já pareces a papoila, qualquer dia estás a ouvir o “Milho verde”, dentro da piscina de bolas.
Por detrás da porta o Nélinho tremia que nem varas verdes. Como é que iria conseguir sair. Espreitou e viu uma careca.
- A predadora está aqui ou é a Papoila? – Pensou.
CRRRCRRRR
Um som de algo a ser arrancado do solo distraiu a fera e obrigou-a a ir dar apoio ao Ambrósio, que estava a ser içado das entranhas do cagadouro, trazendo este colado ao rabo e deixando escapar por baixo um formosos cagalhões.
Foi o suficiente para o Nélinho escapulir e desaparecer no meio dos paninhos.

“Não pare, Não escute, Circule, Perigo de Morte” , é a tabuleta afixada na porta dos Têxteis!

INDEX

                                                   Camarada Choco
                                                                Aventura 35

- Espanha, isto aqui é Espanha.
- Não, essa palavra não – gritou a Dra. Sem Canudo, interrompendo a aula de Bisca lambida…perdão…Apoio Psico Pilas Gógico , do Cabo mais famoso da Venteira, e continuou. – Atenção ao Bacalhau Pascoal, ele está traumatizado. Desde que a namorada se ausentou para Espanha que o homem se sente um genuíno cornudo. Ninguém o segura em casa, até já atacou o cão da vizinha, confundindo-o com um castelhano.
- Então vou falar do Benfica e do Sporting – disse, titubiante o cabo mais cabo de Portugal.
- Não, essa palavra também não, - alertou novamente a Dra. Sem Cascalho…perdão…sem Canudo. – O colega dele, o Bode, vai contar tudo à mãe e ela depois massacra-me toda a noite ao telefone.
A conversa foi interrompida pelo cumprimento do aluno mais brilhante da Instituição, que fazia questão de dar os “bons-dias” em linguagem estrangeira, depois de ter ido com o Vira-bicos a uma Convenção de Mongas na Alemanha.
- “Broche”, - atirou secamente, com o ar duro dos nórdicos.
A Dra. Sem Canudo estava tão preocupada com o seu Bacalhau, que nem ouviu o “Bom – Dia “ em grego.
- “Chupa-me o Pau” – disse com sapiência o Pitrongas, avançando de imediato para uma saudação em francês, “minete”. – E rodou a língua tão depressa, que se engasgou e tossiu. Como monga com uma formação pessoal das melhores, pediu desculpa pela interrupção das saudações, e justificou. – É um pintelhinho.
Mas o caso da fuga da noiva do Bacalhau para terras de Castela ocupava toda a mente da doutora mais Dra. De Portugal.
Recuemos no tempo.
A noiva do Bacalhau Pascoal nunca deveria ter saído da Azinhaga, nunca lhe deveriam ter tirado os piolhos que trouxera no primeiro dia, e o cheiro a ranço deveria ter sido conservado. O sabão “Macaco” e a escova do piaçaba roubaram-lhe a alma, puseram-na pelada de odores corporais das barracas. E não satisfeitos com esta lavagem existencial, resolveram levá-la para os cavalos em cascais, onde as tias a transformaram numa “dádinha”, mais correctamente, numa “monga dádinha”. De Cinderela a prazo passou a Princesa definitiva, e isso mexeu com a Carolina Caracol. Depressa passou a olhar para os colegas de cima de um pedestal, enterrando para sempre a vista deslumbrante que tinha da barraca da coxa do buço. O Choco já não servia para noivo, o Bibi era muito velho, o Porres era deficiente motor, talvez o Bacalhau fosse o indicado, enquanto fosse proprietário do Ferrari. Mas, o anjo vermelho que morava no seu ombro esquerdo, em substituição dos Pediculus Capitis , dizia-lhe diariamente que ela merecia mais, muito mais, talvez um príncipe árabe!
E o Ferrari do Bacalhau pascoal deixou de ser uma mais valia. A Carolina Caracol…a Dra. Carolina Caracol merecia muito, muito mais. E resolveu dar corda aos sapatos, à traição, deixando para trás o seu Bacalhau, agora reduzido a um miserável deficiente de Cacilhas, e não a um Príncipe da Noruega, como antigamente.

