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Sunday, October 10, 2010

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 42 - O Submarino III


O Comandante Guélas
Série Paço de Arcos
 
A Regata da Açorda

 
O quotidiano da tripulação do “Submarino” não é assim tão normal como pensamos. O comandante da embarcação ficara toda a noite a preparar a estratégia para a regata, empunhando um candelabro com velas, de olhos fixos no retrato do Patrão Lopes, a porta de entrada do seu espírito sonhador. Boacara sempre tivera uma paixão bela, simples e frágil por aquele lobo-do-mar com estátua em Paço de Arcos. Estava agora num trapézio sem rede, assinava a sangue e na primeira pessoa, porque pretendia uma sublime transformação dos seus homens, exigindo-lhes agora o quarto lugar, a contar de cima, numa regata de vinte e sete, em vez do habitual primeiro, a contar da cave. Naquela noite viu universos inteiros de regatas, e foi com convicção que na manhã seguinte se dirigiu à tripulação alinhada no convés, comunicando-lhes mais por gestos do que por palavras. Discursou com uma fúria tão feroz, que nem reparou nas grades de sumo de cevada que entravam clandestinamente no saco do soro do velho Saul, directamente para o beliche do Mac Macléu Ferreira , uma espécie de Poppey, que comia lulas recheadas em vez de espinafres. No momento da largada a voz subiu-lhe com insistência, persistência e resistência, chegando a ameaçar encerrar a tripulação no convés com as cuecas do Bajoulo, caso não trouxessem para a Marina de Oeiras um certificado a atestar o quarto lugar, não tendo no entanto reparado no riso fininho da tripulação, e no ar embasbacado do velho Saul, que tinha acabado de engolir uma carica, arrancada apressadamente com a dentadura.
- Hoje as nossa preferências não são o habitual convívio no convés, mas sim o quarto lugar, - disse, ao mesmo tempo que alguém dava início ao esquentamento duma açorda que entrara clandestinamente no Submarino.
- Comandante Boacara, hoje trouxe uma surpresa, uma refeição energética que não vai deixar a tripulação adormecer, quebrando-se assim a tradição destes lobos-do-mar.
- As minis estão proibidas a bordo, e tudo com elas relacionado, como “Galinha com Cerveja”, “Pato Bock”, “Cadelinhas embebidas em Tinto”, “Gelado de Rum”, alimentos anti-regata. – Gritou o proprietário do Submarino, espreitando com raiva para as mochilas dos amigos.
- Calma patrão, isto é uma simples açorda feita com pão, - explicou o Velho Saul, ao mesmo tempo que tomava uma pílula energética.
- E o pão foi embebido em quê?
- Água, só água!
- E açorda é condimentada com quê?
- Piripiri.
- Piripiri, um afrodisíaco? Nem pensar. Para mastro basta-me o do barco, não preciso de canas da índia, - gritou, colando a boca aberta na testa do Velho Saul, deixando sair uma tempestade inesperada, brilhante, veloz e aterradora, como se fosse, não do domínio do ar, mas do seu interior obscuro.
O grito apanhou o marujo Mac Macléu Ferreira a meio do sono, na precisa altura em que enchia com a boca uma “Sereia Acompanhante”, da marca “Use e Abuse”, tendo-se precipitado do beliche para anões a ele destinado, onde dormia com tudo dobrado, batendo com estrondo no fundo do Submarino, que fez uma volta de 180º. Foi por isso que o Chefe Máximo do Submarino achou estranho cortar a meta três horas antes e em primeiro lugar, com a tripulação a festejar o feito heróico, só comparável à chegada do Pedro Álvares Cabral ao Brazil, também ele vítima de uma açorda traiçoeira. Mas do Submarino espera-se tudo, e a atracagem foi diferente de todas as outras. Mac Macléu Ferreira foi incumbido de saltar para a doca com um cabo na mão, mal a proa do navio passa-se à vertical da primeira madeira, evitando assim que o mesmo fosse marrar mais à frente. Ao nosso herói das lulas recheadas faltava um pormenor: as lunetas com 5 dioptrias cada e uma barriga atestada de açorda e minis clandestinas. Saltou antes, muito antes, logo à entrada da Marina de Oeiras, que estava atestada de tios e de tias, e ficou preso na corda, pendurado com a cabeça a roçar na água e uma catrefada de Robalos no seu encalço.


Monday, September 27, 2010

Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 41 - Campeonato de Futebol de 5


 Comandante Guélas
Série Paço de Arcos


Para o Milhas a responsabilidade era enorme: o “sogro” tinha financiado a inscrição, após o seu pedido, no Torneio de Futebol de 5 do Pimenta, que iria decorrer no pavilhão do Clube Desportivo de Paço de Arcos e para ele só havia um objectivo, oferecer a taça ao Galego. Passaria a comer lagosta ao pequeno-almoço, santola a meio do dia e camarão ao deitar. A primeira medida que tomou foi auto-nomear-se capitão da equipa e contratar o Capitão para adjunto. O treino inaugural foi marcado para as 8 horas de uma segunda-feira num campo lavrado e inclinado, no Alto de Paço de Arcos. Por volta das 12 horas iniciou-se a sessão com o número mínimo de atletas, os madrugadores, e incluiu o João Gordo que ia a passar, vindo directamente de um bar de Cascais. O Milhas começou por transmitir o seu desagrado quanto à assiduidade e ameaçou despedir todos os presentes se tornassem a não cumprir o horário imposto.
- Já pagaste a inscrição, – disse o Chico Sá, o ponta-de-lança mais dorminhoco da região que mantinha uma estranha dieta desportiva, borrachas escolares.
Foi assim retirada a ameaça de despedimento colectivo, pois o Milhas arriscava-se a não ter equipa para representar o estabelecimento do “sogro”. Deu início à actividade, entregando a tarefa ao adjunto, que nem teve tempo para dar a apitadela, pois a equipa do Estudante Focas já ia a meio da ladeira, em situação de contra-ataque, enquanto que a bola tinha acabado de entrar na aldeia da Terrugem e os filhos do Manelinho do estrume, assessorados pelo Ánhuca, preparavam-se para gamá-la. Só desistiram da ideia quando viram uma chuva de calhaus a aproximar-se das suas cabeças. O treino acabou, as equipas estavam na parte debaixo do campo, no vale, e recusavam-se a subir. Aliás, já não havia quórum, o João Gordo tinha aproveitado o balanço da descida e fugira para casa da tia.
Quando o torneio começou a equipa estava na máxima força, o Charlot tinha sido o guarda-redes seleccionado, devido às suas 10 diopetrias, a Becas era a enfermeira e o Capitão estava sentado com a braçadeira de Treinador. O resto estava ao balcão do bar a atestar-se de bejecas. O Milhas nem queria acreditar quando o árbitro deu inicio ao jogo. Estava ele e o guarda-redes!
- O que é que o meu sogro vai pensar, – gritou, dando ordens ao adjunto para ir buscar o resto da equipa.
Quando a equipa adversária já estava a ganhar doze a zero, o árbitro interrompeu o jogo e advertiu o Charlot de que não podia estar de costas, mesmo estando a ser muito mais eficaz nessa posição. O guarda-redes ainda tentou explicar que era uma forma de protesto por os colegas estarem a render pouco, mas a ameaça de expulsão fê-lo mudar de atitude. Entraram mais seis golos sem resposta. Quanto ao Milhas, saiu do pavilhão à beira de um ataque de nervos e marcou um treino para as oito horas do dia seguinte. Nem o Capitão apareceu. Com as estrondosas derrotas seguintes, a equipa foi ganhando fama e enchendo o pavilhão, até que o Chinoca num dos jogos tropeçou na bola e enfiou-a na baliza da equipa adversária. Foi a apoteose final, todos se levantaram. A fama da equipa de Futebol de 5 do galego ultrapassou as fronteiras da vila e a Taça de Bom Comportamento, a maior, foi levada em braços pela equipa do capitão Milhas, que continuou a protestar e a marcar treinos punitivos para as oito da manhã. Mas o azar continuou a bater-lhe à porta: ganhou a Lotaria!