Wednesday, March 15, 2006

De escravo a Senhor


                                                     Camarada Choco
                                                                      
                                                                    Aventura 34

Para os lados das Artes Gráficas estava instalada a revolta. As paredes testemunhavam a indignação geral:

“Libertem o Choco”

“Abaixo a Escravatura”

“Pintor para a Forca”

“O Choco para a Sala das Madrinhas, já!”

As relações entre o estudante universitário Choco Silva e o Pintor, tinham atingido a forma de uma Guerra Total, e cada um usava as armas que tinha. O Choco transformara-se numa fábrica contínua de pastéis e agora presenteava o patrão com todo o tipo de queques, bolas de Berlim, Pirâmides e Cornucópias. Era só vê-los descer diariamente pela cadeira abaixo, ajudados muitas vezes por sumo de laranja. Já não se sabia onde ficava o WC e as Artes Plásticas. E, devido a toda estas confusão, o impensável aconteceu: o Porres entrou um dia apertadinho na Escola e urinou para dentro de um cinzeiro tipo Dali, pensando que era a sanita:
- Fui pelo cheiro – desculpou-se ao senhor Pintor.
Tinha-se atingido o ponto zero das Relações Humanas. O dono da sala já estava com os cabelos brancos de tantas preocupações, e o Virgulino numa manhã de nevoeiro comunicou à Doutora Sem Canudo que vira uma ovelha junto ao bar.
- Chega ! – Gritou desesperado o Pintor, ordenando à Espatinha para pôr fraldas ao infrator.
Foi a gota final que fez entornar a taça ! A notícia espalhou-se, como era costume, à outra ponta da Instituição de Educação e Reabilitação, e as Defensoras dos Direitos Humanos puseram-se em marcha, em defesa do senhor Choco Silva.
- Libertem o Choco, - ordenou a sargenta que comandava as hostes.
- Agarrem-me, senão eu atiro-me à ovelha, - gritou uma fundamentalista.
- Não têm mais nada para fazer, do que perturbarem os meus caracóis ? – Perguntou, indignado, o patrão das Artes Gráficas, batendo com a porta, e arremessando para cima da multidão o Virgulino, aproveitando para acusar o Choco do lançamento do membro da Direcção,
Lá dentro o Choco atirara-se com os lápis de cor a uma folha A4 e desenhara a sua revolta: um Batatoon com duas grades em cima. Antes de o enviar às suas libertadoras, assinou a obra com um brigadeiro. Foi a histeria colectiva. A sargenta recebeu a carta e mostrou a obra à multidão. Foi de imediato enviado um poney-express aos confins do edifício, que entregou o desenho a uma Comissão de Sábias.
- Meu Deus, ele é um génio: um Batatoon, duas grades e um brigadeiro fedorento ! Ele faz um apelo ao Mundo Livre para a sua libertação !
- Tirem o Choco dali, e já ! – Ordenou a doutora.
No dia seguinte o mártir apresentou-se na nova sala e foi recebido como um herói. A amizade era tanta, que o Choco abriu os braços e pediu:

- NHI NHI, NHI NHI !

E o urinol portátil foi de imediato colocado na sardanisca marota do ex-Escravo, e agora Senhor de uma sala na parte mais in da Escola.

O cabo das Tormentas (Triologia) - II


                          Camarada Choco

Triologia - O Cabo das Tormentas
                                               Parte 2 - As Duas Peregrinas

                                                               

Depois do relato arrepiante do pesadelo de dona Pilca, que lhe fez crescer um bigode tipo alentejano, e em que a pecadora contou que tinha caído num caldeirão cheio de Pilas com sabor a “Mon Chérri”, as peregrinas da Roque Gameiro não conseguiram fechar mais os olhos e aproveitaram a ocasião para se confessarem.
- Eu fui muito velhaca para o Cabo – desabafou Dona Pilca. – Vou-te contar um segredo. Fui eu que o convenci a participar no bailado “O Lago dos Cines”.
- Bailado “O Lago dos Cisnes”!?? Estás maluca ó mulher, acorda, vê lá se atinas. Aquilo que eu vi na festa foi o bailado “O Charco dos Sapos” – gritou-lhe madame Tatrícia, levantando-se.
- Ajoelha-te ó pecadora. Tu também tens culpas no cartório – berrou a agora alentejana, puxando-a pelas calças.
- Eu!?? Mas o que é que eu fiz ao maçarico?
- Tu!?? Tu gamaste-lhe a sala, e não só.
- Eu não fiz mais nada – disse a agora dona da sala do Pilas, atirando fumo, com desprezo, para a cara da colega de peregrinação.
- Ai não? Ai não? Quem é que o convenceu a entrar no bailado e lhe disse que tinha o aspecto de um Cisne?
- Um Cisne, aquele Morcego?
- Vá lá, diz que é mentira – desafiou a alentejana. – Não te esqueças que estás em peregrinação e que, se pecares outra vez, vais parar a um caldeirão cheio de morcegos com sabor a sebo.
- Ok,ok, eu disse-lhe que ele era parecido com um cisne, para o tentar fazer esquecer da sala. Mas foi com boas intenções. Agora responde-me a esta: é verdade que ele desmaiou no camarim, antes do espectáculo e tu recusaste-te a fazer respiração boca a boca? Não te esqueças do caldeirão de morcegos!
- Sim. Sim, é verdade. Ele estava ali todo esticadinho, a precisar de oxigénio, mas eu olhei para ele e vi um batráquio.
- Podias ter-te lembrado daquela história em que uma princesa beija um sapo e ele transforma-se no Carlos de Inglaterra.
- Torresmo por torresmo, prefiro o Nacional.
- Ó amiga – desabafou a peregrina Tatrícia, pondo-lhe o braço para cima. – Somos umas pecadoras genuínas. É melhor recomeçarmos a caminhada. O Cabo é o nosso tormento!
E disto isto levantaram-se, ajoelharam-se e rumaram em direcção à Lua que, felizmente para todos, estava para Norte. Meia hora depois um camião tentou atropelá-los, tendo-as confundido com dois coelhos.
Ao amanhecer chegaram à Península de Tróia e, devido ao facto de estarem de joelhos, só pagaram meio bilhete, preço estipulado para anões, marrecos e crianças.
- Ó Pilca, mas isto não é ilegal numa peregrinação?
- Ilegal? Ilegal porquê?
- Porque quem anda é o barco e não nós.
- Ó Tatrícia, querias que nadássemos de joelhos? Ainda algum pescador nos confundia com duas santolas e íamos directamente para a panela.
- Isso não era nada em comparação com o que fizemos ao Peixe-Balão.
O diálogo das duas mártires foi interrompido por uma senhora que lhes perguntou:
- As meninas fugiram de alguma Cerci?
- Cerci, acha que nós temos cara de andarmos numa Cerci? – Indignou-se a dona Pilca.
- Acho, acho, só numa Cerci é que os utentes têm um tamanho desses e bigodes.
- Pois fique sabendo que na nossa Cerci há uma educadora que elimina qualquer pêlo mais teimoso e não deixa vestígios, arrancando até as beiças, se for preciso.
A situação estava escaldante! Uma pequena multidão cercava agora as pecadoras da Roque Gameiro e havia quem ameaçasse chamar as autoridades. A dona Tatrícia levantou-se e tomou conta da situação:
- Calma, calma, eu sou a auxiliar responsável pela reeducação, um pouco difícil, desta anoa de bigode e estava só a ensiná-la a rezar.
Foi trigo limpo! O pessoal dispersou e o barco chegou ao destino. Mas, a vida não estava fácil para as pecadoras. Uma gaivota mais atrevida resolveu despejar o seu conteúdo intestinal sobre a miss Pilca, acertando-lhe em cheio no bigodão. O odor a maresia embrenhou-se pelo nariz sensível da peregrina e alterou-lhe os circuitos cerebrais. Nova alucinação!

O Cabo ocupava agora o lugar da Doutora sem Canudo e a Doutora sem Canudo era o Cabo. A Cerci era um quartel, onde todos andavam fardados. Junto a si passou o Soldado Raso Choco, que estava de faxina aos cães e a si próprio, levando na mão uma travessa recheada de croquetes, que deixou na mesa da entrada do Quartel General.
- Tenente Pintor, é favor de se apresentar no gabinete do Comandante, o General Cabo Pilas.
A conversa foi rápida e incisiva, o Pilas queria que o oficial das Artes Gráficas o pintasse num quadro tipo D. Sebastião, tendo ao seu lado os dois canídeos em posição de combate: de um lado o Virgulino com a máquina de corta relva em riste e do outro o Porres em calções tipo Batatoon. Ainda conseguiu ver a Alferes Espatinha a passar com o seu pelotão de Mongas e a gritar:
- Esquerdo, Direito, Ope dois, esquerda,direita, Ope dois….quero ver todos a marchar direitinho, nem que para isso fiquemos aqui o dia todo.
No dia seguinte ia haver desfile do Batalhão no exterior, com a presença do Grande Minorca, o Generalíssimo Cabo Pilas. No ginásio o Coronel Stror Rico com Bigode tratava da saúde aos magalas mais atrevidos. Noutra ponta do quartel o Major Stror Pobre sem Bigode, inspeccionava o cano do Choco, não fosse ele disparar inadvertidamente durante o desfile. Na sala ao lado a Capitoa Sobrinha da Doutora dava os últimos retoques, com catana, aos bigodes dos mancebos. Era a azáfama geral! O ditador não queria falhas na formatura, todos tinham de ser esculpidos à sua imagem.