Monday, September 20, 2010

Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 40 - Um Oficial Encurralado

Comandante Guélas

Série Paço de Arcos
A notícia correu depressa, o ex-adolescente mais certinho da vila, o Peidão, ia casar-se, e os membros do Gang dos Meninos Ricos de Boas Famílias e Caucasianos de Paço de Arcos (G.M.R.B.F.C.P.A.) desejaram “boa-sorte” à noiva, a Santinha. Mas surgiu um problema: não havia lugar para todos, os futuros sogros do que pensavam ser o noivo mais cobiçado da Costa do Estoril queriam poupar na boda. Foram de imediato confrontados com a solução mais óbvia: os velhos saltavam, para dar lugar à juventude…e que juventude! Acabavam-se assim as madames de cabelo à “Moisés”, com fatos a cheirar a naftalina, pérolas de plástico, cachuchos de roscas e prendas miseráveis, acompanhadas por cavalheiros com dentaduras descaídas e que estavam mais para lá do que para cá, encharcados em Pritralon 2000, as criancinhas penduras não faltavam ao infantário, e às tias da aldeia prometia-se enviar os restos em “tupperweares”, para elas e para os bóbis. A festa assim rejuvenescia e com toda a certeza que seria muito mais original. Mas nunca ninguém imaginou o quanto original ela iria ser, nem o próprio Hitchock! A autorização para mais uns quantos foi dada na véspera e o Peidão e a Santinha convidaram todos e mais alguns, prometendo arranjar lugares disponíveis, nem que para isso tivessem de raptar durante alguns dos inúmeros familiares. Até o Bigornas trouxe um coirão que ninguém conhecia, mas que ele insistia ser a namorada de há muito, esquecendo-se de que no gang só havia registo da eterna Kika, uma alemã que só se lembrava do namorado quando precisava de alguém para lhe levar a bilha de gás da porta de entrada para a cozinha, nas traseiras, cruzando-se sempre com o Camaleão, irmão do Estalinho, que acampara à porta da Lentes, dentro do “Mustang” do pai, o saudoso Tio Chico, que dizia sempre com orgulho ser pai de “quatro matulões”, esquecendo-se que o filho Trovão tinha um metro e meio. Os convites de última hora foram feitos como os primeiros, de boca em boca e à porta do Pica, porque para os noivos poupar nas mariquices dos convites significava mais lugares à mesa para os amigos. Mas mesmo assim ficaram muitos esquecidos e alguns traumatizados. O dia D chegou e quando o Peidão acordou tinha ao seu lado a sua grande paixão, a mártir de nome Santinha, com quem vivia em pecado há já vários meses, para grande desgraça da mãe desta, a Dona Santola (uma “Santinha ao quadrado”, segundo classificação do jovem). Despediram-se e combinaram encontrar-se no altar para regularizar a situação com os céus. A boda teve lugar na Quinta da Granja em Sintra, pois o pai do noivo era o chefe da força que guardava os ares do país, excepto os que o filho costumava largar, e para o Orlando, o comandante, este era o dia mais feliz da sua vida, pois talvez estivesse aqui a grande oportunidade para progredir na carreira: dar todo o conforto ao filho do chefe! Na véspera do grande acontecimento paçoarcoense fez uma visita guiada às instalações, incluindo a ala mais in do palácio, os aposentos “reais” datados do século XVII, recentemente restaurados, e colocados de imediato à disposição dos noivos, para que os inaugurassem a seguir à boda. Até a retrete, onde muitos nobres tinham arriado faustosos cagalhões, se encontrava recauchutada e selada para os fundilhos do Peidão e da Santinha. Mas ao noivo, que não ligava muito a estas mariquices da História, o que lhe chamou à atenção foi o corredor dos aposentos dos oficiais, paredes meias, que estava forradinho de extintores , um por cada porta.
- Se o gang vem aqui, o Orlando manteigueiro será despromovido e passa a ser o Cabo Pilas , - pensou. – Vamos ficar longe destas tentações com a cor da maçã do Paraíso!
Como já era de prever a chegada do noivo foi acompanhada de um coro, de “Peidão” e muitos “Peidão”, que se estenderam à cerimónia na igreja, felizmente dirigida por um paçoarcoense padre que teve o bom-senso de acelerar o ritmo.
- Se queres falar com o meu irmão, até às 20 horas está no convento e depois passa directamente para o bordel, - dissera aos noivos um mês antes o adolescente Serapito quando estes escolheram o seu mano para lhes abençoar a vida de pecado.
E os gritos foram tantos que os meninos de boas famílias de Paço de Arcos ficaram com as goelas secas, vendo-se obrigados a porem-nas de molho mal tiveram oportunidade. O avô do noivo, pioneiro da aviação, juntou-se à festa e levou um amigo que conhecera, o engenheiro com cara de leitão. Nunca mais ninguém os parou! E foi nesta altura que um oficial da base foi encurralado na casa de banho, pois resolveu ir verter águas antes de um lote de meninos ir verter também as suas. Quando descobriram por baixo da abertura da porta do cagatório os seus sapatos e as calças em baixo, aproximaram-se. O Graise bufou-se durante meia hora e no intervalo entre cada petardo o Velhinho batia na porta e gritava:
- Então, então, estão aqui crianças!
O de lá nem tossiu nem mugiu, e assim ficou até que os copos dos meninos ficaram vazios e tiveram de ser recarregados. No andar de baixo a festa ia rija, o Pilas cavalgava pelos vastos corredores do palácio, enquanto que os noivos apanhavam a seca do costume, fotos e mais fotos com aves raras pelo meio. O fotógrafo era o irmão do Bigornas, e como o noivo não lhe prometera nada, excepto um almoço à conta dos sogros, simulou fotografias que nunca chegaram a aparecer. No final aconteceu aquilo que o Peidão e a Santinha temiam!
O Vaca Prenhe, cunhado do noivo depois de ter presenteado a Dona Ludres com um netinho fora de tempo, o Cabeça de Ananás, resolveu praxar o Peidão nos aposentos reais. Um minuto depois de entrarem entrou também a boca dum extintor, comandado pelo Graise, e encheu o espaço de um nevoeiro serrado, que obrigou metade do gang a refugiar-se no wc selado. E selado ficou, porque aproveitaram a confusão para verter águas para onde estavam virados. A sogra da Santinha nem queria acreditar, do quarto saia fumo branco, não porque houvesse Papa, mas sim porque todos os extintores estavam agora vazios. O Orlando não podia actuar, e por isso teve de ir o chefe que colocou todos os “meninos de boas-famílias” no exterior para minimizar os estragos. E naquela zona havia uma grande piscina atestadinha de água cristalina, que foi para onde se dirigiu o gang para se refrescar. Um minuto depois já havia jovens em cuecas a voar da prancha, incluindo a Santinha que foi atirada de vestido de noiva. O ponto alto desta banhada colectiva foi quando o Pilas baixou as cuecas e ofereceu a fruta a uma velha que espreitava escandalizada num canto do edifício:
- O que tu queres está murcho, - gritou o adolescente que, para constituir família, teve de ir viver em reclusão para o Porto, sendo agora um pai com grave amnésia em relação ao seu passado na vila mais gloriosa da Costa do Estoril.
A história deste casamento imemorável correu de boca em boca pelas damas militares, como já era tradição no ramo, e chegou como escândalo ao colo da filha de um deles, que nunca vira os noivos, mas era como se tivesse estado na boda.

Sunday, August 29, 2010

Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 39 - Olá Fresquinho


Comandante Guélas

Série Paço de Arcos


Mais uma vez o Cine-Teatro de Paço de Arcos não deixava o crédito em mãos alheias e apresentava ao exigente público paçoarcoense, pela vigésima vez, o fabuloso filme com Bruce Lee “O Sinal do Ko Lhão”. Quando deu de caras com enorme cartaz pendurado na porta, o Menino Élinho deixou-se encartar pela pose desafiadora do chinês, espécie só vista no ecrã, e por momentos encarnou no herói, vendo-se no coreto da Avenida, vestido de pauliteiro de Miranda, a aviar os filhos do Manelinho do Estrume. Regressou à realidade quando sentiu o toque do Gilinho no ombro a avisá-lo que a campainha já tinha tocado. Mas não subiram sem antes se abastecerem de saborosos amendoins, cujas cascas seriam arremessadas mais tarde para a plateia, interceptando primeiro a luz da projecção, para assim criar efeitos especiais na tela. Até nestas modernices da actualidade a gloriosa vila de Paço de Arcos foi pioneira! Quando as luzes se apagaram o público reagiu, e os pirilampos dos guias-bilhetes acenderam-se em sinal de advertência.
- Álhi, Tópitói, - gritou alguém, avisando os espectadores da presença do mais célebre bombeiro da vila, que zelaria pela segurança do recinto.
Os “Filmes Castelo Lopes” deram as boas-vindas aos presentes e nas cenas das apresentações todos ficaram a saber que o Roberto Carlos iria aparecer numa longa metragem a cores, seguido dum fabuloso Zorro a preto e branco, numa sessão 2 em 1, estratégia comercial, também pioneira da vila mais famosa da Costa do Estoril. O Nico, que estava sentado entre o Menino Élinho e o Gilinho, aproveitou a escuridão momentânea e atirou, não uma casca de amendoim, mas sim uma escarreta misturada com pedaços do fruto e da crosta, ambos torrados. O primeiro intervalo chegou, e Bruce Lee nem vê-lo. O Paulo Abelha já ressonava, e o Ruizinho do Pombalino estava com o rabo dorido, mesmo estando sentado na zona mais in do Cine Teatro de Paço de Arcos. A correria ao bar foi a do costume, havia proibição de fumar na zona do público, não uma medida ambiental, mas uma exigência do bombeiro que temia que uma fagulha pudesse incendiar aquela mistura quase irrespirável de cholé, sebo, sovaco, bufas, arrotos, e outros gases potencialmente inflamáveis. Quando a campainha tocou, a correria foi geral, vinha aí o Bruce. O Menino Élinho endireitou-se e ainda teve tempo para simular um golpe de karaté, que passou a rasar o nariz do Gilinho. Como era de prever, a cena do “Sinal do Ko Lhão” começou com uma troca de beijos entre um camponês esfarrapado, que todos sabiam ser o herói, e uma linda chinoca vestida com umas cortinas, minada de pó-de-arroz e com uns pauzinhos cravados no cocuruto, cena esta que alternava com a da chegada dos maus, que desciam a montanha que circundava a aldeia, a galope. As bocas estavam coladas, e todos os movimentos alternavam com as línguas, que não se viam.
- Espera aí que já cospes, - gritou o Todo Boneco, como já era tradição, do meio da plateia.
Os pirilampos acenderam-se e o prevaricador foi avisado de que para a próxima era convidado a sair.
- Álhi, Tópitói, - gritou outro mais acima.
Mais avisos, seguidos de outros gritos, até que o público mais culto se manifestou, pedindo silêncio. Foi nessa altura que o gangue do “Pim Ga Lim” chegou às casas e partiu tudo, excepto o Bruce Lee, que conseguiu fugir e jurou vingança.
- Conta comigo, – gritou o Menino Élinho entusiasmado.
- Para quê, só se for para o jantar, – provocou o Gilinho.
- Duvidas que eu partia o Pim Ga Lim todo se o apanhasse no Coreto?
- Tu nem uma porta partes, – gritou o Ruizinho do Pombalino.
- Lá fora falamos. Aposto uma caixa de gelados!
O desafio estava lançado, depois da vingança do Bruce Lee viria a desforra do Menino Élinho. E não demorou muito, pois o Bruce Lee parecia estar com pressa e rebentou num abrir e fechar de olhos com toda a província natal do Pim Ga Lim. E uma vez na Avenida o desafiu foi lançado:
- Aposto que não és capaz de deitar aquela porta abaixo, - desafiou o Gilinho, apontando para a barraca dos gelados “Olá”.
Não obteve resposta porque o Menino Élinho saiu a correr em direcção ao alvo, ao mesmo tempo que se via no ecrã em câmara lenta. A guardar a casota estava o Pim Ga Lim e lá dentro encontrava-se prisioneira a fabulosa Sapo. O estrondo foi enorme, mas nada cedeu. O Gilinho riu tanto que acabou por se desequilibrar e bater violentamente com a cabeça na porta, que saltou dos ferrolhos. Por breves segundos o grupo ficou paralisado, os gelados estavam ao alcance de todos. E foi isso que aconteceu! A barraca foi tomada de assalto e cada um agarrou numa caixa.
- Agarra que é ladrão, - gritou um popular.
Foi a debandada geral, o Gilinho e o Menino Élinho seguiram em direcção à sede velha do Clube Desportivo de Paço de Arcos, enquanto que os outros optaram por outros caminhos alternativos. Mas de uma coisa ninguém prescindiu: dos doces, pois correram e chuparam ao mesmo tempo, diz a lenda! Mas voltemos aos heróis principais. Ambos entraram pelo clube, é um facto, mas actualmente divergem na modalidade que se estava a jogar, o Gilinho diz que é damas, o Menino Élinho opta pelo xadrez, pormenor que nos dá a idade actual destes paçoarcoenses. Este deu logo de caras com o primo Albertino, que desafiou de imediato para um jogo, mas que lhe disse para ir montando o tabuleiro enquanto comprava tabaco. Para a história da vila ficou registado que o Menino Élinho tinha sido visto a jogar xadrez sozinho, talvez devido aos efeitos nocivos de algum gelado marado. A perseguição aos outros elementos do Gangue do Karate prolongou-se pela noite dentro, e teve como cenário a linha do comboio. Quem assistiu a toda esta cena foi um par de namorados sentadinho num banco do jardim, a Marina da casa galega e o Pinando!