A alucinação foi interrompida por uma velhota que, dirigindo-se às peregrinas, lhes perguntou:
- As senhoras podiam dar-me um autógrafo?
- Um autógrafo? – Indignou-se a beata Tatrícia. – Mas, a que propósito lhe vou dar um autógrafo?
- As senhoras não são as célebres meninas do Sado?
- Meninas do Sado!??
- Aquelas senhoras que lavram a terra com as unhas dos pés e têm carrapatos atrás das orelhas.
- Estás a ver ó Pilca? Por tua culpa andámos há dias a arrastarmo-nos pelo Alentejo e o resultado é este: as nossas unhas dos pés estão enormes, os carrapatos invadiram os nossos corpos, as hormonas alteraram-se e os pêlos descontrolaram-se. Agora somos famosas!


















Wednesday, December 21, 2005

O Cabo das Tormentas (Triologia) - I



                                                    Camarada Choco

                                           Triologia - O Cabo das Tormentas 
       
                                      Parte 1 - A Irmandade dos Mongas 
                                                                                     
                                                                                       

O Sol já ia alto quando os agentes da autoridade do sul do país, se depararam com duas jovens senhoras que caminhavam de joelhos no meio da estrada.
- Ò chefe, cuidado com as anoas que vão no meio da estrada.
O chiar dos pneus interrompeu a piedosa caminhada.
- Então, o que vem a ser isto ? – Perguntou, um pouco exaltado e a coçar os cornos doridos, o cabo da GNR, ao aproximar-se das donzelas.
- Falta muito para Fátima, senhor agente ?
- Para Fátima !?? A senhora está a gozar com a autoridade ?
- Então Fátima não fica perto de Porto de Mós ? Nós estamos a 5 quilómetros da vila, segundo aquela tabuleta – e apontou.
- Mas esta vila é Porto de Mós do Algarve e não Porto de Mós da região de Leiria.
- Meu Deus, e eu a confiar nas dioptrias da minha colega ! – Exclamou a outra caminhante.
- Mas, o que é que vos trás aqui, minhas senhoras ?
- Um cabo, um pequenito cabo – respondeu uma das anoas, levantando-se e ficando maior que o agente da autoridade, que antes falava para baixo e agora tinha de olhar para cima.
- Ajoelha-te, pecadora – disse de imediato a outra, puxando-a para a posição de beata.
- Eu !?? – Gritou o agente mais graduado. - O que é que eu tenho com isso ?
- Não é o senhor, é o nosso Cabo Pilas, que teve um treco em Lisboa e agora só funciona a carvão.
- É melhor estacionarem no passeio e explicarem-me o problema – ordenou o agente.
Depois de devidamente arrumadas, as peregrinas começaram a confissão.
- Senhor cabo da GNR, nós, humildes servas do Senhor, somos colegas de um Cabo, o Pilas, e cometemos terríveis pecados.