Tuesday, August 24, 2010

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 38 - A Viagem


                        Comandante Guélas

                                       Série Paço de Arcos



O Peidão, o adolescente mais bem comportado de Paço de Arcos, tinha por vizinhos um gang de dez irmãos, vizinhos por sua vez do Milhas, o mais infeliz rapaz da Costa do Estoril que, tal como o Calimero, nascera com um grave problema metafísico que o levava sempre a questionar-se: “porque é que eu vim para este mundo? Na rua de cima habitava Mac Macléu Ferreira, dono de uma soberba mota de competição, cujos acessórios eram feitos com tábuas das caixas de fruta que o Zé dos Porquinhos deitava para o lixo. E a máquina era tão potente que ele tinha de ajudar com os pés de cada vez que regressava a casa. Nem o escape de rendimento, feito com latas de salsichas “Isidoro”,o dispensaram alguma vez de usar as faluas. Só quando descia o monte é que este Fangio loirinho, de olhos azuis e dioptrias não contabilizadas, se sentia um profissional. Como o andamento do Gang dos Meninos Ricos e Caucasianos de Paço de Arcos era estonteante, às vezes precisavam de fazer estágios, e muitos deles foram feitos em São Quintino, a quinta do gang dos dez, lá para os lados de Torres Vedras. E foi numa dessas ocasiões em que o Chico Sá, que ia a guiar uma carrinha citroen GS atulhada de malta e bagagens, viu a vida a andar para trás, pois o Focas conseguira pôr uma aldeia a perseguir o carro, a tentar pendurá-los num poste, com o carro incluído. Recuemos um pouco!
O senhor Américo nem queria acreditar no que via. Do Citroen saia cada vez mais gente, arrumada no meio de uma quantidade infinita de malas. Como já era tradição, antes de qualquer viagem tinham de picar o ponto no “Pica”, o café mais in da vila, o berço da maior parte dos adolescentes nascidos nos anos sessenta, que largaram os biberões por altura da Revolução, e que as únicas pistolas que dispararam foram aquelas com que vieram ao mundo, uma tentação para um Capitão vindo directamente da Quinta Divisão para tentar ensinar aos petizes o manejo das ditas. Em São Quintino passava-se sempre o mesmo, pregar cagaços atrás de cagaços ao mais jovem elemento do gang dos dez irmãos, que tinha substituído a terrível figura do Papão, tão comum no resto do país, pela do Peru que o obrigava, nas noites em São Quintino, a dormir com a luz acesa. Nestas ocasiões os cortes de energia eram constantes, e a confusão permanente. Recuemos! O senhor Américo agradeceu aos céus quando viu o carro a partir, pois algumas ovelhas negras do rebanho acinzentado iriam estar ausentes da vila, e isso significava alguma paz e tranquilidade. Quando entraram na marginal, o Focas deu um flato tão grande que obrigou os amigos a permanecerem com a cabeça de fora até à praia de Caxias. A condução era feita a meias, não que o Chico Sá, o motorista, saísse do lugar, mas sim porque o Focas, o co-piloto, tomava conta do volante para que o amigo pudesse fumar calmamente um cigarrito. Quando já estavam mais perto de Torres Vedras do que de Paço de Arcos, para descanso desta e azar da outra, o Focas pediu para pararem junto a um café, onde estavam todos os habitantes de uma aldeia. Abriu o vidro e levantou o braço a pedir ajuda. O Chico Sá pôs o ponto-morto, puxou o travão de mão, acendeu um cigarrito e encostou-se à porta. Ninguém questionou a estranha necessidade do amigo em querer entrar em diálogo com os autóctones. Talvez precisasse de dados para alguma cábula futura.
- Por favor, - chamou o Focas com o sorriso mais doce, os olhos mais brilhantes e a voz mais meiga da Costa do Estoril, que só ele conseguia fazer.
Um rapaz de buço saltou da mesa e aproximou-se todo solícito do carro dos “estrangeiros”. Por momentos ficaram dois olhares embevecidos frente a frente, mergulhados num sonho. Até que:
- Qual de vocês quer levar no cú? – Perguntou a seco, sem preliminares, o mais fabuloso boxista de Paço de Arcos.
Por momentos num estado sem tempo, imóveis e mudos, sem vontade e sem pensamento. O Chico Sá, que já estava meio a dormir, acordou sobressaltado, o buço do aldeão levantou-se e atrás dele veio o lábio, ficando à mostra o único canino existente, no fundo dos seus olhos viam-se clarões raros, os amigos, primos, tios, pais, sobrinhos e vizinhos, absorveram a pergunta. O Focas manteve o sorriso angelical, porque o tempo ainda não passara por ele, o amigo motorista correu em pânico para o acelerador, depois de ter engolido a beata, as amígdalas do autóctone eram agora visíveis por todos, os vidros das portas subiram a todo o vapor, a populaça começou a reagir. De repente toda a aldeia ganhou uma velocidade de movimentos, unida às raízes da sua raiva, pela urgência de uma justiça rápida que pendurasse os forasteiros e o carro no poste mais próximo.
- Arranca, - gritou o Focas quando sentiu o bafo da aldeia.
A confusão era tão grande que o Chico Sá não conseguiu enfiar, durante breves, mas potencialmente fatais, segundos, alguma mudança. Fugiram in extremis com um exército circunspecto e severo no seu encalço, disposto a cometer um crime.

Wednesday, August 04, 2010

Camarada Choco 67 - A Prova dos Nove


Camarada Choco
Aventura 67



- Tu és um calhau com olhos, - disse, com vaidade, o coxo-mais-rápido-da-Brandoa, dando uma palmada severa na cabeça do colega, que fez eco.
O desafio tinha sido o do costume, nomear as quatro cores definidas como meta pela Dra. Sem Canudo, para o sucesso educativo na fabulosa Escola para Desaparafusados da Venteira: Vermelho, Verde, Azul e Amarelo. Apesar de ser confrontado todos os dias, a todas as horas, em todos os sítios, por todas as pessoas, com estas quatro tonalidades, o colega do coxo-mais-rápido-da-Brandoa, o Filete, “Fi” da parte do pai Filipe, e “lete” da parte da mãe Arlete, olhava sempre para o Vermelho como um boi para um palácio, e chamava-lhe Azul , depois de muitos silêncios e de várias introspecções, onde procurava desesperado por pequenos detalhes que lhe facultassem o nome da cor, e evitassem assim as consequências previsíveis. Os colegas desesperavam sempre, e não conseguiam compreender como é que o Filete não dava uma “p’rá” caixa, e por isso a cada resposta errada arriavam-lhe um calduço dos antigos, tentando estimular-lhe algum neurónio perdido no espaço vazio onde deveria estar a mioleira. Nestas alturas a cabeça do Filete parecia um gongo de igreja a chamar os fiéis para a missa.
Mas o coxo-mais-rápido-da-Brandoa não sabia que iria ser confrontado com a dura realidade, onde nem tudo se equivalia e onde a tendência para a verdade vinha sempre à superfície. Foi como se uma única e profunda fissura se tivesse cavado na sua alma, levando esta chita bronzeada a tomar consciência de que o seu defeito na perna direita também se estendia ao coco. A visita natural da pequena Maria, uma Aparafusada de uns escassos 6 anos, causou uma tensão no coxo-mais-rápido-da-Brandoa, levando-o a tomar consciência do seu passado perdido e do tempo presente. Os gestos da menina traduziram, com rigor científico, as subtilezas e as misérias deste Desaparafusado de 17 anos. E tudo isto por causa do canalha do “Jogo Júnior de Luz e Som”, que deveria ter um aviso na capa, tal como têm os maços de tabaco:
“Jogar com Aparafusados e Desaparafusados ao mesmo tempo faz mal à saúde destes últimos”
Mas recuemos no tempo.
Quando o coxo-mais-rápido-da-Brandoa foi confrontado com o “Jogo Júnior de Luz e Som para crianças dos 3 aos 6 anos”, aceitou de imediato o desafio, olhando com vaidade para os colegas, que estavam em estado letárgico. As placas e as perguntas desfilaram perante o único olho disponível, uma vez que o outro fingia que via, e a luz vermelha esteve mais tempo acesa do que a verde.
“De onde é o pormenor?
O que é que não está relacionado?
Procura 14 alimentos
Procura 14 brinquedos
Qual é o mesmo?
Quantos há?”
Muito tempo depois deu por terminada a gigantesca tarefa e desabafou:
- Ai, gostei, estou cansado da cabeça, é muito difícil, tenho de descansar.
Das orelhas já saía um espesso fumo negro, e a cicatriz que lhe atravessava grande parte do coco inchara, parecendo querer abrir de novo, não para deixar sair a mioleira, que essa já tinha saído na altura da queda sobre as rochas, mas sim para facilitar o arrefecimento da areia.
Foi neste momento que a pequena Maria entrou e ao mesmo tempo que falava nas aventuras da vida, fez as 12 fichas num abrir e fechar de olhos, sempre com a luz verde a acender. O coxo-mais-rápido-da-Brandoa nem quis acreditar:
- Ah, foi tão depressa! – E adormeceu.

Saturday, July 31, 2010

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 37 - O Massinhas


Comandante Guélas

Série Paço de Arcos


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O Massinhas nascera sissioso e parecido com o Manelinho dos livros da Mafalda, ou seja, tinha porte de leitão. E para agravar, o interior do coco estava em curto-circuito permanente sendo por isso o alvo ideal para os netos da Dona Ludres, generala por parte do marido. Para o Nódi, o Gui e a Ninani o melhor presente que a vovó lhes poderia dar era convidar a sua grande amiga Maria Alice, pois com ela vinha sempre acopulado o já famoso Massinhas, que significava farrobadó para os netinhos de oiro da generala e consulta garantida no dia seguinte no psicólogo do costume, para o visitante. Mas houve um dia em que o farrobadó se assemelhou a uma bomba atómica, e este teve consequências desastrosas para este petiz que vivia um século atrasado. E tudo se passou no último minuto da visita! Até lá o Massinhas já tinha ficado a apanhar toda a tarde, não compreendendo porque é que a pedra que decidia o cargo lhe cabia sempre em sorte, e de cada vez que iniciava a contagem, já era tradição, os outros fugiam para dentro de casa, zona interdita ao Jogo da Apanhada, e iam ver televisão. O Massinhas desesperava, fazia quilómetros no vasto jardim, e isso reflectia-se na sua cara, que acentuava cada vez mais a cor de leitão. Quando já estava desconfiado, apareciam todos a tocar no coito e festejavam a vitória. Os adultos que conversavam animadamente na relva sentiam nestas alturas a tensão, a quezília, o conflito, a aversão, a violência, a crueldade, o desespero, a dor, a destruição, do pouco juízo do Massinhas que, geralmente, soltava de rajada todos os palavrões que aprendera com o pai, também ele com graves problemas de asfixia emocional. Mas nestas alturas o petiz já parecia um sapo que inchara até atingir o tamanho de um boi e as suas meditações eram sempre viscerais. E havia uma altura em que os adultos tinham o bom-senso de se separar. Foi num destes momentos, quando o Massinhas se preparava para descer a escadaria de acesso ao exterior que o Gui se aproximou e lhe pôs a mão no pescoço, convidando-o a ir à garagem ver a sua Play-Station que ficara em casa. O golpe estava montado. O tio Peidão, que já devia ter idade para ter juízo, mas nunca o encontrara, tinha-se posicionado atrás de um carro com uma máscara diabólica de um ser verde, e aguardava pacientemente a chegada da canalha. Até a Santinha, a tia mais linda do mundo, estava ao corrente do plano e optara por ficar no jardim, junto aos adultos, a limpar a piscina, para assim tentar subir pontos na consideração da sogra, a Dona Ludres (generala por parte do marido), detentora exclusiva da moral e dos bons costumes do alto de Paço de Arcos. Quando se apercebeu da chegada do gang à garagem o tio Peidão colocou a máscara à pressa, mas não foi preciso, porque o Massinhas estava a olhar para lá e apanhou um cagaço tão grande que soltou um grito assustador, e saiu a correr e a deitar fumo pelas orelhas, passando pela Santinha tão rápido que só parou no colo da avó, aliás, aterrou, porque saltou. Mas não teve muita sorte, pois a dona Maria Alice, senhora absoluta da Porcalhota, mal sentiu água no carrapito em forma de ananás que lhe decorava a cabeça forrada de areia, atirou de pantanas o netinho para a relva.
- Monstro, eu vi um monstro na garagem, – gritava o Massinhas, procurando alguma alma caridosa que o protegesse da visão aterradora do inferno que presenciara.
Mas a sua fama estava de rastos, não tinha credibilidade alguma, foi por isso que o avô, o coronel com cara de papagaio, gritou palavras pesadas:
- Este miúdo está cada vez mais estúpido. Agora até vê monstros!
O Massinhas tinha sido atirado para um universo virtual e no seu Cérebro inconstante plantara-se um monstro verde difícil de extirpar.
No terreno já andava o fiscalizador da verdade, o antropomórfico investigador e visionário, pai do Gui, um ex -Cabo destituído de contradições, falhas ou hesitações, omnívoro, mas acima de tudo o sintonizador oficial da dona Ludres (generala por parte do marido), que insistia em comprar aparelhos chineses para poupar dinheiro para as inúmeras viagens que fazia ao longo do ano. Ele vira o seu filho entrar na garagem abraçado ao Massinhas, depois de ter estado toda a tarde a tentar matá-lo, e desconfiou. Olhou para um e viu um estranho anjinho, criado e educado pela sogra, e olhou para o outro e viu um morcego com a alma amarfanhada e o rosto a arfar, abraçado à mãe, a tremer por todos os lados e a espumar da boca.
- Aquilo não vai lá nem com um camião de psicólogos, – pensou, tentando arranjar uma explicação para aquele minuto fatal.
- A culpa é dele, o meu neto está cada vez mais estúpido, – insistiu o avô papagaio, já de pé. – Não se incomodem, isto é uma nódoa para toda a família.
Tudo foi esclarecido com a verdade, após o regresso do investigador do local da tragédia. O ex-Cabo do General, e favorito da generala, que só não conseguia sintonizar o “sonotone” da avó da esposa, ambas surdas que nem portas, aproximou-se dos presentes e explicou:
- O mistério já está esclarecido – disse, puxando o peito para fora e abrindo as asas. - Foi tudo uma grande coincidência. Na altura em que eles iam a entrar na garagem caiu uma lata da garrafeira e assustou-os.
- Eu vi um monstro, eu vi um monstro, – insistiu o Massinhas, desesperado. – Há um monstro na garagem.
- Levem daqui o miúdo antes que envergonhe mais a família. Palerma, – retorquiu o avô papagaio, agora ainda mais vermelho que o neto, e também a espumar da boca.
A verdade do Cabo prevaleceu durante três longos anos, o Massinhas dormiu largos meses na cama da mãe, e o Psicólogo fartou-se de facturar. Nunca mais os avós o trouxeram à casa da Dona Ludres (generala por parte do marido), mesmo com os convites insistentes dos seus netinhos de oiro.

Friday, July 23, 2010

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 36 - Penina à Noite


                         Comandante Guélas
                                 Série Paço de Arcos


Era nesta classificativa do Rali de Portugal que se soltavam todos os demónios que habitavam dentro das pessoas. E os “meninos de boas famílias” de Paço de Arcos estavam cheios deles. Após o bólide ser engolido pela noite serrada, depois de ter tornado dia, por breves segundos, uma pequena parte do asfalto, e o seu ruído ensurdecedor ter obrigado os demónios a fugirem assustados para as suas casas, tudo voltava a cair na escuridão da Penina. Era nestas alturas que a festa retornava à estrada. Um Tarzan sobrevoou o povo na sua liana, mas o grito tornou-se aflitivo quando ela se partiu logo a seguir a ter atingido a vertical do alcatrão, obrigando o selvagem a uma aterragem forçada, e de costas. As lanternas acenderam-se e descobriram que o morcego era o Xinoca, o acólito mais alcoólico da vila, e que nem um “pio” soltava.
- Se não o tirarmos dali vamos levá-lo para casa em forma de tapete oriental, - disse o Olho Vivo, com uma vista no chinês e a outra no decote duma desconhecida.
Bastou passar um copo a transbordar de cachaça pelas suas narinas, para que o preferido do Capitão da Quinta Divisão voltasse à vida e corresse apressado para o seu garrafão, que o aguardava em cima do barranco. O chinês tinha ficado desidratado com a queda. Quando já se ouvia ao longe o roncar de mais um bólide, eis que outro artista aparece no palco, fazendo questão de presentear o público com uma pega de caras. Tinha feito mal os cálculos e acabou por ser atirado à valeta, não com o impacto, mas sim com a deslocação do ar. O Peidão aproveitou mais esta pausa para tentar entrar em contacto com o Zé Pincel via Walkie–Talky, que tinha ficado na base a guardar os “peidociclos”.
- Pincel, aqui Peidão, escuto!
- Rrrrrr…rrrrr.
- Pincel…estás a ouvir-me?
- Rrrr…dão..ou…tomar uns copos.
- …copos???...Guarda o aparelho no bolso..
- Rrrrrr
Finda a comunicação, mais duas horas de prova. Depois foi a terrível descida. O Mac Macléu Ferreira estava mais para lá do que para cá e o seu peso era incomportável com os corpos franzinos dos amigos. A opção tomada foi deixá-lo a dormir na vala e ir buscar uma mota. Quando chegaram à base foram recebidos por um Zé Pincel com o capacete integral na cabeça e em estado etilizado que nem lhe permitia conhecer os amigos, muito menos o paradeiro do aparelho. Desapareceu na escuridão e só ouviram algum tempo depois o motor da sua Zundapp em alta rotação a desaparecer na noite fria e escura da Penina. Foi nessa altura que a estrada foi aberta ao público e os únicos a subirem foram os membros do Gang de Paço de Arcos. O Mac Macléu Ferreira só foi descoberto meia-hora depois, após difíceis buscas ao longo da valeta.
- Ficou sem cara, - gritou o Zé do Fotógrafo, ex- cozinheiro-comando, irmão do Bigornas, gerente da mais importante loja de fotografias da vila de Paço de Arcos, a Jomarte, “onde a sua cara de cu fica uma obra de arte”.
O mistério foi esclarecido quando olharam melhor para o adolescente caixa-de-óculos loirinho. A cara estava tapada pelo jantar, que tinha saído sem pedir licença. Veio à boleia do condutor mais sóbrio do grupo, o Velhinho, que o levou de imediato para o Hospital de Cascais, porque necessitava urgentemente de uma dose de glicose. O Mac Macléu Ferreira teve direito a uma unidade, enquanto que o seu motorista Velhinho, o sóbrio, gramou com duas. Entretanto na serra procedia-se a outra busca, o Walkie–Talky do Peidão. A sorte estava do lado dos bons. Um elemento do grupo que pernoitava alinhadinho debaixo de uma árvore contou-lhes que umas horas antes tinham sido atacados por um desconhecido, que lhes dissera ser lutador de Karaté e quisera praticar com eles a arte milenar.
- Tivemos de nos defender daquele louco, que para o Karaté não parecia ser dotado, acabando por tentar acertar-nos com este rádio.
O Zé Pincel apareceu no dia seguinte com a cara toda inchada e, segundo explicou, tivera um acidente de mota. No entanto não foi capaz de explicar como é que a mota e o capacete nem um risco tinham. Quanto ao Mac o Velhinho contou que o tinha levado a casa, aberto a porta e perguntado se estava bem:
- Estou rijo, - e avançou, batendo com a cabeça na parede, com tanta força, que a mãe acordou.
O motorista pirou-se, pois não queria que o vissem sóbrio, dava mau aspecto.