- Violaram-no ?
- Não, não. A minha colega, por Inveja, usurpou-lhe o lugar e mandou-o para o mesmo andar do da doutora, sem mongas. E eu, por Ganância, disse mal da Palmeira que ele rega todos os dias com muito carinho. Devido a estes monstruosos pecados, o nosso Pilas teve um treco depois de um traque..
- Um treco não – interrompeu a outra e continuou, - um RATÉ, e agora está ao nível da nossa colega dos têxteis, ou seja, mais para lá do que para cá. Pelo que nos contaram, precisa da ajuda dos tios para se sentar no bacio e, segundo o veterinário, apareceu-lhe mais um cromossoma no 21, ou seja, tem 4 cromossomas no par 21. No A E I O U, pára no I, e mesmo este tem dificuldade em pronunciá-lo. E tudo por culpa nossa ! Por favor, ajudem-nos, senão iremos directamente para o Inferno. Só Fátima nos poderá limpar estas almas desgarradas.
- Mas a culpa não é só nossa. A psicóloga da educativa confundiu-o uma vez com o monga do Kodac. O Cabo estava de costas.
- Então o que têm a fazer é virarem-se para Norte e continuarem a gatinhar.
Dito e feito. Os agentes ajudaram as donzelas a virar-se para a morada indicada, e com um empurrão puseram-nas em marcha piedosa.
- E se cagássemos para o Pilas e apanhássemos o comboio – disse a peregrina de óculos, de seu nome Pilca.

- Vira para lá essa boca pecadora – gritou-lhe a outra, de seu nome Tatrícia. – Temos de salvar o Cabo Pilas ou o demo tomará conta de nós.
- Mas, o Pilas valerá este esforço ?
- Não é o Pilas que está em jogo, mas o nosso futuro celestial – retorquiu a senhora Tatrícia.
- Pensa bem, ele está só um pouco fraquinho. E graças às nossas acções até tinha subido de andar. A culpa não foi nossa, mas dos ares da direcção.
- A culpa não foi nossa ? – Perguntou indignada a beata Tatrícia. – Eu corri com ele da sua salinha, tirei-lhe os mongas mais mongas que ele e pu-lo mais perto da doutora. Achas pouco ?
- Então se calhar a culpa é só tua, e eu não tenho nada a ver com isso, - disse dona Pilca, pondo-se de pé.
- De gatas beata, tu passaste estes anos todos a dizer mal da palmeira, ou do cacto, que ele lá tinha arrumado ao cantinho do quarto, e queres agora escapar à penitência ? Olhas que vais parar ao inferno !
- Ao inferno não ! – gritou dona Pilca, pondo-se de imediato de joelhos Avante para Norte.
E lá foram as duas almas gémeas desgarradas em direcção à salvação. Já iam em Alcácer do Sal, debaixo de um Sol infernal, quando madame Pilca viu um vulto ao longe. Levantou-se e correu na sua direcção.
- Pilas, Pilas, estás salvo, perdoa-me.
A colega tatrícia não teve outra solução senão levantar-se também e atirar-se ao pescoço da amiga.
- Pára mulher, pára. Não vês que aquilo é um bode velho. O Sol está a dar cabo de ti.
- Um bode !?? E eu a pensar que era o Pilas rijo que nem um nabo, a vir ao nosso encontro para nos perdoar dos terríveis pecados que cometemos.
- O Pilas !?? Ò amiga, ele quando se vê ao espelho, já só vê um ET de cor azulada. Nós demos cabo do Cabo, e temos de pagar por isso.
Mais à frente nova alucinação !
-É ele, é ele, está ali em cima a olhar piedoso para nós e a perdoar-nos, - gritou de novo dona Pilca, apontando para cima.
- Aquilo é um balão do”Batatoon” que foi largado por algum chaparrinho – desabafou a missionária Tatrícia. – Por este ritmo de visões, nunca chegaremos a Fátima.
- Mas porquê este “carma” ó Pilas ? O que te fizemos foi assim tão mau ?
- Foi péssimo Pilca, foi horroroso. Demos cabo do pigmeu, o pescoço dele agora está mais alinhado com a cabeça e as unhas dos pés estão azuladas. Já nem sei se Fátima será a nossa salvação!
- Vila para lá essa boca Tatrícia. Se não for Fátima, então o que será ?
- Meca, penso que só uma peregrinação a Meca é que nos irá salvar.
O dia tinha sido extenuante para as nossas heroínas da Roque Gameiro. Mal o Sol se pôs, já as duas dormiam que nem dois anjinhos querubins. Às duas da manhã o sono foi interrompido pelos gritos aflitivos de madame Pilca. O pesadelo tinha sido tão intenso, que fizera crescer um bigode tipo alentejano a esta auxiliar de meia idade.
- Foi horroroso, foi terrível, - contou a sonhadora. – Estávamos no inferno rodeadas de diabinhos com a cara do Pilas e cauda comprida. E para piorar a situação, eles tinham a forma de “Mon Chérris”.
- “Mon Chérris” !?? Um torresmo daqueles, com sabor a “Mon Chérri” !?? Estás a ficar Monga, o Cabo Pilas está a dar cabo de ti !