Thursday, June 17, 2010

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 35 - O Senhor "Xantola"


 Comandante Guélas
Série Paço de Arcos 

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- Esta ainda há-de ser a casa mais afamada de Paço de Arcos, – prometeu o senhor Xantola, ajeitando as patas do caranguejo grande, pescado junto à saída do esgoto do “Chalé da Merda” (o colector de esgotos da vila) e comprado clandestinamente (livre de impostos) como era e continua a ser tradição nos restaurantes da zona.
- É para lhes dar um ar sensual, – explicou o Xantola ao atento Focas. – Assim, o cliente fica com água na boca e entra, tendo direito a ser atendido pela minha filha Tita-dos-Pés-Sujos, sob visão atenta do seu noivo Bajoulo, que está ali na mesa das imperiais desde ontem à noite. Vai dar um genro de peso!
- O marketing é perfeito, o senhor irá com toda a certeza roubar a clientela ao seu primo galego. O Bajolinho é uma jóia, é um descanso para qualquer pai, – disse o Focas, atirando de mansinho uma santolinha para o aquário dos peixes.
Mas como os exames estavam perto, o estudante Focas despediu-se do senhor Xantola e foi para casa fazer o exame nacional, roubado uns dias antes e agora na posse de todos os estudantes de Paço de Arcos. Só saiu depois do jantar, para se juntar ao grupo de amigos que o esperava no “Áries”, o Centro Comercial junto à estação, onde também se situava o novo restaurante que pretendia fazer sombra ao velho e famoso restaurante “Os Arcos”. A noite iria ser longa, aproximava-se uma “directa”, no dia seguinte um grupo partiria em direcção a Chaves, para desceram o rio Tâmega até Amarante. Só o motorista, tinha recolhido aos aposentos, excitado com a aventura em que se ia meter, não a de descer o rio, mas sim pelo facto de ir passar uma semana com um grupo de adolescentes tenrinhos. Quando a torre da igreja deu as badaladas da meia-noite, o Focas juntou-se aos amigos. Pelas duas da madrugada começou a retirar da parede um cartaz que anunciava a vinda dos “Tubes” a Cascais, e embrenhou-se nas catacumbas do espaço comercial. Apareceu dez minutos depois com algo embrulhado no papel. Parecia um bolo, um tronco de chocolate. Chocolate?! Chocolate não era, mas sim o conteúdo intestinal do velho Focas, o maior cagador de Paço de Arcos e arredores.
- E agora, o que é que faço a isto?
Os amigos recuaram e veio-lhes à memória as férias passadas em Sagres e aquele dia em que o Focas tivera uma dor de barriga e resolvera a questão abrindo uma cova à beira-mar, ao mesmo tempo que assistia a uma partida de “beach-ténis” entre dois turistas. Tentaram atacá-lo durante o acto fisiológico, mas quando estavam a um metro do cagador ele voltou-se repentinamente, agarrou no cagalhão e atirou-o. Felizmente nessa noite não estava nos planos desperdiçar tão formosa escultura. Resolveu espalhá-la pelos vidros do restaurante do senhor Xantola e tapar-lhe as fechaduras. O cartaz dos “Tubes” também ficou colado! Até às dez da manhã o material secaria e o proprietário, mais a sua bela filha, a Tita-dos-Pés-Sujos, iriam ter uma surpresa, e das grandes. Mas a festa não ficou por aqui! As frinchas entre os vidros não estavam tapadas e houve um concurso de escarretas, cujo objectivo era decorar as carapaças das Santolas cozidas que ocupavam a montra. Até com mijas participaram!
No dia seguinte estavam longe, muito longe, e com toda a certeza que as culpas iriam cair direitinhas no já célebre Cocciolo.


Wednesday, May 19, 2010

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 34 - Eu Peidão me confesso!


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Comandante Guélas
Série Paço de Arcos

Como faço meio século de existência começo por explicar a origem do nome porque sou conhecido na gloriosa vila de Paço de Arcos: Peidão! E para baralhar as contas o nome nada tem a haver com o excesso de meteorismo intestinal, mas sim com uma questão de relações públicas. Esta alcunha ficou para sempre entranhada no meu já grande nome e uso-a como “cartão de visita”.
- Olá Janeca, daqui fala o Miguel, posso falar com o Rui? – Perguntei ao telefone, com uma voz suave e bem colocada.
- Miguel?? Miguel quê?
- Peidão! – Acrescentei.
- Já podias ter dito!
E a partir deste momento apercebi-me da grande importância do meu indicativo. A razão era simples, durante uns meses após ter feito onze anos mandava levar na “peida” todos aqueles que o chateavam, e tantas foram as vezes que acabou Peidão. O aluno 191 do Colégio Militar fazia agora parte daqueles que, além do número, também tinham uma identificação alternativa, com registo no livro de alcunhas da instituição, onde outras também se destacavam, como o “Cuecas de Buda”, o “Cu de Senhora”, o “Peidocueca”, o “Beduíno”, a “Judi”, o “Horrível”, o “Escalope”, o “Gordini”, e muitas, muitas mais. As novas gerações amaricaram e passaram para os “nick name”, como o “Solid Sonic”, o “Rickybaby”, o “Magnífico Repolho”….Quanto ao Peidão, agora um exemplar chefe de família, mantém-se firme e hirto como uma barra de ferro.
Quando se enamorou pela sua Aninhas, uma paixão bela, simples e frágil, primeiro só lhe disse o nome oficial, mas quando resolveu apresentá-la aos amigos não teve alternativa. No dia do casamento, quando entrou na igreja da Quinta da Granja em Sintra, para se dirigir ao altar, ponto de encontro que combinara com a sua Aninhas logo de manhã quando acordaram juntos na casa onde viviam, olhou para as galerias e deu de caras com os amigos que abriam e fechavam a boca, um coro que pronunciava o seu célebre nome. Felizmente a casa de Deus distorceu a letra e à plateia chegou uma “Ave Maria” em latim de Trajouce, que emocionou as beatas, atónitas com tantos “meninos de boas-famílias” reunidos ao mesmo tempo, num lugar sagrado. Deveriam com toda a certeza pertencer aos escuteiros de Paço de Arcos. A noiva, que já ia a meio caminho quando os anjinhos cantarolavam, foi entregue pelo pai e o padre, que também era um amigo e sabia de cor a letra, deu rapidamente inicio à cerimónia e ordenou ao casal que se ajoelhasse.
- O Peidão tem o preço dos sapatos nas solas, - gritou o Espalha.
O auto-colante mostrava ao público que as faluas do noivo eram made in Maconde, e que os números correspondiam de certeza ao preço mais baixo da loja, o que comprovava definitivamente a forretice compulsiva do jovem.
Desde muita tenra idade que a relação do Peidão com os números foi muito conflituosa , obrigando as professoras a trabalhos extras de reguadas que lá encarrilaram o petiz, mas não o endireitaram. Sobreviveu no sistema, no meio de Derivadas, Exponenciais, Logaritmos, Variáveis, e muita mais treta que não serviu, nem para ele, nem para a maioria dos amigos que escolheram a área de Ciências, uma vez que aqueles que agora acusam os filhos de nada fazerem, foram aqueles que no 5º ano do liceu se piraram para letras, intitulando-se agora os intelectuais de serviço. Nos curtos fim-de-semana em que via o filho, porque este andava no Colégio Militar onde entrava ao domingo à noite e só saia no sábado seguinte à tarde, o pai tentava-lhe dar explicações de matemática mas depressa desistia, obrigando-o a fazer os exercícios que ele tentara explicar. O Peidão queria era ir brincar com os amigos, mas sem o TPC correcto nem pensar. Pedia então ajuda aos céus para lhe iluminarem os neurónios, mas de lá nunca veio uma ajudinha, nem um simples raio de sol. Nunca soube se Deus não o ajudava por escrevia por linhas tortas, ou se também não percebia nada desta chata ciência dos homens. Sobrevivi!
Beijinhos a todos