Fim da Primeira Parte

Segunda Parte – As Duas Peregrinas
Terceira Parte – O Regresso do Cabo

O Senhor Cagalhão

                        Camarada Choco
                                         Aventura 31

A luta do Choco tinha como fim a Igualdade e a Fraternidade entre todos os seres humanos que circulavam, dentro e fora de mão, na sua querida e amada Cerci: se havia senhores, também queria ser Senhor; se havia doutores sem canudo, também queria ser Doutor Sem Canudo; se havia gente com bigode, também queria ter Bigode...etc., etc., etc.
A fama da sua luta chegou ao Céu e este deu-lhe o maior dos presentes ! Não foi um “Senhor”, não foi um “ Canudo sem Canudo “, não foi um “ bigode “, foi....foi um “Soberbo Cagalhão”. E perguntam vocês, meus queridos leitores ( se chegaram até aqui sem fugirem do Choco, são seus amigos ! ): mas o que é que um Cagalhão tem a ver com a Igualdade ? Tem tudo. Foi por causa de um Cagalhão fresquinho, que o Choco conseguiu igualar a Tribo dos Desaparafusados à Tribo dos Aparafusados, juntando todos numa única: a Tribo dos Pioneses. ! A partir deste memorável acontecimento de Julho de 2003, a Raça Humana passou a ser uma e só uma. Passariam a haver Pioneses de todas as cores e feitios, mas só Pioneses. Tudo isto tem uma história por detrás, e é isso que eu vou contar:

A primeira pessoa a dar de caras com o intruso, foi a dona Espatinha. Ia calmamente desfardar-se, após mais um cansativo dia, dividido entre o Bar e a Sala de Artes Gráficas quando, dentro do balneário reservado aos funcionários, deu de caras com um objecto estranho junto a uma retrete.
- Uma Anaconda – gritou, correndo em pânico.
A Anaconda nem tugiu, nem mugiu. Pé ante pé, tal qual a Padeira de Aljubarrota, resolveu enfrentar a fera. Agarrou na primeira vassoura que encontrou, levantou-a bem alto e quando se preparava para desferir o golpe fatal, arrependeu-se.
- Calma Espatinha – disse de si para si. – O animal deve estar mais assustado do que eu, provavelmente fugiu de algum circo, e está agora ali quietinho e desesperado à procura de ajuda. Vou buscar uma gaiola !
Quando ia a sair do balneário, deu de caras com a madame Electrochoque.
- Electrochoque, está ali uma Anaconda. Toma cuidado.
- Ana quê !??
- Uma cobra, uma cobra muito grande.
- O quê, aquela torta castanha junto à pia ?
- Sim, sim, aquela torta.
- Na minha terra chamam àquilo um “ Valente Cagalhão “. Aqui em Lisboa tem um nome estranho !
- Cagalhão !?? Aquilo não é uma Anaconda ? – perguntou, indignada, a dona Espatinha.
Quando se virou para o animal, já a dona Electrochoque tinha o papel higiénico na mão e estava a levantar o intruso.
- Está quentinho ! O forno ainda deve andar por perto.
O entusiasmo era tão grande, que agarrou no Cagalhão Anaconda pela cauda, deixando a cabeça e o pescoço no chão.
Já perceberam porque é que este objecto tão popular, e com tantos nomes, se tornou num Facto Histórico ?
O Choco até aqui era classificado como um Ser Humano Desaparafusado, pois de cada vez que ia ao trono, deitava metade do conteúdo intestinal para fora, como ficou descrito na aventura “ Estranhos Perfumes “. Acusavam-no de sofrer um desvio anatómico no fim das costas e mais algumas coisinhas, e por isso atiraram-no, quando veio ao mundo, para a Tribo dos Desaparafusados. E agora ? Como é que os Doutos sem e com Canudos classificam o Dono ou a Dona desta Anaconda ? Naquele espaço só é permitida a presença de Aparafusados. E se também os há com desvios anatómicos no final das costas e mais algumas coisinhas, então são Aparafusados Desaparafusados. E não nos podemos esquecer que há Desaparafusados muito mais Aparafusados do que muitos dos Aparafusados. Portanto, a partir deste 25 de Abril de Agosto de 2003 só há Pioneses...ouviram bem....Pioneses.