Saturday, May 01, 2010

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 33 - A Fonte Santa




  Comandante Guélas

Série Paço de Arcos
 
O Peidão era aquele tipo de adolescente que todas as mães sonhavam, com um sentido sóbrio da realidade e da sua proporção. Filho de militar, neto de militar, menino da Luz, cabelo rapado, cabedal a perder de vista, enfim, um currículo que daria com toda a certeza para um qualquer crepúsculo. A sorte (ou terá sido azar? Maldição?) de se cruzar com ele calhou à menina mais prendada de Oeiras, a Aninhas, santinha de aspecto e de feitio. O soberbo bigode do rapaz cruzou-se com os grandes olhos azuis da menina e ele sentiu uma silenciosa tomada de consciência do seu novo estado por esta menina que pensava ser uma queque da Avenida de Roma, enquanto que ela manteve-se frágil e embevecida pelo amor. Um mês depois o adolescente enganou-se na hora de ir levar a sua querida a casa e deu de caras com a família toda reunida. Beijinho nas senhoras, aperto de mão aos homens e no fim…engano…tentativa de beijinho num primo que chegou a colocar a cara à disposição, mas que à última o Peidão identificou como macho, apesar de ter o cabelo a tocar-lhe nos ombros. A apresentação estava feita. Mas voltemos ao início da relação, que começou dentro da Feira Popular onde ambos estudavam. O Peidão apresentou-se com nome próprio, mas no dia em que resolveu levar a namorada ao local onde estavam os amigos teve de se confessar, descobrindo que entre o passado e o presente nada mudara. Assim, uma vez Peidão, sempre Peidão, a família compensava esta nódoa na alma do rapazinho. E fez bem em abrir-se à namorada porque a recepção no café foi acompanhada por um coro monumental de “Peidões". Mas foi a viagem ao Algarve de mota que os levou ao grande e definitivo confronto com o destino.
- Confie em mim, – disse o jovem, firme e hirto como uma barra de ferro, ao futuro sogro. – Andar de mota comigo é seguro, e dá prazer (entre dentes), garanto-lhe que a sua catequista virá inteirinha para casa.
À palavra de filho e neto de generais não havia como recusar, uma jóia destas só aparecia de 100 em 100 anos, era pegar ou largar. E uma semana depois o Peidão foi buscar a Aninhas a casa e descobriu que não tinha lugar na mota para ela, ocupada com sacos, remos, canoa, tenda. Como a rapariga era despachada, trepou para a máquina e lá arranjou um buraquinho. Foram enlatados, mas felizes, era uma luta entre o real e a fantasia! O primeiro incidente ocorreu a meio do caminho quando sentiram um abanão e a Aninhas alertou para a saída de um dos sacos. Havias cuecas de ambos espalhadas pelo asfalto quente do Alentejo profundo, sinal de que no amor tudo era possível. A primeira paragem foi na Zambujeira do Mar e o campismo selvagem contemplou uma tenda com entrada obrigatória de gatas e sem duplo tecto, mas com uma vista magnífica sobre a praia. E ao lado havia a "Fonte dos Amores” de onde brotava um fio de água que enchia constantemente garrafões de “peregrinos”, que se aventuravam a subir uma escadaria que desaparecia lá para os confins da praia. Com a chegada destes dois meninos vindos directamente da Costa do Estoril, o serviço de abastecimento das almas passou também a banhos públicos. Mas como é que se conseguiu tal feito, se o que saia do tubinho era um mísero fio de água que demorava meia hora a encher um garrafão? O Peidão era um rapazito que se adaptava a todas as situações, por isso é que era “de comer e chorar por mais”. Pôs-se de imediato à procura da nascente e deu logo de caras com uma porta selada que se encontrava por cima da bica. Cinco minutos depois estava pendurado a encher um balde e a atirá-lo para cima da sua Santinha, que aproveitou para se ensaboar, ser ensaboada e pôr champô. E os baldes foram tantos e tão rápidos, que da bica já saia uma água completamente turva, sinal de que o interior da “Fonte Santa” estava em convulsão.
- Vem aí alguém, – avisou a jovem ex-catequista indo sentar-se no banquinho do miradouro.
O Peidão fechou a portinhola e juntou-se à namorada, abraçando-a com amor. Ambos estavam carregadinhos de espuma da cabeça aos pés quando o “turista local” chegou. Pôs o garrafão na boca da bica e sentou-se a fumar um mata-ratos, olhando desconfiado para aqueles estranhos “camones” cheios de espuma do mar. Afinal, o quotidiano não era assim tão normal como ele pensava. De tempos a tempos o casal de pombinhos espreitava pelo ombro um do outro e lá viam a água turva a cair lentamente no garrafão. Iria ser toda consumida e de certeza entupir os rins ao velho e mandá-lo ir viver para outra freguesia. Mal o aldeão saiu precipitaram-se para a bica e trataram de finalizar a higiene. Quando saíram do local, de “Fonte Santa” só tinha o nome, porque do tubo não saia nem uma pinga. Abandonaram a região cedo com o fresco da manhã e rumaram em direcção a Aljezur e no dia a seguir a este montaram tenda em Lagos, e depois em Quarteira, e quando iam em direcção a Faro a mota teve um furo no pneu da frente e deitou-se, obrigando os motociclistas a esfregarem as pernas desnudadas e os braços bronzeados no alcatrão de Boliqueime, e tudo isto na presença de um carro da GNR que ia atrás. A Aninhas foi a primeira a pôr-se de pé, e com os braços ensanguentados e metade do biquini conseguiu que ninguém passasse por cima do seu tesouro. A assistência de uma casa próxima foi rápida, saiu de lá uma senhora avantajada que ofereceu guarida a todos, chamou a ambulância e ainda teve tempo para mostrar os arranjos de flores que fazia para funerais, ao mesmo tempo que dava em mão própria um cartãozinho ao Peidão, para futuras necessidades. Mas ele estava mais para lá do que para cá. Foram atendidos por um médico com bronzeado de nascença, raro para a época, que se interrogava com a origem do paciente que roncava desalmadamente numa cadeira por detrás dos feridos que tinham acabado de chegar. O Peidão ainda ouviu a explicação da enfermeira que contou ser um brutamontes que entrara a meio da noite a partir tudo, só parando com uma dose cavalar de um calmante, que já estaria a perder o efeito. O doutor pincelou os miúdos e pô-los na rua num abrir e fechar de olhos, ao mesmo tempo que desaparecia nos confins do hospital. A Santinha foi entregue ao pai uma semana depois….toda partidinha. No dia 11 de Junho de 1988, oito anos após a “Fonte Santa”, um amigo padre declarou-os unidos para sempre!

Saturday, April 17, 2010

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 32 - Tiros para que te quero


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Comandante Guélas
Série Paço de Arcos

Quis o destino que uma soberba espingarda porção-de-ar Diana 38, com mira telescópica, fosse parar às mãos do adolescente mais responsável do alto de Paço de Arcos, que tinha uma alcunha não muito amiga do ambiente, Peidão, ganha a muito custo no Colégio Militar, onde durante alguns anos ostentara o número 191! O primeiro ensaio de tiro foi feito no mirante da casa onde morava o gang dos dez irmãos, tendo como alvo as cortinas do vizinho, que nesse dia esvoaçavam graciosamente ao sabor do vento. Ao aperceber-se que podiam fazer a vez dos pardais, o Milhas agarrou nos manos, a Ínclita Geração, e refugiou-se nos quartos. A resposta não se fez tardar, o amigo desceu à cave para ir buscar a sua carabina e responder à ameaça, não sem antes o Janeca partir o vidro da casa de banho quando tentou assistir ao contra-ataque do mano. Desde esse momento ficaram cientes de que quando o papá chegasse haveria chicotadas psicológicas e físicas para todos. O campeonato de tiro foi ganho pelo Graise, com distinção, depois de ter furado inúmeras vezes as cortinas, que deixaram de esvoaçar porque o ar já passava pelos buracos, e molestado duas vezes o traseiro do Quicas. O Milhas mostrou ser um adversário sem espírito desportivo, uma vez que disparou contra a pobre da Diana 38, numa altura em que o Peidão e o Chico Paulo, dois jovens com tendências missionárias, a abandonaram depois de terem sido emboscados quando tentavam arrebentar com o outro vidro da casa de banho, não fosse o Janeca parti-lo também e aleijar-se. À noite a festa foi outra, e consistiu num assalto à casa do Conan Vargas, o único paçoarcoense que dava “sete seguidas sem ver a luz do Sol (sic), e que estava sozinho em casa com as manas. Mas macho que era macho estava sempre em alerta, não fosse alguma fêmea ousar passar por perto, e desta vez também não foi diferente. Apercebeu-se da invasão e ainda foi a tempo de se trancar por dentro, excepto um dos quartos do rés-do-chão. Conseguiu sentir a respiração dos vinte amigos a arrastar os móveis para o jardim e passou ao contra ataque no momento em que eles se prepararam para trepar ao primeiro andar por uma das varandas. Montou uma emboscada com a sua carabina de ar comprimido e acertou em cheio na barriga do Peidão, que desceu em queda livre, agarrado ao Pilas, tendo ainda tempo o Pontas de evitar o esmagamento. Como o Mac Macléu via mal de noite, e alguns diziam que também de dia, a segunda chumbada apanhou-o de costas e o chumbo foi de encontro ao seu bumbum. Respondeu com um “ai” e com um calhau, que passou a rasar a cabeça do Conan e o vidro. Foi altura de içarem todos a bandeira da paz e irem para os copos. O dia seguinte iria ser de guerra: brincar aos polícias e ladrões na quinta ao lado…à chumbada! Logo de início foram definidas regras, estavam proibidos de atirar às cabeças uns dos outros. Era justo e mostrava que estes rapazes, que provinham das melhores famílias de Paço de Arcos, tinham muito bom senso … até quando brincavam. O Conan Vargas apresentou-se no campo de batalha disposto a vencer, trazendo um coldre com uma soberba pistola e o camuflado do jardineiro, o senhor José, que estava de relações cortadas com a mulher e como tal acampara, com um cadeirão de verga, no terreno ao lado da casa onde morava o Bugio. Para que a luta fosse justa, trouxe para o Graise a espingarda da noite anterior. O Peidão colocara a mira-telescópica na sua Diana 38 para amedrontar os adversários, não deixando assim os pergaminhos de descendente de militares em mãos alheias. Por unanimidade o Zé dos Porquinhos e o irmão foram escolhidos como lebres, para assim os amigos poderem afinar as miras. Ainda protestaram, mas foram sensatos quando se aperceberam que a decisão era irreversível. Correram para os lados das colmeias e o primeiro a disparar foi o guerreiro da pistola, que causou o riso geral quando apertou o gatilho: a bala demorou a sair, fez um percurso em arco, todos a acompanharam até cair no chão e os pardais nem se mexeram. Seguiu-se o Peidão e a sua elegante mira, que espreitava para um lado e acertava no outro, ou seja, tirou o talho ao João e acertou no cu do Zé, que foi aos berros para casa, não a dizer “ó mãe dá-me uma carcaça que eu estou cheio de traça”, porque essa frase era exclusiva do mano, mas sim, “os meus amigos estão a dar-me tiros”. Estranhas brincadeiras! Quanto ao bacamarte do Graise, disparou várias vezes, mas o chumbo recusou-se sempre a sair, optando por ficar a dormir a meio do cano. Só ao fim de algum tempo, e após várias insistências, lá caiu aos pés do inconsequente adolescente. A inocente brincadeira foi bruscamente interrompida com a aproximação da dona Rosa, mãe das lebres, que vinha pedir explicações com uma enxada nas mãos.

Monday, April 05, 2010

O Comandante Guélas - Série Paço de Arcos 31 - Jomarte


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 Comandante Guélas
Série Paço de Arcos

Ainda o século XXI era uma miragem e já Paço de Arcos possuía um espaço comercial equivalente ao actual Shoopping de Oeiras: a Jomarte! Aqui se realizavam os sonhos de todas as idades, as montras eram um hino ao bom-gosto e ao profissionalismo, puro e duro. E tudo isto se devia a um visionário único no mundo, o elegante Bigornas, proprietário desta oitava maravilha, que combinava fotografia, biblioteca e ferro-velho. A vitrina principal ostentava para a rua o maior cabeçudo da região, o auto-proclamado Rudolfo Valentino da Tapada do Mocho. Tinha ido expressamente falar com o responsável pela galeria pedindo-lhe, de joelhos, que expusesse a sua sensual cara, avaliação exclusiva do próprio, para que as miúdas nunca mais esquecessem tão vil e formoso focinho. Ficou então ao lado das fotos do casamento do Craveiro Lopes e da Quitéria Barbuda, uma iniciativa do Centro Paroquial de Paço de Arcos, que representou para a noiva a possibilidade de passar um dia da sua vida sem levar nos cornos, situação que se ia alterando no final da boda quando o Craveiro pegou numa cadeira para tentar arrear na dama. Assim, o cabeçudo estava bem acompanhado, até dava a impressão de ser o rebento do casal mais famoso da vila. Quando o cliente entrava na loja deparava de imediato com o motor do “peidociclo” do mano Zé e com um vasto balcão, semeado de fotografias de passe de metade de Paço de Arcos, todas a preto e branco. E a loja era tão original, que o cliente poderia ter de ficar o dia todo à espera para ser atendido, arriscando-se a maior parte das vezes a ter de voltar no dia seguinte, caso o senhor Bigornas tivesse iniciado, na divisão dos fundos, de acesso reservado ao Gang, a leitura de um novo livro de quadradinhos. E geralmente era isto que acontecia! Para lá do balcão a gruta abria-se numa vasta galeria, a sala das fotos, com palco e cortinas de espectáculo, onde o patrão limpava as mãos após uma mudança de óleo. Nestas ocasiões o senhor Bigornas colocava-se atrás de uma caixa com um trapo, punha a mão numa determinada posição, dava ordem para olharem para ela, e mal os olhos se fixavam no sensual dedo gordo com óleo (de 20.000Km), “zás”, saia um relâmpago que punha toda a gente como o OMO, incluindo o único não caucasiano da zona, o Zé Preto. E pronto, uma semana depois era só ir levantar a obra de arte, constituída pelas fotos e uma saqueta de plástico que ostentava o nome “Jomarte” e um desenho estilizado que representava o artista em pose de trabalho, atrás de um objecto. Nunca se soube, no entanto, se era uma mota ou uma máquina fotográfica. Após recolher o produto o cliente ia sempre para a estação de Paço de Arcos renovar o passe. Já no fim da vida da loja, com os clientes a dar a volta à praceta, o Bigornas resolveu comprar a máquina de fotocópias mais moderna da Península Ibérica, começando de imediato a dar desconto aos estudantes. Mas foi sol de pouca dura. Ao fim de uma resma de papel estava de rastos e cheio de saudades dos seus “Major Alvega”